
Winter solstice, de Josh Sternfeld.
SONHOS
Naquela manhã ele pensava num sonho que tivera à noite. Via um pônei na gaiola do seu curió e, apesar do sentimento de perplexidade, muito comum aos sonhos, e ainda mais aquele, capaz de comportar um cavalo dentro de uma gaiola, ele arrancou com violência o animal e o jogou no gramado. O passarinho estava bem, e ele viu, em seguida, que fora tão violento com o cavalo, que este se urinara todo e agora parecia chorar, sob uma árvore.
Que significado tinha este sonho? Era o que ele se perguntava, distraído, ao atravessar a rua... Quando se deu conta, estava num pátio branco e ensolarado. Um pátio que não era o das escolas em que estudara, um pátio novo, desconhecido, em pleno sol. E da claridade ofuscante emergiu alguém, que o puxou pela mão, dizendo: "Venha".
"Onde estou?", balbuciou.
"Você está morto. Foi atropelado e não sobreviveu. Na verdade, morreu instantaneamente. Mas fique feliz, o cara que te atropelou também vai morrer, amanhã..."
"Para onde você está me levando?"
"Você vai ver."
E no minuto seguinte ele estava voando, como se possuísse asas mas não as dominasse. O sujeito estranho que voava ao seu lado o deteve com um puxão em sua camisa. Depois apontou um homem parado num promontório, o mar lá embaixo, a se esparramar sobre as pedras. "Veja", seu companheiro disse. E ele viu: um segundo homem sair de trás das árvores e empurrar o primeiro.
"Esse crime vai acontecer amanhã, e só você pode evitá-lo."
"Mas se eu estou morto...?"
"Estava..."
Foi então que ele acordou, no hospital. Sua mulher se encontrava ao seu lado, com a enfermeira e o médico. Cogitavam sobre seu estado de saúde e riram quando ele abriu os olhos. Recebeu alta ainda naquela tarde e voltou para casa. Tivera sorte: nem um osso quebrado, só escoriações, hematomas. A mulher lhe fez uma sopa, que tomaram bem quente. Mais tarde, e após muitos meses de total abstenção, ela o incentivou a fazer sexo, mas ele recusou, com o pretexto de que precisava descansar, recuperar-se daquela manhã fatídica.
Embora estivesse fatigado, e com o corpo todo dolorido, não conseguiu conciliar o sono. Na verdade, o sonho não o abandonava. De manhã fora atropelado porque pensava num sonho, agora não conseguia dormir porque pensava no sonho que tivera depois de ser atropelado e ficar inconsciente.
De manhã, levantou cedo e dirigiu até o local do crime. Ao menor movimento ao volante, seu corpo doía. Foi devagar, convicto de que chegaria a tempo. E chegou. O homem acabara de se posicionar à beira do promontório, e olhava o mar, o rosto crispado de dor física ou de um sofrimento mais profundo, por dentro. Aproximou-se com a intenção de revelar ao homem, assim de supetão, que um assassino o seguia. O sol acabara de nascer, a ferir com seus raios os vidros dos prédios. O movimento da rua ainda era pequeno, mas logo as calçadas se encheriam de gente, obsessiva e apressada. Subia do mar um cheiro intenso de sal e vísceras. Chamou pelo homem, que se voltou e, ao se voltar, assustado, escorregou e caiu. Boquiaberto, não pôde fazer nada, a não ser fugir.
Por vários dias prostrou-se angustiado. Leu nos jornais a respeito do morto, que, diziam, provavelmente se suicidara ou escorregara e caíra, num acidente nada incomum. Não, não era essa a história. O caso, na verdade, começara com um sonho, de um pônei entre grades. Refreou o desejo de se entregar à polícia. Seria um ato insensato, além de inútil, pois o desconhecido não teria sua vida de volta, e ele só se prejudicaria. E também à mulher, que tanto dependia dele, se bem que ela não reconhecesse isso, jamais. Só quando ele adoecia sua bondade voltava. E então fazia de tudo para curá-lo, e não raro queria fazer amor, ela, que noite após noite o evitava. Se soubesse que ele próprio já não a amava! E, a bem da verdade, nunca amou. Casou por tédio, por fraqueza: por não ter à sua feição outra pessoa, melhor, mais atraente e bonita, e pela qual, de fato, sentisse qualquer coisa, ainda que fosse só desejo de posse, de submissão à cama.
Depois de muito analisar sua situação, resolveu voltar ao local do crime. E à mesma hora, como se pudesse, com isso, compreender o que acontecera. Quanto tempo se passara? Não sabia ao certo, talvez uma semana, ou duas, "Menos de um mês, é óbvio". Estacionou o carro, caminhou até a margem do barranco e parou. O mar, verde-azulado, recebia os primeiros raios de sol, que reverberavam e chegavam aos seus olhos, aos vidros das janelas do outro lado da rua, ao mundo. Um intenso cheiro de morte inundou seu peito. Ao longe, na praia, os pescadores descarregavam os despojos do massacre. Pensou em tudo o que experimentara nos últimos dias e se perguntou qual era o propósito de tudo aquilo. Era fato que a vida já não lhe significava muita coisa, desde os trinta e cinco anos que desanimara: a velha história dos projetos frustrados, dos sonhos irrealizados, das afeições perdidas. Nem mesmo o casamento lhe fora significativo ou benéfico. Sem filhos, e em companhia de uma mulher quase frígida, gozava uma vida asséptica e comum, quase inócua, sem nenhum estímulo. E talvez fosse por isso que vivia sonhando com cavalos...
Não ouviu os passos senão quando o executor dos mesmos já estava bem próximo. Mal teve chance de se voltar. A mão que o empurrou talvez não quisesse isso: estivesse ali a alertá-lo, para detê-lo e lhe dizer que dias atrás alguém caíra, que tomasse cuidado, não chegasse tão perto da beirada... Jamais se saberá ao certo. E o que os jornais dirão no dia seguinte é só uma das muitas verdades; que tudo começou durante um sonho com um pônei numa gaiola já é, por exemplo, uma verdade enterrada. E é outro sonho o que intriga este homem que se afasta.
MAYRANT GALLO. Conto publicado no Correio da Bahia, em 04/11/2007.