C O N T R A M Ã O


4 POEMAS DE ELIZEU MOREIRA PARANAGUÁ

Eu não tenho medo, de Gabriele Salvatores.

FICO NU PARA DEUS

Eu sempre fico
nu para Deus,
mas ele nunca
ficou nu para
o sentido terrível
do meu ser.


CANÇÃO DA BORBOLETA

Desejo violento
vontade sangrenta
de abraçar
e colorir
as asas
da borboleta.


ESTUDO DE TEOLOGIA

Há de existir
       um Deus
              que não existe
                      e não insiste.


COBERTOR ESTRELADO

A possibilidade é de que as estrelas
não sejam estrelas.

A noite, como cobertor estrelado,
é só o acaso.

ELIZEU MOREIRA PARANAGUÁ. Poeta nascido em Castro Alves, em 1963. Reside em Salvador desde 1981. Poemas extraídos de O fogo do invisível (Salvador: Funceb/EGBA, 2006).



Escrito por M. Gallo às 08:11
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TRÊS PROSAS POÉTICAS

 Foto: www.flickr.com

NO MAR

     Quando ela conheceu o mar, já existia há alguns anos e os seus dias estavam contados. Era magra, pálida, com estranhos olhos verdes-azulados a espiar os caminhos. Gostava do rio que cortava a fazenda. Gostava das águas turvas do rio em tempos de chuva inundando o pasto, derrubando as cercas, interditando a estrada comprida. Gostava de pular no poço fundo do rio. E foi o seu irmão mais novo quem lhe segurou certa tarde, quando Nanã veio lhe buscar, menina no rio. O rio. Gostava do rio, porém o mar, o mar é tão grande, o mar é tão belo, o mar é tão mais fundo. O mar. O medo não é maior que o desejo. Não é. Não acreditava em portas fechadas. Não acreditava em águas não navegáveis. Não acreditava... Entre o rio e o mar, escolheu o mar, mas não aprendeu a nadar.
     A escotilha está fechada? Não há fenda? Nenhuma?
     É solitário viver no mar...

MÔNICA MENEZES. Poetisa sergipana radicada em Salvador. O melhor de sua poesia até o presente momento saiu na Entrelivros n. 5 e na coletânea Concerto lírico a quinze vozes (2004), organizada por José Inácio Vieira de Melo.


CONFLITO

                a Mirian Aislane

     Diante do horizonte, tudo perde a razão. Todo olhar parece insuficiente para alcançar tudo o que pode ser conquistado, e, como um obstáculo, um limite se impõe a cada passo. Braços parcos, finitos para tamanha grandiosidade. O rapaz, à janela, morre... prenhe de sonhos incompletos... Tudo o que é vivo não dura o bastante para ser eterno.

NÍVIA MARIA VASCONCELLOS. Contista e poetisa nascida em Feira de Santana, em 1980. Publicou o livro de poemas Invisibilidade (2002) e o volume de contos ...Para não suicidar (Feira de Santana: Littera, 2006), que inclui o texto acima.


O VÔO

     Borboleta ou passarinho? A dúvida me fez acompanhar aquele ser voador até o fim do seu vôo. Realmente eu não sabia e julguei muito pequeno para ser um passarinho e muito grande para uma borboleta... Essa dúvida bastou para que tomasse uma decisão: interrompi a conversa que mantinha com uma amiga, mas não por muito tempo... Num primeiro momento, me pareceu que aquele ser buscava emoções novas, sei lá, um vento que o levasse a uma outra direção, ou talvez o risco o seduzisse. Num segundo momento, não pensei em mais nada. Vi ali, no chão, as asas... Uma para cada lado, separadas do seu corpo, que agonizava, se debatia...
     Numa fração de segundos foi embora a minha dúvida, e a borboleta. Sim, era uma borboleta que voava em direçao às hélices de um ventilador. Que tragédia, pensei. Quanto tempo passou enclausurada até chegar à plenitude de uma borboleta... Mas, agora, aqui com os meus botões, começo a indagar: "E se não foi um acidente? E se ela estivesse arrependida e só quisesse ser lagarta?"

