C O N T R A M Ã O


CONTO

Aos treze, de Catherine Hardwicker.

31 DE DEZEMBRO

1946. Ele tem cinco anos. Está aprendendo a ler e escrever. Pediu lápis de presente no Natal e assim começa sua coleção de lápis.

1947. Ainda não leu todos os livros que ganhou no Natal. Mas já tem o seu preferido: Simbad, o marujo.

1948. Seus desenhos espalham-se por toda a casa.

1949. O pai briga sério com a mãe e passa o Ano Novo fora de casa. A noite é triste e todos vão dormir cedo. Mesmo sua tia Marina, que veio ajudar sua mãe, não parece empolgada. Quando uns rapazes da vizinhança passam para levá-la a um baile, ela diz que não vai, que não pode ir. De seu quarto ele olha a noite estrelada e fica se perguntando por onde anda seu pai.

1950. Aos nove anos se apaixona pela primeira vez. A garota é a filha dos novos vizinhos, no fim da rua. Ele faz ponto em frente à sua casa, horas e horas. Ela tem treze anos e nem sabe que ele existe. A paixão se estende por todo o verão e morre quando ele a vê agarrando-se com um rapaz na varanda dos fundos, às escuras.

1953. Depois de um péssimo Natal, sem sua irmã Carol, que brigou com o pai e foi morar com a tia, um Ano Novo melancólico. Seu tio Evilásio, o irmão mais velho de sua mãe, foi atropelado e morreu. O luto prevalece. Carol retorna, mas só para as exéquias.

1956. A primeira namorada: Lívia. Ele passa em sua casa para vê-la, mas ela não está. Foi passar a noite na praia, com os primos. Ciúmes. Desejo de morrer. Vontade de viver para lhe dar o troco. Em casa, Carol mostra a todos o anel de noivado. O noivo está longe, pelas bandas de Minas.

1959. Sozinho com Amanda, ele não consegue fazer amor com ela. Tenta, mas treme tanto, que ela ri. É ela quem o descarrega, mais tarde, já extintos os fogos, os sons da chegada do novo ano.

1961. Sandra tem 23 anos e o domina completamente. Levou-o para passar o Natal com os pais dela e agora propõe um Ano Novo a dois, num hotelzinho perto da praia. Ele não sabe de onde ela arranca tanto dinheiro. Tudo o que ela lhe responde é: "Bem, o certo é que não dá em árvores".

1962. Sandra marca com ele, mas passa o Ano Novo com outro. Na festa em que ele acaba por atracar, conhece Estela, a prima de um amigo. A garota, que divide um apartamento com mais duas moças, leva-o para dormir com ela as últimas horas da noite. De manhã vão à praia, e ela é linda no biquíni.

1965. O primeiro Ano Novo de casados. Na casa dos sogros, os pais de Estela. O Natal eles passaram com os pais dele. O pai doente, a mãe acabada, a cuidar de seus dois irmãos menores e também do filho de Carol, que só tem seis anos. Carol, que não apareceu no Natal, também se ausenta no Ano Novo. Antes da meia-noite, a mãe lhe telefona. Seu sogro lhe passa o aparelho e faz uma cara de pêsames que o amedronta. Mas a mãe só quer chorar, se queixar, dizer que não agüenta mais...

1966. Seu primeiro filho, uma menina, tem só três meses. À meia-noite, a algazarra pela chegada do novo ano desperta o bebê. Ele e Estela vão acalentá-lo e deixam na sala, entregues a si mesmos, os membros das duas famílias. Carol não suporta o próprio filho. Prefere o novo namorado, um peixe estranho àquele aquário infeliz. Sua mãe continua a dizer que não agüenta mais, seu pai está muito debilitado e seus dois irmãos gozam de uma liberdade que ele e Carol jamais tiveram.

1970. Com a morte de seu pai logo depois do Natal, o Ano Novo, como o de 1953, volta a ser de luto. Carol, que afinal se casou, lhe diz no longo corredor da casa de sua mãe que "este é um dos maus hábitos desta família: sempre alguém morre por ocasião do Natal ou do Ano Novo". Ele tem vontade de quebrar-lhe o nariz. Só vontade.

1972. O irmão de Estela, desaparecido desde maio do ano anterior, é encontrado no interior de Alagoas. Os militares levaram-lhe um olho e um braço, mas ele está vivo. A chegada do Ano Novo, na casa de seus sogros, tem ao mesmo tempo um sabor de alívio e derrota.

