C O N T R A M Ã O


OS MENORES CONTOS DO MUNDO (16) (17) (18)

COMO CHEGOU O ÓCIO

Um Homem para Quem o Tempo Era Dinheiro tomava o café com pressa para não perder o trem e, enquanto comia, lia o jornal que encostara no açucareiro. Na pressa e distração, enfiou um garfo de picles no olho direito e, ao puxá-lo, o olho veio junto. De tanto gastar na compra de lentes que lhe servissem, acabou pobre, e assim o Homem para Quem o Tempo Era Dinheiro passou a ganhar a vida pescando na ponta do cais.

O POLICIAL E O BANDIDO

O Chefe de Polícia, que vira um Policial espancar um Bandido, indignou-se e disse-lhe que não fizesse mais aquilo, sob pena de demissão.

"Não seja tão severo comigo", respondeu o Policial, sorrindo; "bati nele com um cassetete postiço."

"Seja como for", insistiu o Chefe de Polícia, "deve ter doído, embora não tenha machucado. Não volte a fazer isso."

"Mas", disse o Policial, ainda sorrindo, "era um Bandido postiço."

Ao procurar demonstrar sua satisfação, o Chefe de Polícia estendeu a mão direita com tal violência que sua pele abriu-se no cotovelo e pelo rasgão escapou um monte de serragem. Era um Chefe de Polícia postiço.

O MALFEITOR DESCONTENTE

O Juiz, condenando o Malfeitor à prisão, prosseguiu doutrinando-o sobre as desvantagens do crime e as vantagens da regeneração.

"Excelência", disse o Malfeitor, interrompendo-o, "poderia alterar minha pena simplesmente para dez anos de prisão?"

"Por quê?", disse o Juiz, surpreso. "Só lhe dei três anos!"

"Sim, eu sei", concordou o Malfeitor, "três anos de cadeia e o sermão. Por favor, gostaria que a Excelência comutasse o sermão."

Ambrose Bierce (1842-1913). Contista e jornalista norte-americano, conhecido pelo epíteto Bitter (amargo) Bierce. Lutou na Guerra da Secessão, entre 1861 e 1865, e acabou desaparecido em outra guerra, no México, em 1913, como colaborador do revolucionário Pancho Villa. Seus minicontos, verdadeiras obras-primas do gênero, foram enfeixados no volume Fábulas fantásticas. Tradução de Jorge Arnaldo Fortes, com atualizações.

 

 



Escrito por M. Gallo às 09:51
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A POESIA DO MUNDO (1)

A PONTE

 

Parado à margem do rio

Amplo e veloz

Não acreditei

Que pudesse cruzar aquela ponte

Trançada de caniços finos frágeis

Amarrada com fibras.

Caminhei leve como borboleta

Pesado como paquiderme

Caminhei ágil como dançarino

Inseguro como um cego.

Não acreditei que pudesse cruzar aquela ponte

E parado agora sobre a outra margem

Não creio que a tenha cruzado.

 

Leopold Staff (Polônia). Traduzido por Aleksandar Jovanovich.

 

 

Não sou Ninguém. Quem é você?

Ninguém – Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem atrapalhar.

 

Que triste – ser – Alguém!

Que pública – a Fama!

Dizer seu nome – como a Rã –

Para as palmas da Lama.

 

Emily Dickinson (EUA). Traduzido por Augusto de Campos.

 

 

CANÇÃO DE EXÍLIO FACILITADA

 

lá?

ah!

 

sabiá...

papá...

maná...

sofá...

sinhá...

 

cá?

bah!

 

José Paulo Paes (Brasil). Do livro Um por todos (Brasiliense, 1986).

 

 

DANÇA DE MORTE

 

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.

Uma luz estúpida e baça.

Ainda que vivas outra vida,

Tudo é igual. Não há saída.

 

Morres – e tudo recomeça,

E se repete a mesma peça:

Noite – rugas de gelo no canal.

Farmácia. Rua. Fanal.

 

Aleksandr Blok (Rússia). Traduzido por Augusto de Campos.

 

 

O LIVRO DA EXISTÊNCIA

 

O livro da existência é o livro soberano

Que não se pode, ao léu, abrir, fechar de novo;

O trecho mais feliz não se lê duas vezes,

E a página fatal é virada sozinha;

Seria bom voltar à folha em que se amou

E o dedo está passando a folha em que se morre.

 

Alphonse de Lamartine (França). Traduzido por Cláudio Veiga.

 

 

A RAÇÃO DE ÁGUA

 

Cada um de nós tem como ração meio jarro de água

Para o banho ou para ferver o chá, conforme o gosto:

Se você quiser lavar o rosto, não terá como preparar o chá:

Se quiser tomar seu chá, não poderá lavar seu rosto.

 

Ho Chi Minh (China). Traduzido do inglês por autor desconhecido.

 

 

AQUEDUTO

 

Que ele se erga

Um hóspede de pedra

Numa terra inóspita,

A sua fala, a fala da fonte,

Voz da nascente descerrada,

De onde transporta

Seu próprio sustento. A sua graça

Tem de igualar

A força da corrente,

E que o tom

De flauta das águas

Inunde de suaves avisos a pedra da conduta.

 

Charles Tomlinson (Grã-Bretanha). Traduzido por Gualter Cunha.



Escrito por M. Gallo às 20:20
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AS PUPILAS DE SAFO (4)

O HOMEM, AS GAVETAS E O SILÊNCIO

 

O realejo está quebrado

e morto, o velho cego

que o manejava sem pressa.

Tudo é mudez e sono. A porcelana

em pedaços

e o irremediavelmente

derramado.

 

 

VERSOS SEM SAÍDA

 

A tarde debruçada sobre mim.

Inútil: não busco mais claridade.

 

A mesa posta,

a tarde alta,

nenhuma pista. Sigo calado

entre os móveis

 

Todas as chaves, perdidas...

 

 

ANTIGO

 

Nenhum desejo

me dilacera a carne

e pouco me apego

à direção dos ventos.

Sou um homem e navego.

Há séculos me ensinaram

que viver não é preciso.

Mas sou um homem. E vivo.

 

 

AS ESTÁTUAS DE JÚLIO

 

Pés céleres cavam o tempo.

 

A vida os alcança

em círculos.

 

Anne Cerqueira é de Feira de Santana. Arredia, publica pouco, embora tenha poemas espalhados por muitos livros e revistas. Seu lirismo tocante pode ser conferido no singelo livrinho A água implícita (Feira de Santana, MAC, 2000) e em A poesia baiana no século XX (Salvador/Rio de Janeiro: Funceb/Imago, 1999), organizado por Assis Brasil.



Escrito por M. Gallo às 08:44
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