C O N T R A M Ã O


CONTO

Anjo da guerra, de André Téchiné.

MORTE E ETERNIDADE

Havia meses que eu e Victor Vhil não nos encontrávamos. Então, de repente, no meio da multidão, a uma semana do início do carnaval, nos abraçamos. Como o auge do verão não nos permitisse tomar café, bebida da predileção de Victor, paramos num bar. A cerveja o refrescou durante toda a tarde. Quanto a mim, me contentei ora com água tônica ora com água mineral gaseificada. Perguntei o que ele estava fazendo. E Victor respondeu:

S Avaliando se esse bar não vai fechar em breve...

Como não compreendesse, ele me explicou que havia alguns anos percebera que são poucos os estabelecimentos da cidade, entre bares e restaurantes, que realmente vingam. Em geral, são freqüentados enquanto constituem uma novidade. Depois de um tempo, passada a fase da badalação, esvaziam e morrem.

S Você se lembra do Volúpia, do Edith Piaf, do Capitão Marisco?

Não, não me lembrava.

S Pois bem, todos fecharam. E eu predisse que fechariam. Passei um dia, vi o abandono, o desalento, e vaticinei que em breve as portas estariam fechadas. Era inevitável.

S E qual o motivo? S perguntei.

S Além do que já expus, há o fato de que Salvador não tem vida noturna. Nem mesmo nos fins de semana. As pessoas se recolhem cedo. E o verão, dos turistas, é pouco para manter os bares e restaurantes funcionando.

S É verdade S concordei. E ficamos em silêncio. Por fim falei: S Mas, na realidade, eu perguntei o que você vem fazendo, ultimamente...

S Ah, termino uma antologia: Os melhores inícios e fins de romance.

S Interessante.

S É. Está quase pronta. Você lembra daquele editor que conhecemos? O que queria saber tudo sobre Haldo Ward? Bem, num segundo encontro, lhe apresentei meu projeto, e ele gostou. Até me deu um adiantamento em dinheiro para que eu o realizasse. A editora vai publicar.

S Bom, bom. E quais são os melhores inícios? E os melhores finais?

Victor respondeu que eram muitos. De inícios listou mais de cem. De finais, quase duzentos. E acrescentou que os finais são sempre mais poéticos, reflexivos e contundentes. Os autores costumam carregar nas tintas.

S O final de A peste, de Camus, por exemplo. Já virou até epígrafe: "Porque ele sabia o que esta multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz".

S Fantástico! S admiti. S Mais algum?

S Muitos! Os finais de Triste fim de Policarpo Quaresma, de Dom Casmurro, de Primeiro amor, de Beckett, de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. E o final de A revolução dos bichos, de Orwell... Você lembra? "Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco."

Reconheci que era realmente genial, fabuloso. E, após solicitar ao garçom mais uma água tônica, perguntei pelos inícios. Victor respondeu que estes eram mais sutis e, quando bons de fato, tornavam-se preciosos, dignos de culto. Que eu atentasse para o início de A metamorfose, de Kafka. Um caso único de susto no leitor na segunda ou terceira linha.

S E este de Steinbeck: "Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho". Ou este outro, de Nabokov: "Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta".

E me foi apresentando outros, um de Juan José Saer muito bom: "Não há, no princípio, nada. Nada. O rio liso, dourado, sem uma única ruga, e atrás, baixa, poeirenta, em pleno sol, com o barranco caindo suave, meio comido pela água, a ilha". E o de Dom Casmurro, que nos espanta ainda, pela limpidez, precisão e beleza: "Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso".

S Com este início, Machado põe a todos nós, leitores, no bolso. Não se consegue mais largar o livro.

O tempo passou, e mudamos de assunto. A noite desceu, e o ar se encheu de buzinas e aceleração de motores. O fim do dia despejava nas ruas uma aglomeração de pneus e pés apressados em chegar em casa. Fomos ficando melancólicos. A chegada da noite nunca me fez bem, nem tampouco a Victor, ele confessou.

S E sabe por quê? Porque ela nos empurra para o fim irremediável, o mesmo dos bares e restaurantes, que mais dia menos dia fecham...

Quando pagamos a conta, ele disse:

S Sabe qual é o melhor início de romance que existe? Um bem simples, do francês Michel Chaillou, e que resume nosso maior desejo: "Em nossa casa temos uma mesa, quatro cadeiras e mais a eternidade".

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 15/02/2004.



Escrito por M. Gallo às 18:36
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UM POEMA DE RUY ESPINHEIRA FILHO

 

SONETO DOS JABUTIS

                                     a James Amado

Embora ainda infantes, vivem meditando,
como se velhos sábios de saber profundo.
Eu ainda não sei o que acham do mundo
e da existência, mas por certo estão pensando

sempre belos pensares. E isto mesmo quando
– num ritmo alexandrino, ondulante e rotundo –
passeiam, pois é claro que estão ruminando
do que há de leve e aéreo ao mais pesado e fundo.

Nós, humanos, nos cremos seres superiores,
mas cegamente vamos aonde os ventos vão
– muitos de estupidez, hipocrisia, horrores.

Os jabutis, porém, não se perdem, pois são
vidas iluminadas pelos resplendores
do grande Deus Quelônio da Meditação.

RUY ESPINHEIRA FILHO. Renomado poeta baiano, autor de inúmeros livros, entre os quais Poesia reunida, Forma e alumbramento e Elegia de agosto e outros poemas. Este soneto, circunstancial, originou-se do presente que o poeta ganhou quando de seu segundo lugar no Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro: dois jabutis de verdade. O idealizador do presente foi o escritor James Amado, e a autora, Maria da Paixão, esposa do poeta.



Escrito por M. Gallo às 17:49
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CONTO

Lost in translation, de Sofia Coppola.

NOIVA

Ela desceu da motocicleta à beira da rodovia. O céu azul lhe fez doer as pálpebras, porque as fechou de repente, sufocada por uma vertigem de luz e cor. O vento, não muito forte, jogou-lhe os cabelos contra os olhos. Ao mesmo tempo que ergueu a cauda do vestido em volta da cintura, de modo que pudesse andar sem cair, livrou, com um gesto natural e bem seu, que seduzia os homens desde sempre, os olhos daquela cortina loura que, naquele momento, tornara-se ainda mais clara, pelo efeito do sol. A praia, vazia, era limitada à esquerda por um buquê de pedras que subia para formar um breve promontório verde-cinza e à direita por uma cerca de arame, atrás da qual erguia-se um forte branco como areia. Duas sentinelas, à amurada, perfilaram-se para observar melhor aquela noiva bizarra a meio caminho do mar, e do consolo.

Meia hora antes ela deixava a igreja sob uma chuva de arroz e vivas. A multidão era como uma substância que a envolvia, e dissolvia. Num primeiro impulso, puxou o braço, mas Valdo a segurou ainda mais forte. Um minuto depois, sorriu (não se sabe se de surpresa ou por intuir algo mais), quando ela, num segundo arroubo impensável, de instinto de sobrevivência ou paixão, arrancou-se de seu braço e correu. Enquanto descia as escadas, mal percebendo que os rostos à sua volta migravam do fascínio para o espanto, lembrou-se do pai e da mãe, da promessa que eles fizeram ao amigo e de como ela reagiu, dizendo que até se casava com o filho de Francisco, mas não com Davi, o mais jovem, pois preferia Valdo, o mais velho. E de como, uma semana depois, teve seu desejo atendido, apesar do temor pelo escândalo e da vergonha que uma concessão assim pudesse impor à família. Estava nos últimos degraus quando lhe veio à lembrança sua noite de amor com Davi, um mês antes de entrar na igreja. Como era mais experiente, ela deu as ordens, ditou o ritmo, parou quando quis e se satisfez sem se importar com ele. À janela, mais tarde, fumando, viu na esquina a silhueta inconfundível de Valdo, que também fumava, a cabeça baixa, infeliz. Enquanto arrebatava a motocicleta das mãos de um dos convidados, ou só um curioso, afinal de contas não o reconheceu, lembrou-se do dia em que o repugnante Valdo lhe disse, no corredor de sua casa, na curva que levava ao banheiro, uma parede a lhes vedar o mundo, ela só uma criança e ele com as calças abertas: "Vamos, pegue". E como ela pegou e como houve uma sucessão de impulsos, ela a correr para o lavatório, ele de olhos fechados, sorrindo.

