C O N T R A M Ã O


UMA OBRA-PRIMA DE PESSOA

LIBERDADE
(falta uma citação de Sêneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original,
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

FERNANDO PESSOA (1888-1935). Com Camões e Eça de Queiroz, forma a tríade de gênios da literatura portuguesa. É reconhecido atualmente como um dos maiores poetas do mundo em todos os tempos. A quase totalidade de sua produção poética está no volume Obra poética (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001).

Foto acima: www.flickr.com



Escrito por Mayrant Gallo às 07:51
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RETRATO DE UM PAÍS

O SISTEMA (1)

Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juízes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.

EDUARDO GALEANO (1940). Um dos mais importantes escritores do Uruguai e das Américas. Há vários livros seus publicados no Brasil, como Mulheres (1997), Vagamundo (2000), Dias e noites de amor e de guerra (2001), Futebol ao sol e à sombra (1995) e O livro dos abraços (Porto Alegre: L&PM, 1991), do qual se extraiu o texto acima. Tradução do contista Eric Nepomuceno.



Escrito por Mayrant Gallo às 08:20
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A DÚVIDA

"Não ligue para o que ela diz, engenheiro, e me acompanhe", interveio Barbieri. "O Ponto de Interrogação é o símbolo do Bem, assim como o de Exclamação é o símbolo do Mal. Quando no caminho topar com Pontos Interrogativos, com os sacerdotes da Dúvida positiva, pode ter certeza de que são ótimas pessoas, quase sempre tolerantes, disponíveis e democráticas. Quando, ao contrário, encontrar Pontos Exclamativos, os paladinos das Grandes Certezas, os puros de Fé indestrutível, então tome cuidado, porque a Fé com muita freqüência se transforma em violência. E note bem que eu aqui não estou falando somente de Fé religiosa, mas também de Fé política, de Fé esportiva, enfim, de qualquer tipo de Fé. Os integralistas islâmicos, os torcedores de futebol, os ativistas negros ou vermelhos pertencem, todos eles, a uma mesma raça, aquela que julga ser a única dona da Verdade, como se pudesse existir realmente uma verdade única e sem controvérsia. A Dúvida, ao contrário, é uma divindade discreta, é um amigo que bate delicadamente à sua porta. A Dúvida expõe suas idéias com calma e está pronta a mudá-las radicalmente assim que alguém demonstre que estão erradas. (...) O Acaso ou o Destino, o Big Bang ou Nosso Senhor, isso não faz a menor diferença. Um dia viremos a saber. Quando eu combato a Fé, não o faço porque não acredito na existência de Deus, mas porque não quero 'descansar' sobre o dogma. Prefiro viver duvidando, a arquivar Deus como um dado adquirido. Eu vivo mais em companhia de Deus do que um católico praticante."

Duvidando:

"E o Presente? Existe mesmo o Presente? Se é verdade que o Passado não existe porque não é mais, e se por outro lado é verdade que o Futuro não existe porque ainda não é, como pode o Presente existir, quando é apenas uma separação entre duas coisas que não existem?"
"Pode existir algo", diz Santo Agostinho, "cuja condição de existência é a de cessar de existir?"

LUCIANO DE CRESCENZO (1928). Engenheiro, escritor e diretor de cinema italiano. O excerto acima é do livro A dúvida (Rio de Janeiro: Rocco, 1997), uma pequena jóia de conhecimento, criatividade, reflexão e... dúvida. Autor ainda de Helena, Helena, meu amor (Rocco, 1994), romance histórico.

Foto acima: For Katie, Evan Lane.



Escrito por Mayrant Gallo às 10:10
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MAIS OUTRO CONTO

Soldados sob um Hércules, por Andres Vargas.

GUERRA

A guerra chegara a uma trégua. O front, quieto e em silêncio, convidava os passarinhos a voltar aos vôos e as borboletas a ensaiar novas cores. Dois coelhos brancos, saídos talvez de um tempo remoto, sem desavenças nem disputa pela vida, deixaram a toca e percorreram por um momento toda a faixa de terra que separava um exército do outro. Lá longe, depois de uma pausa, continuaram a correr e a pular, até que desapareceram. Mesmo as guerras precisam de um descanso.