ELIENE MEDEIROS nasceu em 1981, em Feira de Santana. Ex-estudante de Letras da UEFS, mora atualmente em São Paulo, onde trabalha e colhe informações cotidianas para novas incursões literárias.



Escrito por M. Gallo às 07:19
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CONTO

Réquiem para um sonho, de Darren Aronofsky.

PEQUENOS SERVIÇOS

Havia algum tempo que Pio Gatilho privilegiava os trabalhos de grande porte, que, ainda que escassos, esporádicos, eram bem mais rentáveis. Os pequenos, repassava a D’Argent, o francês, que só não matava animais. Mas, nesta terça-feira, ao passar por sua caixa postal (arrastado por uma mecha de cabelo no semblante pálido de uma jovem), achou a fotografia, de um homem, acompanhada de um maço de notas. No verso do retrato, o mapa com seus lugares prediletos, seu itinerário cotidiano, seus hábitos, horários. A caligrafia era miúda e feminina, sem aparente tensão, lisa e fugidia como uma pérola. Ele contou o dinheiro. Muito. Mais do que cobraria por aquele tipo de serviço. Um trabalho menor, resultado de alguma desavença passional. Poderia prosseguir com seu sistema vigente e, descontando sua parte, passar a incumbência ao francês. Por ora, decidiu pensar. Deixou a agência dos correios, seguiu pelo viaduto da Sé e desceu a Ladeira da Praça. O dia, de uma claridade esmaecida, outonal, prometia chuva para mais tarde, antes do crepúsculo. Em frente ao quartel do Corpo de Bombeiros, ao avistar um táxi, deu com a mão e entrou. Durante o primeiro terço do percurso até sua nova casa, em Brotas, pensou em sua cliente. Uma mulher, claro, mas velha ou jovem? Não sabia. A caligrafia não envelhece. As intenções não envelhecem. E talvez seja isso que amarga os homens. Surpreendia-o que se interessasse mais pela mulher do que pelo trabalho. Talvez estivesse envelhecendo, chegando àquela idade em que, de volta aos adolescentes que foram um dia, os homens se tornam reféns de qualquer rosto bonito, das sinuosas curvas de um quadril anônimo, de certos olhares transeuntes que parecem antes um apelo sensual que uma verdade física. Olhava a foto e não via o homem, mas a mulher que desejava sua morte, e a imaginava bonita, moça, uma aventura que encerrasse, por todas as vidas, sua facilidade de se apaixonar. No entanto, se assim fosse, seria água fresca e límpida para a sede. Bom demais. Perfeito. Adequado. E é tudo o que a vida não é, a não ser mediante altas cobranças. O táxi demorou a romper o fluxo das Sete Portas e, quando o fez, embora tivesse se libertado do trânsito, esbarrou noutra letargia, do mormaço, que mais se assemelhava a uma substância, a uma espécie de mingau que retinha veículos e vidas, que os atrasava. Tal percepção permitiu a Pio Gatilho retomar seus pensamentos por um prisma inédito: que todo atraso neste estranho cotidiano de homens não é senão um benefício sobre a morte. E ele sorriu, leve, quase sem mostrar os dentes, mas o suficiente para chamar a atenção do motorista, que, ato contínuo, por contágio, também sorriu.

"Desculpe", Pio Gatilho falou, com educação, um refinamento impossível a um matador, não fosse o exercício de sua profissão um refinamento em si.

