CRÔNICA: CAOS, BABEL, BBB E OS BURROS
Foto: Fred Casagrande.
ESTULTOS NO PODER
A escritora norte-americana Joyce Carol Oates afirma num de seus excelentes contos que vivemos numa época caótica. Caos social, moral, familiar, educacional. Caos humano. Já um escritor nosso, o contista Elieser César, vai mais longe e repete, em nossas conversas mais triviais, que a Humanidade faliu.
Penso que esta é uma verdade dolorosa, todavia inquestionável. Quando paramos diante da tevê para assistir a um programa como o BBB, que só nos incentiva a trepar, trapacear e trair (pelo visto, três trunfos imprescindíveis para se vencer no mundo em que vivemos), essa é uma evidência de que estamos mal, que não desejamos nenhum valor concreto nem para nós nem para os nossos jovens.
Terça-feira passada, por exemplo, fui ao cinema com minha esposa e dois amigos. O filme era o Babel, do mexicano Alejandro González Iñárritu, célebre por seus filmes Amores brutos e 21 gramas. Babel segue o princípio dos dois anteriores, numa proposta de refletir sobre os efeitos de um acontecimento fortuito e inesperado na vida de pessoas comuns: um acidente deflagrado por uma arma de fogo inadequadamente entregue aos cuidados de duas crianças, ansiosas por brincar. E é o que elas fazem, brincam. E assim atiram na direção de um ônibus de turismo (o único alvo móvel no vasto descampado de areia e pedra) e alcançam uma mulher adormecida à janela do veículo. Esse tiro, lá longe, no Marrocos, vai proporcionar uma série de eventos em outros países, numa relação de causa e efeito ao mesmo tempo precisa e aterrorizante.
Mas não é o que quatro imbecis na platéia acharam. Dois homens e duas mulheres (estupidez dividida meio a meio). Com sua fina educação, e sua insuportável arrogância, cegos à dor humana e às diferenças culturais, passaram toda a sessão de 150 minutos escarnecendo dos personagens, como se estivessem não diante de um drama da vida, mas de uma comédia pastelão do tipo que a Sessão da Tarde e suas similares costumam exibir. Como se estivessem diante de Xuxa Xêmeas, e não de um filme autoral, uma proposta de reflexão acerca dos problemas atuais do mundo: preconceito, intolerância, individualismo, irresponsabilidade, prepotência, insensibilidade. E os imbecis já não eram jovens. Na faixa dos trinta anos, sugerem que quando vão ao cinema deixam o cérebro em casa e seguem caoticamente dando cabeçadas.
O mundo está uma droga (literalmente), e a arte (cinema, música, literatura, pintura) deve ser outra droga, que apenas nos entorpeça e, assim, prolongue (ou intensifique) a nossa vocação para a idiotia. E o mais assustador é que esses cretinos pouco a pouco vão galgando degraus, superando obstáculos e chegando às mais altas esferas do poder e da organização do mundo. Um dia teremos um comedor-de-pipocas desses na presidência da República ou do Congresso. De fato, em outras instâncias já os identificamos com freqüência. Mesmo porque, além de estultos, são arrogantes, pretensiosos, autoritários, tirânicos. Conseqüentemente, fáceis de se identificar. Em alguns meios eles já reinam absolutos.
Recentemente, uma amiga escritora me contou uma história que é, no mínimo, lamentável. Chamada a integrar o júri de um concurso literário, incumbência que a obrigou a ler mais ou menos duzentos livros no curto período de um mês (uma média de seis por dia), acabou por escolher entre os que considerou os melhores um romance ambientado na Salvador de nossa época. Todavia, este livro, em que pese à sua qualidade, foi recusado pelos demais membros do júri, sob a alegação de que a narrativa nomeava as ruas e os bairros da cidade... Ora, qual é o problema? E por causa de tal característica um livro perde valor? Parece que estamos tão acostumados a uma "arte importada" que o que escrevemos de nosso já nos soa falso, impuro. Se não, vejamos esses breves trechos colhidos a esmo de minha estante: 1) "estendido bêbedo, ao sol, em plena manhã alta, nas imediações da rampa do Mercado ou sujo e maltrapilho, curvado sobre cartas sebentas no átrio da igreja do Pilar ou ainda cantando com voz rouquenha na ladeira de São Miguel, abraçado às negras e mulatas de má vida" (Jorge Amado, A morte e a morte de Quincas Berro Dágua); 2) "À noite, eu os havia esperado em vão no café Dante, e não ousara passar no seu hotel. Comera um prato num dos restaurantes chineses da rua du Sommerard. A perspectiva de nunca mais rever Jacqueline me tirava o apetite" (Patrick Modiano, Do mais longe do esquecimento); 3) "Ele olha para a barca do outro lado do canal, junto ao píer de Stendörren. A barca recua e vira a proa na direção de Smadalarö, aproximando-se a uma boa velocidade. Lançam a passarela, com um ruído seco. Anna já se encontra pronta para desembarcar" (Ingmar Bergman, Confissões); 4) "Depois de acender os faróis de neblina, Bond seguiu com extremo cuidado por King’s Road e subiu Sloane Square até sair em Hyde Park" (Ian Fleming, Viva e deixe morrer). Percebe-se, sem embargo, que o procedimento dos quatro ficcionistas é o de simplificar ao máximo a topografia, um recurso comum (e funcional) da literatura moderna e contemporânea. Quem conhece os lugares mencionados logo-logo se situa; quem não conhece nem por isso sente-se órfão ou deslocado, pois, quer seja através do cinema quer seja pela própria experiência de vida e de leituras ou mesmo pela capacidade de imaginar, sabe o que é uma rua, um mercado, um restaurante, um café, um cais, uma praça ou um parque. Com isso, os autores poupam-se (e a nós) de longas descrições, à maneira de Balzac, com o propósito de situar o leitor ou lhe apresentar o cenário escolhido. Longe de ser um defeito, isso é um procedimento artístico, uma escolha ou, se preferirem, um traço pessoal, estilístico.
É de espantar, portanto, que por tais aspectos um livro, cuja qualidade fora devidamente comprovada durante a leitura de um dos membros do júri, seja ignorado e, pior, diminuído em sua qualidade, a ponto de se rejeitá-lo em favor de outros, que talvez nem estivessem à altura daquele. Caos. Estultos no poder. Néscios a decidir o que é bom ou ruim, certo ou errado, belo ou feio. Houve talvez um tempo em que para se ocupar determinados cargos e posições na sociedade tinha-se de comprovar mérito e conhecimento, mediante todo um histórico de vida. Hoje, ao que parece, pescam-se os indivíduos de em meio à obscuridade ou os escolhem a partir das relações de amizade e troca de favores. Ao fim, o resultado é um mundo caótico, desprovido de valores e prestes a adernar. Como diz Elieser Cesar: uma humanidade falida.
Isso me faz lembrar uma atrevida passagem de um ensaio de Arnaldo Jabor: "Antes os burros se esgueiravam pelos cantos com vergonha de si; hoje, eles sobem no caixote e gritam: ‘Sou burro, e daí?’" Vide o BBB. As quatro alimárias da sessão de Babel. O pobre júri daquele concurso literário, que é melhor não sabermos qual é.
MAYRANT GALLO. Publicada originalmente no Correio da Bahia, em 28/01/2007.
Escrito por M. Gallo às 17:17
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A VINGANÇA DE GAIA EM 11 POETAS
Foto: www.flickr.com
Octavio Paz afirma que não há poesia sem a História, e que não há História sem poesia. Nascidos de um momento específico, histórico, os poemas se inscrevem na eternidade, cheios de frescor e proveito, a cada nova época, novo leitor, nova História. A partir dessa afirmação me ocorreu a idéia de solicitar a alguns poetas (e a mim também) que escrevessem sobre o "nosso agora", tão pessimista e sombrio. E assim, ameaçados pela iminência de calamidades jamais vistas (impacto da Terra com um gigantesco meteoro daqui a três décadas, aquecimento global, fim das florestas, Pólo Norte derretendo, enchentes e secas por todo o planeta, escassez irremediável de água potável e alimentos, EUA em busca de um outro mundo, para evadir, sem ninguém mais na garupa), onze poetas nos ofereceram sua visão pessoal e íntima sobre o nosso triste momento de passagem para uma outra vida ou uma nova consciência.
ÔMEGA voem os peixes sobre as árvores de enforcados e no escuro mais profundo do oceano possam os pássaros finalmente erguer seus ninhos teça o vento tsunamis de estrelas de napalm que derramem-se e derretam todo olho toda pele — salgue o sangue o que era leite o que era rio e da terra que era terra e que ora nada nenhuma vida rebente até que em frio faça-se o quente até que o que era consciência seja caldo elemental até que um deus qualquer desperte e o ciclo todo recomece
MÁRCIA MAIA (Recife)
ACALANTO PARA A ÚLTIMA HORA
Não chore, minha filha Não há mais bichos lá fora Nem bandidos, nenhum perigo Não chora, não chora Não há mais nada, não há mais nada Agora está tudo bem, shhhh... Tudo bem agora, não chora...
CARLOS BARBOSA (Salvador)
O IRREMEDIÁVEL
Dizem que um meteoro vem aí Que o planeta será um forno Que faremos de dia o que fazemos de noite. Animais mortos Pessoas mortas Árvores por terra. Mil imagens, porém, na tevê Internet Discos-voadores. Bilhete de pêsames dos States.
MAYRANT GALLO (Salvador)
O OITAVO DIA DA CRIAÇÃO
No primeiro dia, Deus começou a construir o mundo e até a sexta jornada foi tecendo seu labor divino. Do miasma universal, projetou as matas e as montanhas; da obscura imensidão gasosa, arremeteu todas as águas; do apagão cósmico, engendrou céus estrelados e, com um leve sopro, injetou força nos ventos. No sétimo dia (esgotado, o onipotente?), descansou. A partir daí, o homem (pálido reflexo), se encarregou [da construção. Hoje não há um só vestígio da estrela Vésper.
