 |
|
|
O HORROR COMEÇA EM CASA

A primeira noite de um homem, de Mike Nichols.
"A intolerância generalizada começa no seio da própria família, é bem aí que você recebe a primeira rasteira, a puxada inaugural de tapete. Você começa a deslizar pela casa como uma ameba monstruosa, uma máquina de repulsiva fisiologia. Reclamam da cinza do cigarro, do jornal espalhado pelo sofá, do tempo gasto no banheiro, da falta de maneiras à mesa, dos odores que você produz. Aliás, você é um exalante desestruturador da ordem doméstica, suja toalhas, embola tapetes, tolda espelhos, lambuza pratos, amarrota lençóis, danifica escovas, entope ralos. Dorme na hora errada, acorda cedo ou tarde demais, manifesta sua libido nas horas mais inconvenientes, esquece de trocar as lâmpadas queimadas, foi você, confesse, que se serviu da manteiga com a faca suja de geléia."
JAMIL SNEGE. Escritor paranaense. Trecho da novela de título inconcebível: Viver é prejudicial à saúde (Curitiba: Edição do Autor, 1998). Segundo Miguel Sanches Neto, "esta pequena e primorosa narrativa diverte e inquieta, encanta e faz refletir". De fato.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
MAIS UM LOGRO

"75% DOS BRASILEIROS NÃO DOMINAM O PORTUGUÊS."
Com este slogan absurdo a Faculdade Dom Pedro II está vendendo seu curso de Letras, no qual ninguém deveria se matricular, pois 100% dos brasileiros dominam o português, caso contrário não nos comunicaríamos...
Ilustração acima: capa do romance O leitor (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998), de BERNHARD SCHLINK , que conta a história de uma mulher que prefere ser presa a revelar que não sabe ler...
Escrito por Mayrant Gallo às 18:39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
OS LIVROS SÃO PERIGOSOS

Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel. Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O tigre da Malásia e se transformaram em professores de literatura em remotas universidades. Sidarta levou milhares de jovens ao hinduísmo, Hemingway transformou-os em esportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi sua vítima. Mas não a única. O velho professor de línguas antigas Leonard Wood ficou hemiplégico ao receber na cabeça cinco tomos da Enciclopédia britânica, que se soltaram de uma prateleira de sua estante; meu amigo Richard quebrou uma perna ao tentar alcançar Absalão, Absalão!, de William Faulkner, mal localizado numa prateleira que o levou a cair da escada. Outro amigo de Buenos Aires pegou tuberculose nos porões de um arquivo público e conheci um cachorro chileno que morreu de indigestão com Os irmãos Karamázov, depois de devorar suas páginas numa tarde de fúria. Cada vez que minha avó me via ler na cama, costumava dizer: "Deixe disso, os livros são perigosos". Durante muitos anos acreditei em sua ignorância, mas o tempo demonstrou a sensatez de minha avó alemã.
Excerto de A casa de papel (São Paulo: Francis, 2006), novela do argentino CARLOS MARÍA DOMÍNGUEZ, que nasceu em 1955 e desde 1989 reside na capital do Uruguai. A casa de papel já foi traduzida para o inglês, italiano, francês, alemão e holandês, além do portugues, obviamente.
Foto acima: "O mundo poderia existir muito bem sem literatura, e inclusive melhor sem o homem", pichação que apareceu em muro da Universidade Estadual da Bahia, em agosto de 2007.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |