C O N T R A M Ã O


CAFÉ E ARTE COM RENATA BELMONTE

A contista Renata Belmonte.

"Se você me perguntasse, responderia assim: cresci observando minha mãe colecionar vestidos para o grande dia, a data do retorno que nunca aconteceu. Às vezes, me escondia em seu quarto, apenas para tentar ser parte de seus delírios, cada roupa uma nova dramatização para o fim da longa espera. Vestir-se significava experimentar um pouco da felicidade projetada em seus sonhos. Quando morreu, tive dúvidas sobre qual deles ela deveria usar. Optei pelo que comprou por último, um longo rosa seco com leves bordados em prata. Imaginei que em seu enterro, ela talvez conseguisse o que tanto almejava. Ledo engano. Em cada palavra sentida, a ausência do único que importava. De preto, despi-me para sempre da esperança de qualquer aviso. E fiz a escolha pela nudez, transformando-a em profissão."

Primeiro parágrafo do conto A mesma de tempos atrás, de RENATA BELMONTE. A talentosa contista baiana nascida em 1982, e que já publicou dois livros – Femininamente (2003) e O que não pode ser (2006) –, é a convidada, no dia 17, às 18:30, do Café Literário da Bienal do Livro, em Salvador.



Escrito por Mayrant Gallo às 09:12
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A ARTE DE UM ESCRITOR

"Percebo que não há regras, que cada livro é diferente e exprime a personalidade de seu autor. Cada página, cada frase de qualquer escritor, pertence só a ele: sua escritura é tão pessoal quanto sua impressão digital."

FRANÇOIS TRUFFAUT (1932-1984). Cineasta francês, que nos legou pelo menos uma meia-dúzia de obras-primas, entre as quais Os incompreendidos (1959), O tiro no pianista (1960) e Jules e Jim (1962). Sua compreensão de cinema e literatura era invejável. O excerto acima consta do cine-romance O homem que amava as mulheres (Rio de Janeiro: Imago, 1995), em tradução de Fernanda Scalzo. 



Escrito por Mayrant Gallo às 08:39
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A GRANDE ARTE DE HEMINGWAY

"Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos - indiferentemente. Se vocês não estão em nenhuma dessas categorias, o mundo vai matar vocês, do mesmo modo. Apenas não terá pressa em fazer isso."

E muitos ainda dizem que ERNEST HAMINGWAY (1899-1961) era um mau escritor. Jorge Luis Borges chegou a afirmar, numa entrevista, que Hemingway era o pior escritor do mundo em sua época... Como Borges era um gênio, o perdoamos e continuamos a ler os dois - indiferentemente. Trecho extraído de Adeus às armas (Rio de Janeiro: Bertrand, 2002), em tradução de Monteiro Lobato.



Escrito por M. Gallo às 08:56
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3 HAICAIS GEOGRÁFICOS

Foto: www.banstur.com.br

ah itaparica
tuas luzes nesta noite
eu só nesta vida

          *

salvador – azul
do mar no céu ou do céu
refletido mar

          *

itacuruçá
o que fui sou ou serei
há de te lembrar

MAYRANT GALLO. Meio japonês também, às vezes.



Escrito por M. Gallo às 09:16
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PRECONCEITO RACIAL OU O QUÊ?

Assédio, de Bernardo Bertolucci.

RESPOSTA À MINISTRA MATILDE RIBEIRO

Se não querer viver com negros é preconceito
E não querer viver com brancos não é o mesmo,
Este país não tem governo
Nem inteligência
Nem sensatez.
É só um barco na corrente,
À mercê das tempestades e de si mesmo...
A propósito, e se houver naufrágio?
Quem será salvo primeiro?

MAYRANT GALLO. Um brasileiro branco-negro-índio, descendente de judeus italianos e de árabes da Península Ibérica.

Mais sobre preconceito racial em: http://mgallo.zip.net/arch2006-02-05_2006-02-11.html e http://mgallo.zip.net/arch2005-12-11_2005-12-17.html.



Escrito por M. Gallo às 08:43
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A ARTE, SEM CORREÇÃO, DE JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO

SEGREDOS    

     "- Apague o lampião. Quero lhe dizer uns segredos no quarto.
     Apaguei. Nem vivalma nos corredores. Meu tio, muito longe, na certa andava em trabalhos de astúcia, procurando comer algum parente pobre. Talvez que viesse sem a gente esperar. Eu tremia em formato de moça de primeira vez. Parecia uma coisa mole, sem força. Ouvi passos, ruídos de porta. Tudo mentira, invenção de minha cabeça. A cama era larga - senti que caía nos braços dos lençóis. Palavras de Dona Lúcia no meu ouvido. Sua boca sugava a minha. Morcegos. Pensei em morcegos. De repente, Dona Lúcia saiu de dentro do vestido, sem nada por cima. E na frente dela, pulando do branco do busto, duas belezas redondas vieram cair nas minhas mãos. Fechei o oratório, esqueci o padre Hugo e espanei da cabeça a lembrança dos santos. Tolices, mentira. Minha vontade inchou. Espetei Dona Lúcia."

JOSÉ CÂNDIDO DE CARVALHO (1914-1989). Romancista, contista e cronista fluminense, nascido em Campos dos Goitacazes. Sua prosa é, como a de Guimarães Rosa, um idioma novo, nascido da mistura de erudição e coloquialismo "incorreto". O romance O coronel e o lobisomem (1964) é, sem dúvida, a sua obra-prima e um dos cinco mais importantes romances brasileiros do século XX. Quem não leu perdeu. Seu primeiro romance, Olha para o céu, Frederico! (1939), do qual se extraiu o trecho acima, é um delicioso rito de passagem.



