C O N T R A M Ã O


4 POEMAS DE JOSÉ CRAVEIRINHA

Edward Hopper (1882-1967)

GUERRA
 
Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
.   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .   .
Ah, as cidades!
Favos de pedra
macios amortecedores de bombas.

 
AFORISMO

O preconceito da ave
não é o tamanho das suas asas
nem o ramo em que poisou

Mas a beleza do seu canto
a largueza do seu voo...
e o tiro que a matou.


POEMAZINHO ETERNO

Os amigos
eram falsos como Judas.
Ah, como Judas, não.
Judas arrependeu-se.

Os amigos
eram mesquinhos como Judas.
Ah, mesquinhos como Judas também não.
Judas vendeu Cristo
e enforcou-se.

 
FÁBULA

Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos.

JOSÉ CRAVEIRINHA (1922). Poeta moçambicano. Poemas extraídos de Karingana ua karingana (Lisboa: Edições 70, 1982). A ortografia segue a norma vigente em Moçambique.



Escrito por M. Gallo às 22:20
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CORRESPONDÊNCIA SOBRE CINEMA

A passagem (Stay), de Marc Forster.

Velho Gallo, andei vendo, por esses dias, grandes filmes: A passagem, Antes do pôr-do-sol e O homem que não estava lá. Confesso que fiquei imensamente surpreso com a forma arrojadíssima de A passagem. Percebe-se, em Marc Forster, a movimentação ideal do trabalho criativo: grandes influências e um estilo que já é indelével. As cenas, quando não nos ejetam da poltrona, incidem num lirismo caótico, aquoso, primevo, cinza. O conteúdo não fica para trás. As falas estão prenhes de honestidade intelectual e larga visão da vida. Obra-prima. Como não se emocionar com este pequeno brioche encontrado à porta que é Antes do pôr-do-sol? O filme é de uma intensidade estupenda. Os personagens são veia e alma sempre, sempre, sempre. O diretor parece ter lido a maravilhosa máxima de Wagner, que diz que o diabo mora nos detalhes. No filme, eles são muitos. Um que eu adorei é aquele em que o cigarro vem à cena justamente quando se está falando de cuidados com a defesa do meio ambiente e coisa e tal. Não dá para esquecer também da homenagem a Nina Simone. E o desfecho? Que inveja! Há ainda muitíssimas coisas a serem pinçadas, mas aí só pessoalmente. Outro filme que me impressionou muito foi O homem que não estava lá. O argumento e a narrativa, bem camusianos, aliam-se a uma fotografia marcante, reconstituição de época perfeita e atuações extraordinárias. Prova viva de que o noir está aí e com força total. Afinal de contas, o mundo ainda é cinza... Adorei a música de Julie Delpy em Antes do pôr-do-sol. Não a conhecia. Você tem alguma coisa dela? Por hoje é só. Um forte abraço, Joaquim.


Joaquim, amigo, você assistiu a três filmes maravilhosos. Curiosamente, revi hoje cedo A passagem. Sem dúvida, uma obra-prima, um filme arrebatador, ouro puro! Tem de tudo: fotografia, arrojo formal, uma excelente história, poesia, vida, belas angulações e um jogo de espelhos que nos atenta desde o início para o fato de que estamos assistindo a uma narrativa dupla, ambígua, de realidade e sonho. Infelizmente os espectadores comuns não se fixam nos detalhes, detalhes que sobram em Antes do pôr-do-sol, continuação de Antes do amanhecer, dois filmes muito poéticos sobre as escolhas na vida, o que aproveitamos ou deixamos para trás. Quanto a O homem que não estava lá, é seguramente um dos melhores filmes-noir modernos. Um diálogo entre Camus, Cain e Goodis. E que a crítica e o público não souberam conceituar. Como sempre. Não, não tenho a Delpy cantora. Mas vamos procurar. Com a internet, só não encontramos a felicidade. Tudo o mais é possível. Era isso, um grande abraço, e apareça, Mayrant. P.S. Procure no blog a poetisa Aglaia Veteranyi, mais uma voz impressionante do Leste.


