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O TRIO LUCRATIVO

Eu era um misto de editor, agente literário e consultor sentimental. Lia originais, definia obras para publicação, acompanhava e consolava os autores. Alguns se tornaram as pessoas mais intransigentes que conheci. Outros, as mais suscetíveis, tocantes e confusas. A maior parte, porém, era só um corpo frágil de carne e ossos, com uma mente inconformada. "Por que você escreve?", eu perguntava às vezes, em meio à conversa ou ao telefone, para fazê-los calar. Nunca recebi uma resposta sensata ou autenticamente valiosa. Não raro, se estava ao telefone, o interrogado me deixava esperando e ia consultar suas anotações ou seus autores prediletos. Eu esperava, até ouvir isso: escrevo porque não posso deixar de escrever. Ou: escrevo porque escrever é uma doença. Ou mesmo: escrevo porque, se não, eu mataria alguém; talvez eu próprio. Havia o Isaac, que me dizia: "Escrevo porque vocês podem publicar". "Ou porque queremos publicar", eu retrucava. Embora ainda não tivesse nem trinta anos, Isaac já era assediado e seus livros vendiam. Os dois últimos tinham nascido de uma encomenda que a editora fizera, com base numa pesquisa acerca do que as pessoas queriam ler, em ficção e não-ficção. E assim Isaac evoluiu de um reduto inexpressivo de escritores quase independentes para um dos autores jovens mais vendidos e comentados. Vi sua intransigência virar arrogância, e sua timidez, charme.
Havia também a Miranda, uma poetisa amada pelos leitores. De base psicanalítica e existencial, sua poesia arrebatava até os espíritos menos sensíveis. Era como se cada um de nós se deparasse alçado à condição de eu-lírico, a chorar ou sorrir, pasmo com a vida. "Por que sua poesia tem tanta dor?", perguntaram-lhe um dia, num evento de literatura. "Porque eu sou a dor, você é a dor, todos somos dor", foi a sua resposta, dura e lacônica. Em seguida alguém pediu que ela recitasse um de seus poemas: "Vou ler, l-e-r", frisou, "um poema que fiz num momento crucial de minha vida. Claro que o ‘eu’ aqui expresso não sou eu, mas apenas uma projeção, uma pessoa ficcional à qual transfiro minha angústia". Miranda tinha este nome porque o pai lera o romance O colecionador, do inglês John Fowles, e se apaixonara pela heroína. Nascida das páginas de um livro, aos livros voltara, como poetisa. Ao comentar suas influências, citava autoras tão angustiadas quanto ela própria: em especial Florbela Espanca e Orides Fontella. "Poetisas que doeram não só por serem mulheres, mas por existirem", encerrava. Certa vez, em Maceió, ela veio ao meu quarto, no hotel. Eu estava quase dormindo. Mesmo assim, pedimos bebida e algum alimento para acompanhar. Passamos boa parte da noite conversando, rindo, relembrando histórias. De madrugada, quando ela adormeceu, carreguei-a até minha cama e fui para o seu quarto. À hora do almoço, nos encontramos no restaurante, e ela disse: "Pela primeira vez dormi na cama de um homem sem o homem..."
No recital daquela tarde, ela conheceu um jovem poeta, que por dois anos não a fez feliz. Foi um período ruim, em que chegamos a brigar. Em represália, recusei-lhe um livro de poemas em prosa, que acabou saindo às suas expensas, com um prefácio inócuo de seu protegido. Um completo fracasso. Nunca os leitores a ignoraram tanto, e nunca ela precisou tanto deles. A partida de seu amante determinou sua primeira tentativa de suicídio. Salvei-a por acaso, ao dirigir-me à sua casa para lhe propor uma trégua e sugerir a imediata reedição de seu último livro, agora sob a chancela da Policarpo. O destino me mandou ali. Ou foi apenas sorte, acaso.
Havia ainda o Sr. Literato: capaz, auto-suficiente e inabalável. Livros de uma regularidade saramagueana. O mais recente, se a crítica não exaltara, não era porque fosse ruim, apenas não alcançara a perfeição do anterior. Mas, no próximo, o autor saberia, com certeza, tirar proveito deste tropeço, não realmente um tropeço: um interregno, um descanso para um novo salto de qualidade, em breve. Artigos em revistas acadêmicas, discussão sobre sua obra em mesas redondas de literatura e até num programa sem audiência na rede de tevê estatal, o descabelado mediador a afirmar, com afetação e pose, a importância inequívoca do Sr. Literato para a identidade brasileira e o estabelecimento de uma consciência política mais sutil e moderna. O Sr. Literato nunca me procurava, exceto quando tinha um livro pronto. Então me ligava e dizia: "Terminei. Pus o ponto final". "E o que é desta vez?" "Um romance." Era o gênero preferido do Sr. Literato. Mas, às vezes, para não perder seu ar de superioridade, arriscava um volume de contos, uma novela ou mesmo uma peça teatral. Um noite, me telefonou e disse que escrevera um roteiro de cinema. Não foi filmado, mas tampouco ele o desperdiçou. Refundiu-o num folhetim, que foi por muito tempo o seu maior êxito junto ao público mais vasto, o leitor mediano, de ocasião, que vê seu desejo de leitura reacender ao contemplar a lista semanal dos livros mais vendidos.
Num dos lançamentos coletivos da Policarpo, alcoviteiro, apresentei o Sr. Literato a Miranda. Não deu certo. Quase se mataram. Ela me ligava, desesperada: "Que cara é esse? De onde você tirou esse traste? Nem trepar ele consegue!" Ou então ele: "Dessa poetisa só se salva... Bem, você sabe". No lançamento coletivo do ano seguinte, Miranda não apareceu no horário marcado. A fila com os seus leitores cresceu, cresceu, depois foi diminuindo, diminuindo e, afinal, apagou-se. Perguntei ao seu ex-cônjuge: "O que você fez com ela?" O Sr. Literato me olhou com frieza, um ar meio cínico: "Nada. O que eu poderia fazer? Nem nos temos visto. Aliás, ela já é suficientemente ruim para si mesma. Não precisa de mim". E voltou para a mesa. E ficou lá, por mais de duas horas ainda, autografando seu livro. A fila cada vez maior, ele feliz. Voltara a ser um sucesso. E exatamente com um livro que recriava, em termos ficcionais, sua relação com Miranda. Naquele momento compreendi que não o deveria ter aceito. E sobretudo que não os deveria ter apresentado. Fora um erro o meu dedo de Deus. Foi então que olhei para a entrada da livraria, a seguir os demais rostos, e avistei Miranda, nua e brilhante de chuva. Ela tirara a roupa como a heroína do Sr. Literato tirara a sua, no suntuoso palacete da Graça, em 1925. Corri para ela e a envolvi com meu paletó. Estava febril e trêmula, e chorava. Enquanto descíamos à garagem, fiquei pensando no que deveria fazer: se apresentá-la a Isaac, ou este ao senhor literato. Optei pelo segundo arranjo, afinal de contas os dois poderiam se inspirar, e precisamos andar conforme o mercado, a demanda, o gosto. Sim, que Isaac e o Sr. Literato se embolassem e depois escrevessem qualquer coisa...
Já no carro, falei: "Bem, Miranda, escreva sobre isso, sobre esta noite. Estou encomendando: escreva, que eu publico!"
MAYRANT GALLO. Conto publicado originalmente no Correio da Bahia, em 15/07/2007. Foto acima: pôr-do-sol nos Barris, Salvador.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:23
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A LÓGICA CAPITALISTA

A CIVILIZAÇÃO DO CONSUMO
Às vezes, no final da temporada de verão, quando os turistas iam embora de Calella, ouviam-se uivos vindos do morro. Eram os clamores dos cachorros amarrados nas árvores. Os turistas usavam os cachorros, para alívio da solidão, enquanto as férias duravam, e depois, na hora de partir, os cachorros eram amarrados morro acima, para não seguir os turistas que partiam.
EDUARDO GALEANO (1940). Escritor uruguaio. Texto extraído de O livro dos abraços (Porto Alegre, L&PM, 1991), em tradução de Eric Nepomuceno.
Foto acima: Zhang Li, o cachorrinho de A. Café-Gallo.
Escrito por Mayrant Gallo às 20:07
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UM POEMA DE RILKE: BILÍNGÜE
Vejo-te, rosa, livro à metade aberto que contém tantas páginas de detalhada felicidade que jamais serão lidas. Livro-mago,
que se abre ao vento e cuja leitura se pode fazer de olhos fechados..., de lá as borboletas voam confusas pelas mesmas idéias lhes terem inspirado.
¤ ¤ ¤
Je te vois, rose, livre entrebâillé, qui contient tant de pages de bonheur detaillé qu’on ne lira jamais. Livre-mage,
qui s’ouvre au vent et qui peut être lu les yeux fermés..., dont les papillons sortent confus d’avoir eu les mêmes idées.
RAINER MARIA RILKE (1875-1926). Poeta tcheco de expressão alemã. Poema extraído de As rosas (Rio de Janeiro: 7Letras, 2002), escrito originalmente em francês. Tradução de Janice Caiafa.
Foto acima: Cosmos & Casal de Borboletas, por Bia Bela.
Escrito por Mayrant Gallo às 21:34
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AS AVENTURAS DE NICOLAU E RICARDO, DETETIVES

O beijo amargo, de Samuel Fuller.
O DETALHE
A Páscoa de Nicolau e Ricardo foi interrompida pelo assassinato do poeta Bidu Laranjeira. O principal suspeito: o colérico estudante e aspirante a crítico literário Lulu Bernard, de tantas tertúlias com o falecido. Ricardo (com um sestro de desprezo nos lábios): “Não foi ele”. Nicolau (um ponto de interrogação em busca de uma frase): “?” Ricardo (com ar superior, explicando): “Seria como eliminar a máquina de refrigerante, o pipoqueiro, o sorveteiro; atirar ao lixo o brinquedo querido... Não, não foi ele”. De fato, dias depois, o assassino: uma mulher. Bem, quase. Por um detalhe...
GALINHAS
Nicolau e Ricardo interrogam uma velha senhora. Ela está falando, ou melhor, discursando: “Eu o vi, da última vez, olhando as galinhas. Diante das gaiolas, a todas examinava atento e impassível. Não sei o que pretendia, se comprá-las ou retê-las na memória... Mas, de qualquer modo, é certo, fosse o que fosse, seria a vida de novo, para ele, que desde moço e para sempre viu-se viúvo...” “Bem, garanto que as galinhas que ele violentou e degolou não eram essas...”, comenta Ricardo, com sarcasmo. “Não entendo...”, a mulher diz, encabulada. “Deixe pra lá, senhora. Era só isso”, diz Nicolau.
PERSEGUIÇÃO
Nicolau e Ricardo seguem a pista de um escroque. Param num restaurante à beira da estrada e bebem, enquanto o observam. Mas não observam o suficiente, pois não vêem quando o bandido foge no carro deles...
MAYRANT GALLO. Publicou O inédito de Kafka (São Paulo: CosacNaify, 2003). Aos interessados, mais Nicolau e Ricardo no histórico, em 16/03/2007 e 01/04/2007.
Escrito por Mayrant Gallo às 17:36
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UM POEMA DE RICHARD BRAUTIGAN

A MORTE É UM BELO CARRO PARADO SÓ
A morte é um belo carro parado só para ser roubado numa rua com árvores cujos galhos são como os intestinos de uma esmeralda. Você arromba a morte, dá a partida e segue como uma bandeira feita de milhares de funerais flamejantes.
Você roubou a morte por puro tédio. Não tem nenhum filme que preste passando em São Francisco.
Você dá uma volta enquanto escuta o rádio, aí abandona a morte, vai embora, deixe que a polícia a encontre.
RICHARD BRAUTIGAN (1935-1984). Poeta e romancista norte-americano. Seu romance Pescar truta na América foi publicado no Brasil pela Marco Zero, em 1991, com tradução de José J. Veiga. A tradução do poema é de Reuben Wolfwitz (www.trompetistagago.wordpress.com). Mais Brautigan em: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=2235. Foto acima: www.flickr.com.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:21
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POESIA, CINEMA E BALA PERDIDA

"Parem todos os relógios, desliguem o telefone. Evitem o ladrar do cão com um osso apetitoso. Silenciem os pianos e com tambores surdos Tragam o caixão, deixem vir os que choram.
Deixem que os aviões gemam lá em cima, Escrevendo no céu a mensagem Ele está morto. Ponham laços de crepe nos pescoços brancos das pombas públicas, Façam o guarda de trânsito usar luvas negras de algodão.
Ele era o meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste. Minha semana de trabalho e meu descanso de domingo. Minha lua, minha meia-noite, minha fala, minha canção; Pensei que o amor ia durar para sempre - estava enganado.
Não preciso mais das estrelas, apaguem todas; Guardem a lua e desmontem o sol; Esvaziem o oceano e acabem com as florestas, Pois nada agora pode ter qualquer utilidade."
Poema declamado no filme Quatro casamentos e um funeral, de Mike Newell, e atribuído a W. H. AUDEN (1907-1973), poeta inglês de estilo solene e coloquial.
Foto acima: Juliana, uma das inúmeras vítimas fatais de bala perdida, em 2007, no Rio de Janeiro.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:46
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