C O N T R A M Ã O


OS SINGULARES MICROAFETOS DE WLADIMIR CAZÉ

Grafite no cais de Juazeiro, por C. A. I. S.

No alvoroço de um terraço vulcânico,
o escaravelho zarolho de índole pacífica
avança sobre a muriçoca em pânico:
escândalo inédito na primeira página.

                              *

No canto de um polígono turístico,
um ácaro calmo de verniz lírico
acaricia uma joaninha cândida:
vínculo tátil em contexto quântico.

                              *

No musgo de um muro pouco higiênico,
as antenas de um caramujo obsceno
atraem uma centopéia elástica:
o encanto passa, mas deixa máculas.

                              *

A mariposa histérica, o irônico
pernilongo e o aracnídeo anacrônico
são casos típicos, ou paradigmáticos,
de afetos múltiplos em insetos rizomáticos.

WLADIMIR CAZÉ. Poeta de Petrolina, que morou em São Paulo e que, por ora, reside em Salvador. Poemas extraídos de Microafetos (São Paulo: K, 2005). Quem se interessar pelo livrinho (uma bonita e ilustrada edição de bolso) pode comprá-lo diretamente com o autor: wladimircaze@gmail.com. C. A. I. S. é Central de Arte Independente Stencil.



Escrito por Mayrant Gallo às 07:35
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3 POEMAS DE EUGÈNE GUILLEVIC

Acossado, de Jean-Luc Godard.

APRECIEI O CARPINTEIRO

Apreciei o carpinteiro
Fazer uso da madeira.

Apreciei o carpinteiro
Comparar várias tábuas.

Apreciei o carpinteiro
Acarinhar a mais bela.

Apreciei o carpinteiro
Aproximar sua plaina.

Apreciei o carpinteiro
Atingir a justa forma.

Tu cantavas, carpinteiro,
Na montagem dos armários.

Eu conservo tua imagem
Junto ao aroma das tábuas.

Eu que palavras encaixo
Faço quase a mesma coisa.


NÃO, NEM TODOS

Não, nem todos
Amam a rosa.

Há quem prefira
Outras coisas.

Há quem prefira
Não amar a rosa.


JAMAIS

Jamais saberão as rochas
O que se fala delas.
Elas não precisam sorrir
Nem ficar altas.
Nem fazem queimar
Enxofre no nada.
Pois jamais
Pensaram na morte.

EUGÈNE GUILLEVIC (1907-1997). Poeta francês, cuja obra apresenta extrema concisão e intensa musicalidade, associadas a comparações sempre surpreendentes. Que se saiba, não há nenhum livro de Guillevic publicado no Brasil. Tradução: Mayrant Gallo.



Escrito por Mayrant Gallo às 11:38
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CONTO INSPIRADO POR UMA PÁGINA DE OBRA ALHEIA

Assédio, de Bernardo Bertolucci.

INCÓGNITA

Numa manhã de sexta-feira, Isabel amontoou algumas roupas numa velha mochila e tomou um ônibus para a cidade dos pais. Decidira passar ali uma curta temporada. Eles cuidariam dela, que brincaria com os cães e pela manhã ou à tarde daria longos passeios pelo bosque. Não telefonou para avisar que chegaria. Achou que era melhor lhes fazer uma surpresa, deixá-los felizes com sua inesperada presença. Mas, no ônibus, ficou pensando se de fato eles ficariam felizes... Talvez não.

Rever a casa de sua infância sempre a deixava com um nó na garganta. Os cães correram para ela, mal alcançou o portão. O pai chegou depois, atraído pelos latidos. Beijou-lhe o rosto enrugado, ao mesmo tempo que ele, pesadamente, aliviava-a do incômodo da bagagem. Seus cabelos estavam mais brancos, ela reparou. Mas não disse nada. Tampouco o pai lhe disse qualquer coisa. Enquanto caminhavam em direção à varanda, ele apenas apontou, no parapeito da janela, o novo gato de sua mãe, ainda incapaz de lidar com os cães. O antigo morrera em setembro, e só agora, em janeiro, a mãe encontrara outro à altura.

Seu quarto continuava intacto, com tudo que ficara ali de sua infância e adolescência. Estava limpo, ainda que ela tivesse chegado de surpresa. Abriu a mochila e passou as roupas pro armário, de madeira negra e cheirando a naftalina. Nas paredes, os pôsteres de suas paixões tinham amarelecido. E os poucos livros que ficaram na escrivaninha exalavam um odor de biblioteca, de falta de manuseio. Sempre se sentira bem em voltar à casa dos pais, e mais ainda se trazia alguém, o namorado ou uma amiga. Mas esse tempo havia passado...

