UMA GREVE (DE SEXO) PELA PAZ

Nathalie X, de Anne Fontaine.
Estamos na iminência de mais uma guerra. Tudo porque os norte-americanos acham que só eles devem possuir armas nucleares, afinal de contas eles são muito conscienciosos, não fazem guerra, não invadem país algum e jamais foram agressivos atomicamente... Hiroxima e Nagasaki foram só um sonho coletivo. Mas as mulheres da antigüidade clássica têm uma solução para o problema. Simples, primitiva e, talvez, muito eficiente. Fiquemos agora com a fina ironia de Aristófanes, na sua mais do que atual Lisístrata, talvez a primeira grande obra literária de cunho pacifista do Ocidente, e sem panfleto.
CLEONICE - E se - digamos só pra argumentar - nós tomássemos a medida que você recomenda - abandonando por algum tempo a medida que mais apreciamos -, a paz seria certa? Você garante? LISÍSTRATA - Juro que sim, pelas duas deidades. Devemos apenas ficar em casa, vestidas e arrumadas o melhor que soubermos, de preferência usando uma túnica transparente que nos deixe quase nuas, mostrando nosso delta irresistivelmente depilado. Mas quando os maridos apontarem pra nós a agressiva insolência dos seus desejos, nós nos retiraremos deixando-os sozinhos no campo de batalha, de armas na mão, sem saber o que fazer com elas. CLEONICE - Nunca ouvi falar de tortura semelhante. Nós resistiremos? LISÍSTRATA - Deveremos pensar firmemente em qualquer outra coisa. CLEONICE - Como pensar em outra coisa diante de tal coisa? LISÍSTRATA - Aí está a nossa dificuldade. Mas nosso dever é esse. Se resistirmos, eles não resistirão. E teremos a paz. LAMPITO - Dizem que isso aconteceu a Menelau. Quando viu os seios de Helena percebeu que tinha que escolher entre duas espadas. Largou a da guerra e empunhou a da paz.
ARISTÓFANES. Grande comediógrafo grego, nascido em 445 a. C. e falecido entre 385 e 380 a. C. Escreveu cerca de 40 peças, das quais poucas sobreviveram às guerras: Lisístrata, As aves, As vespas, As rãs, Um deus chamado dinheiro, As nuvens, Só para mulheres etc. A tradução do extrato é de Millôr Fernandes, do volume Lisístrata: a greve do sexo (Porto Alegre: L&PM, 2003).
Escrito por M. Gallo às 20:36
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5 POEMAS DE JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA
Katsushika Hokusai (1760-1849)
MARINHA
A onda que se modela de outras, infindas, e já adormecendo no mar.
Perene palpitação, verde inquietude no seu laço entre a vida e a morte.
QUIETUDE
Mulher cosendo, uma toalha que resvala pelos joelhos.
Mulher inclinada no ofício e seu olhar agora foge com os pensamentos, simples e que fluem na imobilidade, na límpida imobilidade, como a vida o faz.
MORTE MORRIDA
Aqueles que morrem no leito a morte simples e conhecida do médico e tão igual e tão profunda quanto a dos camponeses que Átila dizimou ou a de César entre as colunas. Tão igual e tão definitiva apesar dos lençóis, brancos, que serão estendidos ao sol.
EM ABRIL DE 1967
O anoitecer tão simples, um ligeiro ruído de crianças, o vento nas árvores, instantes iguais aos de uma tarde qualquer e que para tantos homens como eu do mesmo sangue e Corpo são o passo da agonia, o abismo bruscamente erguido, como agora quando me lês - neste momento preciso - em que muitos estarão morrendo.
LAGOA
Na água longínqua da tarde montanhas reclinam sua imagem, tão rijas e agora ao dispor da mais leve brisa.
Figuras que a luz envolve inquietamente, que qualquer barqueiro tardio fere num sulco de angústia.
JOSÉ PAULO MOREIRA DA FONSECA (1922-2004). Esquecido poeta brasileiro. Seu estilo é elegíaco e impressionista, propenso a quadros, imagens do estar-no-mundo. Estreou com Elegia diurna (1947), a que se seguiram vários livros, entre os quais os premiados Raízes (1957) e Três livros (1958), agraciados respectivamente com os prêmios Graça Aranha e Jabuti. Também foi pintor renomado. Poemas extraídos de Antologia poética (Rio de Janeiro: Leitura, 1968).
Escrito por M. Gallo às 22:41
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4 POEMAS DE JUAN RAMÓN JIMÉNEZ

Love birds, Steve Stone.
A VIAGEM DEFINITIVA
Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros Cantando. E ficará o meu jardim com sua árvore verde E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido, E tocarão, como esta tarde estão tocando, Os sinos do campanário.
Morrerão os que me amaram E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro Do domingo acabado, Da diligência das cinco, das sestas do banho, No recanto secreto de meu jardim florido e caiado Meu espírito de hoje errará nostálgico... E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore Verde, sem poço branco, Sem céu azul e plácido... E os pássaros ficarão cantando.
O ÚNICO AMIGO
Não me alcançarás, amigo. Chegarás ansioso, louco. Eu, porém, já terei ido.
(E que espantoso vazio Tudo o que tenhas deixado Atrás para vir comigo! Que lamentável abismo Tudo quanto eu haja posto Em meio, sem culpa, amigo!)
Ficar não podes, amigo. Voltarei talvez ao mundo. Tu, porém, já terás ido.
A AUSENTE
Fecha, fecha a porta Como ela gostava... Que fique a seu gosto A sua lembrança!
DESERTO E MAR
É o horizonte o teu corpo É o horizonte a minh'alma. Chego ao teu fim: mais areia. Chegas ao meu fim: mais água.
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ (1881-1958). Poeta espanhol, prêmio Nobel de Literatura de 1956. Seu lirismo cético e melancólico atravessou fronteiras, influenciando poetas da América Hispânica e também do Brasil. Foi também prosador, legando ao mundo uma das obras-primas do romance do século XX: Platero y yo. Poemas traduzidos por Manuel Bandeira, em Estrela da vida inteira (Rio de Janeiro: Record/Altaya, 1998).
Escrito por M. Gallo às 12:07
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CONTO
NEGÓCIO DE LIVROS RAROS
"Show de mágica", ele tinha dito.
"Mágica?", surpreendeu-se. Mas não havia nada de estranho: antes de trabalhar com livros raros, seu sócio fora mágico profissional, enquanto ele próprio tinha sido, pasmem, detetive. O negócio de livros raros viera por acaso e os enredara. Era a primeira vez que vinha ao Recife, e Rubem, seu sócio, que duas décadas antes conhecera a cidade, se achava na obrigação de, nas horas vagas, apresentar-lhe as atrações, nem sempre turísticas. Na noite anterior tinham ido a um inferninho, e ele fechara a missão na cama de uma garota, da qual, pela manhã, mal se lembrava, salvo por uma vaga idéia de corpo magro e elástico, envolto em mistério. Mas ela telefonara, e agora o acompanharia a uma loja de discos, em Olinda.
"Ontem foi bom, não?", o sócio o provocou, riso de lado, rosto já devastado de rugas.
"Posso levar a garota?", condicionou. Rubem apenas disse "Claro, claro, quem sou eu pra dizer que não?" E foi atender a um cliente, que aportara no balcão do estande.
Sólon deixou o pavilhão A da feira, desceu as escadas e cortou para o estacionamento. À saída, transpôs o portão e parou. Olhou o relógio. Cinco minutos para que a garota passasse. Lembrou-se então dos seus tempos de detetive, das longas esperas em frente a restaurantes ou nos arredores dos motéis, máquina fotográfica à mão e até filmadora. Sanduíches, comida enlatada, pratos rápidos e sem gosto, muita cerveja e refrigerante. Gordura a queimar com exercícios físicos. Bons tempos, mas perigosos. Não eram raros os clientes birutas, que, ao fim do caso, insatisfeitos com o peso na testa, voltavam-se contra ele... E Sólon tinha que dizer: "Não fui eu que levei sua mulher pra cama..." O que deixava os caras ainda mais irritados. Um automóvel amarelo parou à sua frente. Viu a garota, que o encarava, o rosto largo, um riso débil nos lábios finos, olhar divertido. Parecia saber que ele não se lembrava de quase nada da noite anterior.
"Então?", ela disse. Em resposta, ele só entrou no carro. Mas ela inclinou o corpo e o beijou, na boca: "Tirei o dia de folga para ficar com você..."