Plato passara a manhã na cama. Não havia missão para aquele dia, nenhuma escaramuça, e além do mais ele estava de folga. Conseguira três dias de licença do comandante, porque mandara para a morgue dois árabes. Talvez até ganhasse uma medalha e, se tivesse sorte, alguns dias em casa. A família, o rosto da namorada, o clube, o professor Endre, seu amigo Oe, Naomi... Plato deixou a cama, vestiu-se e saiu. No corredor, olhou a escala de serviços. George estava no Galpão C, empilhando, como se dizia. É verdade que dessa vez não eram muitos: uma dúzia? dez? Menos, talvez. Ou mais. Nunca se sabe ao certo por vê-los cair um após o outro. Só mais tarde, na morgue, a contagem era limpa e precisa. De uma exatidão de pedra.

O acampamento estava vazio, só as sentinelas esquadrinhavam o horizonte. E mesmo assim desatentas, despreocupadas, seguras de que também do outro lado a trégua era um descanso necessário. Plato seguia de mãos nos bolsos. Tinha um curativo à altura do ombro, e uma tipóia lhe fora recomendada, mas ele a deixou no alojamento, pois sentia vergonha de se mostrar ferido... A não ser que fosse um ferimento tão grave, que o enviasse de volta. Andou uns quatrocentos metros até chegar ao Galpão C. Era como um enorme hangar, porém mais baixo. Logo à entrada sentiu um cheiro adocicado de morte, de matéria humana voltando à terra. Não avistou ninguém. Só os montículos negros alinhados em fila. Contou nove. Depois chamou por George. Um soldado negro saiu por uma porta dos fundos, com um prato de comida nas mãos. Sorriu claro quando viu o amigo. Os dois se abraçaram, com efusão, o que por muito pouco não derrubou o prato.

"Cê tá sozinho?"

"Pois é, caí no sorteio e tive que ficar. Como se alguém fosse se interessar por isso aí...", e apontou os corpos. Depois disse: "Mas venha, tenho algo pra gente".

Numa mesa, em que sem nenhuma dificuldade se percebiam pequenas manchas de sangue seco, algumas ainda num tom esmaecido de vermelho, os dois sepultaram mais de meia garrafa de uma bebida intragável, mas revigorante, imprescindível.

"Marcaram um futebol pra de tarde", Plato disse, animado.

"Onde? E que horas?"

"Perto da faixa (é o único lugar disponível, apesar do risco...), às quatro horas."

"Vou. Só preciso fazer algumas fotos e etiquetar. Depois, tô livre."

"Fotos?"

"É, agora tem isso..."

Nas duas horas que se seguiram, George puxou o zíper do saco de cada soldado morto, fotografou-lhe o rosto e colocou em seu pescoço um cordão com uma etiqueta: nome, número, graduação, cidade de origem, lugar em que foi morto e causa mortis. No terceiro corpo, já era Plato quem fotografava, com George segurando a cabeça do modelo, para que o amigo a enquadrasse melhor. E não era raro que um ou outro comentário jocoso escapasse, que George ou Plato dissessem: "Este não queria nada na escola, nem aqui; agora vai ter que ver o Diretor..." Ou então: "Este era descendente de um quilombola; ou melhor, de um quilo-de-bolas..." E riam, como meninos. E que ninguém os julgue, sem antes tomar a cargo trabalho parecido e não agir da mesma forma.

Quando terminaram, George disse que até as cinco horas a carrocinha de sorvete viria pegar os corpos, mas aí já não era com ele, seu trabalho terminara, que fossem ao futebol. Foram. Pelo caminho, tiveram a impressão de que a calmaria se acentuara. Sim, era a trégua, de alguns dias, mas mesmo assim havia uma guerra, e naquele momento era como se não houvesse. Quando se aproximaram do descampado, onde duas traves toscas foram improvisadas, avistaram a bola alçar-se em meio a alguns jogadores. Subia e descia, de um pé a outro, bem ou mal tratada, na roda de pesados coturnos. Misturaram-se. Alguém disse que era preciso começar logo, pois em pouco mais de uma hora ia escurecer. George se prontificou a escolher um time, e Rulfo, do décimo-primeiro batalhão, o outro. Plato e George, no mesmo time, iam jogar juntos no ataque, e isso os divertia, um prolongamento, de certo modo, da atmosfera de há pouco, entre os mortos. O goleiro do time adversário recomendou que se guardasse o lugar do tenente... "Que se dane!", um jovem soldado retrucou, em tom enérgico, e então deram início ao jogo.