Olhou para trás e se certificou de que ninguém a seguia: uma multidão que aos poucos amenizava o espanto. Olhou de novo, agora para a motocicleta tombada à beira da pista, uma das rodas ainda a rodar, a ferir o sol com seus raios. Chegou à água, largando cauda e cabelos. Largando-se, e ao vestido, que começou a rasgar, parte a parte, com esforço, com fúria, até reduzi-lo a uma coisa que mal a protegia de seus focos mais desejados...

"Por que fez isso?", ouviu de uma amiga, ao telefone.

"Você verá."

Vingança talvez fosse a palavra, mas não era. Um duplo livre arbítrio, fazer o que quisesse, amar o amor, consagrá-lo. Ser de dois, e até de três, se assim quisesse. Ou de nenhum. Voltar-se para quem o meio de suas pernas, a doer de desejo, aprovasse. Obrigar que pais e parentes se explicassem ou apenas se revoltassem, numa discussão sem fim por todo o dia, tarde afora, bebendo e comendo mesmo assim, pois do contrário tudo se perderia, e já estava tudo pago mesmo, uma imbecilidade não se aproveitar. Mas já sabia que seu pai e Francisco seriam os mais exaltados. Que talvez até brigassem e mandassem matar, um ao outro.

Um ato, a gratuidade de um ato, e uma vida inteira decidida num segundo, como vira certa vez num filme: o personagem cai numa guerra porque beijara uma garota linda, que trocava beijos por alistamentos no front... Um ato tipicamente romântico, do Romantismo. Não foi diferente do que ela fez, antes e agora. Por duas vezes decidira por si mesma. E a terceira decisão estava a caminho, distante alguns quilômetros. Voltou correndo para a motocicleta. As duas sentinelas a observavam de longe, perplexas e impotentes, sem chance alguma de chegar até ela, a ex-noiva, aferradas a uma condição de inúteis em ordem.

Corria agora por entre casas de uma vila de pescadores. Corria para o seu pintor, o homem que amava e que sofria da cidade a força de seu ressentimento. À sua passagem, as pessoas paravam para se certificar de que não estavam sonhando, de que tinham visto mesmo um trapo de noiva sobre duas rodas, e molhada até os ossos. Não a inquietava que ele fosse mais velho que ela, quase da idade de seu pai. Aliás, era assim que se formavam os casais no passado. Um homem só se casava quando esgotava seu ímpeto para a aventura, e a lógica mandava que escolhesse para esposa uma moça mais nova, bem mais nova. Foi só quando o amor começou a prevalecer (se é que foi isso realmente, duvidava...), que cônjuges quase da mesma idade passaram a dividir tanto suas camas quanto suas vidas.

Estranhou que não houvesse nenhuma janela aberta. Que Pablo não estivesse à varanda, pintando à luz fulminante do dia. Que seu cão, ao sentir seu cheiro, não viesse recebê-la ao portão, como sempre, a todo encontro, de dia ou de noite, com sua expressão de ternura e olhar de contida expansão. Estranhou que seus braços não se emocionassem à antecipação mental do contato físico tão almejado, dos instantes de amor, que pressentia nas virilhas só de pensar em seus beijos, um peso bom, vigoroso e quente, uma tumidez que era quase uma gestação repentina, a um só tempo origem e alívio. Estranhou sobretudo, mal desceu da moto e correu em direção à varanda, que o poleiro do papagaio estivesse vazio. E foi como se o ouvisse gritar seu nome. São as falas, as vozes, os últimos vestígios de vida a desaparecer nas sombras. Ao vê-lo ensangüentado no assoalho de madeira, um amontoado de penas verdes tremulando à brisa, sentiu-se abortada de sentido e de qualquer consciência. Uma sensação muito próxima daquela que Valdo lhe proporcionou, ao ordenar que ela pegasse nele e, feita a coisa, ela correu... Uma sensação de algo novo e velho ao mesmo tempo. De dor que volta depois de anos.

Ao abrir a porta, recebeu os tiros. Os primeiros que ouviu na vida.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 12/11/2006.



Escrito por M. Gallo às 12:54
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POEMA (ATÉ AQUI) INÉDITO

Edward Hopper (1882-1967)

O SOL NA PAREDE

Que sabemos da vida? Nada.
Aos dezoito, somos uns idiotas.
Aos vinte e cinco, idiotas em dobro, porque achamos que sabemos
                                                                           [alguma coisa.
Aos quarenta, sem a compreensão do mundo,
Aceitamos a evidência de que nem mesmo amar nos acrescenta
                                                                           [algum valor.

Aos sessenta, ignoramos se vivemos ou sonhamos, tal a estranheza,
E dez anos depois, doentes e cansados, um travo de amargor na língua,
Prisioneiros de uma saudade antecipada desta e de outras vidas
                                                                     [em que não fomos felizes,
Capitulamos.

Sim, capitulamos. E só nos resta o sol na parede,
O desejo de que a volta seja leve
E que de fato haja a morte, com suas conseqüências.

MAYRANT GALLO.  Poema que talvez figure em Os prazeres e os crimes, volume ainda em estado embrionário e sem previsão de publicação.



Escrito por M. Gallo às 12:34
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CONTO

O Titanic, ao deixar o porto.

NAUFRÁGIO E CONFISSÃO

Aline voltara de Belo Horizonte, onde passara cinco anos, e Marcelo disse: "Ela tá louca pra te ver". Ele sempre dizia que eu só havia me casado porque Laura, sua irmã mais velha, ficara grávida e partira antes que eu chegasse, e porque Aline, sua irmã caçula, fora para BH, estudar. "No fundo, você sempre quis ser meu cunhado", dizia, com ironia, rindo. Talvez, não nego. Quando Aline era pequena, eu a chamava de minha noiva. E ela gostava, e foi crescendo, e pouco depois passou também a me chamar de meu noivo, às vezes de meu amor. Agora não sabia como ela estava, nem como pretendia me chamar, se por meu nome ou de meu amor. Não, de meu amor não. Não poderia, impossível. Estava casado, e ela já não era mais a mesma, crescera, mudara e certamente teria alguém... Marcelo marcou comigo na loja. Tenho uma loja de discos, a mais completa da cidade e de todo o sudoeste do estado. Na época, trabalhávamos na loja eu, Luísa e Alberto. A garota estava por sair. Nos emboláramos um dia, e ela se agarrou demais. Não poderia deixar minha mulher e meu filho, argumentei, diante de sua pressão. No início, ela era tranqüila e meiga. Depois passou a exigir, a cobrar. Então, adeus: lhe arranjei com um amigo um lugar numa loja de perfumes. Na hora marcada, Marcelo chegou. Chamei Alberto e Luísa e lhes passei as chaves da loja. Fiz algumas recomendações, comuns, de todos os dias. Ele assentiu, e ela, cabisbaixa, já quase fora de mim e da loja, ficou quieta. A caminho de sua casa, Marcelo me perguntou o que havia entre eu e a garota. Expliquei, mas sem me estender. "Pra você largar tudo, só se fosse Aline, não?" Não falei nada. Ele estacionou o carro e puxou do porta-malas minha bicicleta. Entramos, atravessamos o jardim, eu empurrando a bicicleta tão devagar, que Marcelo se adiantou e por duas vezes parou e ficou me esperando. "Você tá com medo", ele disse, rindo. "Fique tranqüilo, ela apenas cresceu, virou mulher." "Seus pais estão em casa?" "Não, foram ao cinema; cê sabe, esse Titanic tá deixando todo mundo meio doido, e não sei por quê. Eu não quis ir, nem ela, pois já assistiu, em BH. Parece que gostou, mas achou longo, cansativo. Hollywood, cê sabe." Sim, eu sabia, e então me calei. Marcelo tocou a campainha várias vezes, com irritação ou fingindo irritação: tinha esquecido a chave. "Deve estar no banho, não escuta, o banheiro é lá longe, cê sabe." Sabia, mas não me lembrava. Havia cinco anos que eu não ia ali: desde que Aline partira. Só nos encontrávamos em minha casa, ou na loja, no clube, no vôlei aos sábados de tarde, depois que eu fechava a loja. "O jeito é entrar pela janela", falou. E atravessamos o quintal pelo corredor lateral, cheio de plantas. Nos fundos, a janela que mergulhava na cozinha estava aberta. Ele pulou primeiro e sumiu dentro da casa, eu fiquei na cozinha, um utensílio a mais. Lá dentro, um ruído de água. Depois de um tempo, fui atrás de Marcelo, mas atravessei toda a casa, revolvi os quartos e não o encontrei. Ia chamá-lo, mas mudei de idéia. O ruído de água continuava. Abri a porta da cozinha e cheguei ao pátio. Minha bicicleta tinha desaparecido. Corri até o portão da frente e, na pressa, esmaguei algumas plantas do jardim. Atrapalhado, tentei melhorar a aparência deprimente de flores e folhas, recolocá-las no lugar. Em vão. Abri o portão e olhei os dois lados da rua. Nem sombra de Marcelo, nem de minha bicicleta. Entrei de novo na casa, praguejando. Fui direto ao banheiro e achei Aline, que se enxugava, em pé. "Oi!", ela disse, sem surpresa, tão natural quanto o céu. "Desculpe", falei e lhe voltei as costas. Logo estávamos na sala, eu no sofá, e ela à minha frente, envolta na toalha. "É assim que você me trata, depois de cinco anos?" Fiquei empalhado. A Aline que eu conhecera não era aquela: nua, só de toalha, provocativa. A minha andava vestida e era inocente, uma criança. Deixou cair a toalha, e vi seu novo corpo, tão diferente do outro! Mais esguio e marrom, e liso e ossudo. E não havia mais a barriguinha, nem os ombros estreitos, de criança, as omoplatas escondidas, o meio das costas levemente côncavo. Seu corpo havia se transformado, pelo uso dos homens, que ela conhecera e amara durante aqueles cinco anos, foi o que pensei. "Pensei muito em você...", ela disse. Quando? Entre homens, sob os homens, ao lado deles, depois do amor, no respirar sonolento, durante a exaustão? Me levantei de um ímpeto e a empurrei sobre a poltrona. Desabou sentada, as pernas abertas, os seios redondos e duros. Rindo. Abri a calça, arranquei a calça. O Titanic pronto, havia muito tempo, cinco anos antes, desde quando ela, menina, vinha voluntariamente ao meu colo. Não fui terno, nem um pouco amoroso. Ela apenas me satisfez, e acho que sem prazer, vazia de si mesma. E disse, ao meu ouvido, quando olhei, aturdido, a mancha: "Me guardei..." Depois me empurrou, se levantou e saiu da sala. Parada no corredor, disse que o Titanic não demoraria a acabar, que era melhor eu ir embora... Na manhã seguinte, veio me ver aqui na loja: "E o nosso Titanic, como anda?" Fiz com que entrasse na salinha dos fundos, onde fazíamos as contas, controlávamos o estoque e, às vezes, almoçávamos, eu, Luísa e Alberto. Luísa nos olhou de esguelha, quando passamos por ela. Lá dentro, Aline disse, sem nenhum pudor: "Você já comeu ela, não?" Só me restou a vingança: tranquei a porta e a chamei. Após o repouso, ela disse: "Sabe o que lamento desses nossos dois encontros? Que você não tenha me dado sequer um beijo..." Apesar de sua reivindicação, o beijo só ocorreu dias depois e de outra forma: abri sua saia curta, mínima, e baixei sua calcinha. Quis se soltar, mas não pôde; quis me afastar, não conseguiu; quis sorrir, mas acabou chorando. Era noite então, e estávamos na loja, Luísa e Alberto fora, as portas fechadas, Marcelo sumido e minha mulher em casa, à minha espera. Falei: "Não venha mais". Mas ela veio, ainda era a minha noiva e assim seria, até o fim. Guardara-se para mim, eis a verdade, mais literária que realista, mas a verdade... Na tarde em que Luísa foi embora, Aline não veio: marcamos noutro lugar, um hotelzinho cujo quarto me lembrava a cena de abertura com os amantes, em Psicose. Naquela noite, encontrei minha mulher na banheira, achei uma misteriosa fita de áudio que, descobri, era de Luísa (e que apropriadamente destruí), e não vi nenhum bilhete: o verdadeiro suicida só deixa a si mesmo. No quarto, meu filho dormindo o segundo sono, profundo... Agora as bocas estão fechadas: a minha, a de Luísa, a de Marcelo e a de Aline. Podem não estar limpas, mas estão fechadas, como trincados os dentes na dor de amar. Já faz muitos anos que me resignei a viver com Aline, a quem contei tudo sobre Luísa, e que apenas sorriu... São as melhores companheiras, as que vimos crescer. E o Titanic não está de todo no fundo, ainda sobe: às superfícies.

Rumo a mar aberto.

MAYRANT GALLO. Publicado no Correio da Bahia, em 05/11/2006.



Escrito por M. Gallo às 23:06
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EXPRESSÃO NOVA: TÉCNICA LITERÁRIA (3)

 

Closer, de Mike Nichols.

O talento de um autor, sua arte propriamente dita, manifesta-se, muitas vezes, na sua capacidade de inventar ou encontrar uma forma inesperada de abordar um determinado assunto, deslocando-o de um lugar-comum para uma expressão nova. É o que faz Giuseppe Bonaviri, romancista italiano, que transforma a fuga de uma garota no alto das árvores em visão pessoal do mundo, através da variação de pontos de vista, lá embaixo, e em impossibilidade de satisfação de um desejo que é, antes de tudo, desespero. Peppa refugia-se numa árvore e, à chegada da turma de rapazes que a persegue, foge de galho em galho, ao mesmo tempo mostrando-se mais sedutora e provocando nomeações que somente a tornam mais inconsistente e inalcançável, até que desaparece. Neste sentido, Bonaviri inventa um novo erotismo, rarefeito, sutil. Confiram:

"E o que fez, a filha-de-uma-puta, para se livrar de nós? Recolheu os trapos do vestido em torno da cintura, pois outra coisa não vestia, e, sabe-se lá se o fez de prepósito, nos mostrou, naquele esvoaçar de planta em planta, a bunda que era leite, mas que se transformava, naquela corrida,
em cesto de folhas,
em preta boca de lobo,
em lírios,
em mil rouxinóis,
em ressoante tamborim defumado,
em rabo plumoso (quando virava sobre si mesma),
em bunda suja engraxada de resina e arranhões,
e nós atrás e nós atrás,
em branca barriga de umbigo violeta,
em sombra perseguida e nunca alcançada,
e nós atrás e nós atrás,
em um emaranhado de serpentes mortas,
em fundo de panela fedorenta,
em bunda de verdade,
em branco rosa e preto e pretopreto (oh, como girava minha cabeça!)
Embaixo corriam atrás de nós; no meio havia os galhos.
Não se entendia mais nada. Uns pulavam para cá, outros para lá, uns chamavam, uns blasfemavam contra Deus pelos arranhões e os maus-tombos. Peppa devia estar cansada, na certa a pegaríamos e iríamos sangrá-la como um porco - como dizia Pelonero, que suava até nos cabelos -, mas por sorte dela as aveleiras ficaram menores, com os galhos meio nus e umas folhas cinzentas que, fff, caíam logo.
Então, desprotegidos e com Peppa sempre daquele jeito, os raios se tornaram deslumbramento de ondas de rio naquela bunda, que não foi mais nem lírios nem fundo de panela, mas espelho de verdade, que subia e descia por causa da corrida nas árvores, e nos deslumbrava e nos entontecia. E quem é que tornou a ver a Peppa?"

GIUSEPPE BONAVIRI. Romancista italiano. O trecho acima foi extraído de O rio de pedra (São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2002), publicado originalmente na Itália em 1964. Tradução de Liliana Laganá.



Escrito por M. Gallo às 16:38
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CONTO: SOBRE HOMENS E LIVROS

Albert Camus (1913-1960), na capa de seu livro, algo freqüente.

VIDAS DE ESCRITORES

Dias antes do carnaval, eu tinha acabado de sair da Vídeo e Cia., no largo Dois de Julho, quando fui abordado por Victor Vhil, que me arrastou para o Líder. Mal nos sentamos, ele pediu duas cervejas pretas. Só no verão ele varia de bebida, eu nunca. Parecia deprimido, derrotado, meio chutado para o canto, como quando chegamos do trabalho, atiramos longe os sapatos e desabamos exaustos no sofá. Demorou a falar. Antes examinou os filmes que eu alugara, torcendo o nariz para alguns e sorrindo para outros. Seu gosto é muito seletivo. É normal que, ao falarmos de cinema, ele mencione sempre os mesmos cinco ou seis filmes que considera os melhores. E em todos a presença de sangue em situações-limites é constante. Finalmente falou, com lentidão, como se escolhesse as palavras ou temesse não ser fiel aos fatos. Seu último livro tinha sido recusado por seu editor e por mais doze editores, um dos quais escrevera, na carta de recusa: "E, por favor, não nos mande mais nenhum livro. Se o fizer, o atiraremos na lata de lixo, que é também o melhor lugar para este, que agora lhe devolvemos".

Perguntei-lhe qual era o assunto do famigerado livro.

S Vidas de escritores.

S Você arrola uma série de biografias, é isso?

