A POESIA DO MUNDO (2)
À HORA DA MORTE
À hora da morte
ele tornou a ver os mansos cães vadios de outrora
que se abstinham
de lhe devolver suas pedradas.
André Verdet (França). Trad. de C. D. de Andrade.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa (Portugal).
POEMA À PÁTRIA
Ó grande país,
tu aderiste também.
Teus urubus são inquietados
nos teus ares altíssimos pelos aviões.
Nos teus céus os anjos já não podem solfejar,
sufocados de fumaça, importunados pelo pessoal do Limbo.
Tu vais ficar irremediavelmente toda América,
irremediavelmente gêmeo,
irremediavelmente comum.
Jorge de Lima (Brasil).
PARA THOMAS BUTTS
(16 de agosto de 1803)
Por que nasci com esta face?
Por que não nasci como todo mundo nasce?
Quando olho se assustam! Ofendo com o que digo!
Então me calo, submisso, e perco cada amigo.
Meus versos desonro. Desprezo meus quadros.
Meu temperamento castigo. A mim me degrado.
A caneta é meu terror. O lápis minha vergonha.
Meus talentos enterro, morre minha fama.
Sou ou pouco prezado ou em excesso.
Se me exalto, me invejam. Manso, me detestam.
William Blake (Grã-Bretanha). Trad. de Regina de Barros Carvalho.
HOMEM SENTADO PERTO DA MINHA JANELA
O tempo na quietude de um jardim invernal
Não significa nada quando você descobre
que observa as estações solitárias;
não significa nada quando você se descobre
seu dedo imprimindo reflexões numa rocha
Gregory Corso (EUA). Trad. de Ciro Barroso.
AS ÁRVORES
Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é só aparente.
Franz Kafka (Tchecoslováquia). Trad. de Modesto Carone.
VIDA PERIGOSA
Hoje sou talvez o homem mais feliz do mundo
Possuo tudo aquilo que não desejo
E da única coisa a que aspiro cada rotação de hélice me aproxima
E decerto já a terei perdido ao chegar.
Blaise Cendras (Suíça). Trad. de R. Magalhães Júnior.
Escrito por M. Gallo às 10:49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|