1973. Estela passa o Ano Novo grávida. A mãe dele veio para o Natal e ficou mais duas semanas. Num dos seus irmãos, Ivo, já adolescente, ele vê a si mesmo e fica nostálgico, ligeiramente triste.

1980. Um Ano Novo ruim. Sua mãe morreu em março, Ivo sofreu um acidente de automóvel e ainda se recupera, e Ivan, seu outro irmão, operário de uma empresa petroquímica, decidiu enveredar na política. Ele próprio perdeu o emprego de desenhista no jornal, mas logo arranjou outro numa agência de propaganda. Financeiramente foi até melhor, mas foi ali que conheceu Camila e se apaixonaram. Há dois meses que trai Estela. Também não se conforma que a filha, com apenas catorze anos, já esteja namorando. Nem que Carol ande com um e outro, depois de se separar do marido.

1982. Camila, grávida de seis meses, exige que ele tome uma decisão. Nesta noite ele conta tudo a Estela, que chora, abraçada ao filho. A filha, que estava na casa do namorado, volta para encontrar o pai de saída, com uma mala e sua pasta de desenhos.

1987. Um ano péssimo (o filho de Carol morreu de AIDS, e ela própria não vai nada bem) frustra qualquer comemoração de Ano Novo, é o que ele conclui. Mas sua mulher, Camila, que tem só 28 anos, e sua filha, com cinco, são excessivamente jovens e querem viver. Ele liga para Estela e descobre que ela está sozinha com o menino. Vai buscá-los de carro. Camila e Estela acabam por se entender. É a passagem de ano mais estranha de sua vida.

1998. Um 31 de dezembro melhor e quase normal, em família. Consegue reunir a todos: Carol, Ivo, Ivan e Estela. Filhos e netos também estão presentes. Camila, que morreu durante o segundo parto, é só uma lembrança.

2006. O médico desliga o aparelho acima de sua cabeça. E pede que a enfermeira comunique aos familiares que o paciente não resistiu. Ela diz que não há ninguém lá fora, que é quase Ano Novo e que as pessoas estão comemorando... O médico olha para ele, imóvel na cama onde por três semanas manteve-se refém de esperanças e atenções. E pensa que durante aqueles últimos três minutos, em sonho, a vida talvez tenha lhe voltado. Ou não. Quem sabe? Também ele prefere ignorar que há vida na morte. Por fim, diz à enfermeira que "tudo bem, deixe para informar aos familiares amanhã". E vai para a sua sala, abre um champanhe e comemora o novo ano, só. Como todos os homens.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 31/12/2006.



Escrito por M. Gallo às 11:25
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




CONTO DE NATAL

Não tenho medo, de Gabriele Salvatores.

ESTA MOEDA NÃO VALE NADA

Era o tempo em que as crianças paravam diante das vitrines das lojas e admiravam os brinquedos. As pobres, digo, pois às ricas bastava pensar neles, que na noite de Natal apareciam ao pé das árvores, no canto da sala, como num passe de mágica.

Naquela manhã, como se estivesse diante de uma autoridade, o menino tirou o boné e ficou olhando a vitrine. Não havia criança que não parasse ali. Mesmo que suas mães as puxassem com força e impaciência, uma olhadela ao menos elas destinavam àquele mundo de carrinhos, bonecas, casas, bichos, trens, soldados e bailarinas, tudo em miniatura, e de uma delicadeza ímpar e cores berrantes que atraíam as crianças desde o primeiro olhar, ainda longe, do outro lado da rua. E muito mais aquele menino, tão calado e tão só com sua mãe doente. Ele enfiou a mão no bolso e pescou uma moeda. Entrou na loja, ainda vazia.

"Moço", disse, tímido, "de quantas moedas como essa preciso para comprar aquele caminhão de bombeiro?"

O homem recolheu a moeda de cima do balcão e a examinou.

"Esta moeda não vale nada. É dinheiro antigo."

O homem foi à caixa registradora e voltou. Largou uma moeda no balcão, pesada e luminosa: "Você precisa de trinta desta aqui". O menino a pegou, mal cabia em sua mãozinha. Jamais tinha visto aquela moeda. Seus olhinhos brilharam, e mordeu o lábio, certo de que jamais conseguiria juntar tantas daquela. Largou-a então sobre a madeira negra e foi saindo, sem se despedir do homem. "Ei", este disse. O menino se voltou, cabeça baixa, olhar de desânimo. "Me traga vinte e nove iguais a essa, e o caminhão será seu", disse o homem.