Estava 4 a 2 para o time de Plato e George, quando ali perto, ao norte, do lado inimigo, subiu uma bandeira branca. Um encardido trapo de camisa, na verdade. A reação de todos os soldados envolvidos no jogo, e de mais alguns que à beira do campo esperavam sua vez, foi mais do que estranha. Quiseram pegar nas armas, mas não havia armas, estavam limpos. Dois ou três, amedrontados, em pânico mesmo, até pensaram em sair correndo: só parar no alojamento, em segurança, talvez debaixo da cama... Após a bandeira, surgiram alguns rostos, duas ou três vozes, numa garatuja de sons que desejavam explicar a situação e, não havia dúvida, travar contato... Contato sem sangue, sem embate, sem ódio, sem diferenças de nenhuma ordem. Contato por coisa alguma. Contato livre e espontâneo, porque é assim que deve ser entre os homens.

"Acho que eles querem jogar", George disse, rindo, a bola nas mãos.

Todos riram também, até o tenente, que havia mais de meia hora esperava sua vez de entrar no jogo. E o inimigo avançou, enquanto se confabulava acerca daquela estranha situação, daquela insólita batalha que, em minutos, teria início. E os soldados inimigos já mexiam a bola, passavam-na de um para outro e também aos oponentes, que enfim pararam de discutir e se entregaram à troça...

Dizem que a trégua se prolongou por três semanas e só parou com um pênalti mal-marcado. Dizem ainda que jamais houve trégua, muito menos jogo. É o que dizem, mas dizem também que isso é boato de cúpula, de mesa de general insatisfeito com os rumos da guerra. O certo mesmo é que Plato, ferido gravemente, voltou para casa meses depois, e que George continuou a tirar fotografias e a pôr etiquetas, pois não há outra maneira de fazer a guerra.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 19/05/2007. Para Tom Correia, que adora futebol, apesar da velhacaria que envolve este jogo.



Escrito por Mayrant Gallo às 08:01
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EM TEMPOS DE PAPA...

SHEILA E MIGUELÃO

Sheila era uma privada. Mas ela odiava que a chamassem assim. Preferia vaso, patente, latrina. Desde que Picasso pintara flores coloridas em sua tampa, andava toda cheia de si. Achava que era a rainha da cocada preta e que podia fazer o que quisesse. Foi quando começou a se revoltar. Primeiro, cuspia água na bunda de quem nela sentava. Depois, arremessava nas pessoas as cacacas por elas produzidas. Por fim, tragava todos que dela se aproveitassem.

O escândalo se deu no Natal em que engoliu um Papa. Tiveram que pedir ajuda a Miguelão, um notável pintor de paredes local, amigo do Sumo Pontífice. O rapaz mergulhou em Sheila e, com extrema perícia, puxou o amigo pela mitra. Foi puxando, foi puxando, até que todo o Papa apareceu, nu e vivo, para receber os aplausos da turba cristã aliviada. Isso aconteceu há muito tempo. (Sheila não existe mais.) Mas até hoje o fato é lembrado pela população que, quando realiza uma grande façanha, diz que tal coisa foi feita à moda Miguelão.

VERONICA STIGGER (1973). Contista gaúcha, recém-publicada pela CosacNaify, com o volume Gran cabaret demenzial, do qual se extraiu o miniconto acima. Publicou ainda O trágico e outras comédias (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004). Seu estilo é marcado pela ironia e pela extravagância temática.

Foto acima: www.flickr.com



Escrito por Mayrant Gallo às 18:43
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UMA OBRA-PRIMA DE OSWALD DE ANDRADE

Edward Hopper (1882-1967)

O RECRUTA

O noivo da moça
Foi para a guerra
E prometeu se morresse
Vir escutar ela tocar piano
Mas ficou para sempre no Paraguai

OSWALD DE ANDRADE (1890-1954). Poeta tão moderno e avançado que nem mesmo hoje consegue-se superá-lo. Um marco do nosso lirismo. Foi também dramaturgo, romancista, cronista e ensaísta. Principais obras: Memórias sentimentais de João Miramar (1924), Serafim Ponte Grande (1933), O rei da vela (1937) e Poesias reunidas (1945), de cuja  terceira edição (Civilização Brasileira/INL/MEC, 1972) extraiu-se o poema acima.  



Escrito por Mayrant Gallo às 08:47
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UMA OBRA-PRIMA DE VINÍCIUS DE MORAES

A menina santa, de Lucrecia Martel.

PAISAGEM

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé de grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo...

VINÍCIUS DE MORAES (1913-1980). A condição de letrista e músico foi algo incidental na vida de Vinícius. Sua principal vocação era a poesia, que o transformou num dos maiores líricos do nosso idioma. Poema extraído de Antologia poética (Rio de Janeiro: José Olympio, 1980).



Escrito por Mayrant Gallo às 17:28
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UMA OBRA-PRIMA DE QUINTANA

GUERRA

Os aviões abatidos
são cruzes caindo do céu.

MÁRIO QUINTANA (1906-1994). Irônico, fino, variado e profundo, apesar de sua aparente simplicidade, Quintana é seguramente um dos mais importantes e originais poetas do século XX. Poemeto extraído de Apontamentos de história sobrenatural (Porto Alegre: Globo, 1977), um de seus melhores livros.

Foto acima: www.flickr.com



Escrito por Mayrant Gallo às 18:02
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MAIS CONTO

Foto: www.flickr.com

OS AZUIS

Quando o avião passou, baixo e avariado, um risco de fumaça no céu, o rapaz acabara de pular o córrego e marchava na trilha, seguido pela garota. Dirigiam-se a uma caverna ali perto, recortada na base rochosa da colina e escamoteada por um matagal. Deca parou e olhou para trás. O avião voava tão baixo que, um segundo depois, ouviu-se o som trovejante de sua queda. A garota fez menção de voltar, mas o rapaz a segurou pelo pulso. Antes ele não queria nada com ela, mas, agora, depois de tudo, nem mesmo aquele avião poderia pará-lo. Assim, não deu importância ao acidente nem ao que se seguiu. "Não, Miguel, não quero mais", ela gemeu. "Vamos!", ele ordenou, sem soltá-la. Via-se que a queda do avião preenchera na garota, ao menos por um instante, a necessidade de novidade, que é a mesma que faz uma criança amar um incêndio, admirar um carro batido, gozar uma noite insone num velório.

Continuaram caminhando. O rapaz afastava os arbustos com um braço e, com o outro, puxava a garota, que inocentemente se voltava para olhar o fio de fumaça que subia da aeronave caída. De vários pontos do cerrado curiosos acorriam. Foi numa revolução quase simétrica que a multidão decobriu os malotes de dinheiro e o casal adentrou a caverna. Enquanto lá embaixo, em meio aos destroços e aos corpos de dois homens, mãos pilhavam e lutavam, os dois jovens mergulhavam nas entranhas de pedra. Quando chegaram ao fundo, Miguel tateou a aspereza da parede e, achando o candeeiro, o acendeu. Com a luz veio o grito. Deca avistara, ao fundo, encolhidos, dois seres, uma garota e um menino, ambos azuis... Tinham olhos amendoados e frios, nariz fino, de traços longos, e lábios comprimidos num único risco. Não se pareciam com ninguém da região.

Na tevê, dizia-se que o povoado estava em polvorosa e, mais que isso, aterrorizado. Depois do avião cheio de dinheiro, vieram os policiais e, em seu encalço, os facínoras. Moradores foram espancados, outros tinham desaparecido e muitos, em pânico, começaram a deixar o lugar no mesmo dia do acidente. Duas semanas haviam se passado e muito se falava do avião, mas nada da descoberta de Miguel e Deca na caverna. Agora, o padre de Lus tinha vindo e se trancara em conferência com as duas famílias. Dias antes, chegara um professor de línguas, acompanhado de um sujeito que se apresentou apenas como um curioso dos fenômenos bizarros. Mas nada do que eles disseram e fizeram motivou os azuis a falar. Aliás, quase não reagiam a nenhum estímulo. A maior parte do tempo ficavam no canto do aposento sem luz, um agarrado ao outro. Desde o primeiro dia se instalaram na casa de Deca, acomodados num quartinho nos fundos do quintal. As duas famílias assim decidiram depois de duas horas em reunião. Não eram a favor de manter os azuis ali, mas reconheciam que havia na presença deles qualquer coisa de peculiar e importante. Então que ficassem, e que eles, os anfitriões, fizessem alguma coisa, que chamassem fosse quem fosse, o governo até, ou a igreja, mas não a polícia, nada de polícia... Começaram a sondar cautelosamente (e a confusão promovida pelo avião, neste caso, foi mais do que benéfica), até que chegaram ao professor e ao seu amigo, que não conseguiram senão acuar ainda mais os azuis. Ao fim da entrevista, nem queriam mais comer as frutas que Deca lhes trazia, o único alimento que não recusaram e que forneceu, aos seus corpos esguios, alguma força. O professor foi embora dizendo que eles não falavam nossa língua, nem talvez nenhum idioma ocidental conhecido. Já seu colega, pouco eloqüente, assim arrematou: "Não são deste mundo".

