Uma papinha, por favor!
Depois vêm os irmãos. E só há dois tipos de irmãos: os mais velhos e os mais jovens. Os mais velhos mandam e os mais jovens obedecem. Conheci um sujeito que quando o irmão mais velho perdeu as pernas num acidente de automóvel ele afinal se vingou. O inválido lhe pedia alguma coisa, e ele respondia "Vá você!", saindo do quarto. Com um outro aconteceu o contrário. Era o mais jovem e quando se viu com as pernas amputadas disparou contra o irmão mais velho todo o seu rancor, fazendo-o andar muito, e todo o tempo, para realizar seus desejos, mais excêntricos que os das mulheres grávidas.
Ao conhecimento dos irmãos se segue o dos parentes mais próximos. Isto é: avós, tios e primos. Os avós obviamente não são mais jovens e projetam nos netos seus gostos horríveis, aos quais reservam uma nostalgia insana. Metaforicamente, a avó quer que a neta use espartilho, e o avô que o neto não esqueça nunca, ao visitá-lo, a bengala e a cartola. Os tios são uma mistura de pais e vizinhos. Nem tão estranhos quanto estes, nem tão íntimos quanto aqueles. Logo, que fazer? E há a agravante de não conhecerem a fundo o cinema de Alfred Hichcock, nem suspeitarem da existência do escritor tcheco Bohumil Hrabal. O melhor a fazer é lhes servir um café, ligar a tevê e ficar rindo das piadas mudas de Mister Bean. Quanto aos primos, são seres espinhosos. Os meus, pelo menos, são. Nunca me aproximei de um que fosse sem me ferir. A verdade é que, "sendo os tios quase vizinhos", os primos não passam de filhos de estranhos. Ou seja: pessoas com outra vida, outros interesses, outros ritmos. Ou nos curvamos a eles (sobretudo se são mais velhos e mais fortes) ou os trocamos pelos colegas de escola, que pelo menos encaram diariamente os mesmos problemas.
Mas é quando conhecemos os amigos que verdadeiramente nos deparamos com os dilemas cruciais da existência humana. E isso explica por que o Alienista, de Machado de Assis, preferiu se recolher ao hospício. São muitos os tipos de amigos. Tentarei resumir apenas os mais freqüentes e incômodos.
Há o amigo que nos pede livros emprestados e que mais cedo ou mais tarde vai pedir CDs, DVDs e dinheiro. Nossa relação com ele começa na infância, com o empréstimo de revistas em quadrinhos e a partilha do lanche, na escola. Mas nada impede que o conheçamos já adultos, numa loja de cultura alternativa ou na fila do caixa do supermercado. E o melhor é evitá-lo, pois uma noite telefonará às 3 da manhã ou então ao longo de todo o dia, deixando de 30 a 40 recados na secretária eletrônica. É comumente voraz, compulsivo e capaz de conversar sobre "nada" ou sobre o mesmo assunto por 10, 12 horas seguidas, sem parar nem sequer para ir ao banheiro. É o tipo de sujeito que diz "estou com uma coceira de vontade de reler A montanha mágica". Ou, pedantemente, em meio à conversa mais despretensiosa: "Já lhe ocorreu que a Bernarda Alba, de García-Lorca, é uma alegoria da Espanha do ditador Franco?" Quem agüenta?
Há também o amigo que nos confessa, um dia, que passou seis meses pensando que o ventre arredondado de uma grávida é o universo em sua totalidade. Deste devemos correr tão logo o conhecemos. O mais grave é que só o conhecemos de fato com a tal confissão e, desse modo, talvez já tenham se passado vários anos... O jeito é não levar nenhum amigo para casa ou, levando-o, esconder todas as facas.
Há ainda o amigo que nos recebe em sua casa vestido só de cueca. E interrompe a proveitosa conversa para receber, também de cueca, os interessados em comprar o apartamento que está vendendo... Não sabemos se olhamos para o cara, para a cara dos visitantes ou para a cara da cueca. O melhor é aproveitar que os compradores estão indo embora assustados e ir também, de preferência para bem longe, uma outra cidade, um outro país...
E por fim há o amigo que não passa de conhecido e que, com prepotência, acha que todo personagem que um escritor cria é baseado nele. Em geral se considera o centro do universo ou, se não isso, o ser mais complexo já concebido. É capaz de se identificar tanto com Peri, Policarpo Quaresma e Carlitos quanto com Hitler, o Porquinho Babe e King-Kong. É leitor delirante de Allen Ginsberg. Tem fixação por regras gramaticais e sustenta que o correto é dizer "perigo de morte" e não "perigo de vida". E não caiam na asneira de lhe explicar que na verdade a expressão economicamente quer dizer "perigo de perder a vida", pois correrão o risco de perder a vida...
O conhecimento do mundo se completa quando necessitamos dos serviços de um fucionário público qualquer, cuja existência pessoal dispensa comentários. O diálogo comumente é assim: