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O MENINO E O PALACETE

O operário, de Brad Anderson.
Nino Ramos costumava adquirir livros antigos. Eram o seu fraco. Quanto mais antiga a edição, melhor. Dava preferência àquelas que traziam ao fundo a relação de títulos, acompanhada de cupons para encomenda. Quantas vezes se imaginou a preenchê-los! E a receber os livros de seu interesse, naturalmente, como se pudesse anular o tempo, fazer dele um bloco único, uma massa única, uma esfera sobre a qual o dedo, conforme as preferências, deslizasse à revelia do acaso, do destino, de Deus. Sabia, no entanto, que isso era impossível. Que, uma vez vencidos, os dias se tornam insondáveis. Nada torna a um ponto no tempo. Só o espaço é manipulável. Só o espaço dá voltas e torna, avança, pára, recua. O tempo é como uma espera secreta, um olhar que nunca se contenta.
Durante anos e anos ele procurou O menino e o palacete, de Thiers Martins Moreira. Conhecia-o apenas através dos comentários elogiosos de Wilson Martins. Pelo que pudera averiguar, só havia duas edições. A primeira, de 1954, era a que ele buscava com mais avidez. Não foi a que encontrou, porém. Havia uma terceira, incógnita, dos anos trinta. Precisamente de 1937. Foi ao mesmo tempo uma alegria e um susto encontrá-la. A primeira suposição que lhe ocorreu foi a de que talvez Martins não a conhecesse. Ou, se a conhecia, preferiu omiti-la. Não era de todo improvável isso. É comum que um crítico, tomado de afeição por uma obra, prescinda de mencionar sua primeira versão, ainda verde, esboço apenas, sem ainda a consistência da última, reconhecidamente a melhor e, no caso de O menino e o palacete, uma indubitável obra-prima.
Ele pegou o livro, acariciou-o e passou-lhe com cuidado as páginas. Poucas manchas, papel bom, impressão perfeita. O homem do sebo sorria, já antevendo o deleite de seu bolso. Em casa, reconheceu no livro os méritos destacados por Martins. Comparou as passagens avaliadas por ele com as de seu exemplar. Não eram muitas as modificações. Todas estilísticas e voltadas à clareza, a uma melhor fixação em palavras do sentido do assunto e das cenas. Muitos trechos, na versão comentada por Martins, pareciam não propriamente mais belos, nem mais exatos, porém resistentes, incólumes à ação do tempo, juiz implacável de todas as obras, e não apenas as literárias. Ao alvorecer, fechou o livro e foi dormir, satisfeito mas também intrigado. Não sonhou. O livro como que o havia esvaziado de toda propensão à aventura, à fantasia.
À tarde, depois de cumprir um ritual de atividades triviais, voltou ao livro. Desta vez, examinou-o melhor, para além do texto, nos interstícios de expediente: editora, endereço, nome do editor, livrarias afiliadas, outros títulos e a forma de comprá-los. Foi quando percebeu o cupom. Intocado ainda e pronto a ser preenchido. Não hesitou. Apôs seu nome, endereço completo, telefone e transcreveu o título dos livros pelos quais tinha algum interesse, uma secundária curiosidade. Por fim, recortou o cupom, lançou-o acompanhado de um cheque dentro de um envelope cuidadosamente endereçado e os levou ao correio. Somente quando retornava, visivelmente abatido, percebeu com assombro o quanto fora insensato. Mas nada podia fazer. Seu ato era como um filho no ventre já crescido. Só lhe restava esperar. Foi o que fez, e durante esse tempo releu por diversas vezes O menino e o palacete. Era de fato um belo livro. Um surpreendente livro. Arte em estado puro. Tais conclusões o levaram a especular o motivo por que jamais fora relançado numa edição moderna, vistosa, de uma dessas arrojadas editoras do momento. Mas talvez fosse melhor assim...
Os livros chegaram algumas semanas depois, quando ele já os havia esquecido. Um pacote surrado, displicentemente manuseado. Ele mal conseguia respirar, sobretudo ao constatar que a data do carimbo do correio era do ano de 1938! Ora, foi uma brincadeira! Alguém que morava ou trabalhava no endereço da antiga editora decidiu pregar-lhe uma peça e, possuindo os livros, aqueles e outros, lhe fez o perverso favor de os enviar. Folheando os livros percebeu que todos datavam do ano de publicação de O menino e o palacete. Um ótimo ano, pelo visto, para a literatura nacional. Muitos e variados autores. E livros diferentes, arrojados na forma ou, se mais tradicionais, possuidores no entanto de tramas inéditas, em que destino e acaso se fundiam. Mas onde ele lera sobre isso? Em Martins? Não. Seus nove volumes de crítica começam em 1991, e o primeiro comentário é de 1954. Que estava acontecendo, então? Era como se já conhecesse aqueles livros que acabara de receber! Como se os fosse reler, e não ler... Apanhou um ao acaso e passou a tarde a se embeber de passagens e palavras que já conhecia, de algum outro tempo. O drama de um escritor que recebe a visita de uma jovem professora de literatura, que insiste em entrevistá-lo. A entrevista dura horas, dias, anos. A mulher não o larga mais, passa a viver em sua casa e até em sua cama. Quando ele finalmente se liberta, descobre que não sabe mais escrever, que se tornou outra pessoa. O relato se fecha com o ato de inscrição do escritor no quadro de trabalhadores do cais do porto. Expressão do clássico dilema do artista dividido entre a palavra e a ação? Talvez.
Ao finalizar a leitura, Nino deitou-se um pouco, a refletir, e logo adormeceu. Mais uma vez nada sonhou. Sua vida por ora já era um sonho. Acordou faminto. Fechou o livro, que esquecera aberto sobre a cama, e se vestiu mais adequadamente para um faustoso jantar no Savoy. Não lembrava da última vez que jantara no Savoy. Quando fora? Em dezembro de 1936? Ou em outubro do ano passado, quando o autor do célebre O menino e o palacete visitara a cidade, e ele fora convidado a lhe servir de cicerone? Não, a verdade era que já não se lembrava. A caminho do Savoy, pelas ruas úmidas das recentes chuvas, começou a desenvolver mentalmente o argumento de um conto que o perseguia havia anos: a história de um homem que volta ao passado depois que preenche um cupom num velho livro e o envia à editora, sem medo...
MAYRANT GALLO. Conto publicado no Correio da Bahia, em 27/04/2003.
Escrito por Mayrant Gallo às 10:44
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O BOLO

Um casal típico. Ainda jovem, saudável e que acompanha com obsessivo rigor as orientações médicas sugeridas em programas de tevê, revistas e jornais. Ela professora universitária, e ele redator de publicidade. Ou vice-versa. O importante é que trabalham e gastam o que ganham, sem pena.
No penúltimo domingo, à tarde, foram caminhar no Dique, para manter a forma. A pista estava coalhada de pais com seus filhos ariscos e de sonhadores casais de namorados, estes quase sempre enroscados sobre a grama, como insetos. Poucas pessoas, com efeito, andavam para cuidar da saúde. Naquele fim de domingo, caminhavam apenas por prazer, para se abstrair da vida. De vez em quando, à volta do casal, estourava um choro ou um riso, quando não uma gargalhada, certeza de sangue correndo nas veias, de coração firme bombeando, regular e com vontade, algo muito mais que sangue...
Andaram por cerca de 45 minutos, o tempo exato de duas voltas, em ritmo forte, num perímetro de mais ou menos 2.500 metros. Uma equipe de tevê trabalhava, e em dado momento, na metade da segunda volta, a jornalista parou o rapaz e lhe perguntou o que ele entendia por espiritualidade. Assim, bala de estalo, ele não soube responder. Além do mais, nunca pensara seriamente no assunto, mesmo porque só lhe interessavam os assuntos ou temas relativos a si mesmo e ao seu trabalho... Todo o resto ele via como conhecimento supérfluo, inútil. Com um movimento esquivo e um breve pedido de desculpa, se livrou da jornalista.
Ao fim da caminhada, sem que ocorresse mais nenhum incidente digno de nota, estavam famintos. E o rapaz pensou no bolo que tinham comprado dois dias antes e que ele já se imaginava comendo, acompanhado de uma fumegante xícara de café com leite – nem muito quente que não pudesse saboreá-la, nem muito morna que lhe causasse repugnância.
Durante o percurso até em casa, na rua Almeida Sande, Barris, conservaram-se em silêncio, cada um meditando à sua maneira sobre seu passatempo preferido. Ele colecionava, com indissipável obsessão, obras literárias de cunho psicológico. Já a esposa, dedicava seu tempo livre a fotografar paisagens e ruínas. Este trabalho diletante lhe rendera dois segundos lugares em concursos nacionais.
Chegaram em casa suados. Mas, como estavam famintos, preferiram primeiro tomar café a se jogar debaixo do chuveiro. Esquentaram água, coaram o café, puseram a mesa e finalmente, depois de apanharem na geladeira os últimos itens – açúcar mascavo, ricota, margarina leve e geléia dietética – sentaram-se à mesa. Por obra do acaso, o bolo ficou perto da moça, ao alcance de sua mão. Enquanto comia, ela o pegou, ainda encerrado na embalagem de papel-cartão, e começou a ler a tabela nutricional e a relação de ingredientes, componentes e conservantes. O marido, à sua direita, sorvia seu café com sofreguidão.
– Amarelo-crepúsculo.
– Quê?! – ele soltou, a xícara parada no ar, a meio caminho dos lábios.
– Amarelo-crepúsculo.
– Amarelo-crepúsculo?
– É.
– E o que é isso? – ele perguntou, alheio.
– Uma substância química. E altamente prejudicial à saúde. Uma das piores.
Ela ergueu a caixa do bolo, que ficou bem à vista do olhar do marido.
– E veja, tem outras substâncias, iguais a essa ou até mesmo piores – sentenciou. – Azul-brilhante, vermelho-papoula... Cara, este bolo é uma verdadeira bomba!
Ele depôs a xícara no pires.
– Você tá exagerando.
Já nem sentia vontade de comer o bolo, nem sequer de olhá-lo, ainda que estivesse dentro da caixa, oculto.
– Não. É sério. Eu mesmo me assombro – ela comentou, em tom peremptório, encerrando a conversa.
E meio que descuidada, com certo desdém pelo produto, largou a caixa. Na verdade, quase a jogou sobre a mesa, contra os utensílios, os recipientes, a lata de biscoito. Passados alguns minutos, o marido criou coragem e abriu a caixa. De fato, o bolo era amarelo, quase amarelo-crepúsculo. Ele parou, hesitante. De pronto, seu estômago se revoltou, e o esôfago lhe fez subir, de modo presumivelmente árduo, penoso, qualquer coisa de indefinível, jamais sentida antes e talvez amarela, se ele chegasse a vê-la um dia... Controlou-se, porém, cortou uma fatia e, destemido, a abocanhou até a metade. Fora um ato temerário, de difícil sustentação, mas ainda assim ele o levou adiante, até o fim do café. A esposa – ou por medo ou por devoção aos seus princípios – nem tocou no bolo.
Mais tarde, diante do computador, a catalogar as mais recentes aquisições de sua coleção, o marido começou a se sentir mal: um espesso bolo subia-lhe lentamente do estômago direto para a boca. Uma massa túmida, quente. Parecia que ele, a qualquer momento, veria subir de suas entranhas o próprio sol, certo mingau de cimento e luz. Quando, pouco depois, o mal-estar atingiu seu paroxismo, ele chamou a mulher.
No dia seguinte, prostrado de febre e confinado a uma desagradável sensação de fastio, não foi trabalhar. Entontecido, pesado, mal saiu da cama, exceto para ir ao banheiro, quando então quase caiu, ao chocar-se contra a lâmina invisível da porta. Não entendia o que estava lhe acontecendo, nem até quando resistiria, se é que resistiria...
Às nove horas, certa de que o marido não apresentava melhora alguma, a mulher telefonou para a agência de publicidade e justificou sua ausência. A moça que a atendeu perguntou o que ele tinha. Esperava que não fosse nada grave...
– Não, claro que não – a esposa respondeu, séria, com estoicismo. – Ele só está um pouco amarelo, quase amarelo-crepúsculo. Mas acho que não chega a ficar cinza-lápide, muito menos preto-abismo.
– ?!
Às suas costas, na cama, o marido ia ficando azul...
MAYRANT GALLO. Correio da Bahia, 28 de abril de 2002. Foto: Bolo Corecaveiras, por pinkpunkgirls.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:42
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INFÂNCIA E IDADE ADULTA: CONTRAPONTO

Um dos temas mais recorrentes da literatura universal é a infância, não raras vezes abordada em contraponto com a idade adulta. André Breton cogitou que a infância talvez fosse a verdadeira vida, enquanto o nosso saudoso José Paulo Paes, num de seus memoráveis poemas, chegou à conclusão de que a idade adulta é o exílio no tempo, em contraste com o exílio no espaço, de Gonçalves Dias. Bem, assim como o astrônomo Carl Sagan, em criança, se perguntou o que eram as estrelas, nós, poetas, sempre voltamos a nos perguntar o que é a infância. Temos aqui 14 prováveis e diferentes respostas, mas a única certeza mesmo é que tanto as estrelas quanto a infância estão muito distantes...
OUTROS DIAS
A menina de outrora, não há mais. Nem mesmo os domingos e os verões são iguais. Agora, conto as horas, conto os dias. Antes, nem o sabia.
Os meus sentimentos eram leves E as cores tão mais alegres... Não tinha os medos de agora, Tampouco essa solidão que tanto me apavora.
Da menina de antes, quase nada restou. Só as tranças, e a mesma lembrança em alguma dor.
DANIELA RODRIGUES
DEIXAI-ME, DESTINO
Deixai-me, Destino, ver-me menina Andando num milharal antigo, a ouvir Meus breves passos no chão... Deixai-me.
Que nem é tarde ainda, mas minha mãe me chama, Para que eu a acompanhe... E a manhã vai longe, caindo sobre as casas que pouco a pouco encontramos...
Deixai-me, Destino, ir com ela de novo. Meu vestido é curto, o mesmo de antes: bordada na frente, uma carrocinha de flores...
ÂNGELA VILMA
O ABRIGO
Minha infância é um país destruído, do qual parti em sobressalto, numa noite sem sonhos. Estávamos todos acordados, os colegas de jardim, os vizinhos, o namorado de oito anos, seguindo por ruas desertas, e em ruínas.
Deserdados, e de mãos dadas, buscamos abrigo seguro, deixando nossas mãos soltarem-se, umas das outras. Não sei dos outros, mas cheguei aturdida – sem adolescência que desse conta, do passaporte e da bagagem – numa outra espécie de vida.
KÁTIA BORGES
SONINHO
Chora, criança, dormir é castigo a quem quer brincar, pular, correr.
Seca as lágrimas!
Ri, senhora, dormir é alívio a quem quer sonhar, e já vai morrer.
Secam as lágrimas!
MARCELA SOARES
DOMINGO
Queria que a vida inteira Fosse um domingo... Tudo seria De um contentamento infindo... E eu seria Como uma menininha Que numa manhã de sol Vivesse a feliz dúvida Entre uma boneca e um velotrol.
A. CAFÉ-GALLO
EPIGRAMA PERDIDO NUM LIVRO
Na infância, o sonho marca presença. Na idade adulta: a indiferença...
