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CONTO

O primeiro Boing 737 a voar comercialmente (1968).
VENTO TERRÍVEL
Ele estava parado no pátio B da universidade havia quase uma hora. Chegara cedo para melhor se acostumar à situação. Concordara com o encontro, ou melhor, fora ele quem o marcara. A garota, que tanto o havia provocado, nem ficara assim tão animada. Vá se saber por quê! Depois de tanto insistir, lhe telefonando e enviando mensagens, ela recuara um pouco, e foi então que ele, sentindo-se meio rejeitado, começara o seu ataque. Ele, que tanto a esnobara, vira-se então fragilizado, a buscar sua companhia. Claro que houve um conveniente estímulo: a viagem de sua mulher, sua inesperada solidão. Sem jamais levar a garota a sério, nem mesmo em seus momentos mais atrevidos, ao saber que ficaria só por todo o fim de semana, surpreendeu-se a assediá-la, a lhe telefonar solicitando um encontro, a lhe enviar mensagens juvenis, de adolescente. Ah, a infâmia do peso nas virilhas! E tanto insistiu, que dois dias atrás ela disse: Ok, sexta-feira, entre 5:30 e 6 horas, você me pega na faculdade, mas no pátio B, viu? No pátio B.
Ele a viu surgir de trás de uma parede. Os cabelos esvoaçantes, o andar apressado. Quando desceu a escadinha, salteou e quase deixou cair os livros. Recuperado o equilíbrio, ela parou um instante e procurou seu carro entre os poucos que ainda se encontravam no estacionamento. Nesse instante, dois veículos manobravam e logo saíram. Ele ergueu a mão e acenou para ela.
Você não parece animada, ele disse, o carro já em movimento, deixando para trás aquele mundo que tantas recordações lhe trazia, pois também estudara ali.
Vou ser sincera, ela começou, já não queria mais nada com você. Quando as mulheres insistem, e os homens não querem, elas desistem para sempre. E, além do mais, agora estou com um cara...
Tudo bem, podemos desistir. Te deixo em casa, sem problema...
Mas ela não quis. Vá se saber por quê! Logo o carro deslizava por uma longa reta, em alta velocidade. Os dois seguiam em silêncio, cada um a pesar a situação, os ganhos, as supostas perdas futuras, justificadas pelos segredos íntimos que engendrariam juntos. A bem da verdade, não eram os primeiros infiéis nem seriam os últimos. Desde o primeiro suspiro humano que havia traição.
Ela quis saber aonde estavam indo. Para o apartamento de um amigo, ele disse. Um amigo, ela falou, baixo, sem intenção de censura, só um pouco surpresa. Preferia que fosse um local mais público. Um motel? Não, um hotel. Desperta menos suspeitas, para você e para mim. Ele dirigiu em silêncio por um longo trecho. Enfim disse: podemos desistir, se você receia alguma coisa. Não!, ela falou e banhou o rosto no ar frio da noite. Para além da janela, no gramado aceso de uma casa que surgiu de repente, um rapaz perseguia uma garota, que ria enquanto se esquivava... Não viu o resultado da perseguição idílica, pois o carro ia deixando para trás um estranho mundo.
Agora estavam na cama, nus, assistindo à tevê e comendo. O homem do telejornal dizia que não havia sobreviventes no desastre aéreo. Que algumas pessoas tinham morrido no ar, um segundo após o impacto. E que as demais foram sugadas, talvez destroçadas pela força da despressurização. E as informações eram ilustradas com as imagens do acidente: ferros aos montes, roupas espalhadas, a roda intacta de um trem de pouso.
A garota parou de comer: Mude de canal. Não!, ele retrucou. E deixou a cama. Procurou a calça e, dentro do bolso, sua carteira. Depois de revirar tudo e não achar o que procurava, pegou o celular e fez uma ligação. A pessoa não atendeu, e só lhe restou deixar um recado.
Que houve? Que tá acontecendo?, a garota falou, já meio irritada.
Acho que minha mulher estava neste vôo...
Ela não soube o que dizer.
... mas não tenho certeza. Não me lembro do número, mas o destino é o mesmo, e o horário, quase igual. Liguei pra minha secretária, mas ela não atendeu.
Houve um pesado silêncio, em que ele ficou andando pelo quarto de um lado para o outro, o pênis balançando como um pêndulo, e ela a mastigar, sem prazer, o alimento que estagnara em sua língua. Foi então que o telefone tocou: Mino? (Deus! A voz de sua mulher!) Mino? Sou eu, Val, estou bem! E começou a chorar, e a dizer que não fora no avião, e que ao descobrir a notícia na tevê resolvera lhe telefonar, pois sabia o quanto ele ficaria preocupado, e que bom, não, que ela ficara para trás, não fora no avião, e explodiu num choro convulso, impossível de conter, e ele andava pelo quarto, o pênis como um pêndulo, sem palavras, e também começou a chorar, a lhe dizer palavras de consolo numa voz fanhosa, apagada. Me desculpe, perdão, ela disse por fim e desligou.
Na cama, a garota parecia atônita. Vira em tudo aquilo uma dor, e ao mesmo tempo um teatro. Depois de um momento a observar o amante, ela se levantou e andou até o banheiro. Voltou com o corpo molhado, os cabelos penteados e úmidos, colados às costas. Ele estava na cama, ainda a acompanhar o telejornal, que se aproximava do fim, com novas informações sobre o acidente.
O que ela disse?, a garota perguntou.
Ele hesitou um instante. Depois disse:
Pediu perdão.
Ela subiu para a cama e se aninhou em seu corpo: Então está tudo bem, e você por cima, não?
Por cima, sim. Como por baixo, momentos antes, dias antes. E ainda que a garota, de pernas abertas sobre ele, quase encaixada, lhe implorasse alguma reação, não respondeu aos impulsos. Pensava. Pensava. E assim ia se afastando, dali e de sua própria vida, para um lugar ermo e um instante, até então inescrutável, de compreensão.
E forte como um raio, preciso, claro, veio-lhe ao cérebro um trecho de Henry Michaux: "É só um furinho no meu peito, mas sopra ali um vento terrível".
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente em 15/10/2006, no Correio da Bahia.
Escrito por M. Gallo às 16:48
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CRÔNICA

CONHECIMENTO SEM SOFRIMENTO
Na universidade, sempre que me encontro com Sérgio Rivero, um dos meus colegas de Teoria da Literatura e que, além de professor, é romancista e arquiteto, conversamos sobre o grau de interesse dos alunos do curso de Letras. É óbvio que há alunos bons, alguns verdadeiramente excepcionais eu diria, mas uma boa parte se contenta em apenas polir as cadeiras. Estes alunos são, em geral, uns eternos reclamões. Reclamam tanto das aulas mais complexas quanto daquelas mais simples, quase pueris. Reclamam da quantidade excessiva de textos, do fato de que têm de tirar fotocópias, pois a biblioteca nem sempre abriga em seu acervo os livros indicados, e eles não dispõem de dinheiro suficiente, eles, que volta e meia sacam do bolso ou da bolsa, não raro em plena aula, o discreto e indispensável telefone celular... Também reclamam que está calor ou que está frio; que os trabalhos de pesquisa demandam muito tempo e esforço e que as provas ou são muito difíceis (exigem que se pense sobre o que se vai escrever e, afinal, se escreva) ou que são muito extensas, obrigando-os a ficar durante muito tempo pregados à cadeira, fazendo o que menos gostam de fazer... Em suma, reclamam de tudo, exceto de si mesmos.
Num dos nossos últimos e eventuais encontros, Sérgio e eu descobrimos afinal o porquê de tanta queixa e intolerância. A verdade – nos parece – é que, em tempos tão rápidos, tão exigentes quanto à própria economia de tempo, estudar dia a dia, aula a aula, texto a texto, livro a livro, e ser avaliado prova a prova, seminário a seminário, tornou-se um trabalho fastidioso e angustiante. Até que se adquira o pleno conhecimento para o exercício de uma determinada profissão, alguns anos terão se passado, e parte da juventude escoado, se não toda ela, levando-se em conta que algumas profissões demandam do sujeito dez anos ou mais de rigorosos estudos. Quer dizer: quando se começa a exercê-las, mais ou menos metade da vida já se derramou. E a consciência da passagem do tempo é cruel, mesmo para o menos preocupado dos homens.
Essa reflexão nos levou a compreender que a educação, em sintonia com os novos tempos, deve se processar de maneira bem mais rápida e bem menos angustiante, de preferência sem desperdiçar nem um minuto sequer. Mas como seria isso? Não demoramos muito a perceber que o conhecimento precisa antes de tudo, para o bem do homem e o pleno gozo de sua vida, ser engolido, literalmente. E então começamos a imaginar...

Em lugar da exaustiva disciplina de Teoria da Literatura I, com trinta títulos, duas ou três avaliações escritas, seminários e extensos questionários em equipe, em lugar de tudo isso, apenas uma caixinha de suaves e açucarados comprimidos. E pílulas de Latim I, também cápsulas de Lingüística II. O aluno só teria o trabalho de se dirigir ao gabinete do professor e solicitar a receita. Depois, praia, festas, viagens, namoro e as inúteis leituras de Paulo Coelho ou Sidney Sheldon... E para aqueles alunos que têm dificuldade de engolir (que ainda não abandonaram de todo a infância), as disciplinas poderiam também ser oferecidas em versões mais frugais: na forma efervescente ou no tom espesso e adocicado dos xaropes cor de laranja. Não faltaria, é claro, para alguns poucos, a intragável colherada-rícino de Língua Portuguesa V. E para os masoquistas, aqueles que admiram o fervor do caos, a apreensão de Língua Inglesa I ou Filologia Românica II na aguilhoante forma de injeções ou supositórios... Ou na dolorosa variante de soro na veia, que talvez seja a maneira preferida dos hipocondríacos de atingir o conhecimento, indo para lá e para cá, na rua e pelos corredores, com sua garrafinha... Para os que falam muito, as homeopáticas doses de meia e meia hora de Língua Francesa I ou da árida História da Crítica Literária, de Sílvio Romero a Luís Costa Lima. Já para os contemplativos, Hitória da Arte ou Introdução à Filosofia em tépidos chás medicinais diários, às cinco da tarde, o sol se espreguiçando no horizonte, em meio a ternas nuvens. E percebam que lucrariam com isso tanto os alunos quanto os professores, que teriam tempo quase integral para se dedicar às pesquisas de novas disciplinas e sua melhor e mais proveitosa ingestão...
Quando um certo aluno necessitasse, por força das circunstâncias, de uma imposição mais aguda de conhecimento, se promoveria a implantação, diretamente no cérebro, mediante intervenção cirúrgica, de um curso inteiro, seja de Letras, seja de Geografia, ou mesmo de Biologia ou Direito. Os ganhos com tal procedimento seriam extensivos e incalculáveis. Por exemplo: quando se precisasse urgentemente de um novo professor, não seria nem preciso abrir concurso ou seleção. De um dia para o outro, o aluno se tornaria apto a ser contratado e a seguir, salvo se não quisesse, uma brilhante carreira acadêmica.
– Fantástico! – Sérgio exultou, da última vez que debatemos, com mais profundidade, o assunto.
– É. E é também, sem dúvida, a solução de todas as reclamações – acrescentei.
Enredado em seus pensamentos, Sérgio de pronto se lembrou do monótono Matrix, um filme que nos faz dormir com suas enfadonhas seqüências de ação.
– Sim, é o que acontece no desfecho – concordei. – A protagonista toma, em segundos, por computador, um curso inteiro de pilotagem de helicóptero. É como se ingerisse um simples comprimido com o conteúdo de centenas de aulas. A educação do futuro, no tempo de nossos netos ou bisnetos, talvez seja esta – concluí, sombrio.

Na oportunidade, conversávamos sozinhos na sala da área de literatura. De repente, a porta se abriu, e uma aluna que desconhecíamos perguntou, com uma inatural indolência, efeito talvez de seu estado:
– Vocês têm... aí... um comprimido...
Rimos, às bandeiras despregadas, como se dizia antigamente nos piores e melhores romances. Sem entender por que ríamos, a garota completou:
– Para dor... de cabeça...?
MAYRANT GALLO. Publicada originalmente no Correio da Bahia, em 20/10/2002. Para a turma de Marcela, Camila, Liliane, Patrícia, Ticiane, Lisandra, Lívia, Kátia etc., que jamais precisariam disso.
Escrito por M. Gallo às 22:55
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5 POEMAS DE JOAQUIM CARDOZO

Carl Brusell
AVES DE RAPINA
Há muitos anos que os caminhos se arrastavam Subindo para as montanhas. Percorriam as florestas perseguindo a distância, Longos e lentos deslizavam nas planícies.
Passaram chuvas, passaram ventos, Passaram sombras aladas...
Um dia os aviões surgiram e libertaram a distância, Os aviões desceram e levaram os caminhos.
POEMA DO AMOR SEM EXAGERO
Eu não te quero aqui por muitos anos Nem por muitos meses ou semanas, Nem mesmo desejo que passes no meu leito As horas extensas de uma noite. Para que tanto Corpo! Mas ficaria contente se me desses Por instantes apenas e bastantes A nudez longínqua e de pérola Do teu corpo de nuvem.
ROMANCE PERDIDO
Quando cheguei, quando venci por fim as incertezas do caminho, Já a noite dormia sob as árvores do parque.
Somente na sombra o olhar de um lago frio, Somente no musgo das pedras o contato de mãos macias, Somente no céu a nudez das nuvens inconstantes, Somente, Josefina.
O vento gelado apagara o teu desejo, A noite modesta vestira o teu corpo.
SESTA
Numa rede de brancas varandas dormias no alpendre; Já o princípio da tarde afagava o arvoredo E o primeiro desmaio de luz enternecia os caminhos, Abelhas voavam em torno do teu sono e das rosas do jardim...
Um dia provarei desse mel Fabricado de rosas reais E de flores sonhadas!
MAL-ASSOMBRADO
Paredes altas, nuas, planas, desertas, As cortinas modulam formas de colunas longas... Luz indireta, luz diabólica... Tocavas no piano grande e negro harmonias transparentes: Havia um ponto brilhante em tua mão.
Eu tive medo de ver a tua alma.
JOAQUIM CARDOZO (1897-1978). Poeta pernambucano, que muitos afirmam ter sido o mestre de João Cabral de Melo Neto. Seu lirismo mistura a tradição ocidental com os costumes de sua terra e sua gente. Profundo sem ser difícil, simples sem ser elementar. Seus poemas estão reunidos em Poesias completas (Civilização Brasileira, 1979). Engenheiro, arquiteto e urbanista respeitado, foi colaborador de Oscar Niemeyer na construção de Brasília.
Escrito por M. Gallo às 21:55
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DICAS CINEMATOGRÁFICAS (1)

Encurralado (Duel), de Steven Spielberg, EUA (1971). Da última vez que assisti a este filme, até minha mãe e minha sogra se impressionaram, elas que, habituadas às novelas globais, só têm do cinema uma pálida lembrança. Além do suspense e do mistério, e, obviamente, da metáfora sobre os percalços que nos reserva a existência, um dos grandes méritos do filme é a montagem, que não permite que a narrativa fique enfadonha. E que ângulos de câmera! A provocar tensão, mistério, incompreensão, assombro. A seqüência final, do acidente, é um emblema de perfeição e técnica, de expressão e qualidade artísticas. Destroços, líquidos, pneus rodando, ferros se acomodando, poeira, ausência de corpos (como se o caminhão fosse o próprio demônio encarnado em máquina) e, enfim, a quietude que retorna, a paisagem que se agiganta em luz e cor. E o homem solitário, que por alguns minutos, feliz e apaziguado, volta a ser criança. Acho que nem o próprio Spielberg sabe o que filmou. Baseado no romance de Richard Matheson. (DVD Universal).

