 |
|
|

"O que censuro aos jornais é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais."
Autor: Marcel Proust (1871-1922)
Buscar na Web "Marcel Proust (1871-1922)"
Quando: início do século XX, período em que o autor publicou sua obra-prima em sete volumes Em busca do tempo perdido (1913-1927), que retrata implacavelmente a França e sua sociedade endinheirada, com seus hábitos, caprichos e vícios.
Categoria: Citação
Escrito por M. Gallo às 11:00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
MAIS GATOS: UM POEMA-HOMENAGEM

Dois gatos, Aldemir Martins, 1996, acrílico sobre tela, 80 x 100 cm.
COTIDIANOS CRIMES
Vive um gato à míngua
Morre numa clínica
E a vida continua.
Enterra-se este gato na tarde
Enterra-se
E a vida – nua.
Uma garota e sua mala de viagem
Uma outra imóvel diante de uma loja
Uma nova – que não conheço –
E que volta da escola
E encanta os olhares
E entesa as calças.
A vida mesma.
A vida mesma
Mesmo que um gato morra
Mesmo que morra uma garota.
Mayrant Gallo. De um volume inédito de poemas, intitulado Os prazeres e os crimes.

Para o gato Dourado, que morreu no dia do jogo Brasil versus Gana.
Escrito por M. Gallo às 11:33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
OS DOZE PIPOQUEIROS
Dida, protegendo o rosto.
Itália e França decidem hoje a Copa do Mundo de Futebol 2006. Um prêmio à perseverança e ao esforço de dois países que, durante quatro anos, sofreram com chistes e chacotas, especialmente por parte de nós, brasileiros, que jamais digerimos muito bem nossas derrotas em 1982 e 1998, o que demonstra que, mesmo às avessas, continuamos prisioneiros do "complexo de vira-lata": ou nos achamos uns trastes ou os melhores; nunca normais, humanos, passíveis naturalmente de êxitos e fracassos. Portanto, vou esquecer a decisão de hoje e me deter, complacentemente, em nossos 12 pipoqueiros.
1) Dida, o único baiano na Seleção. Contrariando a todas as expectativas, o protagonista de patacoadas já históricas, até que se saiu bem nesta Copa, exceto em duas oportunidades: numa, em saída atabalhoada, quase deu o gol para o adversário e noutra, em lugar da bola, segurou uma cabeça... Não volta a disputar uma Copa, a não ser como treinador-mestre de goleiros, em patacoadas...
2) Cafu, Deus meu, Cafu! Chegou à Alemanha em busca de recordes... E conseguiu: foi o único jogador da história das Copas que, mesmo em campo, parecia ter ficado no vestiário. Dizem que por duas ou três vezes Parreira pediu que alguém fosse chamar Cafu lá embaixo, esquecido de que o decrépito lateral já estava ali, à beira do gramado, "correndo"... Cafu, no entanto, me proporcionou uma enorme surpresa: descobri nesta Copa que ele sabe ler.
3) Lúcio. Embora tenha sido, talvez, o melhor beque-central do Mundial, pecou por um detalhe: com toda a sua garra (que anos atrás cheguei a achar exagerada) foi incapaz de gritar em campo durante o jogo contra a França. Aceitou facilmente o fato de que o Brasil mais parecia um time de onze parturientes. Talvez, se fosse o capitão... Mesmo assim protagonizou uma das mais bonitas imagens da Alemanha 2006: a comemoração solitária no meio-de-campo, no segundo gol do Brasil contra Gana. E quem foi o único a abraçá-lo ali? Seu companheiro de zaga, Juan, numa evidência, talvez inquestionável, do quanto o time estava desarmônico e dividido entre estrelas e carregadores de piano; aliás, como o nosso país, desde sempre...
4) Juan teve o mérito de quase não falhar, mas pecou por seu excesso de fleuma. Como Lúcio, calou-se diante da constelação à sua volta e, com isso, prejudicou todo o time. Nem pouco Passarela, nem muito Luís Pereira, mesmo porque ele não é nenhum Cannavaro.
