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UMA OBRA-PRIMA DE CARLOS PENA FILHO
PARA FAZER UM SONETO
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara, e espere pelo instante ocasional. Nesse curto intervalo Deus prepara e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara: se você preferir a cor local, não use mais que o sol de sua cara e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza das lembranças da infância, e não se apresse, antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece dentro da escuridão a vã certeza, ponha tudo de lado e então comece.
CARLOS PENA FILHO (1929-1960). Poeta pernambucano morto tragicamente. Um dos grandes sonetistas brasileiros do século XX. Sua poesia, embora esquecida pelo público, continua admirada pelos poetas. Soneto extraído de O livro de Carlos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1983), volume de poesia e prosa organizado pelo contista Edilberto Coutinho.
Foto acima: Santuário do Caraça, MG, por Murilo.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:27
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A PROTAGONISTA

Ele era feliz com Lídia e sua filhinha. Aos sábados, iam ao cinema, a uma matinê, é óbvio, e depois a um bom restaurante. Esporadicamente pediam vinho. Mais tarde, com a menina dormindo, o amor... Domingo de manhã passeavam, cinema de novo à tarde e, afinal, à noite, o descanso. Ele dormia como água parada, a esposa como um rochedo. O despertador, apropriadamente posto dentro de uma panela, repercutia em desespero, lembrando-lhes que fins-de-semana como aquele só eram possíveis com muito trabalho...
Na universidade, os alunos admiravam seu método e muitos acabaram seus amigos. Um dia abriu seu endereço eletrônico e se deparou com essa mensagem, assinada por uma de suas alunas: "Eu queria te dizer que está sendo muito bom tê-lo como professor pela terceira vez, pois sinto o maior orgulho em dizer que você é meu professor! Desde já começo a sentir saudades... Um abraço da sua ‘eterna aluna’, Leila". Não deu crédito. E demorou a responder. Quando o fez, foi sem entusiasmo, no tom amistoso do professor que agradece os elogios provindos de uma aluna mais chegada. Só isso. Um mês depois, outra mensagem. E naquela noite teriam aula, poderiam se falar, embora ele só pretendesse entregar os resultados, e Leila já estava liberada por ele, e talvez por todos os outros professores. Era do tipo que estudava e depois, segura de seu desempenho, proporcionava a si mesma a oportunidade de recompensa e prazer merecidos. A mensagem dizia: "Olá! Recebeu meu recado? Acho que não. Mas era só isso: não suma! E me escreva, o quanto antes! Feliz Natal!"De fato, ela não compareceu à aula. E ele ficou aliviado por isso. O que ela quisera dizer com "não suma"? E com "me escreva o quanto antes"? Haveria algo mais que ele não tinha percebido? Ou era só um flerte involuntário, nascido de um irrefreável atrevimento juvenil? E então se lembrou de uma fala, aparentemente sem importância, dela para ele, à boca pequena, em meio ao grupo de alunos com quem ele almoçara, meses antes, durante um dos eventos do semestre: "Não quero casar. Nunca. Não faço questão. Me contento em ser da pessoa". Sua amiga Liliane, que a ouvira, sorriu. E ele não soube o que dizer, pois não sabia se realmente tinha a ver com ele. Era mais provável que não... Mas estava enganado. Ainda naquele dia, prometeu a Liliane lhe enviar um exemplar de um romance francês cuja protagonista tinha seu nome. Um romance licencioso, que mencionou sem nenhum motivo específico e depois lhe ofereceu. Talvez para que Leila, por tabela, pudesse lê-lo, e foi o que ela fez...
Suas impressões sobre o livro chegaram com o ano novo: "Olá! Estou muito triste, pois acabo de abrir a minha caixa e não vejo nenhuma mensagem sua. Será que já me esqueceu? Como anda sua vida nessas férias? A minha anda mal... Estou totalmente desestimulada, ainda não consegui fazer nada de útil! Estou com muita saudade das nossas conversas. Aliás, não só eu... Por favor, não demore a me escrever! Dê-me boas notícias! Ah, quanto ao livro, eu também amei e só tenho algo a dizer: na verdade, aquela Liliane deveria se chamar Leila, só isso! Saudades e beijos". Era uma declaração, ou um pedido, talvez mais, pois Liliane, a personagem do livro, passa uma noite de amor intenso com um sujeito que acabara de conhecer. Uma noite completa, em que masculino e feminino se somam, se mesclam, se fundem e se invertem, em nome da paixão, do desvario e da saciedade. E é assim que o narrador de Paul Verguin, o autor, termina seu relato: "Você me deu uma alegria que vem sozinha, como o desejo. Quer nos tornemos a ver quer não, você é a minha primeira verdadeira amiga". Talvez Leila pensasse que, ao se pôr no lugar da protagonista, estava lhe dizendo isso, se confessando a sua "primeira verdadeira amiga". Só lhe faltava justificar, com uma noite de amor (o título do romance em português), a sua insinuação, a sua audácia.
Só havia uma forma de responder à mensagem de Leila: também com audácia. E não há outra maneira de dois corpos se unir, nus, em busca daquele instante que, num e noutro, é individualidade, mas que talvez, se coincidirem os ritmos, os tempos, torne-se uno, indivisível. Rabiscou sem reflexão e lhe enviou sem temor o seguinte: "Se você é Liliane, sou seu amante". Dias depois chegou a resposta, breve, lacônica, quase uma senha: "Quando?" Nos dias que se seguiram, quanto mais ele especulava sobre o "quando" mais lhe assombrava o "onde". Era provavelmente a segunda pergunta que ela faria, tão logo ele respondesse à primeira. E ironicamente pensou, em família, diante da tevê, se haveria uma terceira: "Quanto?" Não, claro que não. Leila não era desse tipo: a espécie de mulher que pensa em espécie. Era só uma garota solitária e carente, deslumbrada com seu professor.
Foi um verão estranho, aquele, as mensagens de Leila o desnorteavam. Sem elas, não continuaria o mesmo; com elas, se esforçava por continuar, embora consciente de que era quase impossível, tamanho o abalo que lhe causavam. O tempo só transcorria para testemunhar sua capitulação, sua derrota. Os dias morriam e ele também, pouco a pouco, a cada vez que abria o correio eletrônico e não achava nada, a não ser mensagens de amigos. Era desolador, se bem que, de outro ponto de vista, fosse um alívio: dispensava-o de uma decisão, da obrigação de trair. Mas enfim criou coragem e marcou a data. Depois, o lugar. Às duas mensagens, Leila apenas respondeu com um simples: "Ok! Ok!"
Esperou com ansiedade e finalmente, no dia marcado, correu para o hotel, ao encontro de Leila. Subiu ao quarto, deitou e aguardou. Toda a tarde. Ela não apareceu. Como tinham um acordo de só se falar por e-mail, não lhe telefonou. À noite, já em casa, enquanto Lídia brincava com Paulinha, ligou o computador e procurou alguma mensagem de Leila. Não achou nenhuma. E por algum tempo nada recebeu. Enfim, quando ela voltou, foi para lhe dizer, com cinismo: "Ainda está esperando? Pois espere, espere até cansar! Veja se eu ia dar pra você o que não dou para outros, melhores... Idiota!"
E ele ficou ali, atônito, lendo e relendo sem entender, entendendo sem acreditar...
MAYRANT GALLO. Conto publicado originalmente no Correio da Bahia, em 24/06/2007.
Ilustração acima: Flavio Luiz.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:53
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UMA OBRA-PRIMA DE CECÍLIA MEIRELES

