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RESPOSTA POÉTICA
Foto: Sol negro, de A. Café-Gallo.
SE EMILY DICKINSON VIVESSE AQUI
Sou sem talento sim.
Mas vivo
E deixo viver
Cães e gatos.
Compro eu mesmo
Meus sapatos
E aos livros que leio
Nem guardo.
Diferente de você,
Que os lê
Para se exibir.
Não. Para coibir.
MAYRANT GALLO. Do inédito Os prazeres e os crimes.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:19
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ASCENSÃO E QUEDA

A ascensão.

A queda.
Movimentos naturais do Universo em todas as coisas:
OUTONO
As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, nos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
E a Terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
Caímos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
RAINER MARIA RILKE (1875-1926).
Poeta tcheco de expressão alemã. Poema extraído de Alguns poemas e Cartas a um jovem poeta (Rio de Janeiro: Ediouro, 1997), em tradução de Geir Campos.
Mais Rilke aqui em: 06/03/2006, 08/02/2006 e 07/10/2007.
Escrito por Mayrant Gallo às 12:01
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VAIDADE

Rua Rockfeller, Barris, Salvador, BA, hoje, por volta das 10 horas, depois que levaram a árvore embora...
Atrás desta barraca aí no centro da foto, perto dos orelhões azuis, havia uma árvore, que um tirano de minha rua, o senhor Luís Antunes Nery, mandou cortar, alegando que estava podre, o que a Prefeitura de Salvador fez hoje de manhã, sem que nenhum morador pudesse protestar... Nada de surpreendente, porém, afinal o Homem é a única espécie que mata as outras espécies, e a sua própria, por vaidade.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:42
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DAS DERROTAS

O problema é que o Brasil é o melhor num esporte em que não há melhores. Apenas vencedores circunstanciais.
Foto (Globo.com): Cristiane, depois de EUA 1 X 0 Brasil. Medalha de prata com travo de ferro.
Escrito por Mayrant Gallo às 14:38
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SOLARIANOS FALAM

Guerra dos mundos, de S. Spielberg, a segunda versão para o cinema do romance de H. G. Wells.
"Não há diferença entre realidade, imaginação e sonho. Para o cérebro humano é tudo a mesma coisa. Por isso, não separo minha literatura em rótulos. O que realmente importa é buscar a perfeição, seja na FC, na literatura fantástica, ou na literatura a-vida-como-ela-é. Vivemos um momento especial da literatura nacional, mas instável. Muita publicação, pouca leitura. Muita festa, pouca reflexão. Chega de bossa-nova, a literatura quer delírio! No livro O lobo da estepe', do escritor Hermann Hesse, há um letreiro que chama a atenção do protagonista: SÓ PARA OS RAROS; como também o subtítulo do folheto O tratado do Lobo da Estepe: SÓ PARA LOUCOS. Portal Solaris é isso, uma revista só para os raros... só para loucos. Homero Gomes
"Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas." Ivan Hegenberg
"Entrei neste mundo viajando pelo espaço sideral, já que, como muitos garotos de minha geração, crescendo nos anos 60 e 70, era de foguetes e espaçonaves que era feita minha imaginação. Com os pés no chão literário, porém, descobri outras possibilidades. Estudei "creative writing", fiz workshop na terra dos romances feitos com receita, escrevi dois deles em inglês, cansei. Hoje a originalidade do meu texto vem desta influência toda, sem dúvida alienígena." Ataíde Tartari
"Na minha opinião, salvo raríssimas exceções a linha principal da nossa literatura não conseguiu apresentar nada de novo, nada de vivo, nos últimos dez anos. Livro após livro as mesmas formas e os mesmos conteúdos têm sido revisitados monotonamente por centenas, milhares de estreantes e veteranos. Acredito que a mistura de gêneros e linguagens é a melhor maneira de melhorar essa situação. A ficção científica, gênero riquíssimo em novos assuntos e instigantes desafios da linguagem, precisa ser descoberta pela linha principal da literatura brasileira. E vice-versa. Penso que o Projeto Portal tem tudo pra ser um passo seguro nessa direção." Luiz Bras
"Muito me encanta aquela literatura inventiva, criativa, poética, que transcende a mera descrição, narração ou exacerbação realista. No entanto, em pauta hoje, no Brasil, estão uma literatura ultra-estilista ou ultra-realista, que se volta ora para si mesma ora para a realidade sobretudo urbana, em sua pretensão ingênua de descrevê-la, entendê-la ou explicá-la. Sendo assim, Portal Solaris, uma vez que se propõe a ser uma revista de Literatura Fantástica e Ficção Científica, é de suma importância para conhecer o que vem sendo feito de diferente e criativo na literatura brasileira contemporânea." Rogers Silva

Vampiros de almas, de Don Siegel, baseado no alegórico The invasion of the body snatches, romance de Jack Finney. Paranóia em plena Guerra Fria.
"O que me parece que vai resultar de mais fundamental nesse ajuntamento de autores de uma mesma tendência estético-literária num projeto editorial comum é a criação de um novo continente literário no Brasil, Afinal, por não se demonstrar unificado, esse continente ainda não "existia", não ressoava seus contornos, conteúdos abissais, não se auto-gerara, permanecia fragmentado, composto de ilhas loucas sem pontes ou navegações entre elas. Desconectados, seus habitantes, individualizados demais, vivíamos nas ilhas escrevendo sozinhos como náufragos e nem tínhamos garrafas estelares como este Portal Solaris para enviar mensagens pelo mar. Agora, com essa iniciativa do Nelson de Oliveira, podemos até pensar em um manifesto, em uma carta de princípios, alguma coisa que desse fundamento, colagem semântica a esse, de fato, notável acontecimento literário. Acho que, sem querer, pela força demasiada da inércia em que vivíamos, o pêndulo agora oscilou no sentido do movimento, da ação. Nós, os patinhos feios da literatura brasileira, escritores criadores de todo esse lado da fantasia, do numinoso, da ficção de antevisão, das novas visões e dimensões, dos temas quase impossíveis, da ficção do imagináriio, da ficção científica e também da ficção estética (uma variante da ficção científica que penso ter inventado em 1988), somos uma alternativa ilimitada ao neo-naturalismo limitado que se apoderou da realidade, que grasna e prolifera totalitário-midiático." Carlos Emílio C. Lima

Sinais, roteiro e direção de M. Night Shyamalan. Fé, Deus e ETs.
"Sou um aficionado do conto fantástico, que já fez parcerias geniais com a ficção científica. É o caso do meu autor preferido no gênero, Ray Bradbury, autor de um livro extraordinário: Os frutos dourados do sol. Bradbury vai muito além de meros recursos imaginativos associados a um conhecimento científico. O fantástico, nele, é potencializado pela linguagem poética, pelo domínio da linguagem expressiva. É, portanto, literatura de alta qualidade. E é justamente isto que sinto falta na maior parte da Science Fiction: textos que nasçam de um impulso profundo, como todas as grandes obras artísticas, e não frutos de uma mera engenhosidade. Daí o entusiasmo com o qual recebi a proposta de Nelson de Oliveira de criação dessa revista que tem como proposta justamente isto: unir os recursos da ficção científica com a alta literatura, buscando uma renovação do gênero entre nós." Carlos Ribeiro
"Mais do que entretenimento, sience fiction é reflexão. Permite que, através de um simples deslocamento, possamos refletir sobre o nosso meio e o nosso tempo, exarcebando idéias, sentimentos, sonhos, utopias, medos. Se uma fatia dos leitores, os falsos-realistas, se incomoda é porque é difícil conviver com a ausência de máscaras. A idéia de fim de mundo (uma fixação da ficção científica), por exemplo, não seria ao mesmo tempo pesadelo e alerta? Logo, a FC tem um duplo alcance: nos permite sonhar e nos faz amargar o que somos, seres irresponsáveis." Mayrant Gallo
Revista PORTAL SOLARIS, lançamento em 23 de agosto próximo, às 10 horas, na LDM, Rua Direita da Piedade, 20, Piedade, Salvador, BA. Só 20 exemplares! (71) 2101-8000 (reserva de exemplar).

