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SEVENTH AVENUE
Compreendo que se adorem as mulheres,
se lhes beije e acaricie a beleza
S pessoal S em outro corpo como o seu.
Pois é seu corpo incrível maravilha
cuja demonstração aturde o ar.
Um corpo de mulher é uma paisagem
que seduz olhar, suspende o ânimo
e dá ânsias de percorrer a quem contempla.
Ondulações suaves. Firmes cumes
em túrgidas colinas levantados.
Azulados arroios quase ocultos
sob a polida pele onde decorrem.
Caminhos e azinhagas atraentes.
Tímidos brejos. E outros cimos ainda
a alcançar, com curvas de delícia
e grutas que as próprias mãos vão cativar.
É grato percorrer seu doce corpo.
Sentir o seu tépido clima. E com os lábios
saborear as sensações que dele emanam.
É lógico que se amem as mulheres.
Estranho é o contrário. Até o vê-las
fazer amor é agradável.
É um céu seu corpo. O céu humano.
Fora eu mulher e lésbica seria.
José María Fonollosa (1922-1991). Poeta espanhol nascido em Barcelona e que viveu também em Havana e Nova Iorque. Fez do urbano sua temática e estética. O poema acima integra o volume Cidade do homem: New York (1990), uma obra-pirma da poesia contemporânea e escrito ao longo de quase 50 anos. A tradução é de Júlio Henriques. Fonte: FONOLOSSA, J. M. Cidade do homem: New York. Lisboa: Antígona, 1993, 128 p.
Escrito por M. Gallo às 09:09
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OCTÓLOGO
1
Não se tornar opaco
nem se deixar opacizar
2
Não pensar
deixar que pensem
os que precisam pensar
3
Não a renúncia
mas o desprendimento
4
Aspirar a tudo
e não querer nada
5
Entre o homem e a mulher
a união
não o ajuntamento
6
Fazer Arte
sem arte
7
Ser o filho
e o pai de si mesmo
Não olvidá-lo
8
Não diminuir
o significado
do que não se compreende.
Giacinto Scelci (1905-1988). O poeta e compositor erudito italiano tinha fixação pelo número oito, que associava ao infinito. Uma de suas mais célebres composições, as Quatro peças para orquestra, pode ser apreciada no volume 13 da coleção Hans Zender Edition, de 1997. A tradução é de Augusto de Campos.
Escrito por M. Gallo às 10:46
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POSSIBILIDADES
Prefiro cinema.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não me prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingênua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados ao países conquistadores.
Prefiro ter objeções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com rabo não cortado.
Prefiro olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do inseto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.
Wislawa Szymborska (1923). Poetisa polonesa premiada em 1996 com o Nobel de Literatura. Escreveu Chamada de Yéti (1957) e O sal (1962). O poema Possibilidades, escrito em 1996, é uma espécie de auto-retrato da autora. De linguagem simples e coloquial, é uma das mais acessíveis vozes da poesia do Leste Europeu. Ela própria define seu estilo como "uma mistura do sublime e da linguagem comum". Seus poemas, no entanto, conduzem o leitor a dolorosas questões da condição humana, como a evidência de sermos muito pouco, ou nada, diante da História. Fonte: História da literatura polonesa, de Henryk Siewierski, Editora UnB, 2000.
Escrito por M. Gallo às 20:02
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PLENO DE VIDA AGORA
Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.
Quando leres isto, eu, que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)
Walt Whitman (1819-1892) dispensa comentários. É um dos inventores da poesia moderna, exatamente com Rimbaud, Mallarmé e Baudelaire, embora a antecipação evidente de Safo, na Grécia antiga. Mais que um poeta, Whitman foi uma literatura, um mundo de sons e ritmos que influenciou, só em português, poetas do quilate de Pessoa, Drummond e Bandeira. Quintana afirma, num de seus poemas, que os poetas são regidos pelo décimo terceiro signo do zodíaco, mas "Não todos... Os legítimos/ espúrios:/ um Rimbaud, um Pöe, um Cruz e Souza..." Um Whitman, acrescentemos. A tradução é de José Agostinho Baptista e está no volume bilíngüe Cálamo, publicado em Lisboa pela Assírio & Alvim, em 1993. Para Linda Bezerra, que sempre lembra (ou esquece) este poema.
Escrito por M. Gallo às 09:50
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"Para que serve um homem? Para que serve a vida?"
Autor: Carlos Barbosa
Buscar na Web "Carlos Barbosa"
Quando: Em 2002.
Em A dama do velho Chico, romance ambientado na região do São Francisco e publicado pela editora Bom Texto, Rio de Janeiro, 2002. A história acompanha a vida da jovem Daura, que involuntariamente seduz seu irmão Missinho, o vaqueiro Agenor e o tio Vilino. Quintana disse que só há duas espécies de livros: "uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". O romance de Carlos Barbosa é do tipo que esgotamos com satisfação. O autor nasceu em 1958, em Oliveira dos Brejinhos, sertão da Bahia, mas passou a infância em Ibotirama, também na Bahia. Nesse momento está por lá, para o Natal e o Ano Novo.
Categoria: Citação
Escrito por M. Gallo às 18:09
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (6) (7) (8)
HISTÓRIA EDIFICANTE
Era uma vez duas pulguinhas que passaram a vida inteira economizando e compraram um cachorro só para elas.
Mário Quintana.
CUENTOS
Um homem deixa cair os óculos. Com grande aflição os recolhe; custaram caro, teme que as lentes se tenham quebrado.
Mas não quebraram. Aliviado, o homem vê no fato uma advertência divina. Dirige-se então a uma ótica, e compra um resistente estojo para óculos.
Mais tarde, precisando ler o jornal, abre o estojo e verifica, surpreso, que os óculos viraram pó. Então compreende que os desígnios da Povidência são insondáveis, e que o milagre não sucedeu antes, mas agora.
Julio Cortázar.
AVENTURAS NO DESERTO
"Quando estive no deserto", contava Nasrudin um dia desses, "botei para correr uma tribo inteira de beduínos horrorosos e sanguinários."
"Como foi que conseguiu?"
"Muito simples: eu corri, e eles correram atrás de mim."
Khawajah Nasr Al-Din.
Escrito por M. Gallo às 23:21
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (3) (4) (5)
WORKS
Uma mulher está sentada sozinha em casa. Sabe que não há mais ninguém no mundo: todos os outros seres morreram.
Batem à porta.
Thomas Bailey Aldrich.
ERRO E FERRO
"Errar é humano", observou o marido.
"E deixar-se ferrar é coisa de cavalos", disse a esposa, ofendida.
Raúl Salinas de Gortari.
BODAS DE OURO
Foi só na volta do cemitério, depois de meio século de vida conjugal, que o viúvo percebeu como se cometia um crime perfeito.
Victor Giudice.
Escrito por M. Gallo às 08:49
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (2)
OS HOMENS FRACOS DO MAR
Depois de percorrer todo o mundo percebi que era em minha terra que residia a verdade. E voltei ao local onde nasci. Ao chegar soube que um homem do mar havia chegado à praia e avisado que nossos irmãos das montanhas preparavam-se para nos invadir. E que eles viriam nos matar, roubar nossas mulheres e queimar nossas casas.
Todos se preparavam para resistir à invasão dos homens das montanhas e eu, como amante da minha terra, auxiliei nos preparativos.
E no local onde nasci não falamos nem fizemos outras coisas que não fossem os preparativos para a luta.
E foi, então, que numa noite, quando estávamos em nossas posições de defesa, vendo as fogueiras dos irmãos que viviam nas montanhas e que iriam nos atacar, fomos invadidos, nossas mulheres roubadas e nossas casas incendiadas, tudo pelos homens vindos do mar.
Oswaldo França Jr. Um dos mais subestimados escritores do Brasil, talvez por seu estilo claro e direto, sem falsas abstrações. Legou-nos algumas obras-primas de inquestionável valor: Jorge, um brasileiro (1967), À procura dos motivos (1982), Aqui e em outros lugares (1980), O homem de macacão (1972). O conto acima foi extraído de As laranjas iguais (1985), seu único livro no gênero.
Escrito por M. Gallo às 08:35
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OS MENORES CONTOS DO MUNDO (1)
STORIES
Num povoado da província de Izumo vivia um camponês tão pobre, que não podia sustentar uma família. Cada vez que sua mulher dava à luz um filho, ele o atirava ao rio.
Seis vezes este sacrifício foi renovado. Mas, então, o camponês melhorou de vida e resolveu que agora sim podia criar um filho. E assim sua mulher deu à luz um menino.
Uma noite (o menino tinha cinco meses) o camponês tomou-o nos braços e saiu a passear pela aldeia. Uma lua imensa brilhava no céu, e o homem disse, como se falasse sozinho:
"Que noite linda! E que bonita é esta luz que olha!"
E, então, da boca do menino saiu uma voz que dizia:
"Ah, pai, da última vez que me afogaste, a noite era tão linda como esta, e do mesmo modo nos mirava a lua".
Lafcadio Hearn (1850-1904), contista nascido na Grécia, filho de mãe grega e pai britânico, e que morou em Dublin, nos EUA e ainda mais tempo no Japão, que utilizou como cenário freqüente de muitos relatos. Obcecado pela síntese, escreveu alguns dos menores contos do mundo.
Escrito por M. Gallo às 18:25
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ESTRANHOS FRUTOS, NA CONTRAMÃO DO MUNDO
INCIDENTE EM BALTIMORE
Uma vez andando em Baltimore
Com o coração cheio, o coração cheio de alegria,
Eu vi um menino baltimoreano
Olhando fixo para mim.
Eu era pequeno, tinha oito anos
E ele era pequeno como eu;
Por isso eu sorri, mas ele pôs a língua
E disse apenas: "Negro".
Eu vi toda a cidade de Baltimore,
Desde maio até dezembro;
Mas de todas as coisas que ali aconteceram
É só do que eu me lembro.
Countee Cullen (1903-1946). O poeta negro norte-americano transferiu para seus poemas a dor que sofreu em vida, filho de uma sociedade que pendurava os negros nas árvores: os "estranhos frutos" cantados melancolicamente por Billie Holiday. Formado em arte pelas universidades de Nova Iorque (1925, bacharel) e Harvard (1926, doutor), publicou entre outros livros Color (1925), Copper sun (1927) e The ballad of the brown girl (1927). A tradução é de Ribeiro Couto.
Escrito por M. Gallo às 22:01
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