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DOIS POEMAS DE CZESLAW MILOSZ

Foto: L. A. Gravata
JANELA
Olhei pela janela ao raiar do dia e vi uma jovem macieira, diáfana em meio à luz.
Quando olhei de novo ao raiar do dia lá estava uma grande macieira, carregada de fruto.
Passaram-se decerto muitos anos, mas não me lembro de nada do que aconteceu neste sonho.
(Berkeley, 1965)
DÁDIVA
Um dia tão feliz. A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim. Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva. Não havia coisa na terra que eu quisesse possuir. Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar. O que aconteceu de mau, esqueci. Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou. Não sentia no corpo nenhuma dor. Me endireitando, vi o mar azul e velas.
(Berkeley, 1971)
CZESLAW MILOSZ (1911-2004). Poeta e romancista polonês, prêmio Nobel de Literatura de 1980. Foram publicados dele no Brasil os seguintes livros: O vale dos demônios (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982), A tomada do poder (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988) e Não mais (Brasília: UnB, 2003). Tradução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza.
Escrito por M. Gallo às 22:53
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CONTO

Jogo subterrâneo, de Roberto Gervitz.
ANÁTEMA
A festa estava uma droga. Na cozinha, sozinho, apoiado à mesa, cheguei a dar uma cochilada. Despertei quando alguns convidados entraram falando alto e rindo, mas tão logo me viram se calaram. Eram seis pessoas: duas garotas assediadas por quatro caras sedentos. Abri os olhos, e uma das garotas me pediu desculpas. Parecia chocada. Falei que tudo bem, ali não era mesmo o lugar mais adequado para se dormir. "Nem mesmo pra comer", ela disse, "esta cozinha está um nojo!" Sim, estava, percebi então. Sujeira por todo lado, no chão e em pratos e panelas empilhados sobre a pia. A garota saiu com seus amigos, sem se depedir. Fiquei por ali mais um tempo e depois voltei ao salão, onde um grupo requebrava, na maioria mulheres, e outro arrotava vantagens intelectuais. Passei por ambos e fui em busca de minha anfitriã. Achei-a jogada sobre a cama, quase nua. Um seio de fora, o outro esmagado pelo peso do corpo. Um cheiro forte de suor e xampu subia de seus cabelos. Curvei-me e tentei ajeitar-lhe o corpo, deixá-la mais confortável.
"Ei!", ouvi às minhas costas. "Que está fazendo?"
Era a garota de antes. Estava mais despenteada e com um copo na mão. Adernava, de álcool e sono. "Entre e feche a porta", falei.
Ela me ajudou a tirar as roupas de Gina e a ajeitá-la na cama, sob um cobertor. Depois nos sentamos e ficamos conversando. Descobri que não nos conhecíamos, e que ela nem era amiga de nossa anfitriã. Viera com uma colega, esta sim amiga de Gina. "E onde está sua colega?", perguntei.
"Subiu pro terraço..."
"Claro, o terraço! Lá é o lugar..."
Ela largou o copo sobre a penteadeira, vazio: "Como assim?"
"Cê sabe..."
"Onde o pessoal trepa? É isso?"
"Ponto pra você."
Ela não disse nada. Nem eu. Um século de silêncio, como um anátema. A música aumentara, e com ela as falas, os risos, os gritos. Gina começou a ressonar mais alto e, por seus olhos, sob as pálpebras, os sonhos corriam, loucos, como um vendaval sobre o mar. Ela me perguntou se eu não iria ao terraço. Uma pergunta estranha. Ou talvez uma provocação. O que ela esperava? Que eu a levasse comigo? Sua pergunta me fez lembrar uma ocasião em que uma garota me disse que não desejava casar. Quando uma mulher diz isso o que pretende? Na época, fiquei sem ação. Hoje, sua insinuação me parece óbvia. Não que eu acredite que toda mulher queira casar. Ou que só vá para a cama se casar.
