A POESIA DO MUNDO (1)
A PONTE
Parado à margem do rio
Amplo e veloz
Não acreditei
Que pudesse cruzar aquela ponte
Trançada de caniços finos frágeis
Amarrada com fibras.
Caminhei leve como borboleta
Pesado como paquiderme
Caminhei ágil como dançarino
Inseguro como um cego.
Não acreditei que pudesse cruzar aquela ponte
E parado agora sobre a outra margem
Não creio que a tenha cruzado.
Leopold Staff (Polônia). Traduzido por Aleksandar Jovanovich.
Não sou Ninguém. Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem atrapalhar.
Que triste – ser – Alguém!
Que pública – a Fama!
Dizer seu nome – como a Rã –
Para as palmas da Lama.
Emily Dickinson (EUA). Traduzido por Augusto de Campos.
CANÇÃO DE EXÍLIO FACILITADA
lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...
cá?
bah!
José Paulo Paes (Brasil). Do livro Um por todos (Brasiliense, 1986).
DANÇA DE MORTE
Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.
Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.
Aleksandr Blok (Rússia). Traduzido por Augusto de Campos.
O LIVRO DA EXISTÊNCIA
O livro da existência é o livro soberano
Que não se pode, ao léu, abrir, fechar de novo;
O trecho mais feliz não se lê duas vezes,
E a página fatal é virada sozinha;
Seria bom voltar à folha em que se amou
E o dedo está passando a folha em que se morre.
Alphonse de Lamartine (França). Traduzido por Cláudio Veiga.
A RAÇÃO DE ÁGUA
Cada um de nós tem como ração meio jarro de água
Para o banho ou para ferver o chá, conforme o gosto:
Se você quiser lavar o rosto, não terá como preparar o chá:
Se quiser tomar seu chá, não poderá lavar seu rosto.
Ho Chi Minh (China). Traduzido do inglês por autor desconhecido.
AQUEDUTO
Que ele se erga
Um hóspede de pedra
Numa terra inóspita,
A sua fala, a fala da fonte,
Voz da nascente descerrada,
De onde transporta
Seu próprio sustento. A sua graça
Tem de igualar
A força da corrente,
E que o tom
De flauta das águas
Inunde de suaves avisos a pedra da conduta.
Charles Tomlinson (Grã-Bretanha). Traduzido por Gualter Cunha.
Escrito por M. Gallo às 20:20
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