C O N T R A M Ã O


3 POEMAS DE STEFAN GEORGE

Appuntamento a Bahia, HQ de Hugo Pratt.  
 
Sou o Único e sou Dual
Sou o ventre e sou a semente
Sou bainha e sou punhal
Sou a dor e sou o doente
Sou o horizonte e sou o olhar
Sou lança e sou o lançador
Sou o fiel e sou o altar
Sou o fogo e sou o calor
Sou miserável e abastado
Sou o símbolo e sou o indício
Sou sombra e sou iluminado
Sou um fim e sou um início.
 
 
A PALAVRA
 
Maravilha remota ou sonho
Para minha terra disponho
 
E aguardo até que a velha norna
Leia o nome na fonte morna –
 
Posso em mãos reter com firmeza
Esta flor de rara beleza...
 
Guardada com muito cuidado
Como tesouro delicado
 
Solene é o seu veredito:
›Nada dormita no infinito‹
 
Escapando de minha mão
E deixando meu pátrio chão...
 
Assim triste concebo a lavra:
Nada existe sem a palavra.
 
 
PRAIAS DO SUL: ENSEADAS
 
Há muito percorro estas mesmas costas "
De lindas cidades como um colar "
Aqui e ali mesas nupciais postas...
Sou estranho a perambular.
 
Detenho-me sempre nas mesmas pontes "
Sem sabedoria – só amargura "
Seduzido pelas antigas fontes
Portais circulo na loucura.
 
Enquanto nos salões dançam casais
Cobertos de ricas jóias e flores:
Sigo a gente mais humilde no cais ..
Tais são na solidão as dores.
 
STEFAN GEORGE (1868-1933). Poeta simbolista alemão. Alia a um bucolismo ingênito, com referências a cores e formas geográficas, experimentações sintáticas e de pontuação, como as que percebemos nos poemas acima, extraídos de Crepúsculo (São Paulo: Iluminuras, 2000), com tradução de Eduardo de Campos Valadares.


Escrito por Mayrant Gallo às 09:58
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QUASE UM POEMA

A atriz Jean Seberg, fim pelo suicídio. 
 
     Haec est corpus. Este é o corpo.
     Jennifer, sua altura era um metro e setenta e cinco, seu peso sessenta e cinco quilos.
     Seu estômago continha uma refeição plenamente digerida de ovos mexidos, salmão e pão, e outra refeição parcialmente digerida, de lasanha.
     A palidez só estava onde deveria ter estado. Ninguém moveu seu corpo, ninguém a arrumou.
     Contragolpe. Em sua mão e braço direitos foram encontradas partículas microscópicas de sangue e tecido. Chamamos isso de contragolpe.
     Além disso, sua mão tinha sofrido espasmo cadavérico. Ou rigor mortis espontâneo e temporário. A curva do gatilho e o desenho da coronha ficaram impressos em sua carne. Foi de tanto que você apertou.
     Jennifer, você se matou.
     Acabou.
 
Trecho do romance Trem noturno (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), do britânico MARTIN AMIS, nascido em 1949. De estilo límpido, preciso e poético, é um herdeiro à altura de nomes como George Orwell, Graham Greene, Muriel Spark, Elizabeth Taylor e Barbara Pym.


Escrito por Mayrant Gallo às 08:33
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