"Você vai?", perguntei.
"Por que? Iria comigo?"
Não me fiz de rogado: "Talvez."
Novo silêncio. Ela a procurar palavras, eu a mastigá-las. E tive uma sensação antiga, dos meus primeiros namoros, com Mônicas, Cristinas e Adrianas. Um mergulho, uma vertigem, sugeridos pela lembrança de beijos, mãos e carícias. Pela lembrança de instantes em que dois corpos e duas almas se unem. Uma sensação irrepetível e indissolúvel, única como a vida, e que só me voltava por ação daquela garota estranha e provocante, sentada na poltrona à minha frente. É isto que perdemos quando estacionamos em alguém. E é isto que recuperamos quando alguém nos diz que nos ama ou que deseja estar conosco. Não é o amor em si, mas os instantes seguintes. Os encontros, as esperas, as perspectivas de um rosto e um corpo ao nosso lado. Não há amor talvez, só teias, atalhos, nós.
"Vamos então", ela disse. E me puxou pela mão, em direção à porta. Tinha lábios doces, apesar do gosto acre de vinho que sua língua espalhava por toda a minha boca. Sob o frio, naquela noite de estrelas agonizantes, afundamos um no outro. Mas sem sexo, apenas calor, permuta de sopros e espasmos. Eu já não lembrava o quanto era bom aquilo, a descoberta de outro ser, de outro corpo, com seus odores, sua tepidez, fraquezas e detalhes. Um sinal de nascença, uma cicatriz de infância, uma mácula de vergonha e um medo também, que vem de longe, de tão distante quanto o mundo, em seu princípio.
Havia outros casais no terraço, e mesmo no telhado, um pouco mais além. Loucos sem dúvida. De vez em quando, numa massa de escuridão, acendia-se a brasa de um cigarro, e então compreendíamos que não estávamos sós. Só há uma partilha igual para todos na vida, o amor, ainda que não correspondido. Eu estava com uma mão entre seus seios e a outra dentro de seus jeans apertados, quando, de repente, deixei de ouvir a música, os risos, as conversas. Por um instante, seguimos num silêncio profundo.
"Que foi?", ela disse.
"A festa. Parece que acabou."
Mantive minhas mãos inertes, enquanto a garota atentava, o rosto paralisado numa expressão de espanto. Ela não se mexeu. Era como se nada houvesse se alterado. Nem no espaço nem no tempo. Num sussurro, perguntou meu nome.
"Anjo."
"Sou Iva", disse, sem sorrir. E olhando-me, bem de perto, os lábios quase a tocar os meus: "Por que Anjo?"
Fiz uma mesura com os olhos: "Prefiro não contar".
Ela sorriu. Depois retirou minhas mãos de dentro de suas roupas e se ergueu. Seu corpo jovem esticou-se sob a noite, arrepiado-se de frio e preguiça. Sua respiração era branca e volátil. Seu rosto, pequeno e infantil. Eu não era páreo para protegê-la, mas ainda assim desejava isso, imensamente. Como desejava conhecer sua vida, seus hábitos, seus amigos, suas esperanças, seus sonhos.
"Se você pudesse voar, ia pedir que me levasse junto...", ironizou.
"Posso", respondi.
Ela me olhou sem entender. Porque achava que eu estava brincando, partiu. Porque achava que eu não sabia mentir, decidiu me esquecer. Aguardo com ansiedade o próximo século em que vou reencontrá-la. E de novo lutar com as palavras, para tê-la junto a mim, sem saber quem será...
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 26/11/2006.
Escrito por M. Gallo às 21:49
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CONTO

Sim ou não? De Charles Dana Gibson, 1905.
A VIDA DE UM ESCRITOR
REFLEXÃO ÀS 5:30 DA MANHÃ. O que é um romance? Sempre me fiz esta pergunta. E só hoje, depois de quase trinta anos de leitura, uma resposta me ocorre: "uma forma que se forma, e cuja substância se distende no tempo, prolonga o tempo, o altera".
ARGUMENTO PARA UM CONTO. Um homem comum, relativamente culto. Os amigos costumam tratá-lo de "Francês", por incluir em suas conversas apaixonadas referências à França. Depois de uma noite de bebedeira, com medo de ser assaltado, volta para casa de táxi... Pois foi assaltado exatamente pelo motorista do táxi, que, apesar de tudo, o deixou perto de casa, sob um irreal poste de luz...
ANOTAÇÃO DE DIÁRIO. Recebi uma nova carta de Pio Gatilho. Ele me lembra que faz exatamente dois anos que deixou de matar. Está na África. Diz ter visitado as ruínas da casa de Rimbaud. Fez diversas fotografias; em muitas emoldura-se ao lado das filhas. Não são propriamente suas filhas. Ele fulminou seus pais, mas as poupou e as manteve, durante anos, incognitamente, num convento. Agora, depois de doze anos, apareceu, se identificou como protetor das moças – o que foi confirmado pela madre superiora – e as levou para uma excursão pelo mundo. Antes de partir me garantiu que deixaria ambas na França ou na Itália. "Quero que estudem", disse. Pouco antes do embarque, no aeroporto, confiou-me seu testamento, enfiando-o em meu bolso com um sorriso triste.
INCIDENTE. Por um infeliz acaso, observo no ônibus uma jovem debruçada sobre meu último conto publicado. Ela o lê sem gosto. Leva muito tempo para passar da primeira para a segunda parte e encerrá-lo, como se, extenuada, se destroçasse e refizesse a cada parágrafo. Foi para isso que o escrevi, para fatigar e fatiar as pessoas? Por outro lado, talvez ela se deleite, e tanto, em tal medida, que voluntariamente se demora, como um homem que, à cama, só sente genuíno prazer quando a parceira já repousa...
A IRONIA NECESSÁRIA. Resposta pronta para a ocasional pergunta de sempre: "Tornar-se escritor é passar da ponta de um anonimato para a margem de outro, muito mais tolerante, porém. Pronta e publicada a obra, o autor deixa de ser homem para ser um nome, uma legenda exposta ao vilipêndio ou à calúnia e jamais referida concretamente a um corpo, uma alma".
DIGRESSÃO POÉTICA. Há homens que devoram dicionários, assim como há mulheres que manuseiam corpos. Ambas as hordas talvez decifrem o universo, empreitada para mim inatingível ou, se não isso, quando cumprida, ingrata. Diante de mim, aberto, só há o mundo. Diante de mim, de fato, só o sonho, do qual, sem nenhuma possibilidade de posterior arrependimento, não penso acordar. Para quê? Que ganho teria? O despertador, já pronto, só aguarda o momento, a lida... Mas a manhã vem, a manhã surge a cada segundo, antes dele. Veja, por exemplo, estas rugas, como ruas. Cada vez mais acesas à luz, a cada dia mais fundas, mais visíveis, mais atrevidas. Sem a manhã para iluminá-las, dormiriam dissimuladas à rude superfície. Mais cedo ou mais tarde, com ou sem galos, com balas ou facas, acordamos, acordamos. E, enredados de novo, passamos de um sonho a outro, do sol magnânimo às insondáveis trevas. Pois, diluídos nestas, nos disseminaremos no espaço nu, sem luzes, sem ninguém, nenhum espelho. Romperemos trilhões de séculos até de novo nos vermos...
MENÇÃO HONROSA EM CONCURSO DE MINICONTO. "Uma marionete mantinha há dias, num parque de diversões, um acirrado monólogo. De repente, alguém, cansado da arenga, cortou-lhe os barbantes. A humanidade veio abaixo."
NOTA DO AUTOR AO SEU ROMANCE. Se algum dia este livro for publicado, talvez deva-se apor no início, antes do prólogo ou qualquer outro texto, tal advertência: "Este é um relato cifrado, em fragmentos. Cabe ao leitor alinhavá-los a seu prazer e vontade. Face a tantos relatos já escritos, romances ou não, e sob formas as mais singulares e variadas, o autor achou por bem apenas esboçar mais uma, em prosaicas ou poéticas manchas. Se o leitor não concordar com tal método, que o ignore. Aliás, que ignore todo o livro, desde a capa, desde o vidro por trás do qual é visto..."
CONCLUSÃO INDIRETA. Num conto em que narra a estréia de uma jovem autora, de quem se espera muito, Graham Greene faz o seguinte comentário: "O que eu queria era dizer a ela: S Tem certeza de que o seu editor está lhe dizendo a verdade? Os editores são humanos. Podem às vezes exagerar as virtudes dos jovens e das moças bonitas. A turma de Chelsea será lido daqui a cinco anos? Você está preparada para os anos de esforço, para 'a prolongada frustração de não fazer nada bem'? Com o passar dos anos escrever não se tornará mais fácil, o esforço diário será mais difícil de suportar, aqueles 'poderes de observação' ficarão mais fracos; você será julgada, quando chegar aos quarenta, pelo que faz e não pelas promessas". E pouco depois: "Via-me desejando que A turma de Chelsea fosse um fiasco e que mais tarde ela abraçasse a carreira de modelo fotográfico".
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 23/05/2004.
Escrito por M. Gallo às 12:37
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CONTO

Traffic, de Steven Soderbergh.
MODO DE VIDA
Chegara caminhando ao hotel, a mochila nas costas. O trânsito de veículos à sua volta era intenso. O ar pesado de monóxido de carbono, o interior das narinas já negro, uma fuligem úmida que saía no dedo. Parou numa banca de revistas e comprou um jornal. No hotel, pediu o quarto planejado (se não estivesse disponível, tinha mais duas opções, mas estava, o hotel vivia às moscas). Subiu para o quarto, no terceiro andar. Era pequeno mas aconchegante. Uma cama de casal confortável, tevê e até uma estante de cabeceira, com alguns títulos suportáveis. A primeira coisa que fez mal entrou foi tirar a roupa e abrir o chuveiro. Deixou que a água o lavasse da cabeça aos pés. Limpou as narinas, esvaziou a garganta. Depois da missão, poderia se divertir. Foi uma coincidência que a escala o plantasse exatamente na cidade de Bianca. O que jamais aproveitaram poderiam aproveitar agora, pois tinham um álibi. Mas o chefe havia dito: nada de farra antes da missão, depois até deixo que você fique por lá uns dias. E ele ficou se perguntando como o maldito sabia sobre Bianca. Bem, sempre sabem. Até mais que nós mesmos, pensou e deixou a sala, a passagem de ônibus na mão.
Gastou a tarde lendo o jornal. No início da noite veio o telefonema. Vestiu-se, pois ficara na cama só de cueca, fixou a pistola debaixo do braço, colada às costelas, pegou os óculos e saiu. Não via Bianca há dois anos. Mesmo assim se correspondiam, ao menos uma vez por semana. Ela ainda parecia apaixonada. Ao longo desse tempo, marcaram dois ou três encontros, que jamais deram certo. Ora era ela que vinha à cidade dele e sugeria o encontro, que sua fidelidade à esposa frustrava, ora era ele que, de passagem pela cidade dela, como agora, sugeria qualquer coisa, mas Bianca, temerosa, acabava por desistir, sem motivo, dizendo: desculpa, sou mesmo uma covarde. Depois veio o período em que ela namorou firme e desapareceu. Foi quase o fim de suas relações. Até que, depois de alguns meses, ela ressurgiu, com essa mensagem: tenho saudades. Novas mensagens, nova troca de elogios, novas juras de amor. Às vezes, ele achava que tudo aquilo não era senão um circo, linguagem, a realização em nível psicológico de um desejo reprimido ou que ambos, por alguma razão, não conseguiam fazer transitar para o estado de prazer. Em suma, que tudo não passava de delírio, de um e de outro. E como a diferença de idade era de mais ou menos vinte anos, se não andassem depressa, quando por acaso chegassem à cama, ele já estaria rendido, folha morta. E pior: velho, asqueroso, de modo que ela já nem conseguiria suportá-lo.
O carro passou para apanhá-lo por volta das 19 horas. Ficou no banco de trás, sozinho. Os dois homens apenas o cumprimentaram. O trio seguia em silêncio, aferrado a uma concentração extrema. Na metade do trajeto, ele pegou o telefone no bolso e procurou o número de Bianca. Tinha os dois, aliás, os três, incluindo o da escola onde ela dava aula. Certa vez ele conhecera a família dela, durante sua formatura, a que comparecera com a esposa. No fim da noite, quando esta desapareceu no banheiro, Bianca o deteve no corredor e disse: por que trouxe ela? E o abraçou e revelou que gostava muito dele, que o amava. Ele já não se lembrava de seus pais, que lhe foram apresentados com entusiasmo e em cujos olhos ele viu certa cumplicidade, como se soubessem dos sentimentos da filha, dessem sua aprovação e esperassem que mais cedo ou mais tarde ele lhe fosse recíproco. Não foi. Magoar alguém dói mais que magoar a si mesmo e, embora ele gostasse de Bianca, e muito, também gostava da esposa, portanto não poderia fazê-la sofrer.
"É aqui", um dos homens disse. Eles saltaram e ficaram esperando, na escuridão. Quando um carro passou minutos depois, não foi preciso nem muita ação nem muitos tiros. Apenas um pouco mais de ruído na noite, apenas um pouco mais de dor a que parentes e amigos haveriam de suportar, apesar de tudo. É assim mesmo, não há outro modo de vida.
Jantou sozinho num restaurante bem recomendado, indeciso se ligava para Bianca ou a esquecia de uma vez por todas. Mandou apenas uma mensagem, com o nome do hotel e o número do quarto. E esperou, esperou, esperou, na cama, só de cueca, depois de ter lido todo o jornal e boa parte de um livro idiota sobre pipas que achou na estante...
Ela ligou no fim da manhã seguinte. Ele estava no banheiro e saiu correndo para atender. Estou passando aí, disse, a voz chorosa. Ele perguntou o que acontecera. Papai morreu... Co-como?, ele balbuciou, como se não tivesse compreendido, mas compreendera, e obviamente ela pensou que ele queria saber a causa mortis e respondeu: assassinado, ontem à noite, meu deus, como isso é possível?
Quando Bianca chegou, ele soube que de noite ela vinha encontrar-se com ele no hotel, estava a caminho, feliz, afinal o tão-esperado encontro entre os dois ia se concretizar, e ela vinha de surpresa, sem preveni-lo, pronta para chamá-lo lá de baixo e subir, cair em seus braços, pela primeira vez... Mas de repente ligaram, seu pai morreu, como?, morreu, sim, morreu, e de forma trágica: assassinado... Venha logo!
E enquanto explicava tudo ela foi tirando a roupa, o corpo esguio e branco, os grandes olhos verdes e vermelhos a evitá-lo, como se soubessem mais do que era possível saber. E afinal se amaram, depois de longos anos de espera, de promessas e tentativas sempre malogradas. Ele ainda era jovem e deu o seu melhor. Por quase uma hora, Bianca misturou choro e gemidos. Depois emudeceu e se aquietou. Logo, pressionada pela fadiga, pelo sofrimento da noite e pelo calor sufocante da tarde, adormeceu profundamente, deitada de bruços, a bunda bonita como um hemisfério. Da janela, nu, fumando, a observá-la, ele compreendeu que estava tudo acabado.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 19/11/2006.
Escrito por M. Gallo às 10:54
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