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PORTAL SOLARIS

L A N Ç A M E N T O
23 DE AGOSTO DE 2008
SÁBADO, 10 HORAS
PORTAL SOLARIS
Revista de ficção científica organizada por Nelson de Oliveira.
Reúne 10 contistas brasileiros cultores do gênero, entre os quais Carlos Ribeiro e Mayrant Gallo, que autografarão os únicos 20 exemplares disponíveis e falarão sobre a science fiction e suas experiências pessoais como leitores e escritores.
LDM, LIVRARIA MULTICAMPI
Rua Direita da Piedade, 20, Piedade, Salvador, BA
(71) 2101-8000 (reserva de exemplar)
Escrito por Mayrant Gallo às 18:52
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LIVRA-NOS DOS LOBOS
Pixotes, de Arno.
CANTO DOS PASTORES
Pai nosso que estás nos céus,
guarda o teu rebanho para que permaneça inteiro e teu.
Seja salva a tua propriedade
como no céu e assim na terra.
Dá-nos hoje os pastos de amanhã,
traz de volta a extraviada e a ti a ofereceremos
e não permitas as emboscadas
mas livra-nos dos lobos, amém.
ERRI DE LUCA (1950). Escritor italiano. Foi caminhoneiro e mora em Roma, embora tenha nascido em Nápoles. No Brasil, foram publicados apenas dois livros seus: Em nome da mãe (Cia. das Letras, 2007), do qual extraímos o poema acima, e Três cavalos (Berlendis & Vertechia, 2006). A tradução é de Rosa Freire d'Aguiar.
Escrito por Mayrant Gallo às 08:38
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3 POEMAS DE STEFAN GEORGE
Appuntamento a Bahia, HQ de Hugo Pratt.
Sou o Único e sou Dual
Sou o ventre e sou a semente
Sou bainha e sou punhal
Sou a dor e sou o doente
Sou o horizonte e sou o olhar
Sou lança e sou o lançador
Sou o fiel e sou o altar
Sou o fogo e sou o calor
Sou miserável e abastado
Sou o símbolo e sou o indício
Sou sombra e sou iluminado
Sou um fim e sou um início.
A PALAVRA
Maravilha remota ou sonho
Para minha terra disponho
E aguardo até que a velha norna
Leia o nome na fonte morna –
Posso em mãos reter com firmeza
Esta flor de rara beleza...
Guardada com muito cuidado
Como tesouro delicado
Solene é o seu veredito:
›Nada dormita no infinito‹
Escapando de minha mão
E deixando meu pátrio chão...
Assim triste concebo a lavra:
Nada existe sem a palavra.
PRAIAS DO SUL: ENSEADAS
Há muito percorro estas mesmas costas "
De lindas cidades como um colar "
Aqui e ali mesas nupciais postas...
Sou estranho a perambular.
Detenho-me sempre nas mesmas pontes "
Sem sabedoria – só amargura "
Seduzido pelas antigas fontes
Portais circulo na loucura.
Enquanto nos salões dançam casais
Cobertos de ricas jóias e flores:
Sigo a gente mais humilde no cais ..
Tais são na solidão as dores.
STEFAN GEORGE (1868-1933). Poeta simbolista alemão. Alia a um bucolismo ingênito, com referências a cores e formas geográficas, experimentações sintáticas e de pontuação, como as que percebemos nos poemas acima, extraídos de Crepúsculo (São Paulo: Iluminuras, 2000), com tradução de Eduardo de Campos Valadares.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:58
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QUASE UM POEMA
A atriz Jean Seberg, fim pelo suicídio.
Haec est corpus. Este é o corpo.
Jennifer, sua altura era um metro e setenta e cinco, seu peso sessenta e cinco quilos.
Seu estômago continha uma refeição plenamente digerida de ovos mexidos, salmão e pão, e outra refeição parcialmente digerida, de lasanha.
A palidez só estava onde deveria ter estado. Ninguém moveu seu corpo, ninguém a arrumou.
Contragolpe. Em sua mão e braço direitos foram encontradas partículas microscópicas de sangue e tecido. Chamamos isso de contragolpe.
Além disso, sua mão tinha sofrido espasmo cadavérico. Ou rigor mortis espontâneo e temporário. A curva do gatilho e o desenho da coronha ficaram impressos em sua carne. Foi de tanto que você apertou.
Jennifer, você se matou.
Acabou.
Trecho do romance Trem noturno (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), do britânico MARTIN AMIS, nascido em 1949. De estilo límpido, preciso e poético, é um herdeiro à altura de nomes como George Orwell, Graham Greene, Muriel Spark, Elizabeth Taylor e Barbara Pym.
Escrito por Mayrant Gallo às 08:33
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MINICONTO DE PHILIP K. DICK

Blade runner, de Ridley Scott.
A HISTÓRIA QUE ACABA COM TODAS AS HISTÓRIAS, PARA A ANTOLOGIA DANGEROUS VISIONS, DE HARLAN ELLISON
Num mundo destruído por uma guerra nuclear, uma jovem casadoura visita um zoológico futurista e faz amor nas jaulas com várias formas de vida deformadas e não-humanas. Nesta história particular, uma mulher que foi remendada com os corpos defeituosos de várias mulheres tem relações sexuais numa jaula com uma alienígena. Mais tarde, a mulher, com recursos da ciência do futuro, concebe um filho. A criança nasce, e a fêmea da jaula luta pela criança, para decidir quem fica com ela. A jovem humana vence e, imediatamente, devora a criança, cabelos, dentes, dedos dos pés, e tudo mais. Pouco depois de terminar o horrendo banquete, descobre que o filho é Deus.
PHILIP K. DICK (1928-1982) é um dos pilares da science fiction moderna, por sua capacidade de criar a um só tempo mundos estranhos e completamente verossímeis. Sua obra mais difundida é O caçador de andróides, cujo título em inglês é Do androids dream of electric sheep? (Andróides sonham com ovelhas elétricas?) e que inspirou em 1982 o filme Blade runner, de Ridley Scott, hoje um clássico do gênero. Miniconto extraído do volume de contos Monority report, a nova lei (Rio de Janeiro: Record, 2002).
Escrito por Mayrant Gallo às 09:42
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MAIO DE MAIGRET

"Era um glorioso mês de maio, desses que a gente vê apenas duas ou três vezes na vida e que tem o esplendor, o sabor e o perfume de lembranças da infância. Maigret chamou-lhe um maio "coral". Lembrava-lhe, ao mesmo tempo, sua primeira comunhão e sua primeira primavera em Paris, quando tudo parecia novo e maravilhoso.
Na rua, no ônibus, no escritório, acontecia-lhe parar de repente, tocado por um som distante, um sopro de ar tépido, a cor viva de uma blusa de mulher que o levavam de volta à magia perdida de vinte ou trinta anos atrás.
Ainda na véspera, ao saírem para jantar com os Pardon, a sra. Maigret lhe perguntara, enrubescendo confusa:
– Não fico ridícula na minha idade com um vestido assim, estampado de flores?"
Os primeiros parágrafos de Morte na alta sociedade (L&PM-Nova Fronteira, 2004), de GEORGES SIMENON (1903-1989). Relato policial? Sim, mas com estilo, com arte. Não é à toa que Simenon era cultuado por tantos escritores, como Clarice Lispector, François Mauriac, André Gide, Henry Miller e Dashiel Hammett. Sobre ele disse Otto Maria Carpeaux: "Simenon nunca se repete. A força de sua imaginação é prodigiosa. Constrói os romances com segurança magistral". A tradução é de Raul de Sá Barbosa.
Foto: Natalie Portman, em My blueberry nights, de Wong Kar Wai.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:51
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O DILEMA

