C O N T R A M Ã O


QUINTANA E O AMOR

Lost in translation, de Sofia Coppola.

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada,
                                           [numa alegria atônita...
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

MÁRIO QUINTANA (1906-1994). Poeta gaúcho cujo centenário de nascimento, este ano, foi amplamente comemorado em todo o Brasil. O volume Poesias (1962) reúne seus cinco primeiros livros de poemas.



Escrito por M. Gallo às 23:07
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UM ANO DEPOIS

Jogo subterrâneo, de Roberto Gervitz.

Há um ano exatamente, em 11 de dezembro de 2005, o Contramão começou a existir. Eu não esperava que durasse um mês, mas ele prosseguiu, se modificou, ganhou leitores assíduos, e só me resta agradecer a todos que o acessam e o incluem em seus rituais de leitura. Para comemorar, um belo miniconto de Eduardo Galeano.

A ESTAÇÃO

          Achával vivia longe, a mais de uma hora de Buenos Aires. Não gostava de esticar a noite na cidade, porque era triste a madrugada solitária no trem.
          Todas as manhãs Acha subia no trem das nove para ir trabalhar. Subia sempre no mesmo vagão e se sentava no mesmo lugar.
          Na sua frente viajava uma mulher. Todos os dias, às nove e vinte e cinco, essa mulher descia por um minuto numa estação, sempre a mesma, onde um homem a esperava parado sempre no mesmo lugar. A mulher e o homem se abraçavam e se beijavam até que soava o sinal. Então ela se soltava e voltava ao trem.
          Essa mulher se sentava em frente, mas Acha nunca ouviu sua voz.
          Uma manhã ela não veio e às nove e vinte e cinco Acha viu, pela janela, o homem esperando na plataforma. Ela não veio nunca mais. Depois de uma semana, também o homem desapareceu.

EDUARDO GALEANO (1940). Escritor uruguaio, autor do célebre As veias abertas da América Latina. Escreveu vários livros de contos e minicontos, entre os quais Vagamundo, O livro dos abraços e Dias e noites de amor e de guerra. O conto acima integra o volume Mulheres (Porto Alegre: L&PM, 2006). Tradução do contista Eric Nepomuceno.



Escrito por M. Gallo às 19:29
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CONTO

Foto de publicidade, IG.

FAÇO O QUE VOCÊS QUISEREM

O chefe nos chamou em sua sala. Anselmo e eu, de novo. Problema na certa, pois ele não costumava nos chamar à sua sala, e ainda mais no fim do expediente de uma sexta-feira, as salas já vazias e tristes. Fabíola nos atendeu, comunicou ao chefe que estávamos ali e se foi, uma resma de documentos nos braços. Mal falou comigo, magoada com meu convite meio cínico uma semana antes, no restaurante. Na ocasião, não me engoliu, nem engoliu o resto da comida. Deixou a mesa correndo, indignada. Desde então cruzava comigo nos corredores como se não me visse, e só me restava observar seu andar macio e ondulante, seguir a réstia do seu perfume.

O chefe foi logo dizendo o que desejava de nós: "Me entregaram uma encomenda onde não deviam entregar. Um caminhão cheio de almofadas e travesseiros. O destino era Lus, mas a transportadora alega que na fatura estava escrito Salvador... É prum hotel que será inaugurado no fim de semana. Então pensei que vocês, num extra, poderiam usar o caminhão da empresa e fazer a entrega. Que acham?"

"Quando?", perguntei.

"Agora, vocês partem agora! Já mandei pôr a carga no caminhão."

O chefe se espreguiçou na cadeira, acendeu um charuto e deu umas boas baforadas antes de dizer que nos recompensaria bem. Estávamos em pé, ele nunca nos convidava a sentar, sempre tratávamos qualquer assunto de pé à sua frente. Era um homem balofo e rude, sem polidez. E ganancioso, mesquinho. Para ele o que mais importava era dinheiro: no bolso e no banco, nos livros de contas a receber, nos cheques a descontar. Passava horas e horas contemplado sobre a mesa a papelada com esses valores. Depois, como já fosse noite, fechava o cofre, chamava um táxi pelo telefone, apanhava a maleta e saía. Mesmo assim, era generoso quando nos solicitava algum trabalho extra. Lancei meu preço. Ele achou alto, e quando baixei um pouco desconversou. Todo comerciante age desse modo: desconversa quando o quadro começa a ficar favorável, certo de obter mais vantagem. E quase sempre consegue. Parei então.