Não seria de estranhar que um ou outro mais cedo ou mais tarde adoecesse. O menino não estava bem (o olhar apagado, a boca aberta num imóvel esgar de ânsia, o corpo fundido ao colchão encharcado de suor) e por certo não sobreviveria. Por isso, depois de tentar sem sucesso um médico em Lus, tinham chamado o padre. Este, mal olhou as duas crianças (a garota não tinha mais que dezesseis anos, e o menino, oito), persignou-se e, levando ao nariz seu lenço imundo, convocou as duas famílias. Ao término de duas horas de conversação, chegaram a um acordo. Morto o menino, o padre abrigaria a moça, pois estava mesmo precisando de alguém que lhe fizesse os serviços domésticos...

Nos dias que se seguiram, ao mesmo tempo que a pilhagem do avião ganhava relevo nacional (com ênfase, às vezes irônica, em todos os telejornais diários) as duas famílias aguardaram (com ansiedade, pois já não suportavam os azuis) a morte do garoto. Afora água e as mesmas frutas colhidas por Deca, jamais lhes ofereceram qualquer outra coisa. Nem mesmo remédio, quando notaram que algo de estranho se passava com o menino. Nesse ínterim, o pai de Miguel foi confundido com um dos moradores que tinham enriquecido com a queda do avião e levou uma boa surra dos policiais e outra, não melhor, dos bandidos. E só não vieram à sua casa porque ele disse que morava no acampamento dos mineiros, ao norte, e por lá já não havia mais o que revistar. Também o pai de Deca foi apertado e, confuso com os tapas e as ameaças, acabou por revelar a existência dos azuis. Então os bandidos chegaram (um policial conhecido os acompanhava), e foi com a chegada dos bandidos, aquela última fresta de luz diurna a invadir o quartinho, que o menino morreu. Ouviu-se então, e pela primeira vez, a voz da garota, um lamento inconsolável que se prolongou pelo resto da tarde e atravessou a noite. No dia seguinte, bem cedo, enquanto se transportava o pequeno corpo para a nudez da terra perto do rio (de modo que apodrecesse mais rápido, aquela coisa azul e repulsiva), a moça foi arrastada à casa do padre.

Sabe-se que por lá viveu cinco ou seis anos, em completo silêncio, e que seu corpo aos poucos engordou e que a pele, de um azul metálico inicial, transitou com o tempo a um suportável tom verde-oliva, e que chegou a namorar um sacristão, e que este acabou louco. Mas, da mesma forma que o acidente do avião foi esquecido, tanto quanto seus pilhadores, ela também o foi, e ainda mais que o padre não permitia que chegasse nem ao meio do jardim, quanto mais ao muro, de onde ela poderia olhar a rua e, bem mais adiante, os novos prédios, estranhamente coloridos e a se rivalizar com o céu... Como seu irmão, ela morreu numa tarde nublada e sem nenhum gemido, sem nota no jornal.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 12/05/2007.



Escrito por Mayrant Gallo às 16:22
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DOIS MINICONTOS RECENTES

Foto: Gustav M.

AMOR NA TARDE

Ele a observava há dias, ao lado de seu tabuleiro de biscoitos e doces, em frente à biblioteca pública.

Um dia parou o carro:

– Que tal uma volta?

A garota o olhou séria. Ele foi embora. Dias depois voltou:

– Que tal uma volta?

– Talvez...

– O que falta...? – ele rimou.

– Tenho que vender isso... – e apontou com desdém sua mercadoria.

– Quanto?

Ela hesitou. Enfim sugeriu:

– Cem?

– Dou 150 – ele disse, decidido.