O motorista apenas piscou os olhos e de novo sorriu, de lado agora, a deixar claro que o passageiro não tinha do que se desculpar. Por alguns minutos o carro seguiu com os dois homens em silêncio, ocupados em seu ofício, um de dirigir, o outro de olhar a paisagem, suja e feia, cimento apenas, mas picotada aqui e ali de presença humana, de ardor, de alegria, de afeto. As estudantes a caminhar abraçadas com seus cadernos, cheias e felizes; as donas de casa, em roupas caseiras, a sair das mercearias; os trabalhadores, inúmeros, indo ao almoço ou já voltando alimentados, a palitar os dentes; rapazes encostados aos postes, observando as saias, de um palmo, se muito, mas tão justas, tão justas, que nenhum vento poderia auxiliá-los. Quatro turistas asiáticos, malucos, caminhavam na calçada olhando bestas as fachadas precárias das lojas, os interiores sem luz, as vitrines quase vazias. Compreenderiam, afinal, depois disso, que no país em que estavam a falta de dinheiro era pior que uma doença fatal? Uma jovem mãe puxava o filho pequeno pela mão e, de vez em quando, ao fitá-lo, era como se admirasse, não o seu rebento, mas o homem que amasse. E Pio Gatilho pensou que este era o tipo de olhar que certos homens procuram e, de certa forma, jamais encontram. Poderia ser ela, a sua cliente, esta jovem mãe. E se ela o olhasse como olhava este menino, nem precisaria dinheiro. Faria o trabalho em troca de sua afeição, deste amor extremo que o brilho de um olhar resume. Voltou a examinar a fotografia e, então, se perguntou o que o sujeito fizera, que falta cometera para ser condenado à morte. Em alguns dias ou mesmo horas, se aceitasse o serviço, o homem estaria morto. E talvez nem fosse notícia no jornal ou, se fosse, não passasse de uma nota, meia-dúzia de palavras a resumir um nome, idade, descrição da causa mortis, do lugar, das condições em que o corpo fora encontrado.

O táxi dobrou numa rua arborizada, cheia de carros estacionados, e cujas casas, em sua maioria de dois andares, recordavam muitas partes do mundo e até tempos passados, de ruas que, paralisadas no espaço, se confundiam com o próprio tempo. Pagou a corrida, atravessou o portão e subiu por uma escada lateral ao segundo andar. Sua primeira ação, ao transpor a porta, foi ligar o som. Uma voz feminina, delicada e infantil emergiu das caixas e inundou a tarde. Sentou-se no sofá e se livrou dos sapatos, das meias, os pés a respirar ar puro e alívio. As cortinas estavam fechadas desde cedo, para que o sol, na sua ausência, não alcançasse a lombada dos livros, poucos, era verdade, mas sempre retomados nas manhãs sem trabalho e nas noites de insônia. Entre um e outro acorde da canção, em meio a dois ardentes gemidos da cantora, ele se perguntou quem o indicara à mulher, como ela soube de sua existência, de sua profissão, de sua caixa postal. Compreendeu em seguida que já matara tanta gente, e de modo tão exato e sem manchas, salvo as inevitáveis ou necessárias, que mais do que uma certeza tornara-se um costume. Pouco faltava para que tocasse o interesse dos cientistas culturais, donos de um doentio apreço pelo fútil. Sim, sou um fútil, pensou.

Ao tempo que buscava na geladeira algo frio para comer, decidiu que não mataria o homem. Talvez D’Argent o fizesse, não ele. Esses pequenos trabalhos já não o atraíam e, além disso, sempre legavam, ao fim, um mal-estar, por saber que suprimira uma vida comum, sem máculas sérias, uma vida de dias escassos, trabalho árduo e maus sentimentos digeridos. Uma vida sem açúcar. Pensando melhor (e já estava à mesa da cozinha, comendo), talvez no dia seguinte fizesse o serviço. Cada dia é um novo dia, e, por similitude, o ânimo se altera, bem como a disposição ao sangue ou à calma, à fúria ou à comiseração.

"Estou meio sentimental hoje, meio palavroso", disse, num sussurro, que recobriu com um gole de cerveja. E pensou, não sem alguma inquietação, que este era o primeiro indício de sua decadência.

Para Daniela Rodrigues, que me intimou a escrever uma nova história com o Gatilho.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, 25/03/2007.



Escrito por M. Gallo às 19:03
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AS AVENTURAS DE NICOLAU E RICARDO, DETETIVES

 

Cena do clássico francês Rififi, de Jules Dassin.

DESPERDÍCIO

     O crime aconteceu ao anoitecer, na garagem de um imponente edifício da Graça.
     Nicolau e Ricardo acorreram imediatamente, mal a polícia recebeu o chamado. Pegaram o corpo ainda morno. Uma mulher, jovem, bonita, só com a peça superior do biquíni. Voltava da praia. Entre os seios, dois buracos vermelhos. O assassino avançara o carro contra o portão da garagem e fugira.
     Ricardo ficou olhando a pele branca e macia. Depois parou um dos policiais que transitavam pela garagem e perguntou, sério:
     “Sabe se houve estupro?”
     “Parece que não”, respondeu o outro, sem hesitar.
     “Que desperdício!”
     “É...”
     E os dois ficaram ali, com os olhos cravados na mulher, sonhando.


SEXTA-FEIRA À NOITE, DEPOIS DE TUDO

     Nicolau e Ricardo acabaram de solucionar um longo e difícil caso. Chegam a um restaurante para comemorar e, já acomodados à mesa, telefonam às suas mulheres. Nicolau é casado; Ricardo, noivo. Não estão em casa. Por um instante parecem desanimados, mas logo se recuperam.
     “Marina hoje tem analista”, diz Nicolau.
     “O analista hoje tem Sônia”, replica Ricardo.


O FUGITIVO

     Nicolau e Ricardo perseguem um delinqüente que lhes escapou das mãos.
     Depois de uma quadra de perseguição e fuga em meio ao trânsito de pessoas e carros, Nicolau, que é mais velho e há tempos esqueceu os exercícios físicos, pára para tomar fôlego. Ricardo, que ainda poderia continuar, faz a mesma coisa. E ficam os dois, curvados com as mãos nos joelhos, olhando o chão e respirando. Ouve-se um alarido de freios e em seguida o baque surdo de um impacto. Ricardo sorri. Correm na direção do acidente.
     “Punição!”, diz Ricardo, certo de que a vítima foi o fugitivo.
     Não. Foi uma mãe, com seu bebê. Este, sobre um tapete vermelho, ainda treme a mãozinha (não se sabe até quando), enquanto a mãe, caída na calçada, contempla a vitrine de uma loja com o olhar vítreo.
     Ao longe, no fim da rua, o fugitivo ainda corre.

MAYRANT GALLO. Poeta e contista. Autor de O inédito de Kafka (São Paulo: CosacNaify, 2003).



Escrito por M. Gallo às 07:44
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CELEBRANDO O OUTONO: HAICAIS

Hiroshigo (1797-1858)

Primeiras neves -
Meu maior tesouro,
Este velho penico.

ISSA (Japão)


Ah este caminho
que já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo

BASHÔ (Japão)


OUTONO

Sistema nervoso,
que eu vi, da folha sorvida
pelo chão poroso.

GUILHERME DE ALMEIDA (Brasil)


CHUVA EM SURDINA

Um velho coqueiro
- interrogativamente -
mira-se no brejo.

OLDEGAR VIEIRA (Brasil)


outono a tarde cai
penso apenas
em minha mãe e meu pai

BUSON (Japão)


                     chove
Em que ontem, em que pátios de Cártago,
Cai também esta chuva?

JORGE LUIS BORGES (Argentina)


Se não tivessem voz
As garças desapareceriam
Sobre a neve da manhã.

SONO-JO (Japão)


duas folhas na sandália

o outono
também quer andar

PAULO LEMINSKI (Brasil)


Em vinte montanhas nevadas
Só uma coisa se movia:
O olho do melro.

