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DUAS PARÁBOLAS DE KAFKA

Giorgio De Chirico (1888-1978)
O TIMONEIRO
"Não sou o timoneiro, aqui?", exclamei.
"Você?", perguntou um homem alto e moreno, passando a mão sobre os olhos como se quisesse afastar um sonho mau.
Eu estivera no timão na noite escura, uma fraca luz sobre a cabeça, e agora esse homem aparecia e tentava empurrar-me para o lado. Vendo que eu não cedia, encostou o pé no meu peito e amassou-o lentamente, enquanto eu continuava agarrado ao timão, arrancando-o ao cair. Mas o homem o apanhou, colocou-o no lugar e me empurrou. Eu me refiz, porém, e corri para a escotilha que dava para a sala de refeições e gritei:
"Homens! Camaradas! Venham depressa! Um estranho me tirou do timão!"
Vieram devagar, subindo a pequena escada, cansados, oscilando, figuras poderosas.
"Não sou o timoneiro?", perguntei.
Assentiram sem palavras, mas só tinham olhos para o estranho, fizeram um círculo em volta dele e quando, com voz de comando, ele disse: "Não me perturbem!", reuniram-se outra vez, acenaram com a cabeça para mim e desceram para o convés inferior. Que tipo de pessoas são eles? Será que pensam às vezes ou apenas se arrastam sem nenhum objetivo, pela terra?
PROMETEU
Quatro lendas falam de Prometeu. A primeira registra que foi amarrado ao Cáucaso por haver revelado aos homens os segredos divinos, e os deuses mandaram águias devorar seu fígado, perpetuamente renovado.
De acordo com a segunda, Prometeu, aguilhoado pela dor dos bicos destruidores, foi afundando nas rochas até fundir-se com ela.
Conforme a terceira, a traição foi esquecida ao longo dos séculos. Os deuses esqueceram, as águias esqueceram, e ele mesmo esqueceu.
Segundo a quarta, cansaram-se dessa história insensata. Cansaram-se os deuses, cansaram-se as águias e a ferida fechou-se de cansaço.
Sobrou o inexplicável penhasco.
A lenda quer explicar o inexplicável.
Assim, nascida de uma verdade, tem que voltar ao inexplicável.
FRANZ KAFKA (1883-1924). Romancista e contista tcheco de expressão alemã. É considerado um dos mais importantes escritores de todos os tempos. Há uma infinidade de livros escritos com a pretensão de decifrar sua obra. Sua influência se estende ao cinema, nos filmes de David Lynch (Cidade dos sonhos, A estrada perdida) e no recente Stay, de Marc Forster. Obras: O processo, A metamorfose, O castelo, Contemplação, O foguista, Um médico rural, Um artista da fome, Carta ao pai, América, Na colônia penal, O veredicto, A construção. Tradução de Aulyde S. Rodrigues e Roberto Mara, respectivamente.
Escrito por M. Gallo às 10:52
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LIVRO NUNCA É DEMAIS

Edward Hopper (1882-1967)
Ganhe um exemplar do livro de contos O que não pode ser, de Renata Belmonte. O Contramão dispõe de três exemplares para seus visitantes, que devem responder às cinco questões abaixo, através da seção "comente". Os premiados serão aqueles que pontuarem mais. Cada questão vale dois pontos. O critério de desempate será o horário de envio das respostas. Todos os comentários serão publicados aqui, quando da divulgação do resultado.
1) Que romance do escritor mineiro Carlos Herculano Lopes foi adaptado para o cinema? 2) José Cândido de Carvalho só publicou dois romances: Olha para o céu, Frederico! e O coronel e o lobisomem. Quantos anos separam as duas publicações? 3) Qual o título do conto que Murilo Rubião esqueceu no táxi e que só foi publicado em 1998, depois da morte do contista? 4) Título e ano de publicação do livro que Genolino Amado escreveu sobre sua experiência como professor de História e que Paulo Rónai considerava uma obra-prima. 5) Em 1968, Herberto Sales foi jurado do Prêmio de Ficção/Romance “Prefeitura do Distrito Federal”, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Que livro e que autor ganharam o prêmio?
Escrito por M. Gallo às 22:30
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CONTO

José Pancetti (1904-1959)
ENCANTOS DO SOL
Nossa cidade, litorânea, tinha três mil habitantes no inverno e trinta mil no verão. A situação era tão grave, que faltavam água, luz, leite, feijão e drops Dulcora... Não raro, íamos às cidades próximas, fazer compras, eu e meu pai. Verdadeiros milagres: a paisagem do trem, uma policromia nova, gente, agitação, meu pai só para mim. Minha mãe nunca nos acompanhava, ficava cuidando do meu irmão, que ainda era de braço, um ratinho com dois olhos enormes.
Meu pai tinha uma ocupação que me agradava muito e que me parecia justa, adequada à sua natureza: trabalhava só quando dava na telha e o tempo permitia. Às vezes, ficava em casa lendo, ouvindo música, brincando com o gato. Outras vezes, não ia trabalhar porque estava chovendo. Ele possuía um barco e transportava turistas para as ilhas. Dois hotéis de luxo recebiam a carga. No verão isso desovava dinheiro; no inverno, quase nada. Então meu pai em casa, com a gente. E dificuldades, que ele resolvia com idas semanais à capital. O trem se distanciando nas tardes nubladas. Um ponto minúsculo, preto, sob o céu sem luz. Eu muito triste. De medo que meu pai morresse ou sumisse ou nos abandonasse. Mas achei um jeito para que ele sobrevivesse: colocava em sua carteira um bilhete: papai não nos deixe, papai não morra, papai eu te amo. Eu acreditava que isso era motivo suficiente para ele continuar conosco, e vivo. Deus querendo ou não. E ele jamais me tocou senão por afeto, ainda que eu quisesse mais. Homem bom. Na capital, acertava a venda de terrenos e casas em toda a costa de Lus. Comissões mais gordas que o esperado e que animavam o nosso estômago. Mamãe de bem conosco, rindo e brincando. Meu pai lendo tranqüilo na sala de estar.
Se houve um verão que nunca esqueci foi aquele em que achei Simone. Nem mais claro, nem mais cheio, nem mais quente. Mais doce, porém. Mais cruel. Nesse aspecto foi diferente de todos os outros, de antes e depois. Uma bicicleta laranja, ano 69, e uma garota em cima dela: short, blusa, rosto redondo, nariz pequeno, cabelo castanho escorrido que lhe caía nos olhos. Eu jamais havia olhando assim para uma garota. Sua pele, levemente bronzeada, misturava-se ao tom laranja da bicicleta. Uma massa compacta que eu percebia à distância. Sua presença me roubava tudo, a paisagem, o assunto, o dia. As noites também. De manhã só queria vê-la, sem demora.
Meu erro foi me desabafar com Lúcio. Ele riu e disse que ela se chamava Simone. Cimone e siúme. E até me levou à porta de sua casa. E vi a bicicleta parada no quintal, à espera de suas coxas, do meio quente de suas pernas. E Lúcio explicou que a conhecera na casa do Mauro. Mauro, um pateta que dava em cima de mim e me agarrava no corredor da escola. E ali ficamos, do outro lado da rua, a espreitar aquela bicicleta antiga e laranja.
"Posso te apresentar", disse.
"Não!", quase gritei.
Talvez tivesse sido melhor.
Durante boa parte do verão, Lúcio me acompanhou àquelas vigílias em frente à casa de Simone. Ficava comigo, sentado na calçada, paciente.
"Seus olhos são negros", ele disse, um dia.
Olhei para ele, perturbada.
"Como cê sabe?"
"É fácil. Mesmo de muito longe se pode ver. Fossem de outra cor, a gente não veria."
Fazia sentido. Por isso prestei bem atenção quando ela atravessou o portão com a bicicleta. Negros talvez, talvez não. Só ilusão, sugestão. Então arrisquei:
"Não são negros".