Ainda naquela tarde partimos, e com três horas de viagem ouvi um barulho lá atrás, entre a carga. Falei com Anselmo, que estava dirigindo, e resolvemos parar. Retirei do porta-luvas a lanterna e o revólver que o chefe havia me passado e fomos averiguar a origem do barulho. A pista estava deserta. De um lado e outro os silenciosos contrafortes vigiavam o caminhão. Morcegos atravessaram velozmente o céu, de um negro intenso, meio opaco, e desapareceram entre as árvores. Receávamos qualquer coisa e por isso demoramos a abrir a porta. Deixei a Anselmo esta incumbência e fiquei de viés, um pouco recuado, com o revólver obliquamente apontado para o interior forrado de espuma. Anselmo torceu a maçaneta e depois a puxou com violência. As duas abas da porta bateram de encontro as laterais da carroceria. O ruído, ou talvez a claridade súbita, ofuscante, fez erguer-se lá dentro um corpo negro, em cujo rosto, também negro, de cor natural e sujeira envelhecida, dois olhos muito brancos boiavam amedrontados. Dois olhos como duas pedras de gelo num copo, sem nenhuma mancha, brilho apenas, na noite fria. Botamos o cara pra fora e o largamos ali, na vastidão imóvel. Ele correu atrás do caminhão por um tempo e depois parou. Logo não consegui mais enxergá-lo no retrovisor.

"Que coisa, hein? Um mendigo entre os travesseiros dos bacanas...", Anselmo falou, o rosto radiante.

"Travesseiro atrai", brinquei.

"Deve ter entrado enquanto o caminhão era carregado..."

Uma hora depois rendi Anselmo ao volante. Embora exausto, o que poderia ser comprovado pela queda das pálpebras sobre os olhos, ele não estava com sono. Acomodado contra a porta, metade do braço de fora, e com a perna direita suspensa, o pé nu firmado no estofado crespo do banco, ele disse, num tom de franca admiração, lembrando-se do nosso passageiro clandestino:

"Que coisa!"

Iniciei uma lenta ultrapassagem sobre um longo veículo de carga inflamável. Durante a manobra, como se tivéssemos feito um acordo natural e óbvio, Anselmo não disse nada, nem eu. Uma caveira vermelha, desenhada acima da palavra perigo passou ao lado de Anselmo, lentamente, como um desafio aos nossos nervos. Ao finalizar a manobra, toquei duas vezes a buzina, e o motorista do outro caminhão fez o mesmo, num gesto amistoso de solidariedade que está em todas as estradas, em todos os oceanos, em todos os caminhos onde há homens em perigo. Aumentei a velocidade, e logo o outro veículo ficou para trás, envolto na escuridão.

O segundo terço da viagem transcorreu em silêncio e sem nenhum incidente. Anselmo dormiu um bocado e só me rendeu quando começou a amanhecer. Resolvemos parar para beber um café. O lugarejo era pobre. Poucas casas, nenhuma placa de restaurante à vista, nenhum bar, nem mesmo uma espelunca. À saída, porém, vimos um posto de gasolina, com um restaurante que ficava aberto dia e noite, apesar da falta de clientes. Tomamos café distraídos diante da tevê. Ainda repercutia o avião que caíra em Mato Grosso por erro da torre de controle. Caos nos aeroportos, pessoas dormindo no chão em meio à bagagem, outras contrariadas discutindo nos balcões das companhias aéreas. Me levantei, fui ao banheiro, larguei meu xixi, lavei o rosto, voltei e chamei Anselmo para continuarmos a viagem.

Hoje reconheço que fomos duas vezes imprudentes, afinal de contas o caminhão estava aberto nos fundos, e assim como alguém entrou outro simplesmente poderia sair com as mercadorias. Apesar disso, ficamos lá, tomando café distraídos, indiferentes, ligados na mesmice da tevê...

Perto de Lus, num trecho deserto, que é um atalho de terra que leva direto às primeiras praias, e poucos conhecem e tomam, com receio de cair numa armadilha, novos ruídos lá atrás, na carga. Paramos de novo: de novo o revólver, de novo Anselmo abrindo as portas, todo cauteloso, e eu de lado, pronto a atirar. Mas dessa vez eram os dois mais belos olhos que eu já vi na vida. E uma garota, linda, sedutora, adorável, com uma bolsa a tiracolo e uma mala na mão.