LIDIANE NUNES
ELEGIA
A colcha de retalhos no canto tantos anos e quedara-se sobre a cama vazia.
Os retalhos, cabelos brancos da mãe caindo.
(Tantos fios cansados e noites de prantos.)
A colcha de retalhos no canto guardando os passos...
PAULO ANDRÉ
TEMPO
Se é mesmo breve a ilusão entre o primeiro e o último alentos, misericórdia, ó minha vida; dê-me somente toda a infância, antes do fim,
porque tudo é morte.
ELIESER CESAR
O MENINO E EU
Eu tenho dor, obrigações e conta no banco Ele tem fantasia e histórias pra contar
Por isso me consumo em fortalecê-lo
Quando eu partir, ele ficará
CARLOS BARBOSA
O PROCESSO
Pacientemente desmonto o relógio. Cuidadosamente separo as peças e diviso o complexo funcionamento do aparelho.
Contudo, meu pai entra no quarto e abre a janela para o vento passar. E violentamente o vento leva as peças do relógio.
THIAGO LINS
CRIANÇA INFINITA
Nome do mundo: cidade infinita, Criança encantada, Nas vagas da meditação.
“Eu era o reino que sonhei confuso, Reino musical de espelhos, Deslumbrante dança de violões alheios Nas margens imaginárias da canção.” Se houvesse um nome no mundo Para recordar esta criança infinita, Diria apenas “Encanto”. Se houvesse um reino, Se houvesse, de fato, Uma criança musical No sonho dessa meditação.
ANDRÉ SETTI
IDADES DA VIDA
a vida de um especialista em simulações em dez atos desatados na palma da mão: a pressa na queda dos cabelos que cresceram no ar como fogo, a vazante orquestrada por meus cílios ansiosos em captar sinais, a consciência da grama morrendo sob os pés, do sol perfurando as páginas do meu rosto e da pele, deserto de mortais transumâncias. mas nunca esqueço peito garganta boca aos gritos, e, se abandono o futuro que tive no passado, também perco o antigo escudo de aço na luz dos meus olhos. por isso quero a loucura do mesmo instante de outrora que ainda vivo percorre lá fora meu corpo que brinca com as pedras soltas da calçada.
SANDRO ORNELLAS
CÉU NEGRO
As nuvens sobre os prédios extraem de tudo seu brilho eterno
Há um instante de silêncio na rua vazia
Há um instante de medo no olhar da menina
Que compreende à janela que a vida não é o que ela espera
MAYRANT GALLO
TELEOLOGIA II Ontem, ao conversar comigo, dei-me conta de que hoje sigo para amanhã se encontrar comigo.
GEORGIO SILVA
Foto: esta aí em cima é a carioquinha Maria Clara, de apenas alguns meses...
Escrito por Mayrant Gallo às 11:17
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CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE MIGUEL TORGA

LEGADO
O que eu espero, não vem. Mas ficas tu, leitor, encarregado De receber o sonho. Abre-lhe os braços, como se chegasse O teu pai, do Brasil, A tua mãe, do céu, O teu melhor amigo, da cadeia. Abre-lhe os braços como se quisesses Abarcar toda a luz que te rodeia. Não lhe perguntes porque tardou tanto E não chegou a tempo de me ver. Uns têm a sina de sonhar a vida, Outros de a colher.
HORA DE ABANDONO
Não dizer nada, chorar. Chorar como uma criança Que já não tem confiança No próprio Deus da doutrina. Não dizer nada, chorar Até o pranto coalhar Na retina.
MIGUEL TORGA (1907-1995). Poeta, contista, romancista, ensaísta e memorialista português. Um dos grandes estilistas do nosso idioma. Sua poesia ainda está dispersamente publicada no Brasil. Deixou-nos, entre outras obras, Bichos (1940), Contos da montanha (1941), Rua (1942), Novos contos da montanha (1944) e Vindima (1945). Poemas extraídos de Cântico do homem (Coimbra, 1950).
Escrito por Mayrant Gallo às 17:21
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