C O N T R A M Ã O


"Morrer é recusar definitivamente toda a compreensão por parte dos outros. Ninguém pode mais entender os atos de um morto; ninguém nunca mais pode se pôr em posição de desculpá-los."

Autor: Yasunari Kawabata (1899-1972)

Buscar na Web "Yasunari Kawabata (1899-1972)"

Quando: Em 1952.

No romance Nuvens de pássaros brancos (Sembazuru), publicado em 1952 e traduzido por aqui em 1968 para a Nova Fronteira por Paulo Hecker Filho, que, na introdução, resume assim o estilo do célebre escritor japonês: "O leitor é arrastado. Especialmente por ser ele um artista tão fino que, mal acaba de propor seus símbolos, omite aquelas explicações que, se os justificariam, os tornariam óbvios, sem essa ambigüidade de que a poesia costuma tirar sua maior força". Conhecido por centrar suas narrativas em personagens femininas, Kawabata teve alguns de seus principais romances traduzidos no Brasil: O país das neves (Estação Liberdade, 2004), Kyoto (Abril Cultural, 1985), Beleza e tristeza (Globo, 1988) e A casa das belas adormecidas (Estação Liberdade, 2004). Sua novela A pequena dançarina de Izu, um marco da narrativa moderna japonesa, foi publicada na antologia Contos japoneses, organizada por Antônio Nojiri e Kikuo Furuno. Noutra antologia, Árvores irmãs (Clube do Livro, 1958), de José Yamashiro e N. Coelho, foi publicado o conto A mancha. Kawabata se suicidou com gás de cozinha em 1972.



Categoria: Citação
Escrito por M. Gallo às 22:00
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (11) (12)

A CRIANÇA POBRE

Era uma vez uma criança pobre que não tinha pai nem mãe. Tudo estava morto, e não havia mais ninguém no mundo. Estava tudo morto. E a criança andou e procurou dia e noite. Como não havia mais ninguém na Terra, quis ir para o céu, a lua tinha um olhar tão amável. Quando finalmente chegou na lua, viu que não passava de um pedaço de madeira podre. Então foi para o sol. E quando chegou no sol, viu que era um girassol murcho. E quando chegou nas estrelas, viu que eram mosquitos dourados que estavam espetados como se espetam vagalumes nos pinheiros. E quando quis voltar para a Terra, a Terra era uma panela emborcada. A criança estava só. Então, sentou-se e chorou. E até hoje está ali, sentada e completamente só.

GEORG BÜCHNER (1813-1837). Dramaturgo alemão. Este conto é oriundo da fala de um dos personagens de sua peça Woyzeck, muitas vezes encenada no Brasil e publicada pela Ediouro no volume Woyzeck/Leonce e Lena, na coleção Clássicos de Bolso.

 

ENCONTRO EM SAMARRA

A morte disse: "Havia, certa vez, em Bagdá, um negociante que mandou o servo ao mercado, a fim de comprar provisões. Pouco depois, o criado retornou, pálido e trêmulo, balbuciando, muito assustado:

– Patrão, ainda há pouco, quando eu atravessava a praça do mercado, fui abordado por uma mulher, no meio da multidão! Quando voltei para verificar de quem se tratava, vi que era a Morte! Ela me fitou com um gesto ameaçador. Por piedade, patrão, empreste-me seu cavalo para eu fugir desta cidade! Irei para Samarra, onde a Morte não me encontrará!

O negociante cedeu-lhe o cavalo e o servo montou; fincou as esporas nos flancos do animal e partiu a todo galope.

Nessa mesma tarde, o negociante dirigiu-se ao mercado e deparou comigo no meio do povo. Chegou-se a mim e disse:

– Por que motivo ameaçaste meu criado quando o viste hoje de manhã?

– Eu? Eu não o ameacei – respondi. – Foi apenas um gesto de surpresa de minha parte. Fiquei atônita ao vê-lo aqui em Bagdá, pois tenho um encontro com ele, esta noite, em Samarra".

W. SOMERSET MAUGHAM (1974-1965). Romancista, contista e dramaturgo inglês. Este miniconto, de influxo árabe, integra o texto de sua peça Sheppey e foi usado como argumento pelo escritor norte-americano John O’Hara em seu romance Encontro em Samarra, relançado no Brasil recentemente. Entre outros livros, Maugham escreveu O fio da navalha e Histórias dos mares do sul.



Escrito por M. Gallo às 08:44
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (9) (10)

A PEDRINHA DE GUDE

Os dois meninos mergulharam e um deles agarrou uma pedrinha azul que brilhava. Depois de nadarem e boiarem um pouquinho, penetraram na nave. O menino aproximou o ouvido da pedra, como se quisesse ouvi-la, e escutou o rugido de um tigre.

– Ouves o mar? – perguntou o outro.

– Não. O mar se derramou.

Enquanto a grande nave se afastava no espaço, o planeta Terra desaparecia de seu sistema solar.

Estava escondido no pequeno bolso de um garoto oriundo do enorme planeta AGAT.

Jairo Anibal Niño. Contista colombiano nascido em 1941. Miniconto incluso no volume Contos povoados de povo (Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1983), uma seleção dos volumes originais Toda la vida e Puro pueblo. Tradução de Júlio César do Prado Leite.

 

HISTÓRIAS (1)

Um automobilista viajava pela China, há muitos anos. De repente, o carro parou: estava com um buraco no tanque de gasolina, o combustível vazara todo.

Perto, há um povoado e nele um jovenzinho que faz às vezes de mecânico. Examina o carro e diz:

S Não posso consertar o tanque. Mas posso fazer outro rigorosamente igual.

S De acordo S diz o motorista.

O novo tanque no lugar, devidamente abastecido, ele parte. Horas depois, pára. Descobre que a gasolina vazara de novo. O jovem mecânico fizera, como prometera, um tanque rigorosamente igual ao anterior. Inclusive com um buraquinho.

Jean Cocteau (1889-1963). Cineasta, romancista, contista, dramaturgo e pintor francês. Poucos livros seus foram publicados no Brasil, entre os quais o romance Thomas, o impostor (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1987).



Escrito por M. Gallo às 11:27
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"O inferno conhecemos: está em toda parte

e caminha sobre duas pernas."

Autor: Jaroslav Seifert (1901-1986)

Buscar na Web "Jaroslav Seifert (1901-1986)"

Quando: Em algum momento de sua trajetória de poeta.

Versos do poema Vi apenas uma vez, que contrapõe inferno e paraíso, em busca de uma explicação para a aventura humana sobre a Terra. Seifert ganhou o prêmio Nobel de Literatura de 1984. Possuidor de idéias políticas pessoais e firmes, foi expulso do Partido Comunista Tcheco, em 1929, por se recusar a seguir as orientações de Stálin. Três de seus livros: A ponte de pedra (1944), Concerto na ilha (1965) e O cometa Halley (1967). Uma boa amostra da poesia de Seifert em português encontra-se no volume Céu vazio: 63 poetas eslavos, São Paulo, Hucitec, 1996, com organização e tradução de Aleksandar Jovanovic.



Categoria: Citação
Escrito por M. Gallo às 10:11
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