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CONTRASTES: TÉCNICA LITERÁRIA (1)
Num artigo que escreveu sobre o Floradas na serra, romance de Dinah Silveira de Queiroz, Graciliano Ramos analisa um trecho em que a romancista paulista comete um deslize de estilo:
"Letícia olhou para a fila de pereiras, para a estrada que subia para longe, para lugares escondidos para sempre".
O alvo do ataque do autor alagoano é o uso superestimado da preposição para. E, de fato, o trecho é horrendo, de fazer Gustave Flaubert ter um colapso. Entretanto, vejam que no romance A encenação (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988), do francês Claude Ollier, o uso da mesma preposição é um recurso antes estético que estilístico, pois transfere para a linguagem o próprio ritmo, intenso, da situação representada:
"Para facilitar, deixa o lenço sobre o banco: a mão direita passa do volante para o lenço, depois para a alavanca de mudanças, para o volante de novo, para o lenço, para a testa, para a alavanca, para o lenço, para a nuca, para o volante, também para a buzina, no caso de surgir um burro diante do carro na saída de uma dessas muitas curvas escondidas".
Neste caso, a linguagem reproduz o movimento frenético do motorista às voltas com o lenço e o som que o ritmo de seus gestos lança no espaço (de "p", a explodir a cada transferência da mão de um lugar para outro, e de "r", do tecido a se esfregar nas várias superfícies visitadas), além de demarcar, obviamente, a passagem do tempo. Aspectos poéticos contaminando a prosa, num trecho que é uma obra-prima de estética e estilo.
O excesso de para em Dinah Silveira de Queiroz compreende um defeito, uma limitação, um descuido com a linguagem, enquanto, em Claude Ollier, representa um procedimento artístico, um recurso expressivo, uma escolha estética. E qualquer autor consciente de sua arte não deve incorrer no primeiro, nem tampouco exagerar o segundo.
Escrito por M. Gallo às 11:36
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O LIRISMO DO TRIVIAL
Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?
*
Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
*
Há algo mais triste no mundo
que um trem imóvel na chuva?
*
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
*
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
*
Quando se dita sob a terra
a designação da rosa?
Pablo Neruda (1904-1973). Estes breves epigramas do célebre poeta chileno integram o seu invulgar e precioso Livro das perguntas (Porto Alegre: L&PM, 1980), pouco divulgado, mas de leitura obrigatória para todos os leitores da poesia breve ocidental. São ao todo 74 perguntas, que começam e acabam exatamente com a primeira e a última aqui transcritas.
Escrito por M. Gallo às 09:58
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GUIDO MORSELLI: VISIONÁRIO
"(...) se a imprensa aspira a ser opinião pública, como se proclama, por que continua um monopólio da tribo jornalística, que não passa de uns 150 diretores e redatores no país? Abram ao público! Os jornalistas de ofício se ocupariam do noticiário e dos comentários às notícias, duas tarefas mais que suficientes para justificar sua existência: o resto, o corpo do jornal, seria deixado à colaboração dos leitores, colaboração livre, discorde e fragmentária, sem dúvida, mas o único meio de dar voz à opinião pública autêntica."
"Vocês dizem imprudência quando descrevem os desastres do domingo nas estradas, mas a imprudência não é uma causa, é um meio. O motorista escolhe a imprudência porque escolheu a morte. Porque não quer voltar para casa. Se lhe tirarem o carro, se jogará pela janela."
"Deixem-me morrer, no bem ou no mal devo alcançá-los. Eu não era diferente deles, todos se pareciam comigo. Boçalidade e arrogância incluídas."
"Morrer biologicamente é o aperfeiçoamento de um estado em que já nos encontramos agora."
"A nossa pressa, bem entendido, é patológica: ânsia de queimar a vida."
"(...) a aspiração de possuir materialmente uma coisa ou uma pessoa esconde, generalizando um pouco, nossa intenção de nos livrarmos dela, de passarmos adiante. Aquilo que chegamos a possuir podemos colocar de lado, confiná-lo no passado, no já-feito."
"Não há escatologia que não considere a permanência do homem como essencial à permanência das coisas. Admite-se que as coisas possam ter começado antes, mas não que possam terminar depois de nós."
"E a sociedade, no fim das contas, era simplesmente um mau hábito."
Guido Morselli (1912-1974). Romancista e ensaísta italiano. Os cáusticos trechos acima foram extraídos de seu romance Dissipatio H. G., publicado na Itália em 1977 e no Brasil em 2001, pela Ateliê, com tradução de Maurício Santana Dias. Pelo que está ali, já temos a corda, só falta a árvore...
Escrito por M. Gallo às 16:23
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AS PUPILAS DE SAFO (5)
PRIMEIRA CASA
Nasci com duas ou três casas,
sem morada certa,
e em dias de chuva
minha mãe me exibia aos olhares do mundo.
Sozinha, minha mãe vivia à espera,
algo que nunca veio,
sempre de cabeça baixa,
por isso não me viu fugir.
Contam que ela chorou muito,
quando deu pelos rastros,
tudo o que restou entre ela e mim.
AUSÊNCIA
Revejo a velha ladeira,
estou no bonde.
Meninas-brincadeiras,
uma criança que se esconde.
Aceno, quero falar,
mas já estou longe.
Dizem que lá
ainda está a menina,
até hoje.
A menina que não houve.
JOSÉ VISCO, 47
Fascinam as poças d’água da minha rua:
espelhos.
A menina é crescida, vejo.
A ladeira dividiu minha vida em duas:
lá em cima, eu, a que sempre está,
lá em baixo, eu, a que partiu.
ENTREGA
Poucos prazeres são confiáveis,
conheço dois: os da carne e os da escrita.
Nem o livro nem o amante propriamente:
a grafia do sangue sobre a pele.
Sedução que vem da tinta,
meus amantes e suas letras,
o que eles escreveram em mim
e o que eu escrevi neles:
tudo é cinza.
A cor é o deus da carne.
CASAMENTO
No céu um convite,
em luz e azul,
escrito em nuvens.
A CASA
A casa e sua leveza bêbada
de torneira antiga
jorrando sobre o assoalho.
A casa onde se guarda
todas as lembranças,
memórias como mentiras de criança,
verdades sem limite.
A casa e a reconstrução do súbito.
Eu estava à espera daquilo,
aquele som de respiração
e suspiro, que só as casas têm.
AS CASAS ONDE EU MOREI
Talvez seja só isso,
entrar e sair de casas,
partir e ficar de acasos,
desassombradas mãos vazias.
Caminhar até o fim, entre moradas e fugas.
Vanessa Buffone (Rio de Janeiro, 1976). Poetisa já conhecida da coletânea coletiva Os outros poemas de que falei (Salvador: EPP, 2004), ganhou o prêmio Braskem do ano seguinte com o livro As casas onde eu morei (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2005), uma autêntica recolha poética do que deixamos para trás (e levamos conosco, por toda a vida), nas casas onde moramos.
Escrito por M. Gallo às 16:00
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