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MOSTRA ERIC ROHMER

O joelho de Claire, filme de Eric Rohmer.
Na última semana, a Sala Walter da Silveira promoveu a mostra O jogo de sedução em Eric Rohmer, com a exibição de vários filmes do cultuado cineasta francês, mais precisamente um média-metragem, dois curtas e cinco longas, seguidos de dois documentários sobre a carreira e o processo criativo do diretor. Entre os longas, estavam três dos mais festejados filmes de Rohmer: Minha noite com ela (1969), O joelho de Claire (1970) e Pauline na praia (1983), todos premiados.
Não é difícil definir o estilo do artista Eric Rohmer. Alguns aspectos são mais do que visíveis. O primeiro e mais destacado: seus filmes são anticomerciais, baseados na realidade, com iluminação natural, som ambiente, locações reais e valorização das manifestações da natureza, como o vento correndo nas folhas, mar brilhante, céu profundo, paisagens em perspectiva, neblina, nuvens e jardins. O segundo aspecto relevante, associado à trama, define seu método de narrar a história, sempre lançando mão do diálogo, à semelhança de uma peça teatral; da passagem do tempo, como num romance de andamento ora mais lento ora mais rápido; e do tempo livre das personagens, que ou estão de férias ou de folga, raramente trabalhando. O terceiro e último aspecto, e que faz de Rohmer o mestre de inúmeros cineastas contemporâneos, é o tema, o assunto propriamente dito, de seus filmes, que, invariavelmente, se detêm sobre as relações amorosas em face das dificuldades da vida: físicas, anímicas e intelectuais. As pessoas se combinam ao mesmo tempo que não se combinam... Amam-se por um tempo e, depois de um tempo, deixam de se amar... Conhecem-se e já estão na cama, onde por fim se desconhecem... Fazem do amor um jogo e deste um caso de amor... Perdem-se por um detalhe específico do ser amado, como o joelho de Claire ou a inteligência de Aurore, e, mesmo no amor, estão sempre racionalizando, discutindo, transformando sentimentos em idéias, ou idéias em sentimentos, com elegância, polidez e respeito ao outro. A experiência de assistir a um filme de Rohmer é a experiência de viver, de estar no centro vital da narrativa. Não raro seus filmes terminam com um leve travo de melancolia, numa referência indireta à obra de Anton Tchekov, em cenas de despedidas, de voltas para casa, depois de um período intenso de férias, nas quais as relações começaram, se intensificaram e afinal se diluíram ou se romperam. Como ocorre com todos nós, aliás, num momento ou noutro.
Para aqueles que, como os judeus, acham que nada ocorre neste mundo por acaso, fui protagonista de uma história curiosa envolvendo um dos filmes de Eric Rohmer. Em 2003, eu estava em São Paulo, para o lançamento de O inédito de Kafka, quando vi no jornal que um dos cinemas do centro estava levando o Pauline na praia. Eu e Andréia, minha esposa, estávamos hospedados na casa da jornalista e editora Josélia Aguiar, era de manhã e tínhamos esquecido de perguntar à nossa amiga (que já saíra para o trabalho) o endereço do cinema, localizado num shopping center. Faltavam dois dias ainda para o lançamento do livro, e naquela manhã pretendíamos visitar, no Bexiga, a rua em que Andréia residira, quando criança. Ela é paulistana e veio para a Bahia com onze anos.
No Bexiga, não demoramos a achar a rua e o prédio. Em frente, um viaduto arrematava a cena com o rígido aspecto urbano que faz o charme das grandes cidades. Tudo era ao mesmo tempo cinza e colorido. E ainda mais colorido quando Andréia relembrava alguma história, um detalhe qualquer daqueles perdidos anos da década de 70. Não conseguimos entrar no prédio, nem mesmo com o expediente de que desejávamos olhar o apartamento que se encontrava à venda... Tivemos que nos contentar com sua fachada, sua altura, sua cor agressiva, seu mistério. E com as vivas lembranças que brotavam da memória de Andréia.
A volta, a pé, pelas ruas do bairro, foi inesquecível. Igrejas, cantinas italianas, lojinhas, casas aconchegantes que não nos cansávamos de admirar e perto das quais fizemos algumas fotos. Por fim tomamos uma longa ladeira, em curva, com suas belas e imponentes mansões ajardinadas. Gastamos, não, vivemos, literalmente, quarenta minutos ou mais naquela escalada, tão enlevados que ficamos. No cume da ladeira, para a nossa surpresa, avistamos, à direita, o shopping center onde exibiam o filme de Eric Rohmer. Jamais vi tamanha coincidência. Era como se uma conspiração sobrenatural e benéfica tivesse nos conduzido até ali. E numa cidade como São Paulo, vasta e complexa, foi como acertar na loteria.
Então almoçamos, ótima comida, por sinal, e fomos ver o filme. Na bilheteria, outra coincidência ou outra sorte, como queiram. Apresentamos nossas carteiras de professores, para a meia-entrada (nunca é demais uma pequena economia em "terra estrangeira"), mas a bilheteira disse que, em São Paulo, professor não pagava meia.
