C O N T R A M Ã O


AS PUPILAS DE SAFO (3)

AMOR

 

Não existes, mas sinto teu sopro

no meu rosto, como o vento

 

e penso os sonhos do mundo

e canto as valsas do tempo

 

Não existes. Como miragem

desapareces quando te chamo

 

Mas sinto teu hálito quente

perdido, nesse abandono

 

 

MÃE

 

Depois dessas infâncias

meus cabelos não mudaram

 

e cansa penteá-los

nessas tardes quentes

 

Só tuas mãos poderiam

atravessá-los como antes

 

Só tuas mãos saberiam

destrançá-los, de repente

 

 

PERDIDO

 

O que há de triste é não poder tocar-te

No crepúsculo, às seis e meia da tarde,

Quando debruço meu olhar para ti

E nada vejo, senão saudades.

 

O que há mesmo de triste é tu mesmo

Distante de todos os meus dedos,

De cada parte de meu cabelo

E de cada segredo de meu vestido.

 

Mas o que há mesmo de mais triste

É esse cheiro de rosas no travesseiro,

Tua ausência dilatada em meus seios

E este poema, totalmente perdido.

 

 

VIGÍLIA

 

Tocar-te. E às sombras do som

de meus dedos em teu corpo

permanecer.

 

Tocar-te inteiro. Tuas mãos

frias no inverno, teus cabelos

adornados de silêncios,

 

e até teu espelho.

 

 

SILÊNCIOS

 

O que tua distância impõe

à minha mais doce ternura

são os silêncios da infância

 

Silêncios enormes e escuros

da menina olhando o mundo

pelas tranças do cabelo.

 

Silêncios tristes, sucessivos,

saindo, vindo em desterro

ao mais antigo desejo.

 

Silêncios perversos, envoltos

nessa dor que só os mortos

silenciam, em segredo.

 

Ângela Vilma (Andaraí, BA, 1967) é poetisa e contista. Integrou o Concerto Lírico a Quinze Vozes (2005), com os mais recentes poetas baianos. Entre outros livros, publicou Ela, João e o terno (1998) e A tessitura humana da palavra: Herberto Sales contista (2004). Ler a poesia de A. V. é uma experiência única, pelo que encerra de humano, estético e sensível.



Escrito por M. Gallo às 08:37
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CENTENÁRIO DE MÁRIO QUINTANA

O POETA E A SEREIA

 

Sereiazinha do rio Ibira...

Feiosa,

Até sardas tem.

Cantar não sabe:

Olha e me quer bem.

Seus ombros têm frio.

Embalo-a nos joelhos,

Ensino-lhe catecismo

E conto histórias que inventei especialmente para o seu espanto.

 

Um dia ela voltou para o seu elemento!

 

Sereiazinha,

Eu é que sinto frio agora...

 

 

GUERRA

 

Os aviões abatidos

são cruzes caindo do céu.

 

 

QUEM SERÍAMOS?

 

Veio um instante, partiu de novo,

Leve, sem nome...

Para que nomes? Era azul e voava...

No véu das horas punha o seu motivo.

Partiu. E nem

Ficou sabendo

Como eu acaso me chamava.

 

 

UM VÔO DE ANDORINHA

 

Um vôo de andorinha

Deixa no ar o risco de um frêmito...

Que é isto, coração?! Fica aí, quietinho:

Chegou a idade de dormir!

Mas

Quem é que pode parar os caminhos?

E os rios cantando e correndo?

E as folhas ao vento? E os ninhos...

E a poesia...

A poesia como um seio nascendo...

 

 

FRAGMENTO DE ODE

 

Camões,

Seu nome retorcido como um búzio!

Nele sopra Netuno...

 

Mário Quintana nasceu em 1906, em Alegrete, RS. Poemas extraídos de Apontamentos de história sobrenatural (1976), um de seus melhores livros.



Escrito por M. Gallo às 21:23
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