"São", ele retrucou.
"Não são", insisti.
"São!"
Mas aí ele olhou de novo, viu de novo, antes que ela pulasse na bicicleta e partisse, ou apenas ponderou sobre a situação, e concordou comigo:
"Não, não são negros".
Mas eram. Subimos em nossas bicicletas e começamos a rodar. Lentamente. O silêncio nos acompanhou, foi entre nós como um muro. Ao nos separarmos, perto de minha casa, ele me deu um seco até-logo. Mais nada. E não combinamos coisa alguma, nem para depois nem para o dia seguinte. Entrei em casa com a cabeça hesitante entre o travesseiro e a água. Queria afastar a qualquer custo aquele ar de desilusão e impasse, de rompimento, de fenda. Ou pelo sono ou pelo banho. Em ambos: longe de mim mesma.
Por algum tempo, não sei quanto, não voltei a rever Lúcio. Minhas vigílias continuavam, em frente ao portão, do outro lado da rua. Eu sofria. Com a indiferença de Simone e com a ausência de meu único amigo. Um mistério: o seu sumiço. Outro mistério: o silêncio daquele dia, o último em que nos vimos. Passado um tempo, fui à sua casa. Sua irmã mais velha disse que ele estava doente. E não me deixou entrar. Que eu voltasse no sábado, já estaria melhor. Simone continuava a mesma: subia na bicicleta e partia. E continuava sem me ver. Não me veria nunca. Algumas vezes cruzei com ela pelo caminho, no bairro mesmo ou em outros lugares. E nenhuma diferença. Só sisudez. Encantos do sol.
Uma semana inteira sumi. E tanto que nem me lembrei da visita a Lúcio. Nesse período trabalhei com meu pai, no barco. Metia-me entre os olhares e os motores. Às vezes só de biquíni. Homens me comendo. Gratificante, sensação de poder. O poder da mulher, embora eu não passasse de uma menina. Muito bom, me ergueu, e quase me esqueci de Simone. Mas não de Lúcio. De volta, fui procurá-lo. Do cais mesmo, rumei de bicicleta para a sua casa. Para a minha surpresa, vi Simone saindo, correndo em direção à bicicleta laranja e deixando que ela estourasse no chão antes de montar. Se ao menos eu tivesse passado em casa... Mas não passei e só soube do que acontecera ali, naquele momento, diante do meu amor.
"Ei!", gritei para ela. Com uma coragem que não imaginava possuir e que só anos depois refinei.
Ela se voltou e quase deixou cair, de novo, a bicicleta. Estava chorando. De seus lindos olhos negros escorriam dois rios. Ela mordeu o lábio, virou o rosto e se foi, sem me dizer nada. Entrei para ver Lúcio e lhe perguntar se amávamos a mesma garota. Mas ele estava morto. Dois mortos em mim.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 24/09/2006.
Escrito por M. Gallo às 18:34
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CONTO ANTIGO

AS ESCADAS
Havia no centro do bairro um imenso campo de futebol. Sonho de todos os rapazes desde garotos e margem à qual se dirigiam as garotas quando queriam flertar, ainda que nem um grupo nem outro pretendesse o profissionalismo. Era ali que eles se encontravam, todas as noites, naquele verão. Um mar de estrelas a evoluir sobre suas cabeças. Os dois caras eram amigos, e a garota, prima de um deles. Ainda estudavam, mas estavam de férias, embora achassem, de alguns meses para cá, que estudar já não valesse a pena. Deitados na grama, pernas e braços abertos, olhavam o céu e sonhavam. Nos dois últimos dias tinham trazido um rádio, mas, nesta noite, por algum motivo, Delma o desligara. Os dois amigos não reclamaram, acostumaram-se ao silêncio e voltaram a olhar o céu.
Milo, o primo, pensava que talvez Delma houvesse se lembrado de alguém, algum antigo namorado, ao ouvir a música. Mas qual? Foram tantos, desde os doze anos ela se agarrava. Mesmo ele, na escada de sua casa, lhe dera um aperto certa vez. E houve aquela outra ocasião, na festa no prédio de Iva, quando a seguiu escada acima, e a cada andar, por cinco ou dez minutos, ela se colava a um cara. Ele ainda sente nos lábios o gosto de sua boca, ainda o tem na memória, embora tanto tempo já passado. Tanto tempo... Quis um dia lhe dizer S e até foi à sua casa S, que era duro demais aquilo, aquele hábito de se agarrar com qualquer um. Mas, ao vê-la, de blusa e chortinho caseiros, pernas e braços à mostra, desistiu. E também ficou a sonhar com as escadas... Agora estão ali, como nos últimos cinco dias deste verão que apenas começou. Valdo, mais conhecido como Neguinho, não parece cortejá-la, mas Milo sabe que, a exemplo de todos os outros, ele a quer. Ele também deseja alcançar as escadas...
Passado um tempo, Delma volta a ligar o rádio. Uma canção suave evola-se sobre eles. A voz, feminina, é quase seda, e saudade, ausência. O próprio Milo pende num balanço, e se sente amputado de alguma coisa indefinível. Delma começa a se referir às estrelas e exaltar aquele momento como se de fato fosse muito especial. Talvez fosse, no entanto, ao se reconhecer isso, deixa de ser. É como quando se supõe um acontecimento, mais para afastá-lo que vivê-lo. É como a sorte, que, ao ser cogitada, corre. Valdo não disse nada, nem Milo. Também tinham seus pensamentos, que não eram assim tão diferentes. Jovens, ambos, tão-somente sonhavam. À volta dos três, a noite, o silêncio, as estrelas, as casas fechadas, os grilos, um vaga-lume esparso, cujo único mérito é fazer Delma rir. E de novo ela desligou o rádio. Milo brincou:
"Decida-se".
Valdo não pode deixar de pensar na ambigüidade desta ordem. E foi só nesse instante que ele se deu conta de que disputava a garota com o amigo, que só por este motivo estava ali, qualquer outro era simples desculpa. E se ela percebesse? Mas já não teria percebido? Desde sempre as mulheres criam um litígio entre os homens e sabem disso, e disso tiram proveito. Uma exigência da espécie, uma necessidade. Bem, ele a quer, mais que qualquer coisa que possa lhe acontecer neste verão. É provável que seu desejo tenha origem nas escadas, em tudo que a respeito já ouviu dizer. O fato é que Delma gosta de um canto escuro, e de encontrar ali lábios e mãos que a explorem, os degraus a ferir-lhe as costas. Não se lembra de ter ouvido alguém confessar ter chegado mais longe, mesmo porque cinco minutos são quase nada quando o assunto é a descoberta de um corpo. Ademais um corpo jovem. E é preciso lembrar que com bem menos os caras já contam vantagens.
A música tem em Delma o efeito de um sonífero. Adormece-a, mas, a depender da melodia, desperta-a ainda mais, para a dor, um incômodo que é como um vazio imemorial. Nada mais faz sentido. É como se estivesse condenada, coagulada, apesar da juventude. Este verão tem para ela contornos trágicos. Sua fama não se justifica, não ainda. Suas aventuras nas escadas são quase puras, sem mácula alguma. Beijos, abraços, apertos, busca de um contato mais íntimo, não obstante superficial, pele a pele, ou nem isso, pano a pano... E é comum que de um certo ponto ela escape, não importa o que o outro diga, como reaja. Logo alcança o andar de cima, outro corpo, outros beijos, outros braços, ou mais fortes ou mais fracos, de um ânimo tão infeliz quanto o seu. Por vezes pensou como era uma condição insensata, esta, mas o que fazer, se não consegue dizer não? E é até um milagre que ainda se mantenha intocada. Tantas mãos passaram e tantas se foram, como nuvens. Conheceram-na, mas não a reconheceram. Ninguém. Jamais houve uma vez a mais, com quem quer que fosse. Agora, estes dois, seu primo e o outro. Decerto pensam que serão mais felizes, um apenas ou os dois. Talvez seja a hora de dizer sim, talvez... Depois de tantas simulações, a realidade. Enfim.