Logo depois abriu o porta-malas, e a garota pôs tudo lá dentro. Mais tarde, foi ela quem abriu o porta-malas, e ele quem pôs tudo lá dentro...

Meses se passaram, e seus produtos ainda estão fechados na mala do carro. E ela, fechada em outro lugar...

 

A DOCE VIDA

Acordou cedo, por volta das cinco da manhã.

Leu dez páginas de Patrick Modiano e foi correr no Dique. Duas voltas. A primeira em catorze minutos, a segunda em treze. Felicidade? Talvez.

Depois voltou para casa, tomou um longo banho morno, fez um desjejum leve, sem café, sentou-se diante do computador e escreveu este poema...

Que só terminou agora, no fim da tarde, com a ausência do meu telefonema.

MAYRANT GALLO. De um livro de contos sempre inédito e ainda sem título.



Escrito por Mayrant Gallo às 11:52
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2 POEMAS DE CARLOS BARBOSA

Tom Correia, Carlos Barbosa e Thiago Lins: escritores em ação.

SOBRE TUDO E NADA

o livro sobre nada repousa sobre a cama
feito um pássaro de asas abertas
paradoxalmente preso ao lençol

espera pelo olhar malino
da leitora que o devasse

o livro sobre nada é tudo
que resta daquela noite


POEMA EM NOVE GOTAS
Segunda

do alto do cais da minha cidade
o pôr-do-sol

o pôr-do-sol nas águas
vale mais que a cidade

vale mais que a veleidade
de qualquer humana obra

CARLOS BARBOSA (1958). Romancista, poeta e contista baiano, que hoje completa 49 anos. Autor do belo romance A dama do velho Chico (Rio de Janeiro: Bom Texto, 2002). Poemas extraídos de Matalotagem e outros poemas da viagem (Salvador: Funceb/EGBA, 2006).



Escrito por Mayrant Gallo às 00:02
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UM CONTO SOBRE CRIANÇAS, GUERRA E TELEVISÃO

EKZ Fotos: www.flickr.com

NOTÍCIAS DE ALGUM LUGAR

A menina estava sempre correndo para diante da tevê. Era meio árabe, meio brasileira e chegara da região do Golfo, em guerra, havia apenas duas semanas. Quando o garoto da casa vizinha perguntou como se chamava, ela demorou a responder, em busca de palavras, e não as encontrando disse, simplesmente: Samira. Então Samira passou a preencher seus sonhos. A afastá-lo das obrigações na escola. A fazê-lo esquecer seus gibis, seus heróis e que tinha um pai e uma mãe e usava óculos. Era pequena e silenciosa, com dois dentinhos salientes que eram todo o seu charme. Um rostinho limpo de boneca no calor opressivo dos dias. E olhos graúdos, negros, sagazes.

"Por que você sempre corre?", ele perguntou.

"Pra ver a tevê", ela disse.

O telejornal, as notícias da guerra, o Golfo em chamas, ruas, casas, escolas, campos, tudo morto. O tios não queriam que ela assistisse a tanta crueldade, tanto fogo. Mas a menina insistia e no começo chegou a chorar por seus direitos de reconhecer aquelas imagens. Não aceitava que lhe dissessem não, que não pudesse saber como estavam seus pais, toda a sua família de tios e primos, lá no front. E via os aviões americanos em vôos vorazes. Os corpos empilhados, pessoas correndo, bombas explodindo. E a menina não entendia por que estava ali, por que não estava lá, sob os mesmos riscos... Diariamente os pais telefonavam dando notícias. Era o outro momento de sua corrida, do portão onde conversava com Danilo para perto do aparelho, na sala dos tios. Em geral, àquela altura, as notícias já haviam passado, e a família assistia à novela. Ao primeiro toque, Samira tirava o telefone do gancho.

"Tudo bem por aqui, filha", dizia o pai, com alegria. E logo vinha a mãe, a chorar.

Não estava menos seco o rosto da menina quando largava o telefone e voltava para junto de Danilo. Estrelas latejavam na noite calma.

"E então?", ele perguntava.

"Tudo bem", ela dizia.