"Mais essa agora", Anselmo riu.

"Faço o que vocês quiserem", ela disse.

Fez, mas fez chorando.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 10/12/2006.



Escrito por M. Gallo às 11:31
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UM ENSAIO DE CHARLES KIEFER

Ladeira da Montanha, Salvador, por volta de 1950.

JORGE AMADO ESCREVIA MAL?

          Moacyr Scliar, em debate de rádio no dia da morte de Jorge Amado, foi categórico: o escritor baiano escrevia mal. A afirmação, no princípio, deixou-me perplexo. Depois, compreendi o que meu companheiro de ofício pretendeu dizer. Sim, Jorge Amado escrevia mal, mas produziu grandes romances. Como escreveram mal Lima Barreto, Fiodor Dostoiévski e Roberto Arlt, se por escrever mal se entende uma literatura mais de conteúdo social que estilística, menos de capricho de frase e de refinamento lingüístico e mais de contundência erótica, vital. Jorge Amado, como tantos outros escritores, optou por expressar sua visão de mundo numa linguagem carnavalizada, pouco se importando, é verdade, com o burilamento expressivo, a frase torneada e bem feita. No entanto, mesmo nos momentos de maior relaxamento, sua prosa é carregada de metáforas, de imagens poéticas que beiram o poema em prosa. Em Terras do sem fim há passagens de extraordinário lirismo. A morte e a morte de Quincas Berro-d'Água é uma das melhores novelas da história da literatura brasileira. Por outro lado, é possível que Scliar, na pressa da entrevista radiofônica, tenha ignorado o contexto histórico envolvido na questão. Jorge Amado, com Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Cyro Martins e Érico Veríssimo, faz parte do que os teóricos chamam de Romance de 30. Esses autores, no bojo das transformações produzidas pela Revolução de 30, construíram uma literatura com forte apelo social, voltada para os problemas brasileiros, uma literatura que desvendava o Brasil para os brasileiros, uma literatura em busca de identidade e afirmação, um passo adiante no projeto que seus pares românticos tinham iniciado quase um século antes. Os romancistas de 30 abandonaram os salões da aristocracia litorânea e meteram-se pelos grotões, revelaram ao próprio país os fabianos retirantes e os jecas lombriguentos.
          No mundo inteiro, e em todos os tempos, há sempre dois tipos de escritores: os estilistas e os conteudistas. Os primeiros sacrificam o que dizem pelo modo como dizem. Os segundos tratam de escrever mal quase que por dever programático, recolhem das ruas o falar popular, os miasmas dos esgotos, os fortes odores dos cortiços. Na prosa dos primeiros, encontramos os ademanes de linguagem, a ironia mordaz, o refinamento intelectual, a cinza teoria no dizer de Goethe. Na ficção dos outros, identificamos a reprodução mais direta e brutal da vida, com suas lutas intestinas e sua linguagem descuidada.
          Moacyr Scliar tem razão: Jorge Amado escrevia mal, eu diria até que, em alguns romances, é quase maniqueísta. Mas que extraordinário amor pelo seu povo e pela sua gente, que exemplo fantástico de integridade e compromisso social, que romances plenos de vitalidade e de alegria de viver. No limite, parece-me que Jorge Amado optou por esse estilo trágico-satírico, que comporta sim uma má escritura, cônscio de que essa era a melhor forma de transformar em arte um pouco desse triste e descuidado Brasil. O que Scliar aponta como defeito do mestre baiano pode ser uma de suas singulares virtudes.

CHARLES KIEFER. Romancista, contista e ensaísta gaúcho, nascido em 1958. Publicou entre outros livros Os ossos da noiva e Caminhando na chuva. Este breve e precioso ensaio integra o volume A última trincheira: arte, cultura e identidade nacional (Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2002).



Escrito por M. Gallo às 08:13
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DICAS CINEMATOGRÁFICAS (2)

Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s), de Blake Edwards, é mais que um filme. É um milagre de cor, som, sentimentos, humor, ironia, desespero, verdade, solidão. Um filme capaz de mudar a vida do espectador. Foi um dos primeiros filmes que senti vontade de rever sempre e não sei se não foi aquele que, indiretamente, fomentou em meu íntimo o desejo de ser escritor, pois, baseado na novela homônima de Truman Capote, narra o envolvimento de uma prostituta de luxo com um contista fracassado, que só publicou um livro, mal-recebido pela crítica. Precisos e envolventes, os personagens secundários conferem verossimilhança e originalidade à história, passada numa Nova Iorque que os próprios americanos esqueceram e que ano após ano torna-se o emblema de um tempo perdido. Destaque para o gato (chamado simplesmente de Gato), que será crucial para o desfecho. As imitações que gerou são incontáveis e, a cada verão, Hollywood joga mais uma no mercado, rotulada de comédia romântica. Bonequinha de luxo não é nem comédia nem romance: é a vida. Produção norte-americana de 1961. (DVD Paramount Golden Classics)

A dupla vida de Véronique (La double vie de Véronique), de Krzysztof Kieslowski. Produção franco-polonesa de 1991. Um dos mais belos filmes já feitos. Uma história de amor que é também um poema e uma festa de imagens exóticas, de pinturas via câmera, de desafios à sensibilidade e à imaginação. Um filme a ser saboreado, como uma guloseima para os olhos e um alimento para o espírito. Sua história é tão original e ambígua que qualquer resumo posto aqui só serviria para estragá-la. O desfecho, único na história do cinema, e não menos do cinema de arte, nos oferece um largo e duradouro leque de sentidos e interpretações. É metáfora em estado puro: cada pessoa ilumina-a de forma e substância diferentes, a partir de sua experiência particular, de sua visão de mundo e de seus sentimentos, fartamente aguçados ao longo de pouco mais de 90 minutos, durante os quais é impossível a qualquer um ficar alheio à estética e à profundidade dessa narrativa cinematográfica que é, antes de tudo, uma resposta artística à banalização das emoções humanas. A dupla vida de Véronique faz da existência um mistério necessário cuja elucidação deve forçosamente nos escapar, para o gozo dos instantes mínimos, que pode estar no reflexo do mundo numa bola de vidro ou na intuição exasperante de que estamos e não estamos sós... (DVD Versátil, sob licença da MK2.)



Escrito por M. Gallo às 22:06
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CONTO

TEIAS

Saí da aula ainda com o conto de Clarice no ouvido. Um bom conto é como uma música: nos acompanha.

Sempre disse à minha mãe que não gosto de ninguém, nem de mim mesma. E ela, sarcástica: "Mas vai gostar!"

Eram apenas dois jovens como quaisquer outros. Queriam viver, jogar, se divertir, amar. Não conseguiram. Ou conseguiram. Quem pode ter certeza?

Eu a vi da janela do ônibus, grafitando a parede já muito borrada, ao sol branco do meio-dia. Vestia preto folgado, a calça baixa e relaxada, como se acabasse de se levantar e ainda estivesse de pijama. Seu cabelo era um feixe de espinhos. O escrito: AOS 18, MORRA INTENSAMENTE; AOS 50, VIVA! Saltei lá na frente e voltei, mas não a achei mais. Três dias depois também rabisquei: E VOCÊ, GAROTA, QUANTOS ANOS TEM? 18 OU 50?

Sempre disse à minha mãe: é um milagre que eu ainda esteja viva. E ela: "Agda, o que você anda fazendo, Agda? Não está se drogando, está?" "Quase!", gritei.

Na segunda-feira passei rumo à escola e vi: QUEM É VOCÊ, BABACA? E larguei, embaixo, com outra cor: O BABACA.

Viveram o limite de seu amor e de suas convicções. Acenderam-se para queimar. Foi tudo. E quem são os responsáveis? Os pais? Todos nós? Não. Absolutamente. Essas coisas acontecem porque estamos vivos... Portanto, foi a vida. É o que penso.

Por alguns dias, ela não escreveu mais nada. Mas veio o sábado, e quando saí pra loja de discos e passei de ônibus diante da parede, ela estava lá. Desta vez pedi ao motorista que parasse e voltei. Ela me olhou vindo em sua direção e logo deduziu quem eu era. Largou a pichação e saiu correndo. Fui atrás. E naquele sábado de sol, com as praias cheias, éramos duas figuras estranhas e vestidas de preto manchando a paisagem...

