C O N T R A M Ã O


O CONHECIMENTO DO MUNDO

A primeira noite de um homem, de Mike Nichols.

No princípio, eram nossos pais, nos obrigando a dizer "papá’, "mamã" e outras bobagens. Como estávamos presos ao berço, não podíamos nos rebelar e fomos nominando as coisas segundo a vontade dos outros. Ao crescer, descobrimos que morreríamos de fome se chegássemos num restaurante ou lanchonete e pedíssemos:

S Uma papinha, por favor!

Depois vêm os irmãos. E só há dois tipos de irmãos: os mais velhos e os mais jovens. Os mais velhos mandam e os mais jovens obedecem. Conheci um sujeito que quando o irmão mais velho perdeu as pernas num acidente de automóvel ele afinal se vingou. O inválido lhe pedia alguma coisa, e ele respondia "Vá você!", saindo do quarto. Com um outro aconteceu o contrário. Era o mais jovem e quando se viu com as pernas amputadas disparou contra o irmão mais velho todo o seu rancor, fazendo-o andar muito, e todo o tempo, para realizar seus desejos, mais excêntricos que os das mulheres grávidas.

Ao conhecimento dos irmãos se segue o dos parentes mais próximos. Isto é: avós, tios e primos. Os avós obviamente não são mais jovens e projetam nos netos seus gostos horríveis, aos quais reservam uma nostalgia insana. Metaforicamente, a avó quer que a neta use espartilho, e o avô que o neto não esqueça nunca, ao visitá-lo, a bengala e a cartola. Os tios são uma mistura de pais e vizinhos. Nem tão estranhos quanto estes, nem tão íntimos quanto aqueles. Logo, que fazer? E há a agravante de não conhecerem a fundo o cinema de Alfred Hichcock, nem suspeitarem da existência do escritor tcheco Bohumil Hrabal. O melhor a fazer é lhes servir um café, ligar a tevê e ficar rindo das piadas mudas de Mister Bean. Quanto aos primos, são seres espinhosos. Os meus, pelo menos, são. Nunca me aproximei de um que fosse sem me ferir. A verdade é que, "sendo os tios quase vizinhos", os primos não passam de filhos de estranhos. Ou seja: pessoas com outra vida, outros interesses, outros ritmos. Ou nos curvamos a eles (sobretudo se são mais velhos e mais fortes) ou os trocamos pelos colegas de escola, que pelo menos encaram diariamente os mesmos problemas.

Mas é quando conhecemos os amigos que verdadeiramente nos deparamos com os dilemas cruciais da existência humana. E isso explica por que o Alienista, de Machado de Assis, preferiu se recolher ao hospício. São muitos os tipos de amigos. Tentarei resumir apenas os mais freqüentes e incômodos.

Há o amigo que nos pede livros emprestados e que mais cedo ou mais tarde vai pedir CDs, DVDs e dinheiro. Nossa relação com ele começa na infância, com o empréstimo de revistas em quadrinhos e a partilha do lanche, na escola. Mas nada impede que o conheçamos já adultos, numa loja de cultura alternativa ou na fila do caixa do supermercado. E o melhor é evitá-lo, pois uma noite telefonará às 3 da manhã ou então ao longo de todo o dia, deixando de 30 a 40 recados na secretária eletrônica. É comumente voraz, compulsivo e capaz de conversar sobre "nada" ou sobre o mesmo assunto por 10, 12 horas seguidas, sem parar nem sequer para ir ao banheiro. É o tipo de sujeito que diz "estou com uma coceira de vontade de reler A montanha mágica". Ou, pedantemente, em meio à conversa mais despretensiosa: "Já lhe ocorreu que a Bernarda Alba, de García-Lorca, é uma alegoria da Espanha do ditador Franco?" Quem agüenta?

Há também o amigo que nos confessa, um dia, que passou seis meses pensando que o ventre arredondado de uma grávida é o universo em sua totalidade. Deste devemos correr tão logo o conhecemos. O mais grave é que só o conhecemos de fato com a tal confissão e, desse modo, talvez já tenham se passado vários anos... O jeito é não levar nenhum amigo para casa ou, levando-o, esconder todas as facas.

Há ainda o amigo que nos recebe em sua casa vestido só de cueca. E interrompe a proveitosa conversa para receber, também de cueca, os interessados em comprar o apartamento que está vendendo... Não sabemos se olhamos para o cara, para a cara dos visitantes ou para a cara da cueca. O melhor é aproveitar que os compradores estão indo embora assustados e ir também, de preferência para bem longe, uma outra cidade, um outro país...

E por fim há o amigo que não passa de conhecido e que, com prepotência, acha que todo personagem que um escritor cria é baseado nele. Em geral se considera o centro do universo ou, se não isso, o ser mais complexo já concebido. É capaz de se identificar tanto com Peri, Policarpo Quaresma e Carlitos quanto com Hitler, o Porquinho Babe e King-Kong. É leitor delirante de Allen Ginsberg. Tem fixação por regras gramaticais e sustenta que o correto é dizer "perigo de morte" e não "perigo de vida". E não caiam na asneira de lhe explicar que na verdade a expressão economicamente quer dizer "perigo de perder a vida", pois correrão o risco de perder a vida...

O conhecimento do mundo se completa quando necessitamos dos serviços de um fucionário público qualquer, cuja existência pessoal dispensa comentários. O diálogo comumente é assim:

S Por favor, eu queria...

S Sim, queria o quê?

S É, bem...

S Não tem.

S Mas...

S Ainda não chegou.

S Mas é que...

S Só daqui a três meses.

E se voltarmos em três meses o "nada" certamente ainda não estará pronto...

MAYRANT GALLO. Crônica publicada no Correio da Bahia, em 18/04/2004.



Escrito por Mayrant Gallo às 08:34
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




4 POEMAS DE JOAN BROSSA

Cidade dos sonhos, filme de David Lynch.
 
O TEMPO
 
Este verso é o presente.
 
O verso que você leu é o passado
já envelheceu depois da leitura.
O que resta do poema é o futuro,
que existe fora da sua
percepção.
 
As palavras
estão aqui, se você as leu
ou não. E todo o poder terrestre
não pode mudar isso.
 
 
AVANTE
 
Se não soubéssemos o que é
e o que não é; se apenas
atendêssemos a certos motivos
e certas cores; se as raízes
da existência se encontrassem numa
outra vida; se a esperança fosse
pouca e mal desenhada e se
a palavra não fosse um ato,
estas linhas também não
seriam um poema.
 
 
PEIXE DE CERA
 
Por não ter escrito o poema,
o leitor fica sem saber
em que poderia consistir este
peixe de cera.
 
 
CHINESCO
 
O poema recebe a sombra das mãos,
o equipamento de cinema mais antigo.
 
 
JOAN BROSSA (1919-1998). Poeta catalão. Poemas extraídos do inquietante e sedutor Poesia vista (São Paulo: Amauta/Ateliê, 2005), que se compõe de três partes: A letra (poemas visuais), A palavra (poemas escritos) e A forma (poemas-objetos). A tradução é de Vanderley Mendonça.


Escrito por Mayrant Gallo às 21:07
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
    Categorias
      Todas as Categorias
      Evento
      Citação
    Outros sites
      UOL - O melhor conteúdo
      BOL - E-mail grátis
      Miniconto
      Rita Lee
      Rascunho
      Bestiário
      Estante Virtual
      L&PM
      CD Point
      2001 Vídeo
      Verbo 21
      Cronópios
      Traça
      Simplicíssimo
      Vitor Ramil
      Jornal dos Sports
      Sidarta
      Idéias e Histórias
      Baratos da Ribeiro
      Edições K
      Câncer de Mama
      Panorama da Palavra
      Bagatelas!
      Concursos Literários
      Impressões de Ontem
      Estações Ferroviárias
      Carlos Ribeiro
      Carlos Barbosa
      Entrelivros
      Vaia
      Digestivo Cultural
      Viajando...
      Pôsteres de Cinema
      Amauta Editorial
      Escritoras Suicidas
      InterCidadania
      Entretantos
      Flickr
      Márcia Maia (1)
      Márcia Maia (2)
      Sandro Ornellas
      Quintana
      Cozinha do Cão
      Domínio Público
      Design Editora
      Polichinello
      Camille
      "Entre Aspas"
      Marcelo Barbão
      Foto-Síntese
      Madame K
      Setaro's Blog
      Embrulho no Estômago
      Germina
      Wladimir Cazé
      CosacNaify
      Brandão Sebo
      Flavio Luiz Cartum
      Vestígios da Srta. B
      Notas Mínimas
      Katia B
      Futeboleiros
      Aeronauta
      Ualmanak
      Anjo Baldio
      Ana Cecília
      Barefoot
      Veículo Voador
      Imagens e Palavras
      Cavalo de Ferro
      O Muro e outras...
      Veredas
      Geringonça
      Cavaleiro de Fogo
      Gerana Damulakis
      Portal Solaris
      Menalton Braff
      Blog do Menalton
      Thomaz Albornoz Neves
      Eu ao Meu
    Votação
      Dê uma nota para meu blog