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CONTO
Lola, de R. W. Fassbinder.
MARIDO ADICIONAL
Naquela noite, o Sr. A. Berto, o proprietário do hotel, confiou-me friamente sua história. A maioria dos hóspedes deixara a cidade rumo às pequenas cidades do interior, onde os festejos do São João ganham relevo e explodem mãos, pernas, ventres, cabeças... A filha decidira passar o feriado no Centro, no apartamento da madrinha, que é professora. Fez o caminho inverso, refugiando-se na crônica fumaça urbana. Ficamos sozinhos, eu, ele, os três empregados e meia-dúzia de turistas estrangeiros, que mal sabiam dizer "bom-dia" ou "obrigado". E como nem eu, nem o Sr. A. Berto, nem os empregados sabíamos falar uma palavra sequer em outra língua, qualquer conversa com eles se tornou impossível ou por demais fatigante.
Findo o jantar, os estrangeiros saíram, e os empregados, eufóricos, se encerraram na sala de tevê, agarrados à novela das nove. O Sr. A. Berto abriu uma garrafa de vinho e retirou do bolso um baralho. Enquanto me corrompia num jogo que ele próprio inventara, e que se pode jogar a sós, como a paciência, ou a dois, de preferência a três, a forma considerada ideal, narrou-me a parte mais trágica de sua vida.
Ainda não lhe nascera a filha, e o hotel tinha apenas começado a funcionar. Naquele tempo, ele era representante de um grande laboratório farmacêutico e percorria, além da capital, duas vezes por mês pelo menos, várias cidades do interior, sobretudo Vitória da Conquista, que, segundo sua fina ironia, possui mais clínicas por esquinas que indivíduos por doenças. Ausentava-se por três dias, às vezes quatro, raramente uma semana. A abertura do hotel, concretizada dois anos antes com as economias provindas de duas indenizações ganhas na justiça contra dois antigos patrões, surgira da idéia de continuar em atividade, trabalhando de fato, após a aposentadoria, que ameaçadoramente se aproximava, e de oferecer à esposa, Denise, uma atividade digna dentro de sua área de atuação. Tinham se conhecido na faculdade de hotelaria e turismo, que ela levara adiante, e que ele, sem motivação para qualquer tipo de estudo que não se relacionasse à língua, à palavra, gradativamente abandonara. À frente do hotel, que gerenciava com mão de ferro, e mais nova que ele treze anos, a esposa era, durante o dia, uma mulher a um só tempo simpática e severa, quase impenetrável, e à noite, uma fêmea silenciosa e desgarrada, que, dissimulada nas sombras, olhava a todos os homens com uma expressão ambígua de subserviência e sedução, disposta igualmente, ali mesmo, no hotel, a curvar-se e a fazer valer sua autoridade...
A pretensão do hotel era oferecer bons serviços a baixos preços e com isso seduzir a lucrativa fatia de jovens que acorriam a Salvador no verão e por ocasião dos eventos musicais, promovidos pelas associações da indústria e do comércio. Composto de espontâneos e despretensiosos aventureiros, tal público não exigia muito, naquela época, anos 80, a não ser cama, teto, banheiro e a indispensável liberdade de ir e vir a qualquer hora. E de beber, fumar.
Não foi difícil perceber, após tantos vaivéns iguais, que, quando ele retornava ao hotel, um determinado hóspede ficava apenas mais um dia ou dois, "para não despertar suspeitas, é óbvio", e afinal ia embora. Com alguns meses, o Sr. A. Berto memorizou a fisionomia do sujeito e se convenceu, de uma vez por todas, de que a chegada de um coincidia com a partida do outro. Sua suspeita se prolongou por quase um ano, e durante todo esse tempo ele nada fez: suportou o rival, sua presença, seu cheiro, seus íntimos objetos esquecidos. Até que um dia ele chegou, e o homem não partiu, ficou, excedente, suplementar, disponível e à mão, pronto a substituí-lo a qualquer momento. Sim, a mulher o traíra, convenceu-se, e ainda o trairia, caso se ausentasse ou falhasse. A presença do outro tinha esse propósito, de oportunismo e eficiência, e resgatava, a cada ausência ou omissão de sua parte, o corriqueiro sistema da simples substituição do marido original pelo reserva, sempre a postos. Se o Sr. A. Berto não ocupava devidamente seu lado da cama ao lado da esposa todo o tempo, alguém o tinha que render em suas folgas, naturalmente, de modo que a ela jamais faltassem corpo, calor. Tal procedimento não é novo e vogou na Veneza do século XIX. O poeta Lord Byron fez dele o assunto de um longo poema narrativo, Beppo, na verdade um conto em versos. O tom de mofa empregado pelo lorde inglês é sutil e nos quatro últimos versos da XXXVI estrofe se transforma em suave comentário de margem, regado a torpor de cerveja e secundado pelo humor resignado e fácil de quem se habituou a dividir, no bar e na vida, o mesmo pires e a partilhar o mesmo garfo: "O outro, o tal ‘Cavalier Servente’,/ Um posto tido como honroso,/ Espécie de marido adicional/ Que vem suplementar o original". Ciente do gosto do Sr. A. Berto pelas coisas literárias, mencionei-lhe o Beppo.
"Conheço, e muito", ele comentou, sem a doentia falsa modéstia dos vaidosos; em seguida se levantou e desapareceu no escuro e amplo corredor que conduz aos quartos. Um minuto depois estava de volta, com um volume na mão, a mesma edição que eu lera, bilíngüe. "Sem Beppo, minha compreensão da situação teria sido bem mais lenta", confessou ele, o rosto crispado de humildade.
Folheei a esmo o livro.
"Veja a marcação a lápis, bem discreta, quase imperceptível, na estrofe 36, página 65...", rogou ele, voltando a se entreter com as cartas, que baralhava com a perícia de um profissional.
Forjei interesse e, servo de uma curiosidade volátil, busquei a página citada. Localizando-a e vendo o fino e discreto traço vertical a que ele se referia e que abarcava, na margem, toda a extensão da estrofe, observei:
"É verdade".
"Mas não fui eu quem a fez. Foi ela, algum dia. E talvez tenha sido o livro a lhe fornecer a idéia...", explicou, sem emoção, o rosto impassível e à espera, como o fundo de um recipiente vazio.
Foi só então que me ocorreu lhe perguntar como sua esposa havia morrido. Ele baralhou com mais ímpeto as cartas e deixou que minha pergunta pouco a pouco sucumbisse, sem resposta, ao ruflar monótono de sua mãos. Era um som ao mesmo tempo fino e seco, cheio e abafado, como o de intrépidos pássaros em luta num viveiro ou o de árvores sendo mutiladas por cegas lâminas. O estranho jogo que inventara nos ocupou o resto da noite. Ao fim da última partida, todavia, ele disse:
"Não a matei".
E havia em seus olhos um evidente brilho de arrependimento.
Mayrant Gallo. Correio da Bahia, 30/07/2006.
Escrito por M. Gallo às 10:29
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O RISCO DE SE DEIXAR SEDUZIR
Beatrice Dalle*
A GAROTA DO ANDAR DE CIMA
Sua calça jeans estalava
Quando ela se sentava.
Resultado da dilatação
De suas formas
No espaço curvo.
Sua voz também era um fenômeno,
Bem como seus olhos.
Até seus pés impressionavam,
Embora fossem a última glória
Dos fracos.
Um dia dois caras brigaram
Por causa de suas axilas...
Eles estão mortos.
Ela viva.
Mayrant Gallo. In: Recordações de andar exausto. Salvador: Aboio Livre, 2005. p. 95.
*Estrela do cultuado filme francês Betty Blue, dirigido por Jean-Jacques Beineix e baseado no romance Betty Blue, 37,2 graus de manhã, de Philippe Djian (São Paulo: Scritta, 1991).
Escrito por M. Gallo às 22:31
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POESIA NUNCA É DEMAIS
Cartaz de Kanal, de Andrzej Wajda.
GANHE um exemplar do livro Tanta poesia, coletânea com os jovens poetas Állex Leilla, Ângela Vilma, Josin Fernandes, Marcus Vinícius Rodrigues, Rafael Dumont, Sandro Ornellas e Thiago Martins Prado. Responda, via comentário, às questões abaixo. O critério de desempate será o horário de envio das respostas. Os nomes dos três vencedores serão divulgados segunda-feira, 31/07/2006.
1) Título do mais festejado livro de poemas do poeta pernambucano Mauro Mota, com o qual ele venceu o Prêmio Olavo Bilac, da ABL.
2) Que livro da Bíblia foi traduzido em versos pelo poeta José Elói Ottoni?
3) Quem é o autor dos seguintes versos: "Meu amor me ensinou a ser simples/ Como um largo de igreja"?
4) O grupo Secos & Molhados musicou dois poemas do poeta moderno Cassiano Ricardo. Quais?
5) Nome de célebre atriz americana, favorita de Alfred Hitchcock, que aparece, numa pontinha, num número musical do filme Museu de cera, versão de 1953.
Escrito por M. Gallo às 18:18
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OS FILHOS DE PETER MCGINN
"Meu nome é Karen McGinn-Hagen. Sou a filha mais nova dos quatro filhos de Peter McGinn. Meu pai tinha somente trinta e oito anos quando nos foi tirado, era um homem de negócios, esforçado, jovem, bonito, com estilo e cheio de espírito, que meus irmãos e eu estávamos começando a conhecer e apreciar. Eu tinha só seis anos quando Frank Koehler assassinou nosso pai. Meu irmão Kevin tinha sete. Meu irmão Peter, onze. Minha irmã Maureen, catorze. Nossa jovem mãe foi obrigada a nos criar sem a ajuda de seu companheiro. Esse tempo todo, até hoje, nós sentimos muito sua falta.
"Durante esses anos gastamos os retratos e esgotamos as histórias e os contadores de histórias que descreviam nosso belo e amoroso pai, quando ele passava dias e verões na praia em Fire Island com os filhos. Lembramo-nos de jogos de beisebol à tarde e jantares em casa, quando tentava ao máximo manter os quatro filhos em volta da mesa, na cozinha. Sentimos sua falta por tudo o que foi e tudo o que estava destinado a ser. Sentimos sua ausência como crianças que procuravam seus conselhos. Sentimos sua ausência como adultos que necessitam de seus conselhos.
"Hoje Peter McGinn seria o avô de seis lindos netos. Perdeu isso tudo. Perdeu os primeiros dias e os últimos dias de aula, bicicletas sem rodinhas, carteiras de motorista, casamentos, entrar com as filhas na igreja. Perdeu jogos de futebol, bolsas para a faculdade e formaturas. Perdeu uma vida de Natais e Dias das Bruxas e Dias de Ação de Graças. Perdeu a meia-idade. Perdeu a aposentadoria. Perdeu a oportunidade de viver sua vida. Perdeu a chance de envelhecer.
"Hoje estamos aqui, os filhos crescidos que esperaram toda sua vida para ver o assassino de nosso pai ser punido. Frank Koehler merece ser punido por todos os abraços, todas as manhãs, por todas as vezes que o sol brilhou em seu rosto, por todas as vezes que comemorou, por todas as vezes que riu, por todas as vezes que chorou, por todos os minutos, os dias, os anos em que ele viveu, e meu pai não.
"Nós, os filhos de Peter McGinn, perdemos nosso pai quando um covarde acabou com a vida dele. É a coragem e a força de nosso pai que nos trazem aqui hoje para ver Frank Koehler ser castigado."
(Pronunciamento de Karen McGinn-Hagen, a caçula dos filhos de Peter McGinn, diante da Corte Suprema, quando do julgamento do assassino de seu pai, em 26/05/1999, em Nova Iorque, EUA. O crime foi cometido em 18/02/1970, e por 27 anos Frank Koehler, o assassino, esteve foragido. Fonte: GOUREVITCH, Philip. Um caso arquivado. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 118-119. Tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza.)
Escrito por M. Gallo às 19:36
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CORPO E ALMA: 120 ANOS DE MANUEL BANDEIRA
Os sonhadores, de B. Bertolucci.
"Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."
Manuel Bandeira (1886-1968)
Escrito por M. Gallo às 19:01
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