Naquela noite, quando levou o chá para a mãe, no quarto, o menino perguntou se ela não tinha uma moeda para lhe dar. Ela simplesmente disse que não, que todo o dinheiro que tinham era para comer, e nem poderia garantir que durasse até o Natal.

"Se pelo menos seu pai nos mandasse algum dinheiro..."

No dia seguinte, o menino foi à escola pegar seu boletim e avisar que sua mãe, porque estava doente, não ia comparecer à festa de Natal, e que ele também não iria, pois precisava cuidar da mãe. Depois, reuniu-se com alguns colegas no pátio da escola e tirou de dentro de um saco um dos seus tesouros pessoais, que mostrou a todos: o esqueleto de um gatinho. Um dos filhotes de Dália, a gata de sua mãe, que morrera atropelada no verão anterior. Desde os seis anos que ele guardava aquele esqueleto. Obteve três moedas com ele.

Até o fim do dia conseguiu reunir oito moedas. Mas parou por aí, e por vários dias não conseguiu mais nada. E o Natal estava próximo, e dos quatro caminhões de bombeiro que havia inicialmente na vitrine só restavam dois. Começou a sentir medo, tanto de perder as moedas como de não arrumar mais nenhuma. Felizmente, conseguiu fazer alguns trabalhos na vizinhança, e a três dias do Natal seu bolso portava dezenove moedas. Com mais dez, e se o homem da loja cumprisse o que prometera, o caminhão era seu. Na véspera do Natal, a vizinha, dona Laura, o chamou por sobre a cerca e perguntou como ia sua mãe.

"Melhor", ele disse, num tom de tristeza.

Então a mulher, para que ele ficasse mais feliz, disse que, se ele fosse à mercearia comprar-lhe alguns mantimentos, ela lhe daria três moedas.

"Quatro", o menino negociou.

A caminho da mercearia, parou diante da loja e viu que só restava um caminhão. O último. Ficou olhando, abatido. Nisso, um homem que vinha claudicando pela calçada, a varrer o ar com a bengala, parou ao lado do menino e também ficou olhando os brinquedos.

"O que você está olhando, menino?"

"O caminhãozinho."

"Você gosta dele?"

"Claro!"

O homem ficou em silêncio, como se pensasse. Depois disse:

"Então fecha os olhos e me diga como ele é. Quero saber se você realmente gostou dele, a ponto de memorizá-lo..."

O menino fez o que o homem pediu, como se fosse ele, e não outra pessoa, o criador daquele brinquedo. Mencionou, de olhos fechados, cada detalhe, dos mais importantes aos mais simples. Depois pediu desculpas ao homem e disse que precisava ir.

À tarde, faltavam apenas quatro moedas, mas a mãe o chamou no quarto e perguntou se ele tinha algum dinheiro:

"Soube por dona Laura que você andou fazendo alguns serviços para os vizinhos..."

O menino hesitou um momento, mas foi ao seu quarto e voltou com um saquinho de camurça, cheio de suas moedas. Deu-as todas à mãe, que afinal, depois de mais de um mês de cama, lavantou-se e se arrumou, ficando tão bonita quanto antes de adoecer, quase parecendo aquela bela jovem que ele sempre apreciava no álbum de fotografias ao lado de seu pai.

"Vamos ao Centro comprar alguma coisa para a nossa ceia de Natal. Não podemos mais esperar por seu pai."

Na volta, o menino se desprendeu da mão da mãe e foi apreciar o caminhão de bombeiro, na vitrine. Todavia, o último que ele vira pela manhã não estava mais lá.

A noite de Natal foi tão melancólica quanto o dia em que seus avós morreram. O menino comia sem vontade, sua mãe também. E não havia árvore de Natal, nenhuma música, ninguém mais na escura sala de paredes sujas e móveis poeirentos. Até que perto da meia-noite bateram à porta. Não encontrou ninguém, mas na soleira tinham deixado uma caixa, embrulhada em papel colorido. Ele a abriu, ávido, já intuindo o que seria. A mãe, às suas costas, disse que ele não deveria aceitar presentes de estranhos. Então o menino olhou para o outro lado da rua e viu o homem, que, ao ser descoberto, começou a andar rápido, auxiliado por sua bengala.

"Foi ele!’, o menino disse e apontou o vulto que se esgueirava rente às paredes das casas.

"Não pode ser", a mãe disse, "ele é cego e muito mais pobre que nós: veja as roupas maltrapilhas..."

"Cego?", o menino se espantou.

"Sim, veja a bengala. Sem a bengala, ele é nada."

Dentro da caixa, o menino ainda encontrou aquela primeira moeda, pesada e luminosa.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 24/12/2006.



Escrito por M. Gallo às 07:31
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O NATAL EM 11 POETAS

Cidadezinha feliz, Marita Larrañaga (Peru).

A idéia era que cada poeta aqui apresentado concentrasse num poemeto de no máximo cinco ou seis versos sua visão pessoal do Natal, com tudo aquilo que este evento oferece de positivo e negativo. Não faltou quem o fizesse com humor (Elieser Cesar) ou ironia (Marcela Soares), com intenso lirismo (Ângela Vilma) ou mesmo com certo estoicismo cósmico (A. Café-Gallo). O Natal é um só e no geral seu espírito permanece, mas os homens mudam, no tempo e em si mesmos. E assim muda o que pensamos do Natal, ainda que continuemos a apreciá-lo, como crianças.

DEZEMBRO DO MENINO DESCALÇO

Nunca ganhei um brinquedo no Natal.
Também, cadê meu sapatinho
(novinho, macio, legal),
para esperar Papai Noel,
com o presente que desce do céu?

Elieser Cesar (Salvador)


CANTIGA DE NATAL
(a Mayrant Gallo)

Papai Noel não existe.
Foi o que Sílvia me disse
Ao descobrir o mundo.

Papai Noel não existe.
Ainda não acredito muito.

Ângela Vilma (Salvador)


NAVIDAD

Da próxima vez
Ele virá
Numa nave

A. Café-Gallo (Salvador)


PAPAI NOEL
(inspirado em Natalício, de Carlos Barbosa)

Pulo a janela com os olhos da alma
e no vulto vejo esperança e desejo.

Me assusta o menino aos pedidos de calma:
de gorro e saco na mão,
sua arma é o brinquedo.

Marcela Soares (Feira de Santana)


NATAL

A ceia posta,
meu tio apenas memória.

Paulo André (Feira de Santana)


RETRATO

Lembro de meu pai deitado no sofá.
Lembro das horas arrastadas daquele dia.
Lembro de meu pai manuseando
freneticamente o controle da televisão.
Lembro que era Natal.

Thiago Lins (Feira de Santana)


NATALIDADE

As luzes,
quase cruzes.
Sombra sincera do meu avô.

Georgio Silva (Riachão do Jacuípe)


IN CERTO NATAL

Há no quintal em ruínas um pé de acerola
e em meus olhos, canais de irrigação
– cobrem meu corpo escamas ressecadas.

Calor de quase quarenta graus
peru recheado e cerveja gelada
– sobre o Cristo, nenhuma palavra.

Carlos Barbosa (Ibotirama)


SINOS DO MISTÉRIO

Os sinos melodiam
as margens sonhadoras da música,
a estação esperançosa do mundo,
a navegação sombria
do misterioso Natal.

André Setti (São Paulo)


VERDADE

Natal
Um menino desembrulha seus presentes
Enquanto outros meninos
Contemplam o vazio

Daniela Rodrigues (Feira de Santana)


BREVE E ETERNO POEMA NATALINO

Luzes por todo canto...
E num canto alguém
A quem não restam sonhos.

Mayrant Gallo (Salvador)



Escrito por M. Gallo às 15:24
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




UM CONTO DE MARK TWAIN

O mundo do autor, por Mogens Ove Österbye.

A HISTÓRIA DO PEQUENO STEPHEN GIRARD

1
Existe em Filadélfia um homem que, quando não era mais que um garoto pobre, entrou num banco e disse:
"Por favor, cavalheiro, não estaria precisando de um menino?
"Não menino", respondeu, majestoso, o banqueiro, "não estou precisando de um menino".
O financista continuou:
"Você é ajuizado, menino?"
O menino disse que era muito ajuizado.
"Em quem vai votar?... Ah, perdão, você freqüenta o catecismo?"
O menino disse que freqüentava, sim. Então o banqueiro mergulhou uma pena de ouro na mais pura das tintas, escreveu num papel S. Pedro e perguntou ao menino o que era aquilo.
O menino respondeu que era Seu Pedro.
"Não", disse o banqueiro. "É São Pedro."
O menino havia realmente apanhado alguma coisa no chão: um alfinete, que ele prendeu à roupa, modesta, mas amarrotada.
"Venha cá!", gritou o banqueiro para o menino. O menino foi.
"Que é que você apanhou no chão?", perguntou o majestoso banqueiro.
"Um alfinete", respondeu o menino.
De coração pesado, lágrimas no rosto, a garganta cheia de soluços, o menino desceu a escadaria de mármore do banco, chupando um pirulito de cevada que havia comprado com uma moeda roubada à sua boa e piedosa tia.
O banqueiro escondeu seu nobre vulto atrás de uma porta, convencido de que o menino ia jogar-lhe uma pedra.
O menino fez "Oh!"
O banqueiro o abraçou com afeto, e o menino tornou a fazer: "Oh!"
Então o banqueiro tornou o menino sócio de sua empresa, deu-lhe metade dos lucros e todo o capital. Mais tarde, o menino casou-se com a filha do banqueiro. Tudo que o banqueiro possuía ficou para o menino.

2
Tendo meu tio me contado esta história, passei um mês e meio recolhendo alfinetes no chão, diante do banco.
Esperava o tempo todo que o banqueiro me chamasse para e perguntar:
"Menino, você á ajuizado?"
Eu teria respondido que era ajuizado, sim.
Ele teria escrito S. João, e eu teria dito que era Seu João.
Imagino que o banqueiro não tinha pressa em arranjar um sócio, ou que sua filha era um filho, pois um dia ele me chamou:
"Menino, que é que você está catando aí?"
"Alfinetes", respondi educadamente.
"Mostre-me."
Ele os pegou, e eu segurei o chapéu na mão, pronto a me tornar seu sócio e me casar com sua filha.
Mas não foi isso que ele me ofereceu.
"Esses alfinetes", ele rugiu, "pertencem ao banco. Se eu o encontrar de novo por aqui, mando soltar os cães em cima de você."
Parti, e o velho tratante ficou com os meus alfinetes. Depois de tudo isso, me digam se a vida não está cheia de surpresas!

MARK TWAIN (1835-1910). O primeiro grande escritor do humorismo norte-americano. Escreveu inúmeros contos e romances, entre os quais As aventuras de Tom Sawyer (1876), Huckleberry Finn (1884) e Velhos tempos no Mississippi (1875). Uma boa iniciação do leitor brasileiro na obra do mestre do humor e da ironia é o volume Contos de Mark Twain (São Paulo: Cultrix, 1988), organizado e traduzido por Araújo Nabuco. A tradução do conto acima é de Fernando Sabino.



Escrito por M. Gallo às 09:15
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




DICAS CINEMATOGRÁFICAS (3)

Open water, de Chris Kentis.

QUANDO OS TUBARÕES VENCEM

Consultando algumas opiniões na internet sobre o filme Mar aberto, percebi que as pessoas vão de um julgamento "nota dez", em que dizem que "o filme é maravilhoso", a outro "nota zero", segundo o qual o filme seria, talvez, "o pior filme de todos os tempos". Tal discrepância já é um atrativo para o espectador, que, se for de fato uma pessoa curiosa, não vai perder esta chance de dar, ele também, sua opinião.

Na verdade, a decepção parece advir do fato de que o filme não termina como as pessoas queriam. Tanto esforço da parte dos personagens não resulta em nada. Os tubarões vencem. Mas não é assim na vida? Para os milhares de sobreviventes às ondas gigantes na Ásia, há milhares de mortos, estes talvez a maioria. Para cada história feliz há tantas outras trágicas. Assim é a vida. Penso que Hollywood nos acostumou mal com seus finais felizes. A interferência recorrente da "cavalaria", no último suspiro dos personagens, nos fez acreditar que todo esforço por sobrevivência será recompensado pela sobrevivência. Que resistir será necessariamente viver. Nem sempre. E este é um dos méritos de Mar aberto. O que esperamos é o que nos é tirado, e o que não esperamos é o que temos. Ao fim, só nos resta gemer, de dor. Ou gritar, de revolta. O silêncio que se derrama do filme sobre nós é o mesmo que nos dói, fundo.

O que se chamou de final previsível em Mar aberto é exatamente o contrário, pois não creio que ninguém durante a sessão, mesmo supondo um desfecho como o que o filme apresenta, acreditou realmente que ele acontecesse. Não, seria inadmissível, porque dessa forma o esforço despendido pelos personagens, que ficam quase 24 horas à deriva, teria sido inútil; e um filme, ou melhor, um roteiro de cinema, não pode, racionalmente, quebrar esta regra: você luta para sobreviver e, lutando, sobrevive. Seria, portanto, quase um equívoco, afinal de contas boa parte das produções americanas se firma nesta fórmula. E ela está tão internalizada em todos nós que, inconscientemente, não admitimos sequer a possibilidade de sua quebra e, pior, não refletimos sobre o que acabamos de assistir, qualquer que seja o filme. Vamos direto a um julgamento apressado, que é fruto de uma incapacidade de recepcionar a diferença. No entanto, aquele final melancólico, com uma morte ainda mais melancólica, na vastidão solitária do mar, apartados os personagens de toda e qualquer esperança, de toda e qualquer solidariedade humana, é, a meu ver, não a exceção, mas a regra. E também, para a minha satisfação pessoal e de muitas outras pessoas, acredito, uma metáfora da própria condição humana: estamos realmente sós. Se não a percebemos tão claramente, é porque o elemento que anima o filme é, aí sim, o da exceção: o mar. Ninguém passa 24 horas de sua vida no mar. Não comumente. Mas aquele mar é outra coisa. A causa, por exemplo, do impulso último que faz alguém se jogar de um edifício ou se atirar diante de um trem. Aquele mar é a nossa essência. Uma fotografia bizarra mas verossímil do que somos dia a dia, como seres humanos. Naquelas 24 horas passadas na água fria está condensada a aventura humana, com todos os seus momentos de êxito e frustração, e a aventura humana sempre termina com a morte. A luta, qualquer que seja ela, mais cedo ou mais tarde resultará inútil.

Abandono, solidão, pavor e tubarões.

Um aspecto que comprova ser o mar uma extensão metafórica da vida é a seqüência de imagens e fatos que antecedem o incidente. Rapidamente, o cotidiano do casal em férias é apresentado. Desde o momento em que os dois partem rumo ao cenário litorâneo até o desolador instante em que a mulher, na cama, se recusa a amar o companheiro. Ela não sabe, mas aquela recusa será a última. Suas almas jamais terão a oportunidade de se encontrar novamente, no êxtase. Pelo menos não nesta vida. Ao recusar o companheiro, ela recusou viver seu derradeiro prazer.

Como ocorre nos mais célebres filmes-catástrofes, a calma inicial, de natureza cotidiana e pueril, será abalada por um acontecimento decisivo, através do qual se espera que os personagens cresçam, evoluam, se tornem mais experientes e, se possível, melhores. Não é o que acontece em Mar aberto. O casal não terá seu caráter melhorado, nem sua vida transformada. Simplesmente a perderá. E durante a perda, que é lenta, como uma tortura, os sentimentos mais humanos (impaciência, medo, ódio, solidão, desespero, desilusão, esperança, alegria, afeto, compreensão, desprezo, empáfia e seus opostos) vão emergir em ambos, numa sucessão patética e a espelhar o que somos. Durante 24 horas o casal viverá intensamente, embora de maneira compacta, toda a extensão de sua vida neste mundo, uma vida possível, simbólica, que de décadas e anos é reduzida a horas e minutos. O tempo que transcorre não é o de um dia, mas o de uma existência inteira, "coroada" com o maior dos fracassos, a impotência diante da morte iminente. O casal não sobrevive porque não pode sobreviver. Chegou ao fim, cumpriu sua missão sobre a Terra, como nós estamos cumprindo a nossa, a ser coroada também, em breve. Na vida, a cavalaria sempre chega tarde. Quando chega. Em Mar aberto, isto fica claro desde o início, com os freqüentes motivos de fatalidade apresentados pela narrativa: quando o casal bebe água de coco, o homem que abre os cocos dá um forte golpe com o facão, em close; depois, o rapaz se deixa fotografar com a cabeça dentro das mandíbulas de um tubarão; mais tarde, no barco, a caminho do mar aberto, dois laços vazios são focalizados, como forcas à espera de cabeças; e, por fim, o ar pensativo de ambos minutos antes de cair na água para o mergulho fatal, numa espécie de antevisão inconsciente da tragédia... O casal vai morrer porque morrer é a regra. Sobretudo nas circunstâncias terríveis a que ficará exposto.

O desfecho, portanto, não é previsível. É natural, coerente com a narrativa e com a etiqueta da vida. Apenas a platéia não o suporta. Não o aceita. Porque julga que cabe ao cinema, máquina de ilusões, recriar a existência. Nem sempre.

MAYRANT GALLO. Ensaio publicado originalmente no Correio da Bahia, em 20/02/2005.

 Open water, EUA, 2003. (DVD LK-TEL)



Escrito por M. Gallo às 16:17
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




CONTO

Capa do romance Naomi, de Junichiro Tanizaki.

CHAME COMO QUISER

Mesmo rejeitado pela mãe do menino dias antes, o homem volta. Não se conforma com o que ela fez. Contrariada, a mulher lhe abre o portão lá embaixo e a porta lá em cima. Ele entra em silêncio. Joga-se no sofá e ali permanece, imóvel, como que à espera de explicações. Mas ela não diz nada. É ele quem deve falar, pois voltou. Não reconhece a mulher, toda a ternura dos últimos dias como que se esgotou, e agora ele não passa de uma pia, um utensílio. Receia abrir a boca e lhe dizer isso. Talvez não admire esta mulher, mas a adora. Acima de tudo a deseja, gosta de estar com ela, sob ela, vendo-a contorcer-se...

"Por que voltou? Só deixei você subir porque o menino não está."

"E onde está ele?"

"Passeando com a prima, na praça. Não os viu?"

Um breve silêncio. Indócil.

"Acabou. Será que você não entende?"

"Não, não", é só o que ele consegue dizer. Levanta-se, impulsiona-se para ela, tenta acariciá-la. Ela se desvencilha. Parece atormentada com sua presença, com a iminência de suas mãos, sua boca, seu corpo. Acaba, porém, por aceitá-lo, oferecer-lhe os lábios, os seios, sua solidão. Ele a ergue com violência e carrega para o quarto. Há vários dias que só pensa nela. Mal trabalhava, mal falava com os colegas de escritório. Nas ruas, andava a esmo, com um olhar alucinado e passos trôpegos. Dobrava esquinas que desconhecia e que, descobriu mais tarde, convergiam a becos escuros, às vezes sem saída. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, jamais se envergonhou daquela perna fina, quase infensa a estímulos. Mesmo que ela não tivesse as duas pernas, ele a amaria. Sempre. Não é preciso ser muito sagaz para perceber que ele ignora o que seja o amor e confunde sentidos com sentimentos.

Deita-a suavemente na cama e começa a se despir. Ela mantém os olhos fechados, talvez sem coragem de assistir ao prelúdio do que está por sofrer, mais um vez. Talvez, se os abrisse, acordasse. Mas não sabe o que é pior: descobrir que nunca dormiu ou que ainda está por acordar. Não, a vida é esta mesmo, com o peso que em instantes vai suportar e que diante dela livra-se das roupas, atabalhoadamente, sem qualquer método, nenhum requinte: só instinto, impulsos, reflexos.

Ela geme, um animal ferido, trespassado por uma incandescente barra de aço. Sons se sucedem por um tempo e somem. Imobilidade, silêncio. Quando ele tenta acender a luz do abajur, para pegar um cigarro (hábito que ela abomina), o ruído da lâmpada se queimando é igual ao de um fio se rompendo: surdo, oco, saído do côncavo de duas mãos num aplauso lento e sarcástico. Ela geme de novo, assustada.

"Que foi? Você está bem, te machuquei?"

Ela não responde, sem ânimo de lhe dizer que é ela própria quem se machuca. Esquecido do cigarro, ele observa o teto, uma massa indistinta de escuridão. Não há luz em seu pensamento, como no céu lá fora, na noite urbana. Há só um vácuo espesso, prestes a se transformar em cólera.

Então ouve-se um ruído de trinco, de porta, e vozes que invadem o apartamento. Risos. O som abafado da madeira aderindo ao exato retângulo, por onde uma corrente de ar frio desliza, o treque-treque da chave, uma fala mais exaltada, do menino, que parece feliz, à vontade.

"Tia Adélia?", a voz fina se propaga pelos cômodos, um a um, e logo os encontrará. O homem começa a se vestir, mas sem pressa. Adélia apenas desce a saia, que ele suspendera de um golpe, e em seguida ergue a calcinha, que, de um outro golpe, ele quase rasgara. Levanta-se e deixa o quarto. Ao fechar a porta atrás de si, depara-se com a garota.

"Que houve?", pergunta, equilibrando-se na perna boa.

"Nada", a garota responde, "só estamos com fome."

Os quatro agora, à mesa, tomam café.

"Miguel veio me trazer uma ótima notícia, Berta", Adélia diz, num tom malicioso que o homem não conhece, e olha para ele, as pupilas opacas, os lábios torcidos. "Arrumou uma vaga para você num ótimo colégio... Não é isso, Miguel?" Ele gagueja, mas por fim assente, o olhar firme no rosto branco da garota, que apenas sorri, envergonhada.

Ao final da refeição, Miguel sugere que a garota leve o menino à locadora lá embaixo e o deixe escolher um bom filme. Escorrega para a sua mão, com o consentimento da tia, uma nota. Esse gesto se repetirá muitas vezes, ao longo de todo o verão, como um frescor necessário...