Céu e inferno (Tengoku to jogoku), de Akira Kurosawa, Japão (1963). Um dos mais importantes e simbólicos filmes policiais já feitos. Aula de cinema. Seqüências maravilhosas, que nem me arrisco a comentar, pois sei que não encontraria as palavras certas. O filme é todo pautado no olhar do bandido, para cima, e dos policiais, para baixo. E em toda a narrativa alguém se levanta ou se abaixa, algo cai ou sobe, alguém se deprime ou se anima, numa alusão evidente à queda no inferno (miséria) e à ascensão ao céu (burguesia). Riqueza e pobreza são respectivamente lugares de recompensa e expiação, mas um não vive sem o outro: não há um outro lado na moeda... O ápice deste recurso estético-narrativo é a cena final, em que bandido e herói se fitam e, enquanto o primeiro fala, o reflexo do segundo se imprime no vidro que os divide, ao lado do seu rosto; o mesmo acontecendo inversamente quando fala o herói. Isso nos permite compreender, e sem panfleto, que o mal é apenas uma face do bem e vice-versa. Que todos os homens têm seus momentos de santos e demônios, de vilões e heróis, na riqueza ou na pobreza. Obra-prima! Baseado num romance policial de Ed McBain. (DVD Continental).
Escrito por M. Gallo às 17:24
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CONTO

Av. Contorno, Salvador, BA, em 1938.
GÁS ESCAPANDO
Eu vinha andando pela Avenida Sete, em direção à Civilização Brasileira, onde uma seção permanente de livros em promoção me desafiava a encontrar algum título de valor, quando avistei Victor Vhil do outro lado da rua. Ele parara diante de uma farmácia e hesitava em entrar. Depois de um instante, decidiu-se a seguir em frente e assim foi, apressado. Atravessei a rua e, intempestivamente, abordei o mestre. Comecei por elogiar seu excerto na apresentação da poetisa Ângela Vilma, inserida na coletânea Tanta poesia, recém-publicada. E, como ele sorrisse sarcástico, perguntei-lhe como ia o livro.
"Que livro?"
"Ora, As pupilas de Safo!"
"Ah, este!", ele deixou escapar.
E me pegou pelo braço e foi me arrastando. Da Av. Sete passamos à Rua Direita da Piedade. Andamos mais um pouco e entramos num restaurante de comida natural. Para o meu espanto, ele pediu um suco de lima. "Recomendação médica", justificou. "Nada de café ou de álcool, ao menos por um tempo." E disse:
"O livro não existe". E para si mesmo, como se eu não estivesse ali: "É o que mais tem: livros que não existem". Depois de uma pausa, em que refleti sobre o que ele dissera, falei:
"Como o Quasídromo, então?"
"Sim, como o Quasídromo." Seu suco chegara, e ele começou a bebericá-lo pelo canudinho. "Mas já posso ver, no futuro, os pesquisadores em busca do livro. Ou pelo menos dos originais, em meio às minhas coisas, que alguém, por curiosidade, haverá de preservar. Sempre há os curiosos."
Também pedi um suco, e lá ficamos os dois, como duas crianças sobre seus sorvetes. O tempo passara, e não havíamos nos dado conta de sua fuga, de que estávamos envelhecendo e, por isso, recebendo a carga dos médicos, que por pouco não nos proibiam de viver. Tempo viria em que já não conseguiríamos nem mesmo ler, as mulheres passariam por nós e não teríamos mais desejo, e acordar ou dormir não faria diferença alguma.
"Houve uma época em que a descoberta de um autor novo e de qualidade era uma satisfação", Victor Vhil disse, com um olhar sonhador. "Mas, hoje, bons ou ruins, prefiro ignorá-los. Já não me servem pra nada. Kafka já não me serve pra nada. Balzac, então... inútil, inútil! Talvez só a poesia ainda me traga alguma satisfação. E mesmo assim só os poetas que já conheço e admiro: Quintana, Bandeira, Drummond, Oswald, Dante Milano, Pessoa. Esses que aí estão, com sua poesia de vísceras e curral, Deus meu!, deles quero distância!"
"E seu livro novo?", tentei mudar de assunto, pois eu mesmo já começava a pensar numa corda e numa árvore..."
O mestre foi lacônico e cruel: "Não vendeu nada. A crítica ignorou, o público ignorou, meus amigos ignoraram, eu ignorei. Os bons livros sempre são ignorados, cria-se um pacto de silêncio em torno deles. Mas os Balés-Ralés, desses se diz o que não são. Agora sei por que Hemingway se matou. E olha que em sua época e em seu país as pessoas liam. Aqui jamais leram, nem lêem, exceto quando o autor é elevado a clássico e absorvido pelo currículo escolar. Então lêem por obrigação, porque é necessário para se subir as escadas, alçar os degraus."
"Ou quando o livro sai na lista dos mais-vendidos..."
"E desde quando literatura entra na lista dos mais-vendidos? Qualquer livro mais-vendido é outro livro, de outra natureza, outro gênero e estilo."
Acabamos com o suco e fomos fazer nossos pratos. O restaurante ainda estava vazio, pois ainda não era meio-dia. Faltavam dez minutos, e as pessoas só chegariam em quinze, depois que deixassem o trabalho. O prato do mestre quase que só tinha folhas. O meu era balanceado, com alimentos mais consistentes.
"Agora não passo de um jabuti: lento, preguiçoso, monótono e vegetariano", o mestre largou, numa auto-imolação. Eu jamais o vira tão amargo.
"Que tal um passadinha na LDM, depois?", sugeri.
"Para quê?"
"Ora, primeiro encomendei um livro e quero ver se chegou. Segundo, é sempre balsâmico ir a uma livraria, não?"
Ele não respondeu. Continuou a comer, sem vontade. Apenas um animal a defender-se do vazio no estômago. Mais tarde, pegamos a sobremesa (biscoito de mel com gengibre), atravessamos a rua e entramos na livraria. O proprietário e alguns dos vendedores nos receberam com festa. Sobretudo para o mestre, que não aparecia por ali havia muito tempo.
Fui ver o livro que encomendara. Enquanto me desembaraçava do processo de pagar e receber, Victor Vhil caminhou para a sala de leitura, no fundo da loja. Não havia muita gente ainda. As pessoas só chegam mais tarde, com a intenção de matar o resto de tempo do almoço com algum descanso somado à leitura ou consulta de algum livro interessante. Pensei que era talvez a intenção do mestre e não me preocupei.
O livro de Aglaia Veteranyi que eu encomendara não me decepcionou. Na fila do caixa me pus a folhear Por que a criança cozinha na polenta e descobri trechos que seduzem, mesmo aos leitores mais frívolos: "Eu só era alguém antes de nascer". Ou: "O estrangeiro não nos modifica. Em todos os países comemos com a boca". Ou então esta guloseima: "Será que Deus fala outras línguas? Será que entende os estrangeiros? Ou será que os anjos ficam sentados em pequenas cabines de vidro fazendo traduções?" E esta verdade irrefutável, extensiva aos seres humanos: "Na hora do abate, o cacarejo das galinhas é internacional, entendemos, não importa o lugar".
Paguei o livro, agradeci ao vendedor e à moça do caixa, e me dirigi aos fundos da loja, para me reunir ao mestre. Queria que ele lesse ao menos aqueles trechos. Que se convencesse de que ainda havia boa literatura, e reconhecida, valorizada, e que as pessoas ainda liam arte verdadeira, em busca de significados profundos e de uma transformação da realidade adversa através da metáfora e dos símbolos.
Mas ele estava dormindo. Meio tombado sobre o braço do sofá, sozinho, fatigado, a boca levemente entreaberta, quase roncando: um suave som sibilante, como se houvesse um escapamento de gás em algum lugar... E em suas mãos, inertes, o nada dos últimos tempos.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 07/10/2006.
Capa da Polenta.
Escrito por M. Gallo às 09:12
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CENTENÁRIO DE CYRO DOS ANJOS

O autor e seu principal livro.
Há 100 anos, em 5 de outubro de 1906, nascia em Montes Claros, MG, o romancista Cyro dos Anjos, autor do romance de influência machadiana O amanuense Belmiro (1937) e do delicado Abdias (1945), livros que o inseriram, definitivamente, na história da literatura brasileira. Faleceu em 1994. Alguns trechos de O amanuense Belmiro (Rio de Janeiro: José Olympio, 1971), seu romance mais conhecido:
"Por que, afinal, essa fogueira, esse balão que se queima no ar e os foguetes, que vão atrás dos balões, hão de fazer-me inclinar sobre mim mesmo, para viajar pelo tempo afora, perdidamente, em busca de um balão que as monções carregaram para outras latitudes? Vã tentativa de reintegração de porções que se desprenderam da alma nesse trajeto imenso. Em cada ramo à beira do caminho ficou um pouco de nossas vestes e é inútil voltar, porque os bichos comeram os trapos que o vento não levou." (p. 39)
"Não voltarei a Vila Caraíbas. As coisas não estão no espaço; as coisas estão é no tempo. Há nelas ilusória permanência de forma, que esconde uma desagregação constante, ainda que infinitesimal. Mas não me refiro à perda da matéria, no domínio físico, e quero apenas significar que, assim como a matéria se esvai, algo se desprende da coisa, a cada instante: é o espírito cotidiano, que lhe configura a imagem no tempo, pois lhe foge, cada dia, para dar lugar a outro, novo, que dela emerge. Esse espírito sutil representa a coisa, no momento preciso em que com ela nos comunicamos. Em vão o procuramos depois; o que, então, se nos depara é totalmente estranho." (p. 73)
"Percorrendo a Rua Matacavalos, pensei, com saudade, naqueles cavalheiros que andavam de tílburi, jogavam voltarete e tinham, sobre o mundo, pensamentos sutis. Divisei, a um canto, o vulto amável de Sofia e tive dó do Rubião. A meus ouvidos, mana Rita fazia insinuações (Cale a boca, mana Rita...). Em certo bonde, que me pareceu puxado por burricos, tive a meu lado Dom Casmurro, e lobriguei, numa travessa, dois vultos que deslizavam furtivos à luz escassa dos lampiões: Capitu e Escobar." (p. 163)
Escrito por M. Gallo às 21:26
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CONTO

Edward Hopper (1882-1967)
AS CHAVES
Paraíso perdido que eu achei, quando fui àquela casa que sempre soube abandonada. Para a minha surpresa, lá estavam um pai e sua filha, como ocorria nas fitas de cinema dos anos 50, mesmo as de ficção-científica. Era um clichê freqüente um pai com uma filha bonita, que, ao fim, se enamorava do mocinho. Bem, eu estava nas cercanias da velha casa da colina, quando ouvi às minhas costas: "Ei, menino!" Olhei, e era um homem alto e magro, com um jornal na mão e os óculos na outra. Me acenava da varanda e pedia que me aproximasse. "Quanto você quer para brincar com uma menina?" Estranhei. Ainda naquela época menino brincava com menino, e menina com menina. Eu jamais poderia imaginar que alguém me deixaria brincar com uma garota e ainda me pagaria por isso.
Tua essência que é tudo em meu todo que é nada. Foi como a descobri. Ela estava no terraço, tomando sol. Os óculos em seu rosto reproduziam as montanhas em volta, as nuvens, o vôo calmo dos pássaros. Quando me viu, jogou uma toalha sobre o corpo, vestido só com duas peças íntimas. "Quanto ele está lhe pagando para vir aqui?" Engoli em seco meu constrangimento. "Quanto papai está lhe pagando?", repetiu, enfatizando a palavra papai. Me aproximei e lhe passei as duas cédulas, que ela pegou e rasgou.
Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos. Um corpo é pouco; dois, muito. Verdades que pude comprovar a cada ocasião que voltei ali. Às vezes seu pai estava, às vezes não. O terraço era seu refúgio favorito. Sozinha, folheava revistas, pintava quadros abstratos, tomava sol, falava ao telefone, combinando com alguém não sei que escapada para uma noite qualquer, em breve, o que jamais ocorreu. E de vez em quando falava assim, aos risinhos, o olhar de lado: "Ele botou um carinha pra me vigiar. Um capiau daqui. Mas até que gosto dele. É bonitinho, gentil e gosta de passarinhos. Bem, até terça, ele está vindo agora, pela estrada, e vem a toda, um poeirão danado. Preciso desligar. Beijo, tchau!" E logo o pai invadia o terraço, a perguntar se tudo ia bem. "Bem como quem?", ela perguntava, sentada na cadeira, a mão entre as pernas, a esconder o telefone sob a toalha.