WALLACE STEVENS (EUA)


O mundo se afunda
cuidado, vai deixar-te
só sob o sol.

GIORGOS SEFÉRIS (Grécia)


Amanhecer nevoento
As andorinhas acordaram
Noutro mundo.

HUMBERTO SENEGAL (Colômbia)


É minha idéia
Que o outono só desfolha
Árvore européia.

MILLÔR FERNANDES (Brasil)

Tradutores: P. Franchetti, E. T. Doi e L. Dantas (Issa e Sono-Jo), Jorge de S. Braga (Bashô), P. Leminski (Buson e Borges), P. H. Brito (W. Stevens), J. P. Paes (Seféris) e M. Gallo (H. Senegal).



Escrito por M. Gallo às 22:40
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CONTO

Irreversível, de Gabriel Noé.

EXATIDÃO

Victor Vhil jamais havia lido um jornal por inteiro. E sempre lhe ocorria pensar que isso só seria possível na prisão. Ou num tempo distante, já morto, ou num lugar ermo. Não por acaso mantinha em casa, num arquivo, dezenas de suplementos culturais pelos quais jamais sequer passara os olhos. Mesmo assim os guardava. Talvez para, num futuro próximo, condenado, os abrir e se enganar. Sim, isso. Ademais, uma notícia antiga sempre lhe pareceu mais interessante que as novas. Por guardar estática a vida, proporcionar aos leitores atualizarem-se de passado.

Pela capa, o jornal desta manhã era o mesmo de ontem. E de anteontem. Do mês anterior e do seguinte. Muda-se o tempo, a vida, mas não as disputas e as experiências que elas acarretam. Então ele o folheou, primeiramente agachado no jardim, onde, ao admirar o orvalho no desenho de uma folha, encontrara-o por acaso. Mais uma vez o jornaleiro se enganara de casa. Depois, recostado a uma das cadeiras da varanda, naquele verão que chegava aos últimos dias com um sabor amargo de fim de férias. Política, economia, suplemento cultural, os cadernos especiais de moda, culinária, esportes, anúncios e, por fim, o caderno NOSSA CIDADE, o qual, nas três últimas páginas, dava ênfase aos crimes, indiferente ao fato de que um crime motiva outro e outro e outro, infinitamente. Foi então que ele viu, à sombra fria da varanda, naquela manhã magnífica, a fotografia: o rosto terno, delicado, embora a leve expressão de zanga, como se a mulher não quisesse ser fotografada, mas se resignasse. Os cabelos tampavam-lhe a testa, e nos lábios um meio-sorriso de indignação recuava a um vinco de desprezo. Victor Vhil sentiu-se comover e agastar. Voltou-lhe à mente o rosto da garota que conhecera e amara. Seu olhar vago e frio, quase sem vida, infenso a juras e segredos de amor. Quando viajavam, ela entrava no ônibus ou caminhava para o vôo sem nem mesmo se despedir ou olhar para trás. Os pais só faltavam enlouquecer. Ele também, que tantas vezes a vira partir, por dias e semanas. Cresceram juntos, amaram-se e sofreram os transtornos do matrimônio. A separação, de um e de outro, fora inevitável e não os reunira. Agora ela estava no jornal, e ele tinha seu rosto nas mãos, mas sem vida... Largou o diário. Sem saber realmente o que fazia, abriu a torneira do jardim, apanhou a mangueira e começou a molhar as plantas, já afogadas pela garoa noturna.

A delegacia de Lus surpreendia por sua limpeza e excesso de claridade. O policial encarregado das investigações não chegara ainda, e Victor foi obrigado a esperá-lo por mais de duas horas. Era um detetive jovem. Alto, ar cansado e que falava rápido demais, como se desejasse se livrar das palavras, apagar a situação. Eliane Vinhas fora assassinada. Possivelmente com um fio de náilon. Depois arrastada até um matagal e abandonada. Dois garotos a acharam, no dia seguinte. Não houve estupro. Estava no necrotério, pois a mãe, ao receber a notícia, tivera um achaque e não pudera viajar.

