 |
|
|
OS MENORES CONTOS DO MUNDO (13) (14) (15)
SNAP
Algo instintivo, intestinal, me levou a empunhar esta arma, agora apontada para a sua cabeça. Você tem filhos, sim, eu nunca os tive. Explosão seca de metal incandescente.
Patrick Brock. Jovem contista baiano. Publicou Velhas fezes e Textorama, ambos pelas Edições K, em 2004.
O PRÍNCIPE
Quando o príncipe nasceu, fez-se uma grande festa nacional. Bailes, fogos de artifício, dobres de sinos, salvas de canhão...
Com tanto barulho, o recém-nascido morreu.
Enrique Anderson Imbert (1910-2000). Contista e crítico argentino, sem livros publicados no Brasil. Tradutor desconhecido.
A mim, ninguém, e esse menos ainda, me faz de otário, senhor. Claro que agora já não fará a ninguém...
Max Aub (1903-1972). Escritor espanhol exilado no México em 1942, onde viveu até morrer. Boa parte do seu humor corrosivo encontra-se em Crimes exemplares (São Paulo: Amauta, 2003). Trad. de Vanderley Mendonça.
Escrito por M. Gallo às 09:18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
NA CONTRAMÃO DOS DOGMAS DOS RAMEIROS
"Os espíritos vulgares, rameiros, não conseguem distinguir-se, e como não podem suportar que outros se distingam, querem lhes impor o uniforme do dogma, que é um traje camuflado, para que não se distingam. Não tenha dúvida que a inveja está na origem de toda ortodoxia, tanto na religião como na arte. (...) isso a que chamam de idéias perigosas, atrevidas, ímpias são apenas aquelas que não ocorrem aos pobres de talento, aos corriqueiros, aos que não têm nem um pingo de senso próprio nem de originalidade e só senso comum e vulgaridade. O que eles mais odeiam é a imaginação, exatamente porque não têm nenhuma."
Miguel de Unamuno (1864-1936). Na segunda edição do romance Abel Sánchez, 1928, lançado no Brasil em 2004 pela Record. No campo da ficção Unamuno escreveu mais dois livros originalíssimos: Névoa (1914) e São Manuel Bueno, mártir (1933), este a história hilariante de um padre sem fé. A tradução é de Luís Carlos Cabral e Eric Nepomuceno.
Escrito por M. Gallo às 18:12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
PROSAS NOMINAIS
1
Albert Camus. O sol por si.
2
Edgar Allan Poeta.
3
Ettore Majorana. Físico. E fisicamente desaparecido.
4
Fernando Pessoa. Alguém-ninguém que soa eu das pessoas.
5
Franz Kafka. Um certo inseto atirador de facas.
6
Guimarães Rosa ainda a terceira margem enigma.
7
James Ulisses Joyce. Um coice de ésses na humanidade.
8
Jorge Luis Borges. O eu que se escreveu nós.
9
Julio Cortázar. Tal um corte de asas.
10
Macedônio Fernandez. Desejo de nudez que nenhuma palavra expresse.
11
Omar Kháyyám. O Yrám antigo.
12
Oswald de Andrade. Talvez de verdade, talvez personagem.
13
Raymond Carver. Contos cavados em mínimo algo.
14
Robert Musil. Um livro reescrito dez, onze vezes, em vez de lido.
15
Umberto Saba. Dele ninguém sabe nada.
Mayrant Gallo. De um volume de poemas inéditos e ainda sem título, cuja principal característica é a experimentação, transitando entre a poesia e a prosa.
Escrito por M. Gallo às 10:33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
SUÍTE DOS DESAPARECIDOS
1
Um homem volta
Do trabalho para casa
Mas a casa está vazia.
Nem mulher nem móveis nem filhos.
Um enorme bicho de pelúcia
Esquecido.
2
Nunca se sabe a partir de que ponto
As coisas vão mal.
Mas pais, parentes e amigos
Se surpreendem
Quando uma garota
Desce as escadas e nunca mais retorna.
Nunca.
Nem mesmo para a dúvida
Numa gaveta fria.
3
A mãe não comparece
À saída da escola
Para apanhar a criança.
E as professoras não ligam.
Nem a vida, que vai e vem, livre.
O que não produz um atraso no trânsito...
Carícias jamais repetidas.
Lembranças.
4
A mãe a olhar eternamente
Uma porta, à espera do filho.
Mas a maçaneta não se move,
Nem a chave se torce.
Nenhum ruído.
5
Mil desaparecimentos
Diariamente
No mundo.
Mil vultos.
Vai agora um menino
Desaparecendo,
Enquanto sua mãe morrendo,
Seu pai fodendo.
Mayrant Gallo. De um volume de poemas inéditos e ainda sem título. No gênero, publicou Dia sim e sempre (2000) e Recordações de andar exausto (2005).
Escrito por M. Gallo às 18:33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
"Ultrapassar o alvo é tão ruim quanto não atingi-lo."
Autor: Confúcio (551-479 a. C.)
Buscar na Web "Confúcio"
Portanto, para que viver correndo?
Categoria: Citação
Escrito por M. Gallo às 09:41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
AS PUPILAS DE SAFO (2)
A PIPA
Verde e vermelha
a pipa dança no azul do céu.
Veloz ela roda
faz que cai mas levanta
faz que corta mas não corta
levando pro alto a criança.
INSTANTE
Um burro debaixo de uma árvore.
Um menino chorando, outro menino sonhando.
Uma mãe pra cima e pra baixo e um homem na cama.
A terra
O tempo
A vida escorrendo.
PAPO DE PASSARINHO
Na manhã azul,
um pássaro
entoa:
Venha aqui!
Venha aqui!
Ao longe,
outro responde:
Não vou não!
Não vou não!
AZUL
O olho azul do gato
mar que anda pela casa.
OUTONO
Melancólicas,
as árvores fitam suas folhas no chão!
Lúcia Santóri-Carneiro. Poetisa arredia e pouco divulgada. Seus poemas, breves, têm sabor de infância e de tempo que escorre. Impressionista, arranca seus temas e tons da vida. Seu livro, As voltas do tempo, está no prelo.
Escrito por M. Gallo às 21:39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
4 MINICONTOS DO ESCRIBA DO CONTRAMÃO:
SORTE E AZAR
O convite. A recusa. O desastre. Flores sobre a lápide.
CONTO DA REALIDADE IMUTÁVEL
Domingo de cartas, naipes, trunfos e coringas. Infinitas possibilidades táticas e matemáticas. Mais tarde, na cama, os jogadores continuam a jogar – em sonho. Uma dupla a perder, outra a ganhar.
DESASTRE NA GARE
Vi o trem vindo. Passou direto, sem ruído. Qual o morto? Qual o vivo?
OS FUNERAIS
Foi somente quando se deu conta de que não podia mais ser pai e já não era mais filho que ele foi feliz.
Mayrant Gallo. Contista e poeta. Publicou Pés quentes nas noites frias (1999), O inédito de Kafka (CosacNaify, 2003), Dizer adeus (Edições K, 2005). Publica semanalmente, aos domingos, crônicas, ensaios e contos no caderno Repórter, do Correio da Bahia.
Escrito por M. Gallo às 23:09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|
 |
| [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |