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VIDA COTIDIANA E VIOLÊNCIA URBANA
Foto: www.flickr.com
O escritor belga Georges Simenon (1903-1989) é estóico e preciso, quando afirma: "Um crime acarreta outro, automaticamente". Esta, ao que parece, é a lógica do nosso país. Dia após dia, semana a semana, os crimes se sucedem, e, em geral, os criminosos ficam impunes. Mas, apesar do crime, a vida continua. Por isso, convidamos os poetas abaixo a se expressar livremente sobre o assunto, assim resumido: vida cotidiana e violência urbana. O resultado foi que cada poeta privilegiou um ou outro tópico ou mesmo os dois, o que conferiu à série, a um só tempo, contraste e soma.
QUANDO NASCI
Pai quase não estava quando mãe me esperava na madrugada de novembro
Talvez o vento uivasse nas ruas por onde chegavam ele e eu
Talvez o sol já clareasse quando, ao entrar em casa, eu chorei, ele sorriu.
ÂNGELA VILMA (Salvador)
SOLITUDINÁRIA
40 apartamentos ─ 40 galáxias quase 200 pessoas ─ estrelas esgotadas mais porteiros, visitantes e empregadas estressadas e a faxineira que toda quarta vem cantando bororó-bororó
todos moram comigo e eu moro só
CARLOS BARBOSA (Salvador)
BALA PERDIDA “Tudo é ritmo na infância, tudo é riso...” Paulo Mendes Campos
1
O avô do menino cavalgava nos campos. O pai do menino jogava bola na rua. Era alazão, o brinquedo do avô. De couro, a bola do pai. O mundo ainda comportava inocências; o pai, um brilho nos olhos do avô; o menino, chama desejada na íris do pai. O avô do menino cavalgava nos campos. O pai do menino jogava bola na rua. Com sua pipa emplumada, o menino subiu à laje.
2
A pipa ganhou o céu.
ELIESER CESAR (Salvador)
PARTIDAS
Três estampidos: um corpo ferido caído ao chão. No crepúsculo da tarde pára a cidade em volta do caixão.
Três estampidos: e corpos meninos buscam diversão. No vigor da idade com bola, traves e os pés no chão.
MARCELA SOARES (Feira de Santana)
AVE MARIA
Seis horas da tarde A moça atrás do vidro teme o perigo
Seis horas da tarde A criança através do vidro é o perigo
Seis horas da tarde Ave Maria Ave Maria Ave Maria
MÔNICA MENEZES (Salvador)
O REBELDE
Vieram buscá-lo pela manhã, Como a uma criança que medra.
Ouviu-se um cliq, Um bang, um bam. Um sussurro de terra.
MAYRANT GALLO (Salvador)
PAISAGEM URBANA
na tarde à beira da calçada claro e frio muito frio o olhar do morto fitando o nada além muito além do vazio
MÁRCIA MAIA (Recife)
LEU-SE NO POEMA
A mão sobre a boca da moça que densa descia ao chão salpicado de seiva rubra...
GEORGIO SILVA (Riachão do Jacuípe)
VENTURA
Pensaram que seu corpo Não tinha esplendor quando
Pensaram que sua face Não se refletia como
Pensaram que sua profissão Era conduzir sonhos
Não pensaram que fosse um homem
Só o descobriram Quando lhe deram um tiro
THIAGO LINS (Feira de Santana)
EPITÁFIO
Estou aqui embaixo Porque me colocaram. Inerte é como estou Graças a meu senhor.
Registre o que eu digo. Assim fica difícil: Ferrar-se aqui embaixo E tornar-se solidário.
DANIELA RODRIGUES (Feira de Santana)
CÁLCULO APOCALÍPTICO
eu, alfa-ômega + tu, alfa-ômega + eles, alfa-ômega = nós, bomba-atômica...
A. CAFÉ-GALLO (Salvador)
FIM
Em meu quintal os passarinhos ainda brincam eu entre eles
PAULO ANDRÉ (Picado)
Escrito por M. Gallo às 10:51
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CONTO

Uma edição decente de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Ateliê Editorial).
SOZINHA NUMA COLINA
Eu mal havia chegado ao lançamento, na LDM, quando avistei Victor Vhil diante de uma das estantes, a examinar atentamente os livros. De vez em quando apanhava um volume e o folheava, ou devorava-lhe a orelha, um risinho de lado ou entregue a uma tromba de concentração que daria para conter um exército. Criei coragem e me aproximei. Cumprimentou-me distraído, sem me olhar, um certo ar de desprezo que julguei involuntário, efeito de sua notável reserva. Perguntei se viera para o lançamento, ao que ele respondeu, secamente:
"Não".