A garota e o menino saem. Miguel se volta para Adélia, ambos ainda na mesa, ela a recolher os pratos, sem zelo, movida por certa impaciência.

"Que história é essa de escola?"

"É a minha condição", ela diz.

Os pratos já estão amontoados na bandeja. De pé, mas sem erguê-la ainda, Adélia completa: "Mas você não precisa aceitar..."

"Uma barganha..."

"Chame como quiser", ela diz e vai com a bandeja, oscilando para a cozinha. Demora a voltar, os sons dos pratos se sucedendo sob o jato da torneira. Na mente de Miguel, o ruído de outro fluxo, bem mais inquietante: sua crescente insatisfação, alimentada por intensos golpes de sangue.

De volta à sala, Adélia recolhe os recipientes de alimento, sem olhar para Miguel, que se mantém calado. Abarrota a bandeja com o pão, os biscoitos, o café, o leite, o açúcar, a manteiga, a geléia. Ele a observa pegar cada coisa. Seus olhos saltam de um alimento a outro, como se lhes conferisse a quantidade, o estado, o volume, a aparência. E de súbito compreende: é a mulher quem traz o homem sobre seu corpo e para a sua vida. Numa negociação, numa troca: sua caixa por uma casa e tudo o mais que um lar impõe.

"Vou trocar a lâmpada", ele diz, quando Adélia lhe vira as costas e segue claudicante para a cozinha. Até que a garota e o menino retornem, ela e Miguel não dirão mais nada. Ele já a possuiu por esta noite, e Adélia sabe que o saciou por algum tempo, o tempo de uma longa espera.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 17/12/2006.



Escrito por M. Gallo às 23:09
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




3 POEMAS DE ANTÔNIO CARLOS DE O. BARRETO

 

Edward Hopper (1882-1967)


DAS BRINCADEIRAS DE AMOR

Há crateras em meu coração
onde amores antigos tentaram
erguer muralhas em vão.


GRAMATICAL

                Para Tainã, minha filha

Dedo
é lâmina,
língua e olho
seguem
a mesma trama.

Sangra
o verbo

O adjetivo
trai

Exagera
o advérbio

Não se cansam
os numerais

Trajando máscaras
e ocultando o self,
nos enganam
os pronomes pessoais.


NÁUFRAGO

Quando tudo parecia perdido,
o poeta deu-se conta
de que era um ébrio
contemplando a lua
numa pequena
poça d'água.


ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA BARRETO. In: Flores de umburana. Salvador: SCT/Funceb, 2006. 99 p.



Escrito por M. Gallo às 19:10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
    Categorias
      Todas as Categorias
      Evento
      Citação
    Outros sites
      UOL - O melhor conteúdo
      BOL - E-mail grátis
      Miniconto
      Rita Lee
      Rascunho
      Bestiário
      Estante Virtual
      L&PM
      CD Point
      2001 Vídeo
      Verbo 21
      Cronópios
      Traça
      Simplicíssimo
      Vitor Ramil
      Jornal dos Sports
      Sidarta
      Idéias e Histórias
      Baratos da Ribeiro
      Edições K
      Câncer de Mama
      Panorama da Palavra
      Bagatelas!
      Concursos Literários
      Impressões de Ontem
      Estações Ferroviárias
      Carlos Ribeiro
      Carlos Barbosa
      Entrelivros
      Vaia
      Digestivo Cultural
      Viajando...
      Pôsteres de Cinema
      Amauta Editorial
      Escritoras Suicidas
      InterCidadania
      Entretantos
      Flickr
      Márcia Maia (1)
      Márcia Maia (2)
      Sandro Ornellas
      Quintana
      Cozinha do Cão
      Domínio Público
      Design Editora
      Polichinello
      Camille
      "Entre Aspas"
      Marcelo Barbão
      Foto-Síntese
      Madame K
      Setaro's Blog
      Embrulho no Estômago
      Germina
      Wladimir Cazé
      CosacNaify
      Brandão Sebo
      Flavio Luiz Cartum
      Vestígios da Srta. B
      Notas Mínimas
      Katia B
      Futeboleiros
      Aeronauta
      Ualmanak
      Anjo Baldio
      Ana Cecília
      Barefoot
      Veículo Voador
      Imagens e Palavras
      Cavalo de Ferro
      O Muro e outras...
      Veredas
      Geringonça
      Cavaleiro de Fogo
      Gerana Damulakis
      Portal Solaris
      Menalton Braff
      Blog do Menalton
      Thomaz Albornoz Neves
      Eu ao Meu
    Votação
      Dê uma nota para meu blog