No mês seguinte, ela começou a freqüentar a mesma escola do garoto. Iam e vinham juntos. No início, sérios, rígidos. Mas, depois, como dois coelhos numa floresta. Pulavam, brincavam, riam e, às vezes, forjavam cismas inexistentes que só intensificavam sua intimidade. Compreendiam sem espanto que nada é demais para o amor que nasce. Na tevê, agora, as notícias da guerra fulminavam a programação. Eram constantes, longas e inesperadas. Estavam assistindo a um desenho animado e, de repente, lá vinha um homem sem braço em meio à poeira. Numa ocasião Samira chegou a gritar, ao reconhecer numa dor o rosto de um tio. Abraçados, perceberam o falso alarme. No entanto, jamais se esqueceram daquela prévia macabra ao horror da dúvida.

Com alguns meses de bombas e de notícias bombásticas no telejornal da noite, começaram a sair juntos: cinema, shopping, parque e até livrarias. Enchiam de histórias encantadas seus dias cheios de tensão mórbida. Não era raro, ao lado de Samira, Danilo enganar-se de que também ele era meio brasileiro, meio árabe, com parentes no Golfo a sofrer uma guerra diária. Faltava pouco para também ele, um dia, gritar diante do rosto crispado de sofrimento em meio à poeira e às bombas.

Se os dias tornaram-se mais tensos, as noites, por sua vez, depois de tantas horas diurnas vazadas de sustos, eram quase um alívio. Houve vezes em que Samira nem entrou para conferir o telejornal da noite. Por um estranho hábito, achava que, acontecesse o que acontecesse, na hora marcada o pai telefonaria, sempre. E ela o ouviria, e depois à voz da mãe, ainda chorosa. E assim era, realmente. A poucos minutos do telefonema, eles entravam e, antes mesmo que o telefone tocasse, Samira o encarava, como se a qualquer momento fosse vê-lo tremer, para segundos depois explodir numa queixa vinda de muito longe, da aurora do mundo. Seus tios já não se preocupavam com Samira, achavam que ela estava bem, e que a guerra arrefecia. Talvez. Mas não era o que a tevê passava. Em estridência, e bombas verbais por parte do casal de apresentadores, veiculadas em cortes brutais e sucessivos, a alternar a fala de um e de outro, a guerra só começara. E por eles e toda a mídia jamais teria fim. A precisão americana em matar era comumente exaltada. Louvava-se até o fato de que em meio a tantos escombros uma parede sobrevivera de pé, intacta, com o retrato da família morta também intacto e sem qualquer ameaça de queda.

Para o amor convicto e genuíno só faltava aos garotos o beijo. E ele aconteceu, numa tarde no porão da casa de Danilo. Samira o acompanhara ali para ver sua coleção de gibis, que, desde que ele a conhecera, vinha sendo desprezada, preterida. Havia muitas caixas, todas lacradas, com o propósito de evitar tanto a ação da poeira quanto os tentáculos da umidade. Passaram a tarde a abri-las. Samira no entusiasmo da descoberta, Danilo no êxtase de sua alegria. Anos antes ele experimentara o mesmo sentimento, quando seu irmão mais velho, já casado, lhe trouxe sua antiga coleção, cuja leitura Danilo levou quase um ano para totalizar. E agora a história se repetia, com a garota que ele amava... Foi então que a beijou. E ela a ele, numa reciprocidade de amantes que há semanas não se vêem e cujo peito se acelera a cada lembrança, a cada bilhete ou mesmo diante de uma trivial referência, como por exemplo o som de uma palavra que lembre o som de um nome, um nome que não é possível esquecer nem mesmo sob os escombros. Beijaram-se e logo beijavam-se de novo. O beijo era tudo.

Mas enfim, numa manhã de sábado, o plantão de notícias explodiu mais grave na tela da tevê. Estavam sozinhos na sala, a tia de Samira na cozinha, e o tio no clube disputando um campeonato de copas. As imagens eram exatas, precisas como as bombas que as produziram. A rua em que a menina morava era agora uma cratera. Ela a reconheceu pelas árvores ainda de pé e pela ausência de sua casa. E gritou. Danilo olhava fascinado a poeira, a fumaça, os trapos de pessoas espalhados pela terra. Um bando de zumbis a buscar sobreviventes... Ele tentou abraçar Samira, mas ela só queria abraçar a tevê, e foi nessa estranha luta que a tia os encontrou, quando veio da cozinha, atraída pelo grito.

Naquela noite, ainda que todos o encarassem, o telefone não tocou. Nem nos dias seguintes. Nem nunca mais.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 2005.



Escrito por Mayrant Gallo às 18:52
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