Liga o rádio novamente, antes que volte a especular sobre as estrelas, o que apenas confirmaria sua condição solitária, ávida de alguma coisa. Não é senão por isso que trouxe o aparelho, para tudo parecer simples e usual. Assim é mais fácil se defender e dizer não.
Milo se levanta. Parece inquieto e angustiado. Valdo faz o mesmo, numa movimentação quase simétrica à do companheiro. No futebol, às vezes, um não serve o outro, sem nenhum motivo concreto. Somente porque talvez achem que seria demais, espécie de subserviência que é preciso dosar. E agora, como no jogo, disputam outra supremacia. A primeira verdadeiramente real de suas vidas. E não interessa que a vitória, ao fim, seja amarga ou que Delma escape, como pelas escadas, em tantas outras ocasiões. Basta que ela apenas...
"Se decida", Valdo diz. E já prepara o chute contra o rádio, enquanto Milo vai arrancando, com violência, a blusa da prima...
Um galo canta à aurora vermelha.
MAYRANT GALLO. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 2005. Para Thiago Lins, que gosta deste conto mais do que eu.
Escrito por M. Gallo às 07:39
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MURILO E AS MULHERES

2046, de Wong Kar-Wai.
MULHER VISTA DO ALTO DE UMA PIRÂMIDE
Eu vejo em ti as épocas que já viveste E as épocas que ainda tens para viver. Minha ternura é feita de todas as ternuras Que descem sobre nós desde o começo de Adão. Estás engrenada nas formas Que se engrenam em outras desde a corrente dos séculos. E outras formas estão ansiosas por despontarem em ti. Quando eu te contemplo Vejo tatuada no teu corpo A história de todas as gerações. Encerras em ti teus ascendentes até o primeiro par, Encerras teu filho, tua neta e a neta de tua neta. Mulher, tu és a convergência de dois mundos. Quando te olho a extensão do tempo se desdobra ante mim.
A MULHER ANÔNIMA
Lembra-te daquela mulher Que um dia te acenou do alto de uma varanda. Daquela forma admirável mas sem nome Que uma tarde te disse adeus Enquanto o automóvel parou um minuto na estrada. Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples Que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço E que certamente nunca mais tornarás a ver: Lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti E sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
RELATIVIDADE DA MULHER AMADA
Eu gosto de você com uma força bruta que não entendo bem. Gosto quase tanto como de mim. Mas que pena você não ser também minha filha. Que pena você não ser minha filha, minha irmã e minha mãe, [tudo ao mesmo tempo.
DILATAÇÃO DA POESIA
Nas formas da filha o pai Vê sua mulher ressurgir No viço da mocidade. Inda há pouco ele subia Uma escada com sua filha, Pareceu-lhe que levava Sua mulher pela mão, Comovida, para o altar.
MURILO MENDES (1901-1975). Um dos mais originais poetas brasileiros. Sua poesia é mística e misteriosa, surreal e sensual, sagrada e profana. Ler Murilo Mendes é uma experiência completa. Poemas extraídos dos livros Poemas (1930), O visionário (1941) e As metamorfoses (1944).
Escrito por M. Gallo às 07:50
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (19) (20) (21) (22)

Edward Hopper (1882-1967)
O REENCONTRO
Um homem que o sr. K. não via há muito tempo o saudou com as palavras: "O senhor não mudou nada". "Oh!", fez o sr. K., empalidecendo.
BERTOLT BRECHT (1898-1956). Do volume Histórias do Sr. Keuner (São Paulo: Brasiliense, 1989). Tradução de Paulo César Souza.
A CARTA
Não fora nada fácil. Tão longos anos, tão grande amor, para sentir-se sempre inseguro, sem saber por quê, iminente a ruptura. Ruminando, aliviado, a reconciliação, entrou em casa. O envelope no chão quase o mordeu. A letra, inconfundível. Sem abri-lo, sentou-se na cadeira de balanço, olhando as montanhas, desesperado.
