MUNDO COLETIVO
A VIDA
O tenente Evandival sentia-se ansioso para prestar contas de sua missão ao prefeito, mas esperaria por um momento mais adequado à necessária discrição. Olhava o movimento, mas sua atenção estava longe – numa cidade bem a Sudoeste, onde vivia Madalena. A que o esperava com seus olhos intensos. Naquele instante, o que ele mais via eram esses olhos, depois os cabelos cheios e ondulados, depois...
De súbito, estranhou-se: o que estava fazendo ali – sem ela? Esperar, planejar – por quê? Afinal, a vida não espera. E a cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada hora, a cada minuto, a cada segundo – estava indo, indo, indo... Teve um pensamento assustador: se a morte chegasse agora, quanto do melhor da sua vida estaria perdido! E compreendeu que a única maneira que temos de vencer a morte é viver bem a vida antes que ela chegue. Assim, quando ela chegar, já não nos poderá tirar quase mais nada, ou mesmo nada. Sentiu-se tão perturbado que teve medo de que as pessoas percebessem.
Na primeira folga pegaria a estrada, iria até lá – e voltaria com ela. Era o que ela também queria, desde... Desde quando? Pensando bem, desde a infância, quando brincaram juntos no pátio de sua primeira escola. Ele a recordava com um vestidinho rosa – e via-se de calças curtas, camisa branca e... Um boné de marinheiro?! Ah, devia ter sido num Carnaval!...
Ergueu os olhos para a Lua, disfarçando o riso. Emocionado, apressou o passo, deu uma volta no jardim, sentou-se num banco, levantou-se, andou mais, ficou apreciando os dançarinos. Mas o que via era Madalena e ele levados pela música, noite afora, vida afora...
Não entendia como não descobrira antes que poderia ser tão feliz.
RUY ESPINHEIRA FILHO. Poeta, contista, romancista e ensaísta baiano. Recentemente publicou Um rio corre na lua (Belo Horizonte: Leitura, 2007), romance em que, contrariando a tendência atual, dá voz e verossimilhança a um mundo coletivo, em detrimento do individual, e, assim, filia-se a uma linhagem que reúne, no Brasil, escritores como Jorge Amado (Capitães da areia), Graciliano Ramos (Vidas secas) e José Lins do Rego (Fogo morto) e, em outros países, John dos Passos (Paralelo 42), Jules Romains (Morte de alguém) e Camilo José Cela (A colméia). O texto acima compreende o capítulo 67 de Um rio corre na lua.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:22
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TRÊS MINICONTOS DE JULES RENARD
O GATO
I
O meu não come os ratos, não gosta disso. Só os pega para brincar. Depois de ter brincado muito, dá-lhe a graça da vida, e o inocente vai sonhar em outro lugar, sentado no próprio rabo, com a cabeça bem fechada como um punho.
Por causa das garras, o rato morre.
II
Disseram-lhe: "Pegue os ratos e deixe os pássaros!"
É muito sutil, e o gato mais esperto às vezes se engana.
O LAGARTO
Filho espontâneo da pedra fendida em que me apóio, sobe-me sobre o ombro. Julgou que eu continuava o muro porque fico imóvel e estou com um paletó cor de muralha. Mesmo assim, isso é lisonjeador.
O MURO: – Sinto um arrepio nas costas.
O LAGARTO: – Sou eu.
O VERDELHÃO
Eu lhe disse:
– Dê-me essa cereja, imediatamente.
– Tudo bem – respondeu o verdelhão.
Ele dá a cereja e, com a cereja, as trezentas mil larvas de insetos nocivos, que ele engole num ano.
JULES RENARD (1864-1910). Célebre escritor francês. Principalmente pelos livros, hoje verdadeiros clássicos das letras francesas, Foguinho (Poil de Carotte, 1894) e Histórias naturais (Histoires naturelles, 1896), ambos disponíveis em português. Do último extraíram-se os contos acima. O autor é, sem dúvida, um dos criadores dos minicontos e microcontos, tão cultuados atualmente.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:28
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