Cartaz da primeira versão para o cinema de Solaris, o famoso romance do polonês Stanislaw Lem, sob a batuta do russo Andrei Tarkóvski, em 1972.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:44
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COMUNISMO

O que os chineses fizeram com a vara de Fabiana Murer? Ora, cortaram em roletinhos e dividiram entre eles. Tudo pelo coletivo. Bem ao gosto do Comunismo.
Foto: Globo.com.
Escrito por Mayrant Gallo às 21:21
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PORTAL SOLARIS

L A N Ç A M E N T O
23 DE AGOSTO DE 2008
SÁBADO, 10 HORAS
PORTAL SOLARIS
Revista de ficção científica organizada por Nelson de Oliveira.
Reúne 10 contistas brasileiros cultores do gênero, entre os quais Carlos Ribeiro e Mayrant Gallo, que autografarão os únicos 20 exemplares disponíveis e falarão sobre a science fiction e suas experiências pessoais como leitores e escritores.
LDM, LIVRARIA MULTICAMPI
Rua Direita da Piedade, 20, Piedade, Salvador, BA
(71) 2101-8000 (reserva de exemplar)
Escrito por Mayrant Gallo às 18:52
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LIVRA-NOS DOS LOBOS
Pixotes, de Arno.
CANTO DOS PASTORES
Pai nosso que estás nos céus,
guarda o teu rebanho para que permaneça inteiro e teu.
Seja salva a tua propriedade
como no céu e assim na terra.
Dá-nos hoje os pastos de amanhã,
traz de volta a extraviada e a ti a ofereceremos
e não permitas as emboscadas
mas livra-nos dos lobos, amém.
ERRI DE LUCA (1950). Escritor italiano. Foi caminhoneiro e mora em Roma, embora tenha nascido em Nápoles. No Brasil, foram publicados apenas dois livros seus: Em nome da mãe (Cia. das Letras, 2007), do qual extraímos o poema acima, e Três cavalos (Berlendis & Vertechia, 2006). A tradução é de Rosa Freire d'Aguiar.
Escrito por Mayrant Gallo às 08:38
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3 POEMAS DE STEFAN GEORGE
Appuntamento a Bahia, HQ de Hugo Pratt.
Sou o Único e sou Dual
Sou o ventre e sou a semente
Sou bainha e sou punhal
Sou a dor e sou o doente
Sou o horizonte e sou o olhar
Sou lança e sou o lançador
Sou o fiel e sou o altar
Sou o fogo e sou o calor
Sou miserável e abastado
Sou o símbolo e sou o indício
Sou sombra e sou iluminado
Sou um fim e sou um início.
A PALAVRA
Maravilha remota ou sonho
Para minha terra disponho
E aguardo até que a velha norna
Leia o nome na fonte morna –
Posso em mãos reter com firmeza
Esta flor de rara beleza...
Guardada com muito cuidado
Como tesouro delicado
Solene é o seu veredito:
›Nada dormita no infinito‹
Escapando de minha mão
E deixando meu pátrio chão...
Assim triste concebo a lavra:
Nada existe sem a palavra.
PRAIAS DO SUL: ENSEADAS
Há muito percorro estas mesmas costas "
De lindas cidades como um colar "
Aqui e ali mesas nupciais postas...
Sou estranho a perambular.
Detenho-me sempre nas mesmas pontes "
Sem sabedoria – só amargura "
Seduzido pelas antigas fontes
Portais circulo na loucura.
Enquanto nos salões dançam casais
Cobertos de ricas jóias e flores:
Sigo a gente mais humilde no cais ..
Tais são na solidão as dores.
STEFAN GEORGE (1868-1933). Poeta simbolista alemão. Alia a um bucolismo ingênito, com referências a cores e formas geográficas, experimentações sintáticas e de pontuação, como as que percebemos nos poemas acima, extraídos de Crepúsculo (São Paulo: Iluminuras, 2000), com tradução de Eduardo de Campos Valadares.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:58
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QUASE UM POEMA
A atriz Jean Seberg, fim pelo suicídio.
Haec est corpus. Este é o corpo.
Jennifer, sua altura era um metro e setenta e cinco, seu peso sessenta e cinco quilos.
Seu estômago continha uma refeição plenamente digerida de ovos mexidos, salmão e pão, e outra refeição parcialmente digerida, de lasanha.
A palidez só estava onde deveria ter estado. Ninguém moveu seu corpo, ninguém a arrumou.
Contragolpe. Em sua mão e braço direitos foram encontradas partículas microscópicas de sangue e tecido. Chamamos isso de contragolpe.
Além disso, sua mão tinha sofrido espasmo cadavérico. Ou rigor mortis espontâneo e temporário. A curva do gatilho e o desenho da coronha ficaram impressos em sua carne. Foi de tanto que você apertou.
Jennifer, você se matou.
Acabou.
Trecho do romance Trem noturno (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), do britânico MARTIN AMIS, nascido em 1949. De estilo límpido, preciso e poético, é um herdeiro à altura de nomes como George Orwell, Graham Greene, Muriel Spark, Elizabeth Taylor e Barbara Pym.
Escrito por Mayrant Gallo às 08:33
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MINICONTO DE PHILIP K. DICK

