C O N T R A M Ã O


HORRORLOCAUSTO

O clássico e assustador documentário de Alain Resnais sobre o holocausto. 

A RELVA

Empilhem cadáveres em Austerlitz e Waterloo
Minem a terra por baixo e deixem-me trabalhar...
        Eu sou a relva; eu cubro tudo.

Ergam montanhas de corpos em Gettysburg
Elevem aos céus altas pilhas em Ypres e Verdun.
Façam a terra ceder e deixem-me trabalhar.

Dois anos, dez anos, e o forasteiro pergunta ao guia:
         Que lugar é este?
         Onde estamos agora?

         Eu sou a relva.
         Deixem-me trabalhar.

CARL SANDBURG (1878-1967). Poeta norte-americano cuja obra sofreu forte inspiração do mundo urbano e  industrial. Escreveu: Fumaça e aço (1920), O povo, sim (1936). Tradução de Oswaldino Marques para O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos (Ediouro, s.d.).



Escrito por M. Gallo às 23:21
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ENSAIO

Em Birth, de Jonathan Glazer, uma mulher dividida.

UM MAR CHAMADO CAPITU

Em geral, e com certa monotonia, as discussões sobre o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, não vão além da dúvida acerca da inocência ou possível culpa de Capitu. Ela traiu ou não Bentinho? É claro que o romance pretende uma ambigüidade. E em certo nível, o do narrador S Bentinho S, tal ambigüidade se cristaliza de modo preciso e irrefutável. Mas noutro nível, o autoral, plenamente consciente S caso contrário, Machado de Assis não seria o grande autor que é S, Capitu é culpada, e isso também é irrefutável.

No nível do narrador, também personagem, Bentinho só transcreve o que vê, o que intui ou cogita. Daí que a traição, em certo sentido, não passa de uma especulação. Ele não surpreendeu Capitu com o amigo Escobar na cama de sua própria casa. Nem os viu sair S como hoje ocorre com freqüência, em muitos romances e filmes S do motel ou de um hotelzinho suspeito de centro de cidade. Nada disso, os indícios são duvidosos, mas nem por isso deixam de ser indícios. E diante do imaginativo Bentinho tornam-se um emaranhado de provas. Bentinho se transforma, pouco a pouco, no próprio investigador da possível traição da esposa. A cada indício rememorado, um detalhe se acrescenta, para culpa de Capitu. Se é o ciúme que o conduz, nesta nova função, não é senão a razão que o orienta, razão esta que se traduz em discurso de acusação, em linguagem que não admite dúvida e em metáforas, que serão, enfim, compreendidas, se não por Bentinho, por nós, leitores... É neste ponto que o autor, plenamente consciente de sua arte, emerge como grande acusador.

As metáforas são, para Bentinho, enquanto narrador, o mecanismo de compreensão do incompreensível. Com elas ele nomeia o que a princípio não poderia nomear. É o descortinar do mundo diante de seus olhos, e ao qual ele precisa, para se conservar sóbrio e na vida, conferir organização. Custa-lhe definir o olhar de Capitu, mas quando o faz, é através da metáfora: "olhos de ressaca", "de cigana oblíqua e dissimulada". O incompreensível é compreendido e, afinal, apreendido... Ora, o sentido das metáforas para nós, leitores, não é o mesmo de Bentinho. Quando ele as emprega, é com o propósito de melhor abarcar o mundo, de retê-lo, confiná-lo em sua mente e mãos. Para nós, que estamos mais próximos do autor que do narrador (não os confundamos jamais), as metáforas constituem uma rede de símbolos, cifras, ícones e signos que precisamos aclarar, decifrar, se não quisermos fazer uma leitura apenas parcial da obra, uma obra eminentemente conotativa, metafórica, fundada numa relação simbólica de causa e efeito. Bentinho não passa de um personagem, através do qual o autor se esvazia. Aquele tateia, mas este manipula. E manipula tão bem que chegamos a esquecê-lo... E a achar que o autor é o próprio Bentinho ou que este é Machado de Assis, que os dois, na verdade, se confundem. Não, absolutamente. Bentinho não passa de um joguete, cujas ações, hesitantes, conferirão ambigüidade à obra. Mas, acima dele, avassalador, está Machado de Assis, manipulando as cordas, e as metáforas, que só através de Bentinho se cristalizarão.

Certa vez, referindo-se à técnica do conto, Anton Tchekhov afirmou que, se uma arma aparece pendurada na parede, no início do conto, mais cedo ou mais tarde esta arma vai ter que atirar. Se alguém vai morrer ou apenas se ferir, não importa. O que importa é que a arma é a causa, e o tiro o efeito. A arma não é necessariamente uma arma; é uma metáfora e, sendo assim, é qualquer coisa. No romance Gradiva, do alemão Wilhelm Jensen, obra sobre a qual Freud se deteve e escreveu um justo ensaio, o horror do personagem pelas moscas é apresentado logo nas primeiras páginas. No fluxo da narrativa, essa referência parece algo sem propósito, o leitor ingênuo até a estranha, mas o competente não. Pois o horror do personagem pelas moscas justificará, mais tarde, quase ao fim da narrativa, o tapa que ele dará na mão da moça Gradiva, na qual uma mosca havia pousado. O ato é simbólico, através dele o personagem quebra sua inconveniente timidez e também descobre que Gradiva, por quem está apaixonado sem o saber, é de carne e osso, não uma ilusão, uma projeção de seus devaneios. O leitor compreende, assim, que as moscas do início não são moscas apenas, mas algo mais, metáfora, passagem para uma nova percepção. A esta trapaça chamamos arte, que não passa de disfarce.

O mesmo se dá com Dom Casmurro. Machado de Assis (não Bentinho), ao definir, mais ou menos no início, os olhos de Capitu como olhos de ressaca, ele está afirmando que tais olhos (não todos os olhos) são o mar, e introduzindo a chave do desfecho, da traição, da culpa de Capitu. A metáfora, neste caso, se realiza através da metonímia: o mar produz ressaca, logo a ressaca é o mar. Por extensão, os olhos de Capitu também são o mar, Capitu é o mar. O mesmo mar em que Escobar, no dia seguinte ao da festinha em sua casa, que reuniu Capitu, Bentinho, Sancha e mais dois convidados, vai se "afogar", pela última e definitiva vez. O mar que de novo estava de ressaca, como os olhos de Capitu, e tanto isso é verdade que Bentinho, na noite da festa, alertou-o para que não fosse nadar no dia seguinte... Mas Escobar é forte, um nadador exímio, já "nadou" antes em dias piores... Sim, em dias piores, no mar e em Capitu, no mar chamado Capitu.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 24/11/2002. 



Escrito por M. Gallo às 15:47
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CONTO

Lucía y el sexo, de Julio Medem.

VICTOR VAI À PRAIA

Ele empurrou o portão e alcançou o jardim. Um caminho de pedra conduzia à varanda, onde duas espreguiçadeiras repousavam desde o último verão. Ali ele parou e olhou o mar. A fita azul se estendia até o horizonte, misturando-se ao céu, de um azul ainda mais sólido. À sua direita, numa mangueira, um balanço balançava, como se alguém tivesse escapado, mal percebeu sua aproximação. Ou era o vento. O vento que ia tocando as folhas e fazendo viver lembranças perdidas em seus cabelos grisalhos. Ele abriu a porta e entrou.

A casa era rústica, mas aconchegante. Os móveis pesados, sobre um chão de lajota áspera, mais comum em fazendas. Bom para dormir: só dispor uma esteira e espantar o calor. Compreendeu que somente usaria a cama se não dormisse sozinho... De resto, ia dar preferência ao chão. Depois de arrumar suas roupas no armário e se certificar de que a geladeira estava vazia, Victor, esquecendo-se de sua decisão de há pouco, deitou-se na cama e dormiu. Com o subir da noite, despertou, contrariado com o fato de que precisava ir à cidade comprar comida. E água, alguma coisa mais forte, para compensar os meses recentes de total abstinência alcoólica. Como lhe disse o médico: estando ou não curado, é preciso voltar a viver. E aferrara-se a essa possibilidade como se fosse a sua última chance sobre a Terra. Naquela casa, à beira-mar, numa praia limpa e atraente, como um jovem corpo de mulher.