A mãe não veio vê-la senão depois da sesta. Diariamente dormia até depois das quatro horas, num hábito quase religioso. Quando abriu os olhos e a avistou parada na soleira da porta, Isabel sentiu vontade de chorar. A mãe não foi afável. Apenas educada, receptiva. Contou casos, fez perguntas sobre sua vida, seu trabalho, e descreveu o estranho cotidiano dos novos vizinhos da casa em frente. Não deu chance à filha de falar senão o essencial para não deixar a conversa se transformar num monólogo. Isabel queria sair, passear, rever o pôr-do-sol que tanto afetara sua primeira vida, por trás das árvores, mas a mãe não deixou. Quando afinal saiu para preparar o jantar, Isabel deitou e descansou, embalada pelos latidos dos cães lá fora...

Sábado de manhã, saiu com o pai. Ele adorava lojas de ferragens e comumente encontrava alguma coisa para consertar em casa que justificasse a compra de peças e ferramentas. Correram mais de cinco lojas até que ele encontrasse tudo o que procurava. Isabel pensou o quanto continuavam distantes. Mantinham uma relação inabalável, que, se por um lado, jamais se estremecera, por outro ficara estacionada. Sem lhe cobrar qualquer coisa, o pai a deixou livre; e livre, ela jamais o desafiou. Duas retas paralelas, sem nem desvios nem pontes.

Perto do meio-dia, compraram um frango assado e foram para casa. À tarde, Isabel saiu a caminhar pelo campo. Visitou grutas de sua infância, estendeu-se na relva de seus primeiros amores, esperou e viveu o pôr-do-sol que por pouco não esquecera e que lhe fora tão caro em sua solitária adolescência. As nuvens e as montanhas se superaram ao lado do sol e ofereceram um espetáculo ímpar, cruel, que a emocionou. Foi como se houvessem percebido que Isabel estava ali, de volta, e para o amor.

Retornou com flores nas mãos, que espalhou em jarros na varanda, na sala e em seu quarto. A mãe a observou fazendo os arranjos. Os olhos marejados, um vinco de medo nos lábios tensos. Era como se soubesse de um segredo em que mal conseguia pensar, sem desatar a morrer.

Passaram a noite em frente à televisão, cada um imerso em seu próprio silêncio. Como Isabel gostaria de partilhar com eles sua angústia! Mas como também sentia vergonha, uma dor intensa que lhe dizia: não, jamais! Depois que os pais se recolheram para dormir, restou a Isabel o filme daquela noite, um policial qualquer, e mais tarde, em outro canal, uma produção antiga, em preto e branco, nostálgica como aquela casa, aqueles pais e a paisagem que a desmontara horas antes.

A missa de domingo de manhã aprofundou sua aflição e a fez decidir ir embora. Felizmente não dissera quanto tempo pretendia ficar. Se tivesse dito, a mãe não se conformaria com aquela visita de apenas um fim de semana.

Partiu depois do almoço. Os pais a levaram à rodoviária e esperaram o ônibus sair. Insistiram em lhe dar adeus, ao que ela correspondeu, sem ânimo. Despedidas a esmagavam, ainda mais aquela, insistente, sem aparente propósito, mas com um quê de verdade que lhe trouxe lágrimas aos olhos. Há quase vinte anos partira para estudar na capital e era só alegria, expectativa, vontade, corpo pronto para o amor. Agora... Não sabia. Era uma incógnita.

Segunda-feira de manhã foi chamada pelo médico, que, ao vê-la, sorriu:

"Eu sabia que você se decidiria pelo tratamento. É preciso ter esperança..."

"Não tenho", ela disse, sem fitá-lo.

E ele ficou espantado ao ver em seu rosto que ela dizia a verdade.

"Então por que veio?"

Isabel não respondeu. Auxiliada pela enfermeira, tirou a roupa e se estendeu na cama...

Logo ficou quieta e em silêncio, sem ninguém por perto.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 23/01/2005. Inspirado por uma página do romance Porte de arma (Le cran d'arrêt), de EMMANUÈLE BERNHEIM: Rio de Janeiro, Record, 1985.



Escrito por Mayrant Gallo às 11:49
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2 POEMAS

Foto: www.flickr.com

MARCO

Curvam-se as árvores
Contra a tarde

Nem venta nem chove

Ninguém passa
Nem um carro passa
Sem ninguém

Caminhos agora repousam
Pássaros pousam
Posso ir

Morreu o mundo
Ou fui eu que morri.

 

RECOMPENSAS

Foi ontem
Que aprendi a andar...

Hoje mesmo,
Pela manhã,
Que comecei a escrever...

Agora, à tarde,
O primeiro livro.

E mais tarde,
À noite,
O travo azedo
De ter sido.

MAYRANT GALLO. De: Recordações de Andar exausto (Aboio Livre, 2005). MAIS: http://www.germinaliteratura.com.br/mayrant_gallo.htm 



Escrito por Mayrant Gallo às 19:16
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CIORANISMOS DA AMARGURA

Edward Hopper (1882-1967)

1) Existe na estupidez uma gravidade que, melhor orientada, poderia multiplicar a soma de obras-primas.

2) Desconfie dos que dão as costas ao amor, à ambição, à sociedade. Se vingarão por haver renunciado a isso.

3) Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão.

4) Mistério, palavra de que nos servimos para enganar os outros, fazê-los acreditar que somos mais profundos que eles.

5) Mais que um erro de fundo, a vida é uma falta de gosto que nem a morte, nem mesmo a poesia conseguem corrigir.

6) Objeção contra a ciência: este mundo não vale a pena ser conhecido.

7) Aprofundar uma idéia é atentar contra ela: roubar-lhe o encanto e até a vida...

8) Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar.

9) Só sou eu mesmo acima ou abaixo de mim, na raiva ou no abatimento; em meu nível habitual, ignoro que existo.

10) Cedo ou tarde, cada desejo deve encontrar seu cansaço: sua verdade...

11) Só vivo porque posso morrer quando quiser: sem a idéia do suicídio já teria me matado há muito tempo.

12) Um amor que acaba é uma experiência filosófica tão rica que faz de um cabeleireiro um êmulo de Sócrates.

13) Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda dependemos dela por essa súbita necessidade de uivar - último grau do lirismo.

14) Uma moda filosófica se impõe como uma onda gastronômica: refuta-se igualmente uma idéia e um molho.

15) A morte se espalha tanto, ocupa tanto lugar, que não sei mais onde morrer.

16) A vantagem de se interessar pela vida e pela morte é que se pode dizer qualquer coisa.

CIORAN (1911-1997). Filósofo franco-romeno. O gênero de escritor cuja obra nos diz, ao fim da leitura: compre um corda e ache uma árvore. Sem papas na língua, nem na pena, Cioran não perdoa nem a si mesmo, o que pode ser comprovado nas ironias acima, extraídas de Silogismos da amargura (Rio de Janeiro: Rocco, 1991), em tradução de José Thomaz Brum. Outros livros de Cioran no Brasil: Breviário da decomposição (Rocco, 1989), História e utopia (Rocco, 1994), Antologia do retrato (Rocco, 1998) e Exercícios de admiração (Rocco, 2001).



Escrito por Mayrant Gallo às 12:16
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O TÉRMINO DOS PRAZOS

Ricordati di me, de Gabriele Muccino.

Cegamente atado
à tristeza e ao vinho
leio os livros escritos por mim, lembranças
sem brilho, poemas trôpegos
e fotografias azedas
rastros feitos na noite fechada.
Olho a ziguezagueante linha errônea
todo eu reduzido à tristeza
e à luz, a luz
que serenamente já não se pode contemplar
a inflamada luz de minha cabeça
e esses clarões de lentidão
sobre o próprio cimento de todas as minhas palavras
à tristeza ligadas, e ao vinho,
e às lufadas de vento negro
que empurram minha poesia para o desencontro.
Eu me vejo todo como um morrer
mais morrente aos trinta anos de amanheceres
e de noites, principalmente, sabendo
que há um automóvel estacionado à porta
de minha exposta casa
e que há um paciente, um indiferente,
um tolo chofer
que me levará à morte.
Assim, entre livros não publicados
e livros nascentes,
entre fotografias e garrafas
e amigos desaparecidos debaixo da terra,
ouvindo o fragor do mundo em chamas espero
o término dos prazos.

SAÚL KOSTIA. Poeta argentino, amigo do contista e romancista Roberto Arlt (1900-1942) e que, ao que parece, exerceu sobre este uma decisiva influência. O poema foi publicado na revista Claridad, em agosto de 1941, acompanhado de um comentário elogioso do próprio Arlt. Como previra em seu poema, Kostia não foi longe e acabou esquecido, ao lado de mais de 95% dos escritores. Esta tradução, de Heloisa Jahn, saiu no volume Nome falso (São Paulo: Iluminuras, 1988), de Ricardo Piglia.



Escrito por Mayrant Gallo às 10:04
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