Blade runner, de Ridley Scott.
A HISTÓRIA QUE ACABA COM TODAS AS HISTÓRIAS, PARA A ANTOLOGIA DANGEROUS VISIONS, DE HARLAN ELLISON
Num mundo destruído por uma guerra nuclear, uma jovem casadoura visita um zoológico futurista e faz amor nas jaulas com várias formas de vida deformadas e não-humanas. Nesta história particular, uma mulher que foi remendada com os corpos defeituosos de várias mulheres tem relações sexuais numa jaula com uma alienígena. Mais tarde, a mulher, com recursos da ciência do futuro, concebe um filho. A criança nasce, e a fêmea da jaula luta pela criança, para decidir quem fica com ela. A jovem humana vence e, imediatamente, devora a criança, cabelos, dentes, dedos dos pés, e tudo mais. Pouco depois de terminar o horrendo banquete, descobre que o filho é Deus.
PHILIP K. DICK (1928-1982) é um dos pilares da science fiction moderna, por sua capacidade de criar a um só tempo mundos estranhos e completamente verossímeis. Sua obra mais difundida é O caçador de andróides, cujo título em inglês é Do androids dream of electric sheep? (Andróides sonham com ovelhas elétricas?) e que inspirou em 1982 o filme Blade runner, de Ridley Scott, hoje um clássico do gênero. Miniconto extraído do volume de contos Monority report, a nova lei (Rio de Janeiro: Record, 2002).
Escrito por Mayrant Gallo às 09:42
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MAIO DE MAIGRET

"Era um glorioso mês de maio, desses que a gente vê apenas duas ou três vezes na vida e que tem o esplendor, o sabor e o perfume de lembranças da infância. Maigret chamou-lhe um maio "coral". Lembrava-lhe, ao mesmo tempo, sua primeira comunhão e sua primeira primavera em Paris, quando tudo parecia novo e maravilhoso.
Na rua, no ônibus, no escritório, acontecia-lhe parar de repente, tocado por um som distante, um sopro de ar tépido, a cor viva de uma blusa de mulher que o levavam de volta à magia perdida de vinte ou trinta anos atrás.
Ainda na véspera, ao saírem para jantar com os Pardon, a sra. Maigret lhe perguntara, enrubescendo confusa:
– Não fico ridícula na minha idade com um vestido assim, estampado de flores?"
Os primeiros parágrafos de Morte na alta sociedade (L&PM-Nova Fronteira, 2004), de GEORGES SIMENON (1903-1989). Relato policial? Sim, mas com estilo, com arte. Não é à toa que Simenon era cultuado por tantos escritores, como Clarice Lispector, François Mauriac, André Gide, Henry Miller e Dashiel Hammett. Sobre ele disse Otto Maria Carpeaux: "Simenon nunca se repete. A força de sua imaginação é prodigiosa. Constrói os romances com segurança magistral". A tradução é de Raul de Sá Barbosa.
Foto: Natalie Portman, em My blueberry nights, de Wong Kar Wai.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:51
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O DILEMA