JOAQUIM GAMA DE CARVALHO é poeta. Já esteve por aqui no Contramão (13/06/2006) com seus poemas agudos e cortantes. Publicou Esperança crispada (Feira de Santana: Edições Cordel, 2004). MAYRANT GALLO é o responsável pelo Contramão, e também poeta, sempre que pode.

 


Escrito por M. Gallo às 17:36
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A IRONIA MODERNISTA DE GUILHERME DE ALMEIDA

Signo do caos, de Rogério Sganzerla.

AS CHAVES-DE-OIRO

                              (para onze sonetos que não foram escritos)

Paraíso perdido que eu achei!

Tua essência que é tudo em meu todo que é nada.

Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos.

Alternativamente a noite e o dia.

O que de olhos abertos eu não via.

Sem nunca ter começo, teve fim.

A mentira da vida e a verdade do sonho.

Mas nem sequer ouviste o que eu não disse.

E partiste. E eu fiquei no dia sem paisagem.

Nos meus fecundos arrependimentos.

Cai o pano final das pálpebras fechadas.

 

GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969). Um dos poetas mais agudos e refinados oriundos da Semana de Arte Moderna. Sua ironia modernista atinge aqui um momento crucial: em lugar dos sonetos, as chaves-de-ouro, já que estas são, quase sempre, o objetivo maior dos cultores desta forma fixa. Do volume póstumo Poesia vária (São Paulo: Cultrix, 1976).



Escrito por M. Gallo às 21:28
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MAIS UM POEMA DE AGLAIA VETERANYI

 

Edward Hopper (1882-1967)

 

A FUGA

 

A criança põe a boneca na mala

A mãe põe a criança na mala.

O pai põe a mãe e a casa na mala.

 

O exterior põe o pai com a mala na mala.

E envia tudo de volta.

 

Escondem-se na floresta:

 

1 boneca 1 criança 1 mãe 1 pai 1 casa 2 malas

1 fuga.

 

AGLAIA VETERANYI (1962-2002). Poetisa romeno-suíça, traduzida aqui por Fabiana Macchi. Mais A. Veteranyi em 06/09/2006. E mais sobre o tema da fuga em 16/08/2006, com dois poetas da literatura norte-americana: Corso e Sandburg.



Escrito por M. Gallo às 21:06
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7 POEMAS DE IDEA VILARIÑO

Edu coração de ouro, de Domingos Oliveira.

CADA TARDE

Cada tarde que finda
formosamente morre
e cada um
cada um?
admira a formosura e sabe
sabe?
que é mais uma que morre
mais uma que se acaba
mais uma que se perde
mais uma que é nunca
mais uma
menos uma.


ONTEM À NOITE

Ontem à noite
entre meus sonhos
punhado de cinzas
fiz amor contigo
sereno e delicioso
contigo que há tanto
há tanto estás morto.


PROCURAMOS

Procuramos
a cada noite
com esforço
entre terras densas e asfixiantes
esse leve pássaro de luz
que arde e nos escapa
num gemido.


[POEMA N. 24]

Não sei quem sou.
Meu nome
já não diz nada.
Não sei o que estou fazendo.
Já nada mais tem a ver
com nada.
Tampouco eu
tenho a ver com nada.
Digo eu
para dizer de algum modo.


TUDO É MUITO SIMPLES

Tudo é muito simples muito
mais simples e no entanto
há momentos
em que é demais para mim
em que não entendo
e não sei se devo rir às gargalhadas
ou ficar aqui sem pranto
sem riso
em silêncio
aceitando minha vida
meu trânsito
meu tempo.


CANÇÃO

Quisera morrer
agora
de amor
para que soubesses
como e quanto te queria.
Quisera morrer
quisera
de amor
para que soubesses.


A METÁFORA

Queima-me eu disse
e ordenei queima-me
e levo levarei
- e é para sempre -
essa marca
tua marca
essa metáfora.


IDEA VILARIÑO (1920). Poetisa uruguaia. Poemas extraídos da edição bilíngüe
espanhol-português de Noturnos e outros poemas. Tradução de Sérgio Faraco.



Escrito por M. Gallo às 16:29
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POESIA PARA O ESQUECIMENTO

Foto: Trem Barrinha, Rio de Janeiro, por José Emílio.

 

A SALA DE ESPERA

 

Esse homem esqueceu o próprio nome.

O importante, diz ele, é ter um passado. Isto é fundamental.

Ele bebe chá de uma garrafa térmica vermelha.

A sala de espera está vazia, sempre vazia.

As pessoas não têm tempo para esperar o trem, pensa ele.

 

Quando criança, certa vez ele escreveu uma redação.

Com uma frase.

Minha meta, escreveu, é o asilo de velhos.

 

O sem-nome sorri. Ele olha o grande relógio na parede

e pensa em todos os trens que já perdeu hoje.

Minha profissão, diz ele, é ficar aqui sentado neste banco.

Minha profissão é perder trens.

Minha profissão é esquecer o meu nome.

 

AGLAIA VETERANYI (1962-2002). Poetisa romeno-suíça, traduzida aqui por Fabiana Macchi, que também transpôs para o português seu romance Por que a criança cozinha na polenta.



Escrito por M. Gallo às 20:46
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4 JOVENS POETAS

O último beijo, de G. Muccino.

IMPULSOS

 

Vontade de fazer poesia.

Escrevo e sinto-me livre, única,

movida por um dom supremo,

e menos mortal.

 

Mas, uma enorme dúvida:

Meus versos, realmente, o que são?

 

Penso, às vezes, que não passam

de meros impulsos sem arte.

Mas, se indagares de mim a verdade,

juro não saber a resposta.

 

E mesmo agora, neste momento em que me lês,

continua o mistério.

Talvez eu seja poeta, talvez não,

mas que importa isso?

Estamos vivos, e ler é só um remédio.

 

Lidiane Nunes

 

 

ESTAÇÃO

 

Seca, meu Deus, as lágrimas desses olhos.

Seca também meu frágil coração.

Para que, no próximo inverno,

A chuva não faça brotar as flores

Murchas desse verão.

 

Marcela Soares

 

 

UMA CALCINHA

 

A calcinha estendida no quintal

de uma brancura insípida

é uma calcinha de menina.

 

A calcinha de menina no quintal

era o que restava

da menina,

das formas da menina.

 

Paulo André

 

 

A PONTA

 

Parti como cheguei: em silêncio.

Nunca me senti bem

nas fazendas

nas planícies

nos bosques.

Para não mostrar fragilidade

deixei-me envolver

por promessas

e expectativas frustradas.

Gosto apenas

da pena

da caneta

da película.

Parti, portanto.

Não antes de afinar a ponta do lápis

E escrever nesta noite que resta.

 

Thiago Lins



Escrito por M. Gallo às 21:56
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CONTO

A janela da frente, de Ferzan Ozpetek.

A MÁQUINA DO DR. K.

Desde o início, soube que usaria a máquina. De nada adiantou protelar sua decisão. Isso apenas permitiu a colaboração indireta da esposa, que o rejeitou na cama e pela manhã saiu sem aviso. Sua imaginação fez o resto. Essa gota de oceano o empurrou mais cedo para a máquina. Num fim de tarde nublado, dirigiu-se ao prédio decadente e sondou a existência do obscuro Dr. K., o inventor e primeiro explorador do inconcebível artefato.