S Mais ou menos.

Tomei um gole de cerveja e falei:

S Como assim, mais ou menos...?

No início, quando teve a idéia de escrever o livro, Victor começou realmente a esmiuçar a vida dos escritores. Um longo texto para cada um, abordando sua formação desde a infância e, em muitos casos, estendendo-se ao grave período, muito comum, de decadência da criatividade e queda na consciência do público, fato que ocorre a quase todos os artistas, mais cedo ou mais tarde. Mas logo ele perceberia que todas as biografias são iguais, que não há muitas variações, e que só um ou outro fato as difere. Em geral, fatos menores, pouco considerados: um deslize, uma idiossincrasia, um cacoete, uma superstição, uma cena hilariante, uma resposta abusada à imprensa ou aos críticos, uma ironia do destino, uma intervenção do acaso. E então, como sugere Jorge Luis Borges, no primeiro prólogo ao seu História universal da infâmia, Victor decidiu reduzir a vida inteira de um escritor a um único aspecto ou momento decisivos.

S Explique melhor S pedi.

Victor havia organizado o livro em ordem alfabética. Mas de uma maneira estranha, alheia às regras vigentes de abordagem biográfica. E o tom era de extrema ironia, quase insolência. O texto soava como uma desmedida comunicação acadêmica que privilegiasse a constante troca de assunto ou o sempre reiniciar de um mesmo assunto, jamais desenvolvido. E em cada reinício o ângulo especial da vida de um escritor era apresentado, laconicamente, através de um chiste, uma piada, um exagero.

Entusiasmado, pedi que ele me lesse alguns trechos. Antes de começar, Victor solicitou ao garçom outra cerveja.

"Quando se separou da mulher, a única coisa que Borges levou na cabeça foram os exemplares da Enciclopédia Britânica... Quase ninguém sabe, mas Bukowski passou três dias em Salvador, encerrado num bar da Carlos Gomes... Camus morreu num acidente de automóvel, embora tivesse no bolso do paletó uma passagem de trem para aquele mesmo dia e com o mesmo destino... A personagem Macabéia, de Clarice Lispector, nasceu na verdade da pena do escritor francês Pascal Lainé... Enquanto Fernando Pessoa esteve doente, a família não parou de pensar que talvez tivesse que fazer, também, em breve, um enterro coletivo... Graciliano Ramos não lia outros autores, pois não conseguia conter o desejo de enxugá-los... Gregório de Matos é talvez o mais imitado dos poetas brasileiros, muitos escreveram à maneira dele e muitos ainda urinam, pelas ruas de Salvador, à maneira dele... Guimarães Rosa considerava toda palavra do português um mistério insondável, daí porque tanta aliteração e tanta assonância... Guy de Maupassant escreveu toda a sua obra num período de dez anos; dez contos a resumem... Dizem que Hemingway costumava limpar a espingarda, carregada, com o cano desafiadoramente dentro da boca... Ionesco era tão gordo que certa vez, na África, agachado atrás de uma moita, foi confundido com um rinoceronte... Hilda Hilst, agora que está morta andam dizendo que a "moça" tinha talento... Jean Genet não era nem bom ladrão nem bom escritor, mas logrou êxito em ambas as profissões... O Ulisses, de Joyce, era na verdade um conto, para o qual ele não conseguiu achar um desfecho... Quando os nazistas entraram na casa de Karel Tchápek e souberam que ele já estava morto, fuzilaram em seu lugar o irmão, que também era escritor; a família suspirou aliviada... Macedônio Fernandez, a alter-sombra de Borges... A primazia da mudança da cor da pele pertence a Machado de Assis, o primeiro artista negro a se camuflar de branco... A única coisa que Rimbaud levou a sério na vida foi o tráfico de armas e mulheres... Thomas Mann, o primeiro, e não o melhor, dos anti-Kafkas..."

Não sou daqueles que se melindram com tais incursões humorísticas, destinadas à desmistificação dos autores, até reconheço que às vezes esta é necessária. Mas dizer que Camus, um autor caro a mim e a quase quatro gerações de leitores, deveria mesmo morrer era demais. Portanto, me levantei, apertei a mão de Victor e saí.

Pelo caminho, pensei que pela primeira vez na vida estava grato aos editores pelo que eles são e recusam...

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 14/03/2004.



Escrito por M. Gallo às 10:46
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