"Achaque?", Victor perguntou, sem esconder o espanto que lhe causava o emprego inapto daquela palavra.

O detetive não se importou em esclarecer seu léxico. Ergueu-se de sua escrivaninha, apanhou um molho de chaves na gaveta e dirigiu-se à porta. Dali, ficou esperando que Victor Vhil se recuperasse e o seguisse. Foram a pé pelas ruas, à sombra refrescante que os prédios projetavam na calçada. Era um sábado ensolarado, típico de verão, mas os banhistas ainda não haviam se levantado, aferrados às camas pela bebedeira da noite. Em duas semanas no máximo eles teriam desaparecido, de volta aos seus afazeres entre papéis ou sobre máquinas.

Havia alguns suspeitos, e Victor, ao apresentar-se, ingressara no grupo. Um ex-namorado, ainda que tão distante no tempo... O detetive riu. Não, não se assustasse. Bastava que fornecesse um álibi. O que estivera fazendo na noite de quarta para quinta? Victor estivera em casa, sozinho. Atravessavam a rua agora, e o detetive parou para examiná-lo melhor. Depois de um momento, sem mudança de expressão, voltou a andar. Logo cruzavam uma porta de vidro. O detetive não se identificou na portaria, foi em frente pelos corredores cinzentos. O legista trabalhava na morgue, sobre o corpo de um homem que caíra de um telhado na noite anterior. Havia no ar um cheiro adocicado de carne. Cumprimentaram-se com um sarcasmo pouco comum nos profissionais da lei, e o rapaz (pois era muito jovem) sorriu para Victor. Seguiram os três em direção à série de gavetas metálicas, no salão contíguo. Numa delas estava Eliane, com uma etiqueta no pé esquerdo. No rosto que um dia recebera maquiagem e zangara-se, a expressão era de placidez e término. Segundo a segundo, esvaía-se como um sorvete que desabasse. Victor conservou o olhar sobre aquele rosto que conhecia tão bem e que beijara e acariciara e com o qual tanto sonhara, antes e depois. Em alguns dias seria só um crânio áspero sob a terra. Ou pó apenas, se a família, tão logo a polícia agarrasse o assassino, optasse pela cremação. A um sinal do detetive, o legista devolveu o cadáver ao vão escuro na parede.

Na rua, o detetive lhe disse que ficasse na cidade, pois poderia precisar do seu depoimento, no entanto jamais o procurou. As investigações, que avançam como avança a vida, naturalmente, se não houver interesses políticos no caso, conduziram a dois suspeitos, que acabaram confessando o crime e cujas fotografias chegaram aos jornais, duas semanas mais tarde. Uma noitada, a três. Destemperos, ousadias, recuos, nãos. Após um certo ponto é impossível ou perigoso demais dizer não. Foi, talvez, o que aconteceu com Eliane. Os dois sujeitos eram seus amigos, estavam os três na cidade para uma semana de descanso e sol, e acabaram por se tornar seus assassinos.

Victor recortou dos jornais as três fotos e as transpôs para um álbum sobre a ignomínia humana que mantinha desde rapaz, quando namorava Eliane e ingenuamente acreditava que permaneceriam incólumes. Jamais poderia imaginar que ela um dia fosse parar no meio de tanta crueldade, tanto sangue, tanta melancolia. E, sem embargo, pensou que ele próprio só não constaria ali, no futuro, porque ninguém se daria a este trabalho tão irônico. Irônico? Não, preciso. É a palavra que, paradoxalmente, define a vida: precisão. Quando alguém morre, é por precisão, exatidão de sonho.

Fechou o álbum.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, 18/03/2007. 



Escrito por M. Gallo às 21:14
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