Sem querer acreditar que vagara em seus olhos um brilho de ressentimento, elogiei o autor do dia, sua capacidade crítica, o estilo desenvolto, a clareza das análises, o culto à forma pura, de um português castiço. O mestre nem me olhou e, sem se abalar, disparou: um dos maiores equívocos da crítica literária atual está em se julgar o autor não pelo que ele obteve, mas pelo que não conseguiu alcançar. Quer dizer, 1) por aquilo que ele não é; ou 2) por um ideal que ele, a priori, devesse perseguir. E esperar isso da literatura, bem como de qualquer arte, só comprova o quanto nossos críticos reúnem estrume em lugar de estofo.
Quase fui a nocaute. E não por acaso, à nossa volta, os entusiastas de Luceno Bernardes eram muitos. Depois, em mais uma de minhas brilhantes gafes, cometi o erro de elogiar-lhe o livro anterior, em que Bernardes, aprimorando sua tendência ao revisionismo, conduz Machado de Assis ao seu verdadeiro lugar: de engodo artístico, intelectual de idéias prontas, ora alheias ora anônimas, e em geral decalcadas da tradição francesa, anglo-saxônica ou clássica. E com isso, um mundo cifrado de citações esnobes, mal-arroladas num estilo desprendido e rarefeito, falsamente dialético (metido num êmbolo de "sins", "nãos" e "talvezes"), acaba por obliterar o caminho do leitor discente rumo a um leitor completo, amante da arte e profundo conhecedor de seu idioma.
"Sei", ele disse. E acrescentou que a tão badalada crítica revisionista era como uma árvore...
"Uma árvore?", balbuciei.
"Sim. Sempre para cima, a olhar em volta o quanto lhe falta, e a afastar do caminho qualquer empecilho, sobretudo os autênticos. Desejosa de, mais cedo ou mais tarde, ser sozinha numa colina."
Fiquei mudo, incapaz de reagir, um rosto sem face na multidão. Mesmo assim, prossegui, citando o opúsculo sobre poesia publicado por Bernardes dois anos antes. Já adotado em sala de aula e ensebado pelos jovens poetas, de tendência mais formalista, cultores do bom verso, da métrica perfeita, num português exemplar, a fazer da língua uma escultura, e do assunto...
"... uma variação mesquinha e pobre da porcelana parnasiana ou, se preferir, da simbologia dos simbolistas", ele disse, de chofre.
E se voltou, uma expressão impassível, próxima do tédio. Olhou-me detidamente e, como se nem considerasse importante aumentar o tom de voz, ajuntou:
"Anos atrás, ao ler com meus alunos um conto de Woody Allen, um sujeitinho que você bem conhece fez muxoxo o tempo todo. Agastou-se, embicou, cruzou e descruzou as pernas, assanhou os cabelos, mordeu os lábios, suspirou, deixou-se escorregar na cadeira, quase a tocar no chão as nádegas chochas, e por fim foi embora. Tudo porque, no conto, um detetive noir está à procura de uma pessoa desaparecida, e essa pessoa não é senão Deus. Ele não conseguia admitir que Deus fosse o chefe da gangue ou o meio pelo qual um rabino pudesse comprar seu terno caríssimo ou mesmo a essência que fundamenta e justifica a filosofia e os filósofos. Seu lado beato tomou a ironia como ofensa, e esta como agravo a sua pessoa, única e especialíssima. De sua parte, onipotente, Deus nem se importou, não fez nada com Woody Allen, pelo contrário; mas o alunozinho sim. Até deixou de falar comigo. E agora, talvez por vingança, arrota suas pseudocríticas contra escritores tão diferentes quanto Machado de Assis e Oswald de Andrade, Zé Lins e Ana Cristina César, Rubem Fonseca e Paulo Sandrini, mas principalmente contra os autores locais, dos quais faço parte, quer queira quer não".
Não somente eu observava o mestre. E os olhares não me pareceram benévolos. Apesar de tantas farpas, ele não hesitou em nos virar as costas e voltar a sua consulta à estante. Não vi que livro folheou, nem que outro desprezou só de ler a lombada, tampouco aquele que, depois de um rápido exame, pôs debaixo do braço e carregou para o andar de cima, onde já fora visto, sentado sozinho a uma mesa, trabalhando sobre seus textos. Certamente nenhum daqueles fora escrito pelo eminente Luceno Bernardes. Nem mesmo os que ele desprezara, pois não é demais concluir que, depois de tudo, só o cheiro do crítico já o punha em fuga. Não menos o de seus livros, em estilo tão viperino, uma vez que, segundo Barthes, o estilo é o próprio homem: seu suor, seu hálito, suas partes e demais odores.
Padeci uma hora na fila, para, no momento do autógrafo, suportar a seguinte pergunta, da parte do tal Bernardes:
"Com que cor você quer a dedicatória? Azul, verde, preta, lilás, rosa, prata, ouro, púrpura..."