5) Roberto Carlos. O boçal do grupo. E até o fim, pois foi o único a dizer publicamente, depois do vexame, que não jogará mais pelo Brasil. Houve tempo em que era um orgulho vestir a Camisa Amarela, tanto nas vitórias quanto nas derrotas. Roberto Carlos se esquece de que joga na Seleção Brasileira mais pela escassez de talentos na posição que por seus méritos pessoais. Num país que já teve Nilton Santos, Marinho Chagas, Júnior e Branco, o "boçal" não passa de um arremedo.
6) Por mim, o sexto pipoqueiro seria o Emerson (de notórias botinadas), mas coube a Gilberto Silva a honra de isentar o companheiro. E aí, de repente, me pergunto: qual dos dois entrou em campo mesmo naquela tarde à francesa? Será que estou ficando cego, velho ou o quê? Vi o tempo todo a posição vazia, como um enigma incompreensível.
7) Juninho Pernambucano, um cavalheiro, sentiu-se constrangido em jogar bem contra o país que tão entusiasticamente o acolheu e adora. Perdoável. Cabia a Parreira perceber que, se havia um jogo em que Juninho não deveria entrar, era aquele, contra a França. Para isso servem os comandantes. Não apenas para passar a mão nas cabeças.
8) Kaká. Um gagá em campo. Parecia sofrer de reumatismo, alzheimer, hipertensão, bico de papagaio, paramnésia, síndrome do pânico, tremedeira, tudo ao mesmo tempo. Em alguns momentos chegou a confundir o Brasil com o Milan e este com o Flamengo, o Vitória, o Sport Recife. Por pouco, ao fim, não foi parar numa clínica de repouso.
9) Zé Roberto. O gol contra Gana lhe subiu à cabeça. Seus 15 minutos de fama fizeram com que pensasse que era Ronaldinho Gaúcho e, assim, por um jogo inteiro, ele foi literalmente Ronaldinho Gaúcho, que chegou à Alemanha e foi embora, como se nem tivesse saído da Espanha.
10) Ronaldinho Gaúcho. As atuações do "melhor do mundo" me lembraram Baudelaire, que dizia que até mesmo quando erram os grandes são grandes. Ronaldinho Gaúcho foi o melhor do mundo até quando o legitimaram o melhor do mundo. Então fez como o coelho da fábula com a tartaruga, que, uma vez que vai ganhar mesmo a corrida, nem precisa correr. E perde.
11) Ronaldinho Fenômeno. O lençol que levou de Zidane resume seu estado de ânimo em campo. Apático durante toda a Copa, fez os gols necessários para ficar na história, ao menos por um tempo... É, provavelmente, o emblema desta seleção, mais interessada em cintilações pessoais que em conquistas coletivas. Uma pobreza de espírito!
12) Parreira. O típico técnico sem pulso. Diferentemente dos outros comandantes, que usam todos os seus jogadores (vide a Itália, que, dos 11 gols até aqui marcados, só dois foram de um mesmo jogador), Parreira não pensa em mudar o time senão quando os gatos já lamberam todo o leite. E olha que o time reserva do Brasil é melhor que metade das seleções desta Copa; se não, vejamos: Júlio César, Cicinho, Luisão, Cris e Gilberto; Gilberto Silva, Mineiro, Juninho e Ricardinho; Fred e Robinho. Timaço.
E já que Zagallo gosta tanto do número 13 e acha que tão ilustre numeral pode influir nos resultados (Ó, credulidade insensata! Ou será insensatez crédula?), e aproveitando que os três mosqueteiros eram quatro, ficam sendo 13 os 12 pipoqueiros. E por aqui me despeço, com uma pergunta: por que Zagallo não assistiu à Copa da tribuna de honra dos estádios, onde era o seu lugar? Filosofia de botequim: tão honrado quanto vencer ou perder lutando é saber parar. Mas não, ele quis nos fazer engolir sua petulância mística até o fim.