Escrito por M. Gallo às 06:49
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2 POEMAS DE W. B. YEATS

 Antes do pôr-do-sol, de Richard Linklater.

QUANDO VELHA E GRISALHA

Quando velha e grisalha e exausta ao fim do dia
Tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear
Lentamente este livro, e lembra o doce olhar
E as sombras densas que nos olhos teus havia;

Quantos, com falsidade ou devoção sincera,
Amaram-te a beleza e a graça de menina!
Um só, porém, amou tua alma peregrina,
E amou as dores desse rosto que se altera.

E junto às brasas, inclinando-se sobre elas,
Murmura, um pouco triste, como o amor distante
Passou por cima das montanhas adiante
E escondeu sua face entre um milhão de estrelas.


UMA MANTA

Para o meu canto fiz manta
Bordada com fantasias
De antigas mitologias
Do calcanhar à garganta;
E os tolos em seu proveito
Exibiram sua beleza
Como se a tivessem feito.
Canção, aceita o ocorrido:
Existe maior proeza
No andar despido.

W. B. YEATS (1865-1939). Poeta irlandês, um dos maiores de língua inglesa em todos os tempos. Poucos livros seus foram publicados no Brasil, infelizmente. A tradução é de Paulo Vizioli, de Poemas (São Paulo: Companhia das Letras, 1992). Mais W. B. Yeats: Purgatório (São Paulo: Cone Sul, 2000) e Teatro (Rio de Janeiro: Delta, 1963).



Escrito por M. Gallo às 09:52
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AS AVENTURAS DE NICOLAU E RICARDO, DETETIVES

Nunca fale com estranhos, de Peter Hall.

NEPOTISMO

     Nicolau e Ricardo foram chamados para resolver um caso numa cidade do interior. A cidade é tão pequena que não tem delegacia. Quer dizer, a delegacia funciona num anexo da prefeitura, também residência do prefeito.
     “E onde está o delegado?”, perguntou Nicolau.
     “Sou eu mesmo”, respondeu o prefeito.
Nicolau e Ricardo se entreolharam.
     “E o corpo policial? O senhor tem um corpo policial, não?”, perguntou Ricardo.
     “Tenho sim, minha guarda pessoal, formada pelos meus três filhos.”
     Novamente os olhares dos detetives se encontraram.
     “E afinal quem morreu?”, suspirou Nicolau.
     “Minha mulher.”
     “Sua mulher...?”
     “É.”
     “Como?”, inquiriu Ricardo.
     “Assim”, o prefeito passou o dedo no pescoço, querendo dizer: garganta cortada.
     “E quem seria o assassino?”, Ricardo de novo.
     “Dizem que sou eu”, o prefeito confessou, com naturalidade.
     Nicolau e Ricardo pularam do sofá, como se alfinetados nos subúrbios... Houve um silêncio constrangedor, e que os maus autores denominariam pesado. Os dois olhavam fixamente o prefeito, que lhes devolvia o espanto, impassível.
     “E onde vamos ficar?”, Nicolau perguntou, conformado.
     “No hotel.”
     Já sem paciência, Ricardo aumentou o tom de voz: “E onde fica o hotel?”
     “Aqui mesmo”, e o prefeito fez um largo movimento de queixo em direção à escada, que conduzia ao segundo andar da prefeitura...


BALANÇO

     Nicolau e Ricardo querem férias, mas o crime não pára. Nicolau e Ricardo estão cansados, mas os criminosos tiram energia do sol e se renovam como insetos. Nicolau e Ricardo gostariam de passar três semanas na praia vivendo só de vento e mar, mas os criminosos preferem prensar cédulas e contar papelotes. Nicolau e Ricardo gostariam de ir para a cama todas as noites à mesma hora e amar suas mulheres, mas os criminosos passam as noites em claro e, firmes como rochas, volúveis como água, só raramente cedem aos encantos de um ventre. Nicolau e Ricardo acham que, no fim das contas, pesados os extremos, os criminosos levam vantagem.
     “Talvez até sejam mais felizes...”, Nicolau reflete.
     “Livres, sem dúvida”, conclui Ricardo.


ROTINA

     Ao sol forte da manhã, Nicolau e Ricardo viram o corpo jogado de bruços sobre as pedras ainda úmidas de água salgada. Pela abertura do vestido, vêem o pênis.
     “Opa, mas é um homem!”, surpreende-se Nicolau.
     “Menos um”, ironiza Ricardo.


A CERTEZA

     Nicolau e Ricardo investigam o assassinato de uma adolescente, recém-ingressa na universidade. Todas as pistas conduzem ao pai.
     “Mas não foi ele”, disse Nicolau, com uma firmeza que fez Ricardo se calar.
     De fato, ao fim de três dias de investigações, deteve-se um pretendente da moça, que, depois de assediá-la e ser preterido, a violentou e matou.
     “Por que tinha certeza de que não era o pai?”, Ricardo perguntou, uma curiosidade juvenil no semblante.
     Caía uma chuva fria e miúda, que, no entanto, não os impedia de caminhar, lado a lado. Na rua deserta e mal-iluminada, a noite era triste. Nicolau falou sem olhar o amigo:
     “Ele não era o pai... Só no papel... Não seria incesto. Cê sabe, depois de Freud ficamos conscientes.”

MAYRANT GALLO. Também publicadas no Correio da Bahia, hoje, com as três anteriores, de 24/03/2007.



Escrito por M. Gallo às 10:04
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