"Não? Tudo bem", um de nós disse, e o outro acrescentou qualquer coisa, e foi então que a moça perguntou de onde éramos...
"De Salvador."
"Salvador, na Bahia? Ah, Salvador!", respondeu a bilheteira, com o olhar radiante. "Fui à Bahia nos anos 70, de carona. Eu era meio... hippie. Passei um tempo lá, um tempo muito bom, pois me diverti muito. Lindo estado!"
E assim pagamos meia-entrada, não tanto por sermos de Salvador, mas por despertarmos as lembranças de juventude e aventura daquela moça, confinada agora à cabine de uma bilheteria de cinema.
Pois o fascinante e surpreendente Pauline na praia daquela tarde em São Paulo é o mesmo fascinante e surpreendente Pauline na praia da última terça-feira à noite aqui em Salvador, inclusive pela quantidade de pessoas na platéia, cerca de vinte ou trinta, não mais. Todavia, que fazer, se Eric Rohmer é para poucos? Sinceramente, não sou dos que lamentam que "os muitos" desperdicem sua vida diante do BBB.
MAYRANT GALLO. Crônica publicada originalmente no Correio da Bahia, em 27/01/2008.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:03
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CONSIDERAÇÕES POÉTICAS
A poesia do cinema de Susanne Bier, em Corações livres.
Prezado G.,
Você parece crer que estou zangado com suas supostas críticas... Não, apenas justifiquei a existência daqueles versos finais de O último, que você julgou irregulares. E com isso lhe digo que já ultrapassei a fase do arriscar um verso... Quando escrevo, é com plena consciência do que espero atingir, tanto que não sou de publicar muito, pois fico labutando os textos, poesia ou prosa. Aquele poema está como eu queria: com a carga de dor e ironia que eu queria: e os versos finais funcionam como uma desistência, uma rendição do eu-lírico, percebeu? O eu "desistiu", e os versos se deixam contaminar por seu estado de ânimo, se diluem, encurtam-se, quase que se transformam em som apenas, em repetição de sons, melhor dizendo, numa seqüência monótona de "i" tônico, até o verso final, que é um dar-de-ombros, um "mandar à merda o mundo, a existência de fracassos". Um bom leitor e um bom crítico não podem deixar de perceber isso, sob pena de perderem o "melhor". A leitura de um poema é um aprendizado do poema, e isso se aplica a toda obra literária, bem como a toda obra de arte. Se me permite uma sugestão, assista ao filme A passagem, de Marc Foster. Este filme é um dos melhores exemplos que conheço de arte contemporânea genuína, e o que ele tem de valioso não foi percebido por quase ninguém que conheço, e nem mesmo a crítica conseguiu avaliá-lo. Julgaram-no como um filme mal-feito. Ora, isso é tolice: que diretor de cinema ou poeta, senão os amadores, categoria na qual o Foster não se insere, seria tão inconseqüente? Arte é experimentação, uso de gêneros e de possibilidades, apropriação de formas, invenção, busca de renovação e de novos horizontes, desejo (como disse Barthes) de escapar das amarras. Mas ao que parece estamos perdendo a noção disso e avaliando os resultados por um padrão estabelecido, e quando um poema ou um filme, um romance ou um conto "escapam do conhecido", ficamos sem parâmetro para avaliá-los. É exatamente aí que entra o leitor imaginativo e potencial, que recria o poema, ilumina suas metáforas e intenções. O melhor leitor de poesia não é o que julga ou compreende o poema, mas o que lhe amplia os sentidos, deixando que as palavras e as intenções do poeta, ainda que ocultas, vivam. De resto, isso de versos melhores ou piores, de poemas melhores ou piores, constitui a crítica mais rasteira. Todo verso é por si só, e também parte de um conjunto. Uns podem ser isolados e encerram uma grande reflexão sobre a condição humana, uma sentença; outros não passam de pés-de-mesa, que apenas sustêm um tampo. Veja este exemplo: "Tu Hora,/ Tu Minuto,/ Tu Segundo!" Isolados, são nada, mas, em conjunto, são pregos a firmar Fernando Pessoa na saudação a Walt Whitman... E então, você diria que são versos dispensáveis? Para encerrar, o meio literário não me interessa, apenas faço parte dele. Posso gostar de um livro e reconhecer que o mesmo é uma obra de arte de grande alcance, mas posso também reconhecer isso sem necessariamente gostar dele. São coisas distintas. Muito da lama da literatura atual advém disso, da incapacidade de abstração dos leitores e do fato de que nossos artistas não sabem lidar com a variação de talentos, de estilos, de formas, de linguagens: julga-se uma obra muitas vezes pelo que ela não é, quando, de fato, deveria ser julgada pelo que obteve junto ao que já existe de tradicional, a literatura estabelecida, e de pessoal, o talento do autor. Fico lisonjeado por ter, de alguma forma (e é você mesmo que o admite), contribuído para a sua formação como crítico de poesia, mas não me envaideço disso, mesmo porque, se o fizesse, estaria assinalando a minha decadência. Espero que, cordialmente, compreenda a minha posição e o motivo por que trago a público esta justificativa. Sem mais, M. G.
Escrito por Mayrant Gallo às 12:33
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