A partir de então só pensou na máquina e nas vantagens asseguradas: novo rosto, novo corpo, outra personalidade. E com isso outra vida. Todavia, era preciso não se iludir: a transformação tornava as pessoas apenas outras pessoas, mas em tudo iguais a quaisquer outras. Os hábitos, embora novos, continuavam os mesmos, coerentes com a espécie. A transformação obedecia, por um lado, ao gosto do usuário e, por outro, a uma fórmula já consagrada pela própria vida. Foram estes, em suma, os prós e os contras expostos pelo Dr. K. A última condição era: uma vez transformada, a pessoa não podia voltar atrás e, por conseguinte, só poderia se submeter a uma nova transformação oito anos depois. Tal exigência não era de natureza contratual, mas fisiológica, uma limitação do corpo humano...

Nos dias que se seguiram, organizou-se como se fosse partir em viagem de férias. Despedia-se, era evidente. A esposa se surpreendeu. Ele consertou todos os eletrodomésticos parados havia meses e, sem nunca ter manuseado antes um pincel, retocou as paredes manchadas pelo desespero de ambos. Também poliu os móveis e saiu em busca de novos suportes para as cortinas dos banheiros. Os reparos em sua vida íntima não foram poucos: passou a acordar mais cedo e convidar a esposa para caminhar, e a ir com ela às compras, quase interessado ou pelo menos em silêncio, a observar sua destreza em escolher e avaliar os produtos, respeitando sua natureza retraída e cautelosa. Fatos assim, se recorrentes, dispensariam a máquina...

No trabalho, livrou-se diligentemente de todas as pendências. Desengavetou antigos projetos e, atualizando-os, deu-lhes nova forma, redação mais precisa, livre de ambigüidades. Em duas semanas, o chefe o congratulou pelo entusiasmo dos últimos dias. Naquela tarde, saíram e se conheceram melhor. Quase se tornaram amigos. E marcaram uma pescaria, à qual levariam, ele a esposa, e o chefe a jovem namorada. Estavam bêbados e, por isso mesmo, mais íntimos, sem reservas. Chegou tarde em casa, mas ainda assim a esposa o esperava, afável e excitada. Prolongaram-se na cama, rindo e conversando. Depois lancharam e voltaram a se amar. O sol subia no horizonte quando afinal adormeceram, esquecidos dos sombrios temores dos últimos meses.

O segundo encontro com o Dr. K. aconteceu, apesar da felicidade que agora o contemplava. Com a esposa, era como se tivessem voltado aos primeiros dias. Transformada, ela por muito pouco não retomara aquela fisionomia inicial, que lhe tirava o sono. Mesmo assim, não mudou de idéia. Seguia por trilhos sem volta. O Dr. K. o obrigou a preencher uma enorme papelada e em seguida, tendo chamado sua jovem assistente, o introduziu na sala onde estava a máquina, uma alta cápsula metálica, de superfície uniformemente lisa, com duas imperceptíveis portas, uma de cada lado. Afora isso, nenhum botão, qualquer mecanismo. Aparentemente, a operação se concretizava mediante controle remoto. De fato, nas mãos tanto da assistente quanto do doutor havia um bastão da mesma cor azul-metálica da cápsula e repleto de botões. A um gesto do doutor, uma das portas se abriu, para cima. A assistente o pegou pelo braço e conduziu até o interior da cápsula. No exíguo compartimento não havia nada, exceto o ar sufocante e asséptico. Enquanto usuário, ele teria que ficar de pé ali, entre quatro paredes, e esperar... Então adormeceria e, como num sonho, antes de cair, despertaria do outro lado, outro. O processo não consumia mais que dois minutos, garantiu a moça, com uma voz de veludo e um sorriso provocante. Quando fez menção de deixá-lo, ele protestou: "Não".

"Não?", ela disse, surpresa.

Não estava preparado.

"Ninguém jamais estará", filosofou o Dr. K.

