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CASSIANO RICARDO: UM POETA ESQUECIDO
Rua Barata Ribeiro, Rio, nos anos 20.
TESTAMENTO
Deixo os meus olhos ao cego
que mora nesta rua.
Deixo a minha esperança
ao primeiro suicida.
Deixo à polícia o meu rastro,
a Deus o meu último eco.
Deixo meu fogo-fátuo
ao mais triste viandante
que se perder sem lanterna
numa noite de chuva.
Deixo o meu suor ao fisco
que me cobriu de impostos;
e a tíbia da perna esquerda
a um tocador de flauta
para, com o seu chilreio,
encantar a mulher e a cobra.
Às coisas belas do mundo
deixo o olhar cerúleo e brando
com que, nas fotografias,
as estarei, sempre, olhando...
Aos noturnos assistentes
de última hora S aos que ficam,
o sorriso interior e sábio
que nunca me veio ao lábio.
CASSIANO RICARDO (1895-1974). Poeta brasileiro moderno, autor de vários livros entre os quais Dentro da noite (1915), O sangue das horas (1940) e O arranha-céu de vidro (1954). Quase esquecido atualmente, é, no entanto, um dos nossos melhores poetas: forte, lírico e original. O poema acima foi retirado do volume A face perdida (1950).
Escrito por M. Gallo às 10:45
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UM POEMA INÉDITO DE ÂNGELA VILMA

MEUS SAPATOS BRANCOS
Agora, que teu rosto some na neblina, Só meus sapatos de menina ainda te esperam.
Te esperam sozinhos, meus sapatos brancos, Guardados no tempo, inúteis, vivendo.
Tão brancos, galopando ao vento, Com a poeira dos anos prendendo-os.
Tão sozinhos, depois daquelas festas Em que tu à minha espera serenava o mundo.
Agora que teu rosto desmente tudo Só meus sapatos de menina ainda te buscam.
Ângela Vilma. Poetisa nascida em Andaraí, BA, mesma cidade do escritor Herberto Sales. Alguns de seus poemas podem ser lidos na antologia Concerto lírico a quinze vozes (Aboio Livre, 2004) e na coletânea Tanta poesia (EPP, 2006), recém-publicada.
A poetisa, por seu sobrinho Vinícius, de 9 anos.
Escrito por M. Gallo às 12:15
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UM CONTO SOBRE PESSOAS E LIVROS, AUTORES E LEITORES

A NOITE LIVRESCA
Há quem assevere que um homem se transforma nos livros que leu e naturalmente os perpetua em suas conversas e seus atos. Não o nego, mas, assombrado, pergunto: e se um determinado homem acredita ter lido todos os livros, ou pelo menos os melhores e mais importantes livros? O que será ele? A princípio, um bom exemplo para os outros homens. Contudo, constitui igualmente uma vítima de uma absurda condenação, o seio de um caos. Eis o estado em que se encontrava, anos atrás, o Sr. A. Berto. Não foi por acaso que a mulher o traiu. Quando não estava viajando, estava lendo, e "ticando" (como ele dizia), ao término, mais um título de sua extensa lista, e isso, em certo sentido, é a mesma coisa que viajar, uma viagem outra, sempre diferente e nova.
Um belo dia, no fim da tarde, ele me arrastou ao seu escritório para conhecer sua biblioteca. Uma estante enorme, de parede inteira, do chão ao teto, e fronteira a uma cama de solteiro, eternamente desarrumada. Uma alta e esguia escada de madeira a escalava com fúria. O método de absorção e acúmulo de obras adotado pelo Sr. A. Berto foi o de adquirir, no mínimo, a obra-prima e mais duas outras relevantes de cada autor representativo.
Orgulhoso e trepado no último degrau da escada, de onde me fitava com ingênua expectativa, ele solicitou que eu mencionasse três títulos, livremente, conforme meu gosto pessoal, pois ele certamente os possuía. Tolo. Fui mais longe e exótico, fui eu mesmo: Bakakai, O ovo de ouro, A lei, A espingarda de caça. Nada, ele não tinha nenhum dos volumes. Pediu outros, e os forneci, sorrindo: A guerra das salamandras, O duplo símbolo, Senhora Caliban, Um esporte e um passatempo. Mais uma vez não possuía nenhum. De novo entregou-se ao jogo e perdeu. Na quarta vez, senti que se irritava, que se tornava as Obras Completas de Balzac num só volume...
Li livros que ele nem imaginaria existir. Livros sonhados, talvez, em vez de escritos. E para ser contemplados muito mais que lidos. Livros apreciados pela forma, jamais nova, mas que ainda assim variam, e cujo assunto, o mesmo, de todo modo nos esmurra. Livros dos quais me lembro a cada novo ciclo vencido. São esses "os" livros, os originais, os nossos, os seminais e só admiráveis para certos homens, que sabem o que fazer com eles, que uso e rumo lhes destinar. Não necessariamente os clássicos, que o tempo e o poder suportam, nem ousadamente os esquecidos ou injustiçados. Livros não são pessoas, são memórias sonhadas, e estas não se classificam. Não são negras nem brancas, nem tampouco autênticas ou pobres. São e se bastam. Como o espaço.
O Sr. A. Berto me olhava imóvel de cima da escada, sem saber se descia ou sumia. Por fim disse:
"Meu amigo, esses livros ‘existem’ mesmo?"
Fui enigmático:
"Acho que não".
"Então?"
Tentei lhe explicar que assim os classificava porque eram livros pouco lidos. Visões de mundo especiais e ainda não absorvidas, conseqüentemente ignoradas, vítimas da ausência de modelos de comparação, sem os quais nem leitores nem críticos se arriscam a avançar. E lhe falei de um aspecto que havia muito tempo orientava minhas leituras e me oferecia, de um único sorvo, tópicos de reflexão e absorvente prazer: o argumento de exceção. Atônito, ele desceu da escada e me convidou a sentar. Também se serviu de uma cadeira, por trás de sua pesada escrivaninha, e cético me desafiou a fundamentar minha oferta. Era domingo, véspera do feriado de São João, e já lamentávamos o fato de que na terça-feira o hotel voltaria ao seu fluxo normal de pés apressados e conversa frívola. Pediu que lhe explicasse melhor a expressão. Comecei por mencionar Faulkner e seu Palmeiras selvagens, que se inicia com um médico indo buscar outro médico para atender sua esposa. Um leitor atento logo se pergunta: "Dois personagens, e ambos médicos?" Todo o relato, daí por diante, se constrói no sentido de justificar esta cena de abertura. A exceção, neste caso, recai no estabelecimento dos personagens. Uma incidência pouco comum e, portanto, capaz de promover um grande rebuliço na experiência do leitor.
Depois, referi um outro livro, menos célebre que o do autor norte-americano, mas não menos surpreendente: Divórcio em Buda, do húngaro Sándor Márai. O jovem juiz Kristóf Kömives analisa em seu gabinete a alta pilha de processos de divórcio e, de repente, numa das pastas, descobre que um velho amigo, o médico Imre Greiner, casou-se com uma de suas ex-namoradas, Anna Fazekas. Sua surpresa é enorme, pois lembra da moça com saudade, e chega ao auge à noite, quando, de volta de uma festa a que compareceu com a esposa, descobre que um visitante o espera; e é o camarada de sua juventude, o qual veio confessar-lhe que, embora a audiência de divórcio estivesse marcada para a manhã seguinte, perferiu matar a esposa, a ex-namorada do juiz. E a este faz a decisiva pergunta: "Você sonhou com Anna esses anos?"
E olhei mais detidamente para o meu amigo, com o propósito de ver em seus olhos a beleza do argumento que acabara de lhe resumir. Mas não havia nada, luz alguma. A força daquela trama lhe passara despercebida. Nem a epígrafe do romance foi capaz de despertá-lo de sua letargia bovina, alimentada talvez pelos incuráveis Galdós e Alencar: "O que se constrói durante o dia, à noite desmorona". Tampouco a paráfrase que o narrador comete, na penúltima página: "É necessário viver com humildade, porque entre o dormir e o acordar somos guiados por uma mão desconhecida, uma vontade estranha".
Diante daquele estupor de silêncio, minha disposição professoral chegou ao seu limite, e então, sem mais palavras, me despedi de meu senhorio e tomei a direção dos meus aposentos. Não se ensina ninguém a sentir. Muito menos a sentir por si mesmo, sem placas, setas, indicações precisas, enfadonhas aferições de cunho teórico ou moral. E o melhor livro é o descoberto, violado em sua mácula, como se pela primeira vez e única se abrisse para uma suspeitosa cumplicidade.
Ao deitar-me, pensei por fim que era hora de deixar o hotel.
Mayrant Gallo. Correio da Bahia, 06/08/2006.
Escrito por M. Gallo às 10:50
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POEMA ESCRITO HOJE DE MANHÃ

CÉUS NOTURNOS
Enquanto fui só, fui eu mesma
A alimentar-me de estrelas.
Uma garota sem pai
Com uma mãe a lutar
Diariamente
Para não parecer frágil e vulnerável.
Gostava de poesia
De silêncios
E de me deixar envolver pelos céus noturnos.
Uma noite vi uma luz
Como quem engendra um mito
E passei a me achar fora do mundo
Fora de mim
E a pensar em suicídios
Especialmente em suicídios
A melhor maneira de se continuar sozinho.
Mayrant Gallo. Para um volume de poemas inéditos provisoriamente intitulado Os prazeres e os crimes. Imagem: foto do céu hoje, 08/08/2006, data do poema.
Escrito por M. Gallo às 21:19
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O AMOR NÃO É TUDO
Ponto final, de Woody Allen.
SONETO
O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.
O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos dêem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.
Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz
de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.
Edna St. Vincent Millay (1892-1950). Célebre poetisa norte-americana cuja produção se caracteriza pelo arrojo técnico e pelo realismo dos temas. Second april (1921) é um dos seus melhores livros. Este lindo soneto foi traduzido para o português pelo poeta e cronista Paulo Mendes Campos.
Escrito por M. Gallo às 18:42
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UM MINICONTO ACHADO EM PAPÉIS VELHOS

UM BÊBADO
Vi um bêbado andando em torno de uma árvore. Parei e perguntei por que fazia aquilo, por que dava voltas em torno da árvore. Queria ir para casa, disse, e se andasse reto daria voltas e voltas... Depois de um silêncio, ou um afastamento decisivo, em que seus olhos por pouco não se fecharam, concluiu:
— E a não ir prefiro não ir.
Mayrant Gallo. De um livro de contos inéditos, cujo título provisório é O fim das coisas. Este conto foi escrito em 2001 e ficou perdido todo esse tempo, talvez porque eu não acreditasse que ele tivesse alguma qualidade. Ao achá-lo, mudei de idéia e o reabilitei.
Escrito por M. Gallo às 19:55
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OUTROS BARATOS NA FLIP
A revista Outros Baratos sai do forno em poucos dias. Os editores já estão fazendo as malas para Paraty e querem incluir na bagagem novos contos e ensaios, já de olho na Primavera dos Livros, quando deve sair a segunda edição. Uma comunidade no Orkut acaba de ser criada para facilitar os trabalhos, basta procurar pelo título da publicação.
Comparecem a esta estréia: Ana Beatriz Guerra, Ana Olinto de Carvalho, André Garcia, Crib Tanaka, Delfin, Fernando Gerheim, Felipe Guga, Mara Coradello, Marcello Rebecchi, Marcelo Benvenutti, Marcelo Espindola Bacha, Rodrigo Araújo, Marcelo Lachter, Mariel Reis, Mauricio Porão, Mayrant Gallo, Odyr, Paloma Vidal, Paula Jardim, Pedro de Freitas Branco, Pedro S. Câmara, Timba, Wladimir Cazé.
Ainda: conto inédito do português José Couto Nogueira, jamais publicado no Brasil, apesar de seus dois romances elogiados e de ter vivido em São Paulo durante os anos 80.
A edição é de Maurício e Dani Gouveia, e a direção de arte ficou a cargo do Lobo, da revista Mosh.
Escrito por M. Gallo às 09:04
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DEUS E RAINER MARIA RILKE
Que vais fazer, deus, se eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se eu me quebrar?)
Eu sou tua água (e se eu me estagnar?)
Eu sou teu hábito e sou teu ofício;
sem mim, tu perderias a razão de ser...
Depois de mim, não terás casa em que
palavras próximas e tépidas te acolham;
vai cair de teus fatigados pés
a sandália macia que sou eu.
Teu largo manto deixar-se-á cair.
Teu olhar, que com minhas faces eu
aqueço, como se com almofadas,
virá de longe a procurar por mim
— e ao pôr-do-sol se porá
no colo de estranhas rochas.
Que vais fazer, deus? Estou preocupado.
Rainer Maria Rilke (1875-1926). In: O livro de horas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. 2. edição. Tradução de Geir Campos.
Escrito por M. Gallo às 21:31
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