AS PUPILAS DE SAFO (6)
NOTURNO (I)
Sei tudo e nada sei,
a esta hora de uma noite deserta.
Como não ser tristeza o sentimento do mundo?
Dessa tristeza sobre a cidade deserta,
faço questão.
Ela é, em sua repetição, a lucidez possível.
RECATO
Alguém transpõe o limiar do estar íntimo.
Onde outros comporiam as roupas,
eu escondo escritos.
ESSENCIAL
De que vale a vida,
se não pudermos ser infinitamente fiéis a nós mesmos?
O dia é esparso.
Há uma criança morta.
Perdi as Obras Completas de Drummond pelas estantes e
não sei mais se é minha esta casa.
No entanto, os poemas não escritos espreitam atrás das portas.
Sorriem para mim pelos olhos de meus filhos.
E sou infinitamente grata pela vida.
JUGO
Obedecer à doce tirania da palavra.
Anular censura, momento, lugar.
Deixar no papel o verso líquido,
esse pálido espelho da alma.
Enquanto deixo-me estar,
impressionada pela cor da palavra
"pálida".
TEMPO 2
Súbito, porém, é setembro.
O tempo pára pelo simples incidir do sol sobre as casas do morro
que vejo pela janela.
O sol ilumina cores, portas e varais.
O puro brilho do sol fazendo tudo o mais irrelevância.
CORTE
Expurgar o medo,
o horror da falta,
o vazio,
o nada além.
E o pegajoso perfume deixado no corredor.
AZUL E DORES
É maio.
E faltam-me
pára-raios.
FRAGMENTOS (II)
Mas é mesmo a morte o que os poetas verdadeiramente
amam.
Ana Cecília de Sousa Bastos. Inquieta, despojada e cotidiana, a poesia de Ana Cecília compõe uma espécie de "diário do humano". Seus versos são ecos do que pensamos e sentimos: uma parte de nós está ali, descobrindo-se noutra parte. Ao fim da leitura, porém, o assombro, matéria primeira de qualquer poesia. Extratos de Uma vaga lembrança do tempo (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1999), volume agraciado com o Prêmio Copene de Cultura e Arte.
Escrito por M. Gallo às 11:10
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