Alternativamente a noite e o dia, assim nos encontrávamos, conforme o regime de soberania de seu pai. Não era raro que eu também passasse as noites ao seu lado. Seu quarto era imenso e escuro. Eu ficava de fora, sentado no corredor, e pela porta entreaberta via uma fatia mínima de suas coxas, mal cobertas pelo lençol. Em certas noites, a luz do abajur se acendia, e ela me chamava: "Venha, bocó, você não sabe o que está perdendo". E das poucas vezes em que me arrisquei a devassar com o olhar aquela fresta da porta, notei que ela arrancara a camisola e a atirara no chão. Mais uma de sua provocações. Mais um dos seus atos de rebeldia sem relevância. Mais uma das reações aos mandos e desmandos do pai.
O que de olhos abertos eu não via era precisamente o que me intrigava. O que é a realidade? Um balde emborcado. Vemos o balde, mas não o que está por dentro. E até que o desemborquemos não há segredo: sua realidade é só uma superfície brilhante ou opaca sob o sol. Ou uma nódoa cor de chumbo sob a chuva.
Sem nunca ter começo, teve fim aquele nosso estranho caso. Uma tarde ela me disse que eu não passava de um idiota. Que eu não aproveitara. Que eu a vira quase nua e não fizera nada. Que eu era um bobalhão. Um capiau da roça. E que, certamente, agindo daquele jeito, jamais ia fazer uma mulher feliz. Nem ali nem na cidade. Menos ainda na cidade, onde as mulheres pedem mais e são mais impetuosas, mais exigentes. E mesmo se agora eu quisesse, quem não ia querer coisa alguma era ela. E me segurou pelo colarinho e disse, com raiva: "Depois de um tempo, se a mulher não recebe a atenção devida, ela desiste e nunca mais quer ver o sujeito. Pelo menos aprenda isso, seu bocó!" Seu hálito perfumava-me o rosto.
A mentira da vida e a verdade do sonho mantinham-me acordado nas noites: "Quem é você? E quem é ele? E por que nesta casa, que durante tanto tempo ficou fechada? E por que, não estando as portas fechadas a chave, você não sai, não escapa? E por que eu? Por que fui o escolhido? E escolhido para quê? E o que será de mim amanhã? E de você? E dele? Nos veremos um dia, de novo? E, se assim for, onde será, e quando? Para que outro sonho seremos destinados? Sob qual verdade? Em que vida?"
Mas nem sequer ouviste o que eu não disse. Não, não poderia ouvir. Já se tornara descrença e rancor. Por isso nada falei. Só a olhei, seu rosto encostado ao vidro da janela, o carro começando a deslizar no cascalho do pátio de entrada, um barulho seco e delicioso que nunca mais pude ouvir novamente, enquanto sofri. E uma pena que ela não ouviu o que eu não disse. Poderíamos nos salvar, os dois juntos, talvez.
E partiste. E eu fiquei no dia sem paisagem. O carro se foi colina abaixo. A mesma poeira de outras tardes, contra o céu. Desci a pé como quem vai por um caminho sob a água. Nada à minha volta. Só a sua presença, a destruir-me. Seus cabelos claros, seus olhos zombeteiros, suas pernas se movendo macias nos corredores, seu ventre liso e nu, provocante, distendido na cadeira aos favores do sol, suas mãos a tocar-me mais por indignação que afeto. Mas ainda assim por afeto. Amar é o mesmo que odiar, às vezes.
Nos meus fecundos arrependimentos adoeci, para sempre. Meus familiares não me entendiam. Era o tipo de doença que não é doença. Que o mundo, sempre cético e pragmático, não compreende e até condena e não cuida, nem mesmo para passar a vassoura sobre os dias e reavê-los em sua normalidade. Um mal que é só um entrave, um incômodo, uma dorzinha do lado, uma mancha na parede, um filho-inseto encerrado na despensa. Só depois do fato consumado, em retrospectiva, admitimos que poderíamos ter sido mais humanos, compreensivos e generosos. Mas já é tarde. Muito cedo foi muito tarde.
Cai o pano final das pálpebras fechadas. Talvez eu volte, finalmente, a dormir. Sem dor.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 01/10/2006. As frases em itálico no início de cada parágrafo foram extraídas do poema As chaves-de-oiro, de Guilherme de Almeida, sem o qual o conto não existiria.
Escrito por M. Gallo às 20:55
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