Era isso. Em 2010 tem mais.
Mayrant Gallo. Crônica publicada originalmente no Correio da Bahia, 09/07/2006.
Escrito por M. Gallo às 10:28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|

IMAGEM DO VERSO
Data: 08/07/2006 - Hora: 19:00
Local: Av. Sete de Setembro, 500, Porto da Barra, Salvador, BA, Brasil
Recital e bate-papo com a poetisa Lúcia Santóri-Carneiro, capaz de poemas assim:
AZUL
O olho azul do gato
mar que anda pela casa.
Quadro acima: Gato verde (acrílico sobre tela, 81 x 60 cm), do pintor brasileiro Aldemir Martins.
Categoria: Evento
Escrito por M. Gallo às 08:48
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
UM CONTO SOBRE O QUE O FUTEBOL FAZ COM OS INDIVÍDUOS

QUATRO-CINCO-UM
Fui visitar o Bomba, pois sabia que ele não andava bem, que estava doente havia meses, espreitando a morte, que talvez também o recusasse. Levei meu caderno de notas. Pretendia registrar tudo o que ele falasse, se falasse. No início, Bomba fora zagueiro, mas depois passou a atacante. Tinha um chute... Nenhum dos seus ex-companheiros quis ir comigo. É incrível como as relações se acabam... Liguei para o primeiro, o Pedrinho, que me disse, seco:
"Não vou. Por mim ele morre à míngua..."
O Baderna foi ainda mais violento, pegou baixo:
"Ué, ele ainda não morreu, não?"
Churrasco, que de todos era o que tinha motivos mais graves para odiar o Bomba, pois este lhe roubara a mulher, disse que até poderia ir, mas tinha treino. Da geração era o único que ainda continuava em atividade.
Nem cogitei chamar o Zaru ou o Rolinha. Eles fizeram a fama do Bomba, com passes precisos que o deixavam cara a cara com o gol. Mas, a exemplo dos outros, ao fim, trocaram de clube e país e esqueceram o artilheiro. Tarde demais, até. Muitos não agüentariam tanto. Em campo mesmo reagiriam, não lhe passando mais a bola, exceto na fogueira.
Por minha parte, cedo soube que não dava para a bola e então preferi os estudos, mas foi uma satisfação para mim descobrir mais tarde que muitos dos meus amigos de rua e do campinho careca iam chutando canelas mundo afora. Zaru e Rolinha chegaram à Copa do Mundo e brilharam. Talvez por isso, naquele momento, ao ouvirem falar do Bomba e sua doença, conservassem o nariz em pé. Fizeram por onde arrebitá-los, para sempre.
Demorei a achar a rua e ainda mais a casa. Durante o trajeto, parei em dois bares e uma mercearia. Todas as pessoas que abordei, nos três estabelecimentos, se lembravam do Bomba, mas ninguém se sentia à vontade em falar sobre ele. Duas ou três até me viraram as costas, indignadas. Percebi então que a má reputação do atacante ia além das quatro linhas. Um jornal lançara um concurso de histórias de futebol, verídicas ou não, e, como eu próprio convivera com alguns jogadores, decidi participar. E a história do Bomba me pareceu a melhor. Ele era o oposto de todo jogador de futebol da atualidade: famosos, ricos, bem-humorados, a praticar boas ações e arrotá-las na mídia. Bomba era uma bomba e, por muitos anos, se limitou apenas a fazer gols. Muitos. Mas não tantos para chegar a uma Copa do Mundo. Quanto ao pé-de-meia no exterior, esteve por dois anos em Portugal, num timinho de médio porte que atuava fechadinho, saindo nos contra-ataques, mesmo jogando em casa. O típico esquema 4-5-1 dos velhos times ingleses. Por várias vezes Bomba deixou claro que aquilo era burrice. E acabou voltando para casa sem ser artilheiro nem mesmo da segunda divisão. No Brasil continuou sua peregrinação de clube em clube, sempre balançando a rede e fazendo tremer o mundo à sua volta. Parou aos 37 anos, 23 dos quais dedicados ao futebol. O dinheiro que ganhou ao longo da carreira não durou três anos, e agora, aos 41, doente e recluso, só era lembrado como mito negativo, um mau-caráter dos gramados.
