C O N T R A M Ã O


MENOS UM SENSÍVEL NO MUNDO

"O sentimento da verdade é uma marca de talento. À grande maioria das pessoas falta esse talento. E é talvez uma sorte que assim seja."

INGMAR BERGMAN (1918-2007). Cineasta sueco, morto ontem. Autor de mais de quarenta filmes, que mudaram a história do cinema, entre os quais O sétimo selo, Face a face, O ovo da serpente, Morangos silvestres, Fanny e Alexander, Gritos e sussurros, Sonata de outono e A fonte da donzela.



Escrito por Mayrant Gallo às 07:28
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GUERRA AOS REVISORES

Tenho especial carinho pelos revisores. Já completei bodas de prata vivendo vinte e quatro horas por dia ao lado de uma revisora e sei bem a luta que às vezes é deixar um texto ininteligível pelo menos legível. É uma classe que vive na obscuridade e que salva muita gente boa dos maiores vexames. Sobretudo vexames lingüísticos.
     São famosas as guerras entre autores e revisores. Por aqui, quem mais andou de baioneta calada atrás destes verdadeiros anjos da guarda da língua, foi Guimarães Rosa. Alguns de seus casos ficaram famosos.
     Quando apareceu, nos originais de um de seus contos “(...) ela diz, enjoosa”, o revisor não teve dúvida em mudar para “enjoada”. Um pouco antes, já mudara “desquerer” para “não querer”. O autor, é claro, não aceitava as “correções”.
     Uma coisa é errar, coisa passível de correção. Coisa bem diferente é inventar, e aí os revisores ficam de cabelo arrupiado. Imagine só o susto que foi encontrar, logo no início de Grande sertão: veredas aquela “nonada”. Enjoosa e desquerer mantinham alguma afinidade com raízes conhecidas.
     Por isso pareceu bem fácil corrigir. Era só trazer o autor para os limites do dicionário e da gramática. E pronto: saía um texto limpinho, como querem os donos das normas, e como gosta a maioria dos leitores.
     Mas “nonada”, isso não, isso era um monstro desconhecido, sem família e de nacionalidade desconhecida.
     Também já fui vítima de revisores. Uma vez escrevi “com plot”, isto é, com enredo, e o revisor me deixou “complô”, com a observação de que não se usa mais o “t” mudo. Mas não viu que o texto perdeu qualquer sentido.

MENALTON BRAFF. Contista e romancista gaúcho. Publicou A sombra do cipreste (contos, 1999) e Na teia do sol (romance, 2004). É colunista do jornal A cidade, do qual extraiu-se o texto acima.

Gravura: Jorge Luis Borges em sua biblioteca, por Digestivo Cultural.



Escrito por Mayrant Gallo às 09:35
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EM TEMPOS DE CAOS AÉREO...

 

UM AVIADOR IRLANDÊS PREVÊ SUA MORTE

O meu destino, sem receio
É entre as nuvens que eu o vejo:
Aos que combato, eu não odeio,
Nem amo aqueles que protejo.
Eu sou lá de Kiltarten Cross.
Um dos seus pobres habitantes:
Termine a guerra e logo após
Eles serão como eram antes.
Não luto por lei ou dever,
Políticos ou multidão.
Um doce impulso deu-me a ver
As nuvens e seu turbilhão.
Avaliei tudo: no final
O que há por vir não muda a sorte,
E o que passou fez tanto mal
Quanto esta vida ou esta morte.

W. B. YEATS (1865-1939). Poeta irlandês e prêmio Nobel de literatura de 1923, que recebeu muito antes do auge de sua arte. Foi um solitário de sua individualidade, transitando com desenvoltura do Romantismo ao Moderno. Foi também dramaturgo e senador do Irish Free State. Poema extraído de 22 ingleses modernos: uma antologia poética (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993), organizado e traduzido pelo poeta Jorge Wanderley.

Foto acima: Aves de rapina, de Ikarow.



Escrito por Mayrant Gallo às 08:17
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UMA OBRA-PRIMA DE MAURO MOTA

Os incompreendidos, de François Truffaut.

MENINO DOENTE

Eram o pião, a bola, o realejo,
o trem de corda, a caixa do brinquedo
de armar. Longe da escola, eram os
dedos da mãe, penteando-lhe os cabelos,
a fruteira no quarto, o açúcar-cande,
o resedá por cima da atadura.

Entre a cama e a janela, era o menino
com medo, não da doença, mas da cura.

MAURO MOTA (1911-1984). Poeta e prosador pernambucano. Apesar de esquecido, é ainda uma referência para os poetas atuais, por sua linguagem precisa em favor de uma poesia que não perde de vista o humano. Poema extraído de Itinerário (Rio de Janeiro: José Olympio, 1983).



Escrito por Mayrant Gallo às 06:59
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OUTRAS VIDAS POSSÍVEIS

Respiro, de Emanuele Crialese.

Por que os homens escrevem, contam, lêem, vêem, ouvem, encenam e filmam histórias? Que necessidade é esta que os impulsiona desde remotas eras, quando as ásperas paredes das cavernas constituíam a única superfície segura de escrita, de pictóricas formas? O filósofo espanhol Ortega y Gasset disse certa vez: "A nota mais trivial, porém ao mesmo tempo a mais importante da vida humana, é que o homem não tem outro remédio senão fazer alguma coisa para manter-se na existência. A vida nos é dada, visto que nós não a damos a nós mesmos, senão que nos encontramos nela de uma hora para outra e sem saber como". Na existência nos puseram e com ela e a ela devemos nos conformar, por mais infelizes que sejamos. Ou fazemos isso ou optamos pelo suicídio.Um dos "remédios", uma dessas "coisas" a fazer "para manter-se na existência" que não solicitamos e que custamos a absorver, é precisamente a ficção, essa irreprimível propensão humana a contar histórias, naturalmente uma defesa, ou mesmo um "drible", uma remediação por parte do indivíduo, que, tanto mais exilado quanto mais vive, é talvez filho do acaso. "Desde que nasci, ainda não despertei", brada Pio Baroja num dos seus contos, intuitivamente flagrado pela consciência do caráter absurdo da existência humana, que, exatamente por se assemelhar a uma dádiva para a qual o homem não estava preparado, é melhor aceita se tomada por um longo sonho cujo despertar é a morte.

Este drible do indivíduo sobre a existência concretiza-se mediante o desejo comum a todos os homens de viver outras vidas. É uma concessão que se permite a cada nova história, nova aventura. Uma só vida, num único corpo, é pouco para o homem. Mais que prisão, significa dor, impotência. Logo, ao menos em imaginação, ele precisa sofrer sua metamorfose. É o que lhe sobra, pois tudo o mais é mistério. O Dom Quixote, de Cervantes, cuja primeira parte veio a público em 1605, já constitui, com larga antecipação e alta carga de ironia, uma expressão desse desejo humano: de tanto ler histórias de cavalaria, um homem se presume também um cavaleiro e sai em busca de aventuras. Torna-se outro em vida. Confere a si mesmo outra existência, possível para todos, mas improvável para a grande maioria dos homens, confinados que estão aos seus afazeres diários, à própria necessidade de viver ou, em alguns casos, de sobreviver.

A mais exata manifestação narrativa de nosso tempo, o cinema, que instaura o outro em sua forma mais viva, quase sem diferenças, não se furta nunca a essa vontade. Pelo contrário, sempre a tem em vista. Quanto mais realista um filme, mais nos sentimos dentro dele, a viver, muito próximos da plenitude e da verdade, a aventura que move aquelas pessoas resumidas a movimento e luz. Através do cinema, portanto, tornamo-nos muitos seres em uma única vida apenas, que é a nossa e que só a custo arrastamos, pois viver, se pararmos para pensar profundamente no assunto, por um minuto que seja, é insólito, sem sentido, se não um peso excessivo, uma punição, um confinamento. Mas, se quisermos, poderemos nos tornar trezentos, três mil! É o que acontece, a cada novo filme: variamo-nos, ficcionalizamo-nos. O filósofo francês Clément Rosset define o cinema mais ou menos sob essa perspectiva: "Por estar tão próxima do real, a imagem cinematográfica faz com que vejamos um outro que é quase o mesmo. Na sala de projeção não abandonamos o mundo; estamos quase num universo diferente, que se encontra, porém, no nosso espaço-tempo. Há uma magia propriamente real neste passeio sem custos". O cinema permite, portanto, a instauração do outro, que, no entanto, não deixa de ser o mesmo, de continuar a vida, a humana vida.

Um representativo exemplo literário de fixação do desejo humano de viver outras vidas é o relato do romancista francês Julien Green, cujo título, Se eu fosse você..., já dá a medida e intensidade do seu assunto. Fabien é um jovem insatisfeito com a sua existência. Um belo dia conhece Brittomart, um subalterno do demônio, que, mediante uma fórmula verbal, lhe confere o poder de mudar de vida, viver a existência de outra pessoa. Daí por diante, Fabien perpetrará um círculo de experimentais transformações sem jamais se dar por satisfeito: torna-se um homem rico, depois um outro dotado de imbatível força física, ocupa mais tarde o corpo de um fervoroso servo de Deus e, por fim, se transforma num homem de irresistível beleza. Sua insatisfação, contudo, não se dissipa. A cada transformação, seu desejo de mudança se renova. No fundo, o que ele busca é a perfeição, e esta é impossível. Quando afinal se decide por voltar a ser ele próprio, descobre que já não é senhor de sua vontade, nem de sua vida, nem de seu corpo, que pertencem agora ao demônio. Fabien pagou um preço à altura do poder que lhe foi conferido. E tarde demais descobriu que a melhor vida, a verdadeira, é a nossa própria, por constituir a única que possuímos.

O motivo por que as pessoas se permitem sucumbir ao fascínio das histórias, ocupando sem agravo tanto o papel de emissores quanto o de receptores, está intimamente ligado ao prazer que alcançam em experimentar, de longe, num envolvimento casual porém desejado, novas realidades e outras consciências, as quais as destacam de seu cotidiano fastidioso e precário. Através da ficção nossa vida se torna diversa, e nos acrescentamos experiências que necessariamente não viveremos, mas que, assim mesmo, nos enchem de luz e sentido. Todos os homens almejam uma outra vida e, no fundo, ainda que inconscientemente, a procuram. Isso é certo, pois nunca estão satisfeitos, o dia-a-dia monótono os sufoca; querem sempre algo mais, uma fração de "outra coisa", mais benéfica ou, se não isso, mais trágica. Mesmo porque, como bem disse o escritor húngaro Dezsö Kosztolányi: "Não há no mundo homem inteiramente feliz. Não há, nem pode haver". Portanto, é por "mudança" que os homens se entregam de corpo e alma às histórias: para se sentirem outros, aos quais a felicidade sorria ou o desatino faça sofrer. No breve e quimérico espaço de um relato ficcional a existência humana, por um tempo, se transforma, passa a outra coisa, subverte a dolorosa imposição do acaso – ou de Deus.

MAYRANT GALLO. Ensaio publicado no Correio da Bahia, em 14/12/2003.  



Escrito por Mayrant Gallo às 09:57
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CINZAS NÃO

Um avião cai, duzentas pessoas morrem. Hipóteses. A mais provável: alta velocidade na aterrissagem. Seria louco o piloto? Não, claro que não. Algo deu errado e, mais cedo ou mais tarde, será esclarecido. Mas o que se espera é que de tal tragédia extraia-se alguma lição e não se faça, do episódio, expediente político, de acusação e contra-acusação. O mais importante é evitar que uma nova tragédia semelhante aconteça, e que não morram nem mais nem menos pessoas. Pode parecer que não, mas toda vida humana é única, singular, e não apenas um componente numérico, para menos ou para mais. Aquelas cinzas a que todos os passageiros e tripulantes se reduziram foram crianças um dia; viveram, brincaram, amaram, sorriram, choraram; olharam numa noite as estrelas com curiosidade e certo ar de especulação, tiveram suas predileções e suas verdades, sonharam um ou outro pensamento original – e alguns certamente até os puseram em palavras ou em forma moldável – ou tão-somente foram pessoas, pessoas comuns, simples, mas nem por isso menos importantes. Se não pensamos assim, é melhor não pensarmos. E temo que a própria operação de limpeza do local da queda se converta, pela rapidez e eficiência dos trabalhos, numa limpeza mais cirúrgica e cruel: do fato em si, de nossa lembrança, de nossa dor.

MAYRANT GALLO. Que recomenda o livro O lado escuro dos céus: relato de grandes tragédias aéreas, de Richard Garret (Rio de Janeiro: Globo, 1988). Segundo o autor, as tragédias aéreas jamais acontecem sozinhas, mas em massa, em ondas. A grande onda de acidentes aéreos de 1985, por exemplo: "um ano extraordinariamente infeliz para a aviação civil".



Escrito por Mayrant Gallo às 08:35
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