Iman Maleki, pintor iraniano.
ENCOMENDA
Desejo uma fotografia como esta - o senhor vê? - como esta: em que para sempre me ria com um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria, derrame luz em minha testa. Deixe esta ruga, que me empresta um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta nem de arbitrária fantasia... Não... Neste espaço que ainda resta, ponha uma cadeira vazia.
CECÍLIA MEIRELES (1901-1964). Da linhagem de Safo e Emily Dickinson, Cecília é seguramente uma das mais importantes vozes líricas do Brasil e do mundo. Poema extraído do volume que reúne dois de seus melhores livros, Viagem e Vaga música (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982).
Escrito por Mayrant Gallo às 09:20
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POESIA E CRIAÇÃO ARTÍSTICA

O novo Wong Kar Wai.
"É preciso tempo para descobrir os defeitos dos grandes poemas. O primeiro sentimento que eles inspiram, ao ser publicados, é a admiração, e enquanto tal admiração não se modifique ou desapareça, os críticos mais perspicazes não conseguem atinar com os defeitos. Isso advém da curiosa natureza do homem, o qual só alcança julgar quando deixa de admirar."
"Sem entusiasmo - e nele incluo a cólera -, a humanidade não consegue atuar. Só com entusiasmo, porém, não se atua bem. É preciso ir além dele para que o trabalho seja eficaz; mas então - em situações de calma - surgem obras que nasceram dos períodos de entusiasmo. Quem se entusiasma em demasia não consegue realizar um bom trabalho; quem nunca se entusiasma, tampouco."
"Trabalhamos conscienciosamente em prol de nossos pósteros. Para preparar-lhes uma organização, uma discipline de vie; mais útil, talvez, porque a vida deles pode ser mais longa."
KONSTANTINOS KAVÁFIS (1863-1933). Poeta grego moderno, autor de pouco mais de 150 poemas, que, no entanto, o tornaram célebre em todo o mundo. Textos extraídos de Reflexões sobre poesia e ética (São Paulo: Ática, 1998), único livro em prosa escrito pelo autor. A tradução é de José Paulo Paes, que também traduziu uma seleção de sua obra poética: Poemas (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982).
Escrito por Mayrant Gallo às 14:33
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UMA OBRA-PRIMA DE MÁRIO DE ANDRADE

DESCOBRIMENTO
Abancado à escrivaninha em São Paulo Na minha casa da rua Lopes Chaves De sopetão senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu.
MÁRIO DE ANDRADE (1893-1945). Poeta, contista, romancista e crítico literário. Um dos fomentadores da Semana de Arte Moderna, em 1922. Obras: Paulicéia desvairada (1922), Amar, verbo intransitivo (1927), Macunaíma (1928), O empalhador de passarinho (1946), entre outras.
Foto: Vai lá Brasil!, por Mr Destruction.
Escrito por Mayrant Gallo às 06:52
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