O supermercado estava cheio. Ele não sabia que as sextas-feiras trazem os turistas. Apesar disso, não demorou muito. Já não se dava ao trabalho de escolher com extremo critério ou avaliar o melhor preço. Esta espécie de vida ficara para trás. Agora pensava: ou havia futuro ou não havia. Nada mais. Tudo como um rio que corre. No caixa, mal olhou a soma estampada no monitor. Entregou o cartão à moça e ficou esperando. No estacionamento em frente, um carro cheio de jovens estava parado. Alguns tinham descido e, encostados ao veículo, conversavam, riam, um casal se apertava na traseira, encostado ao estepe, o mais distante possível dos olhares dos outros. A noite prometia. Victor sorriu. Pouco depois, não muito longe dos jovens, ele pegou um táxi. Foi apreciando a paisagem. E tentando ao máximo não pensar em si mesmo. Nem em literatura, escritores, editores, críticos. Estava cheio disso tudo. O carro deixou para trás a costa e cortou o bairro onde ele estava. As casas acesas e de portas e janelas abertas exalavam alegria, vigor, fulgor, sonho. Eram, por assim dizer, passagens para a felicidade absoluta. Mas não eram, ele sabia. Uma ilusão achar que as outras pessoas são mais felizes. Ninguém é mais feliz que outro: só possui mais dinheiro ou mais amor ou mais paz, mais ou menos poder.

Naquela noite Victor Vhil ficou sentado à varanda contemplando a lua, que nasceu, circulou no céu e morreu além, só para ele... Na noite seguinte, à luz de um candeeiro a querosene, ainda na varanda, leu Dezsö Kosztolányi. Nunca é tarde para se descobrir um novo autor, ainda que ele esteja morto desde 1936, há exatamente 70 anos, e você, doente... Leu: "O pai pensava se seu filho iria sobreviver. O poeta pensava se seu poema iria sobreviver". Fechou o livro sem finalizar o conto, foi ao quarto, vestiu uma camisa de tecido mais grosso e, indiferente à necessidade de portar documentos e algum dinheiro, saiu para a noite. Tomou o caminho de terra em direção à praia. As casas, às escuras, dormiam quietas mais uma noite sem memória. Adiante, numa varanda mal iluminada, quatro homens ofegavam a uma mesa de cartas. Seus gestos eram lentos como se estivessem sob a água, e eles não o viram passar...

A praia estava deserta e escura, já que a lua se fora, alheia às necessidades humanas de luz e calor. Mas o céu estrelado iluminava, martelava-lhe o cérebro com sedutoras idéias de outros mundos habitados, cheios de vida, uma vida talvez imortal. Victor se deitou, de costas, pernas e braços abertos, a receber no peito o que o céu deixava cair.

Talvez tivesse adormecido ou tão-somente afastara-se, num salto mental, para outro tempo e lugar. Ao abrir os olhos, viu o rosto de uma moça, a cabeça baixa, a olhá-lo. Ao erguer-se num dos cotovelos, ela se foi. Pensou em segui-la, mas viu, a tempo, que ela se dirigia a uma poça de som e luz, em volta de um carro, que adentrara a areia e que ele logo reconheceu: o automóvel dos jovens do supermercado. A garota alcançou o grupo e lhes disse, alto, "ele está vivo!", ao que se seguiram risadas e chistes. Victor levantou-se e tomou a direção oposta: tinha medo. Sempre teve medo das pessoas, jamais foi capaz de encará-las. Sempre as teve em conta de piores e mais fortes do que na verdade eram ou poderiam ser. E mesmo agora não era diferente. Ele vai morrer ("Está vivo!"), todos vão morrer, mais cedo ou mais tarde, e o que isso altera? Nada. A vida passa, a morte chega, e o homem não muda. Continua cheio de medo, ou cruel, ou hipócrita, um fraco, um doido, um panaca. "Deixe ele em paz", Victor ouviu às suas costas. Uma voz feminina, talvez da garota que o observara, ou de outra, mais sensível, uma alma boa, uma infeliz entre idiotas. "Por quê?", outra voz, grossa, arrogante, embora truncada por algum efeito externo, talvez de álcool ou de qualquer outra coisa: ódio mesmo, gratuito, por brincadeira.

"Vamos!"

Possivelmente, se subisse naquelas pedras ele se salvaria. E de lá gritasse, com a coragem motivada pela distância, pela segurança inviolável. Mas, se assim fosse, ele não seria ele. Portanto, não subiu as pedras, nem fugiu. Continuou andando. Só um homem doente andando, só um escritor sem palavras na noite, só um leitor que preferiu deixar lá atrás o livro para viver a vida, naquela noite já sem lua e que o sol, ao fundo, começava a ferir. O primeiro golpe ele ainda sentiu com certo reconhecimento da dor, mas, do segundo em diante, foram todos como carícias, mãos femininas num leito de amor. Estraçalhavam-no, mas era bom. Era a vida. Era sangue. Carne em ação. Ao cair, teve a impressão de que era o mundo que tombava, não ele.

MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 22/10/2006.



Escrito por M. Gallo às 07:45
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O QUINTANA PROSADOR

Nosferatu, de F. W. Murnau.

OLHINHOS AZUIS

As menininhas não devem sair sozinhas à noite. É perigoso. Podem encontrar com o conde Drácula, e é sabido o amor que ele tem pelas menininhas, sentimento por elas correspondido, pois o conde, com aquele seu amplo manto negro, lhes faz lembrar o Superman, o Batman, os heróis das histórias em quadrinhos. Ora, no último sábado uma delas fugiu de casa para ir gastar seus troquinhos na venda da esquina - enquanto os pais, os criados, os visitantes, todo o mundo se achava hipnotizado pela novela da tevê. Eis senão quando surge inesperadamente, diante da menininha, vocês já adivinharam quem: o irresistível conde! Mal deu tempo para a menininha respirar: desdobrou amplamente diante dela, como as asas de uma enorme borboleta noturna, o seu manto negro forrado de veludo vermelho, enquanto a menininha tremia ao mesmo tempo de medo e prazer. Despediu-se da menininha com um paternal beijo na testa, olhou-a bem nos olhos, suspirou fundo e disse:
- Sabes? Os teus olhinhos são duas jóias. (Eram na verdade duas jóias: de um azul-inocência, parecia até que o céu é que estava olhando por detrás deles para a gente...)
- Mas como seria possível, meu velho - desculpava-se Drácula naquela mesma noite com o seu amigo Frankstein -, como seria possível, com dois olhinhos só, fazer um par de abotoaduras?

MARIO QUINTANA (1906-1994). Além de excelente poeta, Quintana foi um crônista atento à nossa época (dominada pelo cinema, pela música popular e pelos quadrinhos) e um surpreendente contista bissexto, como atesta o relato acima, híbrido de conto e crônica. Fonte: Da preguiça como método de trabalho (Rio de Janeiro: Globo, 1987, p. 17-18).



Escrito por M. Gallo às 09:16
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UMA CRÔNICA PARA QUEM GOSTA DE FREQÜENTAR SEBOS

Neste filme, a história de uma leitora, um livreiro e uma livraria.

O SEBO IDEAL

Em meio a pessoas que gostam de livros, que não podem viver sem eles e que, não raro, substituem a realidade visível por realidades imaginárias, arrancadas da ficção, há sempre aquela idéia do que seria uma livraria ideal. Ou melhor: o sebo ideal. Recentemente, entre amigos, ouvi as mais disparatadas conjecturas. Uma, porém, me impressionou e, não obstante sua origem pessoal, pelo menos no início, percebi que constituía uma verdade quase coletiva, dos leitores, quero dizer. Foi assim que tudo começou, com uma pergunta que não sei mais quem fez:

– Qual seria o sebo ideal?

– Aquele que tivesse todos os livros...

Depois de uma breve pausa, em que refletimos sobre o peso de tal afirmação, alguém assegurou que seria algo impossível. Sem dúvida. Um estabelecimento que contivesse todos os livros só poderia ser um local mágico... E o livreiro também. E dentre todas as pessoas do mundo, neste e em remotos tempos, só um homem poderia, a contento, ocupar esse cargo... Deixei no ar a sugestão, que alguém, de pronto, assimilou:

– Borges...

– Claro! Borges - todos disseram, unânimes.

Portanto, já tínhamos o proprietário do Sebo Ideal, o culto e ávido Borges, capaz de, não havendo o livro que o cliente procurasse, encomendá-lo a si mesmo ou ao seu companheiro de incursões fantásticas, Adolfo Bioy Casares, assim:

– Adolfo, precisamos de um relato breve sobre um homem que, ao voltar para o seio de parentes e amigos, reconhece a todos, mas que, de súbito, ao se ver no espelho, percebe-se outro, outro mesmo, a ponto de não admitir que o reconheçam como a pessoa que ele era, tempos atrás. Depois de um período de natural angústia perante a indiferença de todos, que o tratam naturalmente, ele começa a crer que ou está louco ou estão loucas as pessoas à sua volta. Na verdade, nem uma coisa nem outra. Ele apenas passou a outra vida, próxima e insondável, sem perder a consciência da anterior. Quando compreende isso, decifra o mistério do universo, que se alimenta de memórias perdidas, infinitamente renovadas. E compreende também que não ter perdido a memória agora só pode constituir uma dádiva de Deus, que lhe foi condescendente e caro. O fim do homem, para ocultar do mundo seu segredo, numa evidente lisonja divina, é fingir-se de louco e se recolher a um asilo, onde as pessoas, quando o vêem, mesmo as loucas, dizem:

– Esse acha que compreendeu o método de Deus...

– E quais seriam os assistentes de Borges, além de Bioy Casares? – alguém perguntou, quebrando o silêncio avassalador.

– Claro! – outro se entusiasmou. – Precisamos definir os balconistas, o caixa, o contador, o entregador e também os catalogadores, estes eternamente vigiados pelo olhar perscrutador de Borges...

Então outro disse que os melhores balconistas seriam Tchekov e Kosztolányi, por causa de sua lendária simpatia pelo gênero humano, sua memorável piedade, sem a qual não teriam escrito nada, nem um conto sequer. Se às vezes soam melancólicos, é porque a compreensão a que chegaram da condição humana se transfere para suas almas e os prostra no vazio...

Todos os presentes concordaram que eram, de fato, os balconistas ideais. Passamos então ao cargo seguinte. No caixa, entregue aos seus pensamentos fúteis, mais preocupada consigo mesma do que com qualquer abstração humana, alheia aos volumes que passavam de mão em mão, imersa na soturnidade do local, estaria...

– Virgínia Woolf?

– Sim, perfeito! – alguém gritou.

O contador só seria um, e não houve dúvidas quanto a isso. Quando lembrado tal cargo, lembrou-se também que bem poucos pesaram tão bem débitos e créditos, dívidas e compromissos, somas a receber com montantes a saldar; bem poucos foram tão exatos, tão matematicamente perfeitos com uma língua tão esquiva, tão difusa, tão genuinamente poética.

– Machado de Assis!

– Sim! – explodiram os demais, num coro quase religioso.

No momento de estabelecer o entregador, alguém sugeriu Hemingway. O candidato foi bem aceito, embora se lembrasse que Borges, o proprietário, o detestasse. Mas em geral é o que ocorre, o proprietário sempre implica com o jovem entregador, porque ele se demora na rua, se aventura por outros horizontes, se põe a cavar momentos... Nesse aspecto, Hemingway era o entregador ideal.

Por fim os catalogadores, que deveriam ser dois sujeitos metódicos, precisos, de jeitão protocolar e hábitos imutáveis. Por algum tempo, em que muito café e muita cerveja foram consumidos, nenhum nome foi lembrado. Até que Victor Vhil, que se mantivera até então em silêncio, disse:

– Flaubert...

Como não se pensou nisso antes? Era óbvio que Flaubert era o catalogador ideal, e se não se achasse mais ninguém, nenhum assistente com os requisitos exigidos, ele daria conta do recado. No entanto, havia alguém que poderia assisti-lo com prazer, apesar das diferenças...

– Quem?

– Ora, Proust!

Todos riram. Só faltavam os leitores ideais. Leitores...? E há leitores?

– Todos os outros escritores... – alguém disse, ao mesmo tempo balbuciante e sombrio.

MAYRANT GALLO. Publicada originalmente no Correio da Bahia, em 16/11/2003. Escrevi esta crônica em São Paulo, na casa de minha amiga Josélia Aguiar, da revista Entrelivros, quando do lançamento de O inédito de Kafka. A idéia surgiu de nossas conversas sobre autores e livros.



Escrito por M. Gallo às 22:29
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