Abandonou o estreito compartimento. Durante o tempo que esteve ali suas mãos passearam pela lisa superfície metálica. Assim vira, certa vez, num filme antigo, um homem tocar os livros na estante. Espécie de despedida ou de reconhecimento de um universo ou instante já perdidos ou por esquecer, brevemente... O súbito roçar da morte, talvez, ou o despertar para um incerto mundo de sensações. A verdade era que ali, naquela espécie de ataúde, ele iria desaparecer em breve, e para sempre. Seu último ato nesta vida.

"Eu sei", disse, com um considerável atraso e no tom vazio e hesitante de alguém que a vida inteira foi um tímido, um inadaptado. "Amanhã, sem falta."

Naquela tarde foi visitar a mãe no asilo. E talvez se despedir. Não foi difícil: a velha, diante da tevê, se assemelhava a um peixe impassível dentro do aquário. Emanava indiferença e fleuma. Não era o filho que estava ali, mas um homem qualquer, estranho. O lábio inferior, caído, acentuava-lhe a expressão de desdém e alheamento. Comiserado, ele puxou uma cadeira e se interpôs entre a mãe e a tevê. Para seu assombro, a mulher continuou a olhá-lo como se ele fosse uma extensão do aparelho. E mesmo quando ele o desligou ela não esboçou nenhuma reação. A definitiva ausência de vida útil a suprimira de si mesma. Restava-lhe agora fundir-se à noite... Esta certeza o esmagou.

A esposa o procurou na cama, mas, pela primeira vez desde que se conheciam, ele a recusou, com elegância e uma contenção sexual incomum nos homens. Sem rancor, ela se virou e adormeceu, em segundos, dissolvida na exaustão. De seu lado, ele já ia sonhando, sonhando e sendo absorvido. O Dr. K. e sua assistente os receberam sem ânimo, os gestos bruscos e automáticos. Quando afinal a moça lhe perguntou, friamente, quem desejava ser, ele ficou prostrado, sem palavras. Não concebia a vida como uma escolha senão obscura, indefinida, do acaso...

"Vem", a moça disse, puxando-o delicadamente. "Não importa. É sempre assim, com todos..."

MAYRANT GALLO. Publicado hoje, 03/09/2006, no Correio da Bahia, com uma "hipercorreção" do inteligente revisor do jornal, que estragou o conto. Esta é a versão correta.



Escrito por M. Gallo às 10:04
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AS RAPIDINHAS DE MAURO MOTA

O apito da locomotiva veloz subia como um longo punhal incandescente e furava o teto da noite rural.

Substituímos os sapatos. Jamais os passos que demos com eles.

Não espane a poeira de casa. Quem sabe se ela não é a visita de alguém que já amamos?

O geólogo largou os instrumentos de prospecção, perplexo: ouvira a terna canção subterrânea da menina morta.

Amou-a de longe para tê-la perto a vida inteira.

Amaram-se tanto que se reconheceram no ossuário.

Ninguém faz anos. Os anos, sim, desfazem a gente.

Antes de Shakespeare, o sapo-boi levantava a questão do foi-não-foi.

Depois da tempestade vêm a bonança e os corpos das vítimas.

Uma fina marca de pé esteticamente feminino sobrevivia no chinelo do lixo.

Dormia tão sereno que a morte entrou no quarto e limitou-se a deixá-lo como estava.

É um escafandrista de longo curso: recolheu no mar o cheiro e os rastros daquela nadadora do verão passado.

Entre o martelo e o prego, há também a cabeça do nosso dedo.

Diga menos para dizer mais.

MAURO MOTA (1911-1984). Poeta pernambucano. Autor de As elegias (1952), Os epitáfios (1959) e Itinerário (1975), com o qual ganhou o prêmio Jabuti. As ironias poéticas acima foram extraídas de Alfinetes e bombons (Rio de Janeiro: José Olympio, 1984), seu célebre livro de aforismos.



Escrito por M. Gallo às 21:29
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