Cena de 2046, de Wong Kar Wai.
"Quando ele era moço, pensara que o amor tinha algo a ver com compreensão, mas com a idade veio a saber que nenhum ser humano pode compreender o outro. O amor era a vontade de compreender, e, dentro em pouco, graças ao constante malogro, o desejo morria e o amor morria também talvez, ou se transformava nesse afeto penoso, em lealdade, em piedade..."
É de GRAHAM GREENE, em O coração da matéria (Rio de Janeiro: Record, 1966), também traduzido por O cerne da questão. Na trama, Scobie, que ama duas mulheres, vai optar por não trair a nenhuma das duas... A tradução é de Oscar Mendes.
Escrito por Mayrant Gallo às 22:25
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4 POEMAS DE ROBERVAL PEREYR
Os pássaros, de Alfred Hitchcock.
QUARTO APRENDIZADO
Para nada vivo.
Sou apenas mais um, e se não fosse
nenhum seria
o prejuízo.
Nasci por mero acaso
e não me explico. E
por mero acaso
aceito satisfeito a tudo isso.
AO AEDO SEM LIRA
Descemos – fatais – a grande rampa,
há sinais de borrasca
nos pés
e o sol afunda num terno de chumbo.
Enquanto isso Deus desfaz o mundo
no fundo dos olhos da moça morta.
SONDAGEM
As soluções? Não há.
Mas a vida prossegue, eterna.
Por isso há plantas e bichos
e o homem no mundo. E a terra.
Ou então não é nada disso
e não faz sentido algum
esta dor de dente. E essa festa.
SOB AS MONTANHAS
As memórias – ei-las: é o que somos.
Pois o que buscamos é a perfeita forma
de um passado torto:
porque, ontem, fomos tristemente
outros – rudes
aprendizes do que nunca fomos.
ROBERVAL PEREYR (1953). Poeta brasileiro, dos mais importantes da atualidade, por sua poesia de forma apurada, modernidade evidente e assunto de natureza psicológica e metafísica. Toda a sua produção lírica até 2004 foi reunida no volume Amálgama (Salvador: SCT/Funceb, 2004). "A poesia de Roberval Pereyr é densa e delicada, com seu pathos musical inconfundível", sentenciou Marco Lucchesi.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:41
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SÓ UM POEMA...

Blue velvet, de David Lynch.
ELEGIA
Não, não veria o ano de 2020.
O dia 2 do mês 2 de 2020.
A celebração dos pares.
Não veria os grandes aviões, as grandes viagens, a invasão
[dos planetas por nós.
Não veria a morte dos oito grandes países
Nem a súplica por novos heróis.
Não veria outros poemas, não os leria jamais.
E os antigos seriam – se assim fosse – uma pálida lembrança.
Então escreveu:
Cada um de nós está por um triz nos dias,
E a cada manhã descontamos a dívida.
Passa uma mulher, e ela está morta.
Passa um homem, e ele já adoeceu.
Na cama ou na rua matamo-nos...
– O próximo! – gritam do guichê.
E é às pressas – e sós – que estendemos as mãos. MAYRANT GALLO. De um livro menos do que inédito...
Escrito por Mayrant Gallo às 08:55
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O CAMINHO

"Procure ser um homem de valor, em vez de ser um homem de sucesso."
É do versátil ALBERT EINSTEIN, que também afirmou, ainda criança, que o homem só possui um único inimigo: o governo. De acordo.
Escrito por Mayrant Gallo às 22:55
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A QUANTA-LITERATURA

Eu, robô, de Alex Proyas.
"(...) aos poucos, mais e mais literatos e artistas começaram a concordar que, quanto menos ohs tinha uma obra, mais facilmente ela seria vendida e assimilada. E os médicos-psiquiatras, que substituíram os críticos de Sigma 3, confirmaram que (como demonstraram numerosas experiências) do ponto de vista médico era melhor para o organismo não assimilar energia enocional de uma vez só; mas em pequenas porções-quanta. E as obras de baixo oh-padrão satisfaziam inteiramente a estas necessidades.
Assim, em Sigma 3 surgiu a quanta-literatura. Os literatos esforçavam-se em escrever pior, mas em grande quantidade.
A criação de obras densas começou a ser considerada sinal de fraqueza literária e indiferença à saúde dos leitores.
E os que insistiam em não querer aprender a escrever mal, simplesmente paravam de ser lidos. Quem gostaria de minar a própria saúde?
Quase ao mesmo tempo em que aparecia a quanta-literatura, surgiram a quanta-música e a quanta-pintura.
E ninguém se preocupava com o destino da civilização de Sigma 3. Por que se preocupar, se a ciência e a técnica faziam enormes progressos? Parecia que nada lhes era impossível."
Trecho do conto Atenção – Ohs!, do russo VLADLEN BAKHNOV, enfeixado em seu livro Os robniks (São Paulo: Símbolo, 1977). A tradução é de Victor E. Selin.
Escrito por Mayrant Gallo às 17:14
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CIDADES