Aos poucos, à medida que corriam para Olinda, ele foi se lembrando de tudo. Da conquista, da conversa, da entrega de um ao outro no fundo do bar, o recinto já quase vazio, cadeiras viradas sobre a mesa, garçons impacientes, e seu nome, Gina, que ela só lhe revelou mais tarde, quando transpuseram o saguão do seu prédio. Ela quis saber quando ele ia embora. Em dois dias. Se ia lembrar dela. Por certo. Se ia lhe telefonar, escrever. Provavelmente. Se gostava dela. Talvez. A hesitação dele, aqueles segundos em que se deteve a avaliá-la na noite passada e agora, foi o bastante para que a garota mudasse de assunto e mencionasse a loja de discos. O que ele procurava? Muita coisa: Ummagumma, por exemplo. Em versão vinil dos anos 80. E Vitor Ramil: Tango e A paixão de V. segundo ele próprio. Este, muito raro, era para um amigo; os dois primeiros para um cliente. Ela só conhecia o disco do Pink Floyd, mas não o ouvia havia mais de uma década, desde que seu irmão se casara e carregara o disco. Mesmo assim era em CD.
"Não, não, só serve em vinil."
A loja ficava numa construção estranha, de pedra, e mais parecia uma caverna, com paredes grosseiras e ásperas. O proprietário conhecia a garota, mas a chamou por outro nome, quando veio ao seu encontro, rindo animado, mãos e boca que eram só trejeitos, olhos ariscos como insetos em volta da luz. A voz fanha e melosa repetiu o nome de Sólon, acrescentando ao final: "Nenhum mortal é feliz. São sofredores/ todos os mortais que avistam o sol".
"O poeta grego", Sólon disse.
"Conhece?", o outro perguntou, surpreso.
"Claro", Sólon riu, ao que Gina acrescentou:
"Ele trabalha com livros raros..."
"Avistar o sol...", o outro repetiu, pensativo, enquanto os conduzia aos fundos da loja, à seção de LPs.
"Metaforicamente, isso é a paixão; literalmente, a existência", Sólon explicou, mas sem se exibir. E começou a mexer nos discos. Gina e o outro se afastaram e, a um canto, pareciam confabular, aos cochichos.
O mágico chamava-se Lorax e seria o último a se apresentar. Sólon e Rubem aguardavam numa mesa, impressionados com a quantidade de pessoas que se deslocara até ali num dia se semana para assistir a uma apresentação de mágica, sobretudo depois que a famigerada Globo, insolente e vaidosa, fizera a fama de Mister M.
"Ela vem?", Rubem perguntou, sério, bebericando de seu copo.
Sólon assentiu e acrescentou que a tarde tinha sido proveitosa. Achara quatro dos discos que procurava e ainda se divertira muito com a garota. Rubem replicou que preferia acreditar que Sólon empregara o verbo divertir com intenção de eufemismo. Sólon ia responder que não, mas nesse momento o apresentador introduziu o primeiro mágico da noite. Um iniciante, segundo Rubem, mas ainda assim promissor. Depois de mais três atrações, felizmente de melhor nível, entrou Lorax. Este arrancou aplausos tanto na entrada quanto na saída, ao fechar sua apresentação com um apoteótico número que, ao que parecia, nem os mágicos presentes conheciam. Rubem explicou que o número, se bem que ousado, compreendia uma variação esquecida de uma tentativa de vanguarda da parte de Jean Jaoui, mágico francês do entre-guerras. Pouco depois, Lorax sentou-se à mesa deles e até de madrugada beberam e conversaram. Gina não apareceu.
A noite estava quente e começava a clarear, quando se despediram do mágico e seguiram a pé pelas ruas do centro do Recife. Rubem propusera que andassem um pouco e fossem comprar algumas frutas para o café da manhã, no hotel. Depois tomariam um táxi. Não tinham sono, apesar do evidente apelo do álcool, a refletir-se nas pernas e nos olhos. Rubem não resistiu e foi mordendo ameixas e uvas. Sólon, uma pera. O homem das frutas fora até a esquina e lhes indicara o ponto de táxi, dois quarteirões adiante. Não tinham vencido ainda o primeiro terço do percurso, quando um carro passou por eles, em alta velocidade, e quase os atropelou. Frutas ao chão, e também um par de óculos, de Rubem, cujas lentes trincaram. Sem transição, seguiu-se um impacto, de lataria contra um corpo, e o carro parou, com um ruído de freios. Rubem correu, a ajeitar no rosto as lentes estragadas, ao passo que Sólon, pouco interessado em saber quem fora atropelado, recolhia do chão as frutas. Foi então que avistou, do outro lado da rua, Gina imóvel na calçada, uma pistola pendente da mão direita. E compreendeu que algum cliente antigo ainda lhe tinha raiva e o descobrira no Recife para uma vingança. Viu as balas vindo, e este foi seu último sentido antes de avistar sol.
MAYRANT GALLO. Originalmente publicado no Correio da Bahia, em 18/02/2007.
Escrito por M. Gallo às 10:25
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