Falei pra minha mãe que, no fim do ano, ao me formar, não queria mais estudar. Ela ficou horrorizada. "E vai fazer o quê?", explodiu. "Prefiro trabalhar", falei, sem medo. E ela ralhou, fez ironias, a pior: "Trabalhar, né? E onde, nas ruas, abrindo as pernas?" "Pode ser", gritei.

Achei que ia apertá-la no beco, sem saída. Mas ali chegando só vi paredes. Fiquei sem ação. Já ia voltando, quando ela me chamou: "Babaca?" Estava pendurada na calha de um sobrado. "Você vai cair!" E ela caiu mesmo, pro outro lado do muro...

Falei pra mamãe que ia foder com ela. E fodi. Enfiei a cara do namorado dela em minhas pernas... Depois lhe disse, durante o café, antes que saísse pro trabalho: "Agora estou pronta pras ruas..." "Pronta?", ela falou. "É, pergunte ao seu namoradinho..." E saí pra escola.

Fui no domingo ver a parede. Não tinha mais nada. Alguém tinha passado e pintado tudo de branco. Ela, só podia ter sido ela. No dia seguinte, quando saí da escola, ela estava no portão, me esperando: "E aí, babaca?"

Em sua casa, ela me levou pra cama da mãe. Não fizemos direito. Nunca fazemos direito na primeira vez, é o que dizem. Era como se fôssemos estranhos, e éramos. Não combinamos direito. Ou é tudo muito rápido ou devagar demais. Conosco foi diferente: éramos duas peças de encaixe impossível que um mecânico insiste em combinar. Não demos certo. Não ali. "Sem problema", ela disse. "Fiz você conhecer algo, me faça conhecer alguma coisa..." Quando lhe perguntei quem... "Foi o namorado de minha mãe. E fui eu que quis..."

Levei ela pra conhecer minha criação de pombos, no terraço lá de casa. Ela ficou fascinada: "Como Brando em Sindicato de ladrões!" E ficamos ali, deitados sob o céu, a ouvir o arrulho dos pombos e a alimentar de imagens as nuvens que passavam.

Ele achava que só porque dei pra ele uma vez ia dar outras. Para mim homens são como cotonetes: uma vez e lixo. Até o Rodrigo, de quem gosto. Não, ele não. Ele é diferente. É como Brando em Sindicato de ladrões. Bem, me parou no corredor, quando eu chegava da rua. Tentei me esquivar, mas ele veio, já de pau duro. Gritei, mas ele tampou minha boca, e mamãe não acordou, não ouviu nada. Foi doloroso...

"O problema não foi o que ele fez, mas como fez, sem eu consentir", ela disse.

"Vamos acabar com ele", falei, com a calma de Brando.

Seus olhos brilharam, em concordância.

Combinamos que, depois que ele dormisse, abriríamos o gás, todas as bocas do fogão... Não, a mãe dela tinha viajado naquela tarde... Foi assim: ele chegou, Agda levou ele pra cama e deu o trato combinado... O cara ficou satisfeito e logo adormeceu... Mas a mãe dela tinha ficado gripada e resolveu voltar... Sim, passamos a noite no terraço, com os pombos. Pela primeira vez, realmente nos amamos...

De manhã, acordei Rodrigo e disse que queria ir pra casa. Eu tinha um álibi, a mãe dele me vira chegar, até conversamos um pouco, e ela não viu com bons olhos quando subimos pro terraço. Nenhuma mãe suporta as namoradas do filho... Então podia voltar pra casa sem receio. Suicídio. O idiota, a princípio, teria cometido suicídio. Mas quando lá chegamos... A casa tinha pegado fogo. E os Barris inteiro estava lá. E a polícia, os bombeiros. Quis correr, mas Rodrigo não deixou.

Sim, eles confessaram que tentaram matar o namorado da mãe dela. Já a morte da mãe foi acidente, uma fatalidade: ao retornar de surpresa, gripada, ela não sentiu o cheiro de gás e logo que entrou acendeu o cigarro... Houve então a explosão e o incêndio. O namorado, porém, já estava morto antes disso.

"Não, não estou arrependida", Agda falou na tevê.

"Me deixem em paz!", Rodrigo disse e empurrou a câmera.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 03/12/2006.



Escrito por M. Gallo às 16:29
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