"Podem publicar estatísticas e contar as populações em centenas de milhares, mas, para cada homem, uma cidade consiste de nada mais que algumas ruas, algumas casas, algumas pessoas. Remova-se isso, e uma cidade já não existe, exceto como uma dolorosa lembrança, como a dor de uma perna amputada que já não está mais lá."
É do escritor inglês GRAHAM GREENE (1904-1991), no romance Nosso homem em Havana, história de um agente secreto que inventa, em termos de ficção e fantasia, suas missões e rede de contatos, que, aos poucos, para o seu assombro, tornam-se realidade.
Foto: a Havana atual, por Nigel Atherton.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:48
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AGENTES LITERÁRIOS
Cena de Agentes secretos, de Frédéric Schoendoerffer.
Você é escritor profissional e procura uma editora ou um agente literário? Veja o que os agentes literários costumam responder a uma consulta de um autor. Tire suas próprias conclusões e diga se Kafka não está certo: "Há muita esperança, só não para nós". Sem falar que os agentes literários, de tão escusos, mais parecem agentes secretos. Os mandamentos deles:
1) Escritor brasileiro não vende...
2) Ninguém mais lê romance... Os editores não querem romances.
3) Poesia e conto, nem pensar!
4) Já agencio escritores demais!
5) Quando fechamos contrato com uma editora para publicar autor brasileiro, não tem nenhum adiantamento... Sendo assim...
6) Não, literatura não!
7) Mande seu livro. Cobro 400 reais para ler, mas não garanto nada...
8) Quem determina a qualidade do seu livro é o mercado...
9) Você tem algum livro infantil ou infanto-juvenil? E auto-ajuda, não tem nada aí, não? Se tiver, podemos conversar.
10) Os editores preferem traduções.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:13
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PREGO

Pixotes (Kids), HQ do francês Arno.
Era um rapaz infeliz. Antes fora uma criança inquieta e um garoto astuto. Agora só possuía uma diversão...
"Ma-teus!!"
Ele corre, chega diante da mesa do chefe, pára e espera. O velho, de costas, mexe no cofre. Virando-se, diz: "Desça ao Comércio e deposite estes cheques. Mas vá correndo, faltam só quinze minutos para o banco fechar!"
Ele corre, na rua agora. Deixa o Santo Antônio, passa pelo Carmo, desce o Taboão, uma ladeira suja e que mais parece um cotovelo, quando corta para o Comércio. É inevitável que pense em Quincas Berro d’Água, que ficou ali num daqueles casarões, morto, a receber visitas. Um dos poucos romances que leu, ainda na escola. Mas leu e releu, e até comprou um exemplar, que volta e meia empresta a alguém, a um amigo ou uma namorada, com entusiasmo, prestando-se a fazer elogios, atitude incomum à sua personalidade. Certa vez, um amigo demorou a lhe devolver o livro, e Mateus, cansado de esperar, foi à casa do sujeito buscá-lo. Duas vezes, ambas em vão, pois o outro dizia que não o conseguia achar. Na terceira, invadiu a casa e pegou o sujeito pela gola. O livro logo apareceu, nas mãos de uma garota, que viera do quarto gritando que não fizesse nada com o seu namorado. Mateus arrebatou o livro de suas mãos e se foi. Nunca mais quis rever o sujeito. Se o avistava na rua, mudava de calçada. E por um tempo até pensou em lhe dar uma coça. Chamar dois ou três colegas e, em troca de uma tarde de sábado regada a cerveja, deixar o patife em pedaços. Mas afinal esqueceu, como se esquecem vozes, fisionomias, fatos.
O banco está cheio, e só às 16:30 Mateus é atendido. À saída do banco, resolve perambular um pouco, em troca do esforço, da corrida. O chefe que se dane! Pela ninharia que lhe paga, faz até demais.
Toma sorvete olhando a vitrine de uma papelaria. Não entende aquele seu fascínio por canetas, lápis, cadernos, blocos de anotações, resmas de papel, réguas, fitas adesivas, agendas, grampeadores, catálogos. Quando uma das vendedoras sai da loja e se aproxima, ele vai embora, em direção ao Plano Inclinado. A moça o observa, intrigada.
De volta ao Santo Antônio, entrega os comprovantes bancários ao chefe e desaba numa das cadeiras do saguão. Forja um cansaço que não sente. Nem mesmo está suado. Ainda assim se abana com um classificador, apanhado de sobre a mesa da secretária, e suspira, suspira, com afetação. Mal pode esperar o fim do expediente, quer ir embora antes e, para obter tal regalia junto ao chefe, alega que tem prova aquela noite e que precisa chegar cedo à faculdade, para estudar um pouco, não se debruçar sobre as questões no zero.
A mãe o estranha cedo em casa, numa sexta-feira... Dia em que ele quase sempre chega em casa por volta de duas da manhã... E não raro acompanhado de alguma garota, que antes das seis já partiu, sem dar chance à sua mãe de conhecê-la. Ele não responde à ironia materna e, no quarto que divide com o irmão, desaba sobre a cama e logo adormece, profundamente. Acorda à hora em que a mãe, depois de tomar seus remédios, faz suas orações e se recolhe, apaga-se para o mundo. Charles não está, só chegará no domingo pela manhã, depois de mais uma jornada de três dias seguidos de suor nas furnas, que é como Mateus chama o trabalho do irmão, em Camaçari.
Esta noite vai ter a sua diversão, a única... Toma banho, se veste, se perfuma, separa algum dinheiro, pois quer passar antes no shopping, que fica aberto até as 23 horas, e comer qualquer coisa. A mãe ainda está acordada ou então adormeceu com o abajur aceso. Parado à porta do quarto, ele apenas a contempla por um instante e sai. Com a mão no bolso, acaricia o prego, sua única diversão... Segue pensando em Alila. Que nome! Judeu? Ela dizia que sim, e que o pai o roubara de um filme. Ela lhe deu o fora. Matou com ele, como se diz hoje em dia, em gíria mais ousada e impiedosa. Se não fosse isso, estaria com ela. Claro que estaria. Como sempre quis, com qualquer uma, a pior garota. Sente-se bem com elas. Mas elas não se sentem bem com ele. Duro.
Na rua, pesca do bolso uma caderneta e consulta as páginas. Examina seus locais de ação anteriores, os dois últimos principalmente, e escolhe um bem longe, fora de um possível arco da polícia. Mal contém o êxtase. Tem que se controlar para não correr, sair como um louco, a desviar dos vultos naquela noite escura. Dias atrás, na Contorno, havia lua, e seu ato ganhara um brilho quase divino, uma aura de coisa magnânima, irreal.
Como da última vez agiu nos arredores da Fonte Nova, quando de um jogo da série B do campeonato nacional, segue para o Garcia. No TCA estão levando uma peça de Nelson Rodrigues, em nova montagem depravada que ele não aprova. Mas, assim, o público é melhor, maciço, de elevado nível. Mulheres com seus longos inúteis, homens com suas gravatas pomposas. Talvez o governador com a primeira dama. Meia dúzia de artistas do meio, azedos de inveja.
Quando passa em frente ao teatro, a multidão ainda não entrou de todo. Muitos regateiam, às claras, com os cambistas. Outros apenas tagarelam, em grupos, à espera do derradeiro toque da campainha. Sem pressa, Mateus atravessa a rua e pára diante da banca de revistas. Lê as manchetes dos jornais: as mesmas de ontem e de amanhã... Folheia uma revista de esportes e acaba comprando um livro de bolso, cujo título é Sexta-feira negra, só por causa da coincidência...
Entra na Leovegildo Filgueiras decidido a se exceder. Passa o ponto de ônibus e o portão lateral do teatro, a mão direita roçando o prego. Mais adiante, cruza com dois guardadores de carros, que, sócios e rivais, discutem quem guardou mais veículos... As árvores não tardam, e é naquele ponto, mais escuro e frio, que Mateus vai agir...
Enfim, o primeiro tronco, a mão a deixar o bolso, pronta... O prego vai arranhando, disfarçadamente, as laterais dos carros, um por um, com um ruído bom, excitante, arrebatador, e que o caos em volta não permite a ninguém ouvir, só ele.
MAYRANT GALLO. Conto publicado originalmente na Verbo 21, infelizmente com erros de diagramação e sem menção ao autor.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:55
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