CANTO VIGÉSIMO
O oito de maio deu o que falar,
dia em que o Titanic afundou no mar.
O capitão em sua cabine a noite inteira,
o foguista negro Shine ao lado da caldeira.
Shine está lá embaixo chupando seu gelo
quando a porra da água lhe sobe ao tornozelo.
Capitão, ele diz, estava chupando gelo
quando a porra da água me subiu ao tornozelo.
E o capitão: Shine, meu nego, que bobagem é essa agora?
O que não falta é bomba pra bombear a água pra fora.
Shine desce de novo e fica a olhar pras alturas,
quando a porra da água lhe sobe até a cintura.
Capitão, ele diz, eu estava olhando pras alturas
quando a porra da água me subiu até a cintura.
E o capitão: Shine, meu nego, que bobagem é essa agora?
O que não falta é bomba pra bombear a água pra fora.
Shine desce de novo, roendo um osso,
quando a porra da água lhe sobe até o pescoço.
Capitão, ele diz, eu estava roendo um osso
quando a porra da água me subiu até o pescoço.
E o capitão: Shine, meu nego, que bobagem é essa agora?
O que não falta é bomba pra bombear a água pra fora.
Capitão, ele diz, o senhor fala e eu não pio,
mas sua palavra só não basta, minha vida tá por um fio.
Shine tira a camisa, pula e dá uma braçada,
num segundo já vai longe S que esperar que nada!
O capitão grita: Shine, não me deixe a perigo!
tome toda a minha grana e mais um pouco, negão amigo.
Tire a camisa, capitão, Shine diz, e a grana esqueça S
faça como eu, dê um belo mergulho de cabeça.
No convés, a filha do capitão, naquele afã,
pega e atira longe suas roupas e o sutiã.
Shine, Shine querido, ela grita com sua vozinha,
mãos na xota e, no pescoço, a calcinha.
Shine, Shine querido, não me deixe a perigo!
Tome toda a minha xota e mais um pouco, negão amigo.
Estou sem tempo, diz Shine, mas obrigado de coração,
é que tenho de ir pra casa, ainda falta muito chão.
Shine segue nadando, nada feito sereia,
e encontra no caminho uma bruta duma baleia.
A baleia diz: Shine, você nada que é uma beleza,
mas se te pego, meu nego, adeus S vai ser moleza!
Shine diz: você é a rainha dos mares, eu só um grumete,
mas se quiser me apanhar vai ter de nadar pra cacete.
Em Washington explodiu como uma bomba
a notícia de que o Titanic fora engolido por uma onda.
Shine sentou-se num canto, ouvindo o corre-corre,
mandou descer mais uma, mas já estava num baita porre.
Hans Magnus Enzensberger (1929). Poeta e ensaísta alemão. O poema acima, incluso no volume O naufrágio do Titanic: uma comédia (Companhia das Letras, 2000), é uma adaptação de Deep down in the Jungle, recolhida por Roger D. Abrahams em Negro Narrative Folklore from the Streets of Philadelphia, Chicago: Aldine Publishing Company, 1970. A tradução é de José Marcos M. de Macedo.
Escrito por M. Gallo às 09:26
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