ELIESER CESAR (Salvador)
HAICAI QUASE SECO
O extenso rio da minha infância tornou-se lama entre meus dedos
MÔNICA MENEZES (Salvador)
GAIA E A PASSAGEM
Gaia desaba sobre as mil pétalas cobertas de cimento.
Gaia reclama da tosse em meus sonhos infantis.
Gaia bolina aeroplanos e navios.
Gaia, depois de 25 mil anos, retorna para o seu corpo.
Onde martela catatônica seu túmulo sobre-humano.
THIAGO LINS (Feira de Santana)
MEU PAI NÃO FAZ SENTIDO Sei de algo absurdo atrás daquela rua E não é a moça trazendo as mechas As curvas... Não é ainda o silêncio de um "sim" ou a forma truncada do horizonte Algo se passa além da rua que ignoro plenamente
JOAQUIM GAMA DE CARVALHO (Salvador)
RAPSÓDIA
No tépido reino de Gaia paira a fúria serena
(arde o sol sobre os homens) Ela - baila falena
sob o gelo que cede sob a sede das gentes
ao som da íntima sinfonia dos homens.
GEORGIO SILVA (Riachão do Jacuípe)
BANHO NOTURNO
Olho o mar e me perco em sua extensão cada vez maior.
A Terra é azul, alguém disse. Ela é vermelha, eu vejo.
O mar que cresce é sangue. Um vento frio, quente.
MARCELA SOARES (Feira de Santana)
REVELAÇÃO (a meu L. J.)
Um menino me perguntou Dia desses Quando o mundo acabaria. E diante da minha surpresa, Ele questionou: - Você não sabia?
DANIELA RODRIGUES (Feira de Santana)
DO PERIGO CONCRETO
desma TamenTo
CIMENTO
AQUECIMENTO
Des aparecimento
esquecimen
A. CAFÉ-GALLO (Salvador)
Escrito por M. Gallo às 09:34
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FÁBULA DE AMOR E MORTE
Foto de Evan Lane.
PELO QUE ELA FEZ
Ela tinha que morrer. Isso Omoo sabia. Também sabia que não podia matá-la. Nem mesmo tentar. Aqueles olhos. Olhariam para ele. Nem tentar. Então, o que fazer? Havia um Ung. Que morava numa caverna. Atrás da montanha. Uma caverna imunda. Longe da vila. Ung, que caçava com pedras. Que matava com as mãos. Que matara dois dentes-de-sabre. E um grande urso, cuja pele agora lhe pendia dos ombros peludos. E Ung matara homens. Muitos homens. E, dizia-se, uma mulher. Ung, que deixava a carne fresca sobre a pedra chata para o Espírito do Céu. E o Espírito do Céu ficava com fome. E trazia dor e escuridão para a vila. Mas ninguém ousava dizer palavra a Ung. Que matara dois dentes-de-sabre. E um grande urso. E homens, muitos homens. E, dizia-se, uma mulher. Ele foi até Ung. Sim, disse Ung. Eu a matarei. Pelo que ela fez, disse Omoo. Por igual peso em carne de urso ou peles de lagarto, respondeu Ung. Ela é uma mulher grande, disse Omoo. Igual peso, disse Ung. Agora você precisa mostrar quem ela é, para que eu possa matá-la. Isso eu não posso, disse Omoo. Então como vou reconhecê-la? O cabelo dela é comprido, disse Omoo. Os olhos dela queimam como o poço da noite. Muitas têm o cabelo comprido, respondeu Ung. Muitas têm olhos como o poço da noite. Ela estará se banhando, disse Omoo. Amanhã, quando o sol morrer. Ela estará tomando banho. Lavando o longo cabelo nas águas que caem. Muitas mulheres estarão tomando banho, disse Ung. Muitas mulheres de cabelos compridos e olhos como a noite. Com vou saber quem é ela? Omoo pensou. Ah, disse ele. Ela estará carregando flores. Flores brilhantes das colinas, que irei reunir e colocar em suas mãos antes que ela saia para banhar-se na água-que-cai. Então você saberá quem é ela. E você a matará. Por um peso igual, disse Ung. Sim, por um peso igual, disse Omoo. E assim surgiu o costume de se oferecer buquês.
SHEL SILVERSTEIN. Contista, poeta, dramaturgo e letrista norte-americano. Conto policial extraído de Crimes de amor (São Paulo: Best Seller/Círculo do Livro, 1997), organizado por Otto Penzler, e que inclui autores do porte de Elmore Leonard, Ed McBain, Joyce Carol Oates e Michael Malone. Tradução de Luiz Fernando Martins Esteves.
Escrito por M. Gallo às 10:33
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