ANTÔNIO BULHÕES (1925). Do volume Contos inatuais (São Paulo: Arx, 2002).
O FALSIFICADOR
A certa altura da sua vida um homem que sempre falsificara quadros começou a ver mal. Estava viciado: começou a falsificar músicas.
Na morgue, depois de morto, confundiram-no com outro.
GONÇALO M. TAVARES (1970). Do volume O senhor Brecht (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005).
[AIDS]
Pegou o marido com ela.
MARCELINO FREIRE (1967). Do voluminho 30 microcontos para você ler no intervalo da novela (São Paulo: Eraodito, 2002).
Escrito por M. Gallo às 07:25
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CONTO

José Pancetti (1904-1959)
MAMÃE
Naquele inverno vestíamos até três calças para ir à escola. As duas primeiras de algodão e a última, por cima, de brim, contra o vento. Uma violação do uniforme escolar, mas a direção não reclamava. Ventava um dia atrás do outro. Dias nublados, outros chuvosos, sem trégua. Levantar cedo era um suplício. O frio intenso feria a água, que feria os dedos. Apesar disso, eu pulava logo da cama, antes que mamãe agisse...
Quando cheguei na rua, a chuva caiu. Já acostumado, abri o guarda-chuva e continuei andando. Uma mão pesou em meu ombro. Uma garota. Não a conhecia. Ela riu e me pediu desculpas. Nem imaginava que sua intromissão era vida para mim. Havia duas semanas que chegara à cidade. Nos últimos meses, mudara mais de cidade que de calcinha... Sua ironia me chocou. "Acredite", ela insistiu e se apresentou: Eliane. Era morena e estava na outra turma da sétima série. Era linda e morava com os tios. Não continuou sua história, parou por ali, a acompanhar-me. Chegamos à escola ensopados. Me dirigi ao banheiro. Ela veio atrás e entrou no feminino. Saímos quase ao mesmo tempo, o corredor vazio, o zunzum das salas ainda sem professor. Surgiu um inspetor e perguntou o que estávamos fazendo. Explicamos. Ele deu uns gritos e nos tocou para as salas. Fez questão de levar Eliane até a porta da sua, presa pelo braço, como se a tivesse detido em delito. Da porta de minha sala, vi seu cabelo castanho desaparecer.
Durante o recreio, ela raramente lanchava, pois "nunca tenho fome antes das onze". A chuva caía fina e persistente. Com as vidraças do refeitório embaçadas, não enxergávamos o mundo lá fora. Encontramos no pátio a oportunidade de ficarmos a dois. A idéia foi de Eliane e seus cabelos curtos, cortados como os de um garoto. Eu conservava as mãos nos bolsos e evitava falar. Os lábios ressecados pelo frio. Os quinze minutos do recreio escoaram num triz. A sirene tocou, e voltamos para a sala com os últimos alunos. Levei comigo a imagem do vento cortante em seu rosto.
A saída da escola era sempre confusa. Procurei Eliane entre rostos e cabelos. Vinha só, à frente de um grupo de garotas risonhas. A chuva aliviara um pouco, e um solzinho esquálido surgia, tímido. Quando passou por mim, peguei-lhe o braço. "O inspetor fez o mesmo", falei depois, no caminho. Ela riu. E contou que na saída o mesmo inspetor havia lhe recomendado não ficar sozinha perto dos banheiros com nenhum garoto. Típico de inspetor. Vigiar, averiguar, surpreender, dizer alguma coisa, dar conselhos, manter a ordem. E a ordem era garoto aqui, garota ali, não se misturar. Depois querem que os casamentos sejam felizes. Impossível reaver, quando adultos, o que na infância nos proibiram.
"Não gosto de garotas", ela disse.
Eu conhecia seus tios só de vista, mas achava que eram esquisitos. Graves, calados, arredios. Só bom-dia e boa-tarde. Meu tio Alberto insinuava que eram criminosos, ou espiões, talvez seqüestradores. Ele sempre nos visitava e me trazia gibis, livros. Naquele inverno, trouxe um amigo. Ficou muitos dias, e o cara ainda mais. Mamãe alegre, os dois rindo muito à mesa. "Bato aqui amanhã cedo, pra gente ir junto", disse Eliane, em frente à minha casa. E se foi. Entrei. Mamãe e o cara, na mesa, nem me notaram. Fui direto apanhar meu prato.
Bem cedo ela bateu palmas no portão. Eu estava pronto. Foi só o tempo de pegar a mochila e sair. Mamãe e o cara dormiam. Mal alcancei Eliane, ela me pegou pela nuca, a mão quente, e me beijou na boca. Lábios doces, hálito fresco, língua insolente. Não lhe retribuí direito o beijo. A surpresa me aterrou. Seguimos em silêncio. As palavras, se existissem, seriam óbvias demais, incapazes, velhas. Nova surpresa, ao nos separarmos no corredor, atrasados de novo: Eliane confessou que gostava de mim. Levantei o rosto, assenti com os olhos, larguei sua mão.
Depois que o cara foi embora, mamãe teve mais tempo de me ver. E passou a me delegar tarefas que eu abominava cumprir. A intenção era me afastar de Eliane. Uma bobagem que só as mães empreendem. Paciente, encostada ao portão, Eliane me esperava. Tão logo partíamos, eu me voltava para a feia máscara de mamãe na janela...
Céu branco de fatias negras, o mar, o vento, a areia fria. Paramos na traineira encalhada, morta para a água desde o vendaval de 94. À noite, os casais costumavam brincar ali. Por algumas horas também brincamos. Foi quase uma batalha: achávamos que não deveríamos esperar mais nada e, também, que não era tempo ainda, tínhamos a vida pela frente e tudo o mais que a ela converge nos períodos de sorte. Mesmo assim, voltamos felizes. Que o mundo viesse sobre nós com seu peso. Não alteraria nada. Não se subtrai do caracol o caminho percorrido.
Entretanto, uma tarde, vieram buscar Eliane. Um misterioso casal estrangeiro. E mamãe não permitiu que eu me despedisse. Que fosse à estação pegar sua mão e observar seu rosto sumir na curva dos trilhos, como nos filmes. Nossa despedida se deu no portão mesmo, bem cedo, quando eu a esperava para ir à escola e soube de tudo. A pior das despedidas, banal como um almoço em família.
"Você volta?", perguntei.
"Não."
Quis abraçá-la, mas ela não deixou. Perguntei se poderia ir me despedir na estação, e ela assentiu, embora achasse que isso só nos faria sofrer. Então melhor não ir, ficar, nos despedirmos ali mesmo. Eliane prenunciava mamãe. Mas os dois queríamos. Uma última imagem um do outro. Afora isso, ela prometia me escrever. Eu não achava uma boa idéia. Se não ia voltar, para que escrever? Ninguém escreve a ninguém de em meio à morte. É tolice. Só se mantém contato quando se tem esperança. Quando os olhos ainda vibram, e as mãos anseiam por outras. Quando o corpo implora, e os gestos atendem. Não era o nosso caso. Esquecesse. Não escrevesse nunca. Palavras não suplantam obstáculos. Esmaecem com o tempo, morrem com a água.
"Vou à estação", falei, decidido.
"Tudo bem", ela disse e reprimiu um soluço.
Eliane se foi, e eu não fui me despedir. Não pude. Mamãe não deixou: arrancou toda a minha roupa, a raiva estampada no rosto, e me largou nu pela casa, sem ação, a roupa trancada nas gavetas, todas as peças, as limpas e as sujas. E trancou mais, tudo: guarda-roupa, quarto, casa. As chaves em seu bolso. Trancou-me para o mundo, nu como um bebê... Pelo menos, os anos se apressam mais, à medida que vivemos.
MAYRANT GALLO. Conto publicado originalmente no Correio da Bahia, 17/09/2006.
Escrito por M. Gallo às 17:44
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