"Nenhuma", deixei escapar, involuntariamente, em mais uma de minhas gafes históricas, que repercutiu por toda a fila, talvez por todo o recinto. Meses depois, ao relatá-la a um amigo (ainda sem compreender direito o que a perpetrara), ele me disse que eu fora vítima de um natural procedimento poético. Espécie de eco ou resíduo sonoro que a memória auditiva, quase por impulso, tende a resgatar e reproduzir: "púrpura" a puxar "nenhuma". Só isso. Mais nada. A tão cultuada e cabralina rima toante.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, 11/03/2007.
Escrito por M. Gallo às 09:16
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LUA E SANGUE NA SARJETA

A lua na sarjeta, de Jean-Jacques Beineix.
Na beira de uma viela que dá para a Rua Vernon, um gato cinzento esperava uma grande ratazana sair de sua toca. O rato tinha corrido para uma fenda na parede do barraco de madeira, e o gato inspecionava todos os orifícios, imaginando como o rato tinha conseguido enfiar-se ali. Na escuridão quente e úmida daquela meia-noite de julho, o gato esperou mais de meia hora. Quando foi embora, deixou suas pegadas no sangue seco de uma garota que tinha morrido ali no beco uns sete meses antes. Passaram-se alguns momentos de silêncio na viela. Depois, ouviram-se os passos de um homem que vinha devagar pela Rua Vernon. Logo em seguida ele entrou no beco e parou imóvel sob a luz da lua. Olhava para as manchas secas de sangue.
DAVID GOODIS (1917-1967). Romancista e contista norte-americano. Diferentemente dos demais autores policiais, Goodis tem um estilo mais literário, algumas vezes onírico e freqüentemente poético. O trecho acima, os dois primeiros parágrafos do romance A lua na sarjeta (1953), é um exemplo magistral de abertura diferenciada. Através da exposição de um conflito clássico do mundo animal (forte versus fraco, caçador e presa), tomamos conhecimento de uma morte ocorrida meses antes, o assunto central do romance, e temos a introdução do protagonista da história, que volta à cena do crime. Tradução de Aldo Bocchini Neto, em edição da Abril Cultural (São Paulo, 1984).
Escrito por M. Gallo às 09:53
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A ATUALIDADE DE SARTRE
Foto: by Photospain.
"Agrada-me indignar-me contra o capitalismo, mas não desejo que o suprimam, porque não teria mais motivos de indignação. Agrada-me sentir-me desdenhoso e solitário, agrada-me dizer 'não', sempre 'não', e teria medo de que se construísse um mundo viável porque teria que dizer 'sim' e fazer como os outros."
JEAN-PAUL SARTRE (1905-1980). Romancista, contista, filósofo, dramaturgo e ensaísta francês. A experiência de ler quaisquer de seus livros é inominável. Que o leitor escolha e se transforme. Para melhor. Obras literárias: A náusea (romance, 1938), O muro (contos, 1939), Entre quatro paredes (peça, 1945), Sursis (romance, 1945), Com a morte na alma (romance, 1946), A prostituta respeitosa (peça, 1946), As mãos sujas (peça, 1948), As palavras (autobiografia, 1964) e A idade da razão (romance, 1945), de onde se extraiu o trecho acima. Tradução de Sérgio Milliet, em edição da Nova Cultural, 1996.
Escrito por M. Gallo às 11:35
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A OUSADIA DE D. H. LAWRENCE

Amor à flor da pele, de Wong Kar-Wai.
A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL
A indecência pode ser normal, saudável; na verdade, um pouco de indecência é necessário em toda vida para a manter normal, saudável.
E um pouco de putaria pode ser normal, saudável. Na verdade, um pouco de putaria é necessário em toda vida para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser normal, saudável, desde que haja troca de sentimento verdadeiro.
Mas se alguma delas for para o cérebro, aí se torna perniciosa: a indecência no cérebro se torna obscena, viciosa, a putaria no cérebro se torna sifilítica e a sodomia no cérebro se torna uma missão, tudo, vício, missão, insanamente mórbido.
Do mesmo modo, a castidade na hora própria é normal e bonita. Mas a castidade no cérebro é vício, perversão. E a rígida supressão de toda e qualquer indecência, putaria e relações assim leva direto a furiosa insanidade. E a quinta geração de puritanos, se não for obscenamente depravada, é idiota. Por isso, você tem de escolher.
D. H. LAWRENCE (1885-1930). Romancista, poeta e ensaísta inglês. Injetou vida e sangue no anemismo da literatura de língua inglesa do início do século XX, com seu O amante de lady Chatterlay (1928), censurado na Inglaterra e nos EUA. Contra o primado de uma humanidade cerebrina, exaltou a carnalidade humana, refúgio dos sentidos e da verdade. A tradução é de José Paulo Paes, extraída de Poesia erótica em tradução (São Paulo: Companhia das Letras, 1990).
Escrito por M. Gallo às 17:12
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