Deixei a mercearia acompanhado de um garoto que me garantiu saber onde morava o craque. E que até jogara com ele, um ano atrás, quando Bomba apareceu no campinho e bateu uma pelada com a turma.
"Ele é legal."
"Você achou?", perguntei, surpreso.
"Achei sim."
Era uma excelente notícia, uma voz dissonante. Já se foi o tempo em que o jogador de futebol podia ser ele mesmo. Hoje não passa de uma mistura de ídolo pop-rock com garoto propaganda. Ou segue esse trilho ou descarrilha. E Bomba era realmente isso, um trem solitário abandonado sob a chuva nas linhas de desvio.
"Ele fez gol na pelada?", perguntei, enxugando com um lenço o suor da testa. Embora fosse outono, o sol estava forte, e a rua, mais comprida que qualquer outra que eu jamais percorrera. Meu corpo, já gordo e flácido, pedia sombra, quietude, água.
"Fez sim. Cinco", o garoto riu.
"Mas nunca mais apareceu..."
"Não."
Chegamos a um ponto da rua em que o calçamento dava lugar a um piso de terra negra. Aqui e ali, algumas poças das recentes chuvas refletiam o céu, o sol, nossos corpos, o meu prestes a derrear-se num baque surdo. As casas mudaram, ficaram mais humildes, com cercas de arame e mourão, e portões improvisados com restos de madeira e já aos pedaços. Algumas ainda estavam nos tijolos e jamais veriam reboco. Os varais pesavam cheios de roupas a exalar um odor fresco de sabão em pó. Volta e meia surpreendíamos um vulto a espreitar nas janelas, por trás das cortinas de trapos.
"É aqui!", o garoto disse e parou. Olhei a casa. Pequena, simples, borrada de amarelo, com portas e janelas azuis. Um muro branco e baixo a rodeava, quase como um ornamento, sem nenhum desejo real de proteção. Batemos palmas. A cortina de uma das janelas afastou-se um pouco, e um rosto jovem, de mulher, apareceu só pela metade, um olho solitário a descortinar o mundo. Depois a porta se abriu, e ela apareceu, envolta num xale preto e gasto. Era realmente jovem, mas parecia precocemente envelhecida. Perguntou o que desejávamos. Expliquei que era escritor e queria falar com o craque. Ela baixou a cabeça e em seguida a ergueu para o céu, mordendo o lábio inferior. Mesmo à distância, percebi que revirou os olhos, como se não soubesse o que fazer com eles, e afinal os depositou longe, muito além do fim da rua...
Não queria nos receber. Disse que Bomba não estava e que, mesmo se estivesse, não ia querer falar conosco. E entrou, bateu a porta, sumiu por um tempo. Como não nos afastássemos, reapareceu, ainda mais embrulhada no xale, e nos convidou a entrar. Sem uma palavra sequer, obstinada, nos conduziu ao quintal, nos fundos do terreno. Na extremidade, lá longe, entre algumas plantas abandonadas à sorte das intempéries, uma protuberância no chão foi a sua resposta silenciosa a todas as perguntas que eu ainda não fizera.
"Ele pediu para ser enterrado aqui, e eu mesma me encarreguei da coisa, numa noite de chuva...", ela explicou, devagar, com lágrimas nos olhos.
Nada de cemitérios, ele havia dito. E ali estava, sozinho, à parte, como se isolado no ataque...
Mayrant Gallo. Publicado originalmente no Correio da Bahia, em 2 de julho de 2006.
Escrito por M. Gallo às 16:49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |