UM POEMA-LIMITE
Cena de Limite, filme de Mário Peixoto.
O ÚLTIMO
Gostaria que os ETs existissem
Nossos vizinhos no Cosmo.
Não seríamos assim tão petulantes com eles em frente.
E que um dia no ar descessem naves como neve.
Quando criança, pensava que jamais morreria.
Ah, estúpido!
Não só fui morto como sigo insepulto.
Meu nome é sombra
Mesmo em sonho.
Quando sonho com meu nome é porque o esqueci e busco
Alguém que possa fazer-me lembrá-lo.
Me falaram de pátria, e eu digo que a pátria é a palavra
Qualquer uma
Mesmo merda droga
Contanto que em nosso idioma.
Esta bandeira que esvoaça não me pertence.
E não me diz senão o óbvio:
Que é só um pano verde na tarde
Um trapo com sorte.
Quando criança me obrigavam a cantar nosso hino
E é certamente por isso que hoje não o suporto
E quando o ouço me encolho até os ossos.
Sou o último a chegar, o último a sair.
O último a perceber que sou o último.
Já tentei o desenho, a escrita, a música.
O que desenhei não tinha fundo.
O que escrevi era furto.
O que compus compunha-me.
Ah, inútil!
Sou ultrapassado antes mesmo da partida.
Sou partido antes mesmo de partir-me
Em dois, três, quatro, por sobrevivência.
Fui assim sempre
Sempre assim:
Uma mentira.
E não há nada a fazer, senão rir.
MAYRANT GALLO. Poema do livro inédito Os prazeres e os crimes.
Escrito por Mayrant Gallo às 19:12
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