Cena de 2046, de Wong Kar Wai.
"Quando ele era moço, pensara que o amor tinha algo a ver com compreensão, mas com a idade veio a saber que nenhum ser humano pode compreender o outro. O amor era a vontade de compreender, e, dentro em pouco, graças ao constante malogro, o desejo morria e o amor morria também talvez, ou se transformava nesse afeto penoso, em lealdade, em piedade..."
É de GRAHAM GREENE, em O coração da matéria (Rio de Janeiro: Record, 1966), também traduzido por O cerne da questão. Na trama, Scobie, que ama duas mulheres, vai optar por não trair a nenhuma das duas... A tradução é de Oscar Mendes.
Escrito por Mayrant Gallo às 22:25
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4 POEMAS DE ROBERVAL PEREYR
Os pássaros, de Alfred Hitchcock.
QUARTO APRENDIZADO
Para nada vivo.
Sou apenas mais um, e se não fosse
nenhum seria
o prejuízo.
Nasci por mero acaso
e não me explico. E
por mero acaso
aceito satisfeito a tudo isso.
AO AEDO SEM LIRA
Descemos – fatais – a grande rampa,
há sinais de borrasca
nos pés
e o sol afunda num terno de chumbo.
Enquanto isso Deus desfaz o mundo
no fundo dos olhos da moça morta.
SONDAGEM
As soluções? Não há.
Mas a vida prossegue, eterna.
Por isso há plantas e bichos
e o homem no mundo. E a terra.
Ou então não é nada disso
e não faz sentido algum
esta dor de dente. E essa festa.
SOB AS MONTANHAS
As memórias – ei-las: é o que somos.
Pois o que buscamos é a perfeita forma
de um passado torto:
porque, ontem, fomos tristemente
outros – rudes
aprendizes do que nunca fomos.
ROBERVAL PEREYR (1953). Poeta brasileiro, dos mais importantes da atualidade, por sua poesia de forma apurada, modernidade evidente e assunto de natureza psicológica e metafísica. Toda a sua produção lírica até 2004 foi reunida no volume Amálgama (Salvador: SCT/Funceb, 2004). "A poesia de Roberval Pereyr é densa e delicada, com seu pathos musical inconfundível", sentenciou Marco Lucchesi.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:41
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SÓ UM POEMA...

Blue velvet, de David Lynch.
ELEGIA
Não, não veria o ano de 2020.
O dia 2 do mês 2 de 2020.
A celebração dos pares.
Não veria os grandes aviões, as grandes viagens, a invasão
[dos planetas por nós.
Não veria a morte dos oito grandes países
Nem a súplica por novos heróis.
Não veria outros poemas, não os leria jamais.
E os antigos seriam – se assim fosse – uma pálida lembrança.
Então escreveu:
Cada um de nós está por um triz nos dias,
E a cada manhã descontamos a dívida.
Passa uma mulher, e ela está morta.
Passa um homem, e ele já adoeceu.
Na cama ou na rua matamo-nos...
– O próximo! – gritam do guichê.
E é às pressas – e sós – que estendemos as mãos. MAYRANT GALLO. De um livro menos do que inédito...
Escrito por Mayrant Gallo às 08:55
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O CAMINHO

"Procure ser um homem de valor, em vez de ser um homem de sucesso."
É do versátil ALBERT EINSTEIN, que também afirmou, ainda criança, que o homem só possui um único inimigo: o governo. De acordo.
Escrito por Mayrant Gallo às 22:55
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A QUANTA-LITERATURA

Eu, robô, de Alex Proyas.
"(...) aos poucos, mais e mais literatos e artistas começaram a concordar que, quanto menos ohs tinha uma obra, mais facilmente ela seria vendida e assimilada. E os médicos-psiquiatras, que substituíram os críticos de Sigma 3, confirmaram que (como demonstraram numerosas experiências) do ponto de vista médico era melhor para o organismo não assimilar energia enocional de uma vez só; mas em pequenas porções-quanta. E as obras de baixo oh-padrão satisfaziam inteiramente a estas necessidades.
Assim, em Sigma 3 surgiu a quanta-literatura. Os literatos esforçavam-se em escrever pior, mas em grande quantidade.
A criação de obras densas começou a ser considerada sinal de fraqueza literária e indiferença à saúde dos leitores.
E os que insistiam em não querer aprender a escrever mal, simplesmente paravam de ser lidos. Quem gostaria de minar a própria saúde?
Quase ao mesmo tempo em que aparecia a quanta-literatura, surgiram a quanta-música e a quanta-pintura.
E ninguém se preocupava com o destino da civilização de Sigma 3. Por que se preocupar, se a ciência e a técnica faziam enormes progressos? Parecia que nada lhes era impossível."
Trecho do conto Atenção – Ohs!, do russo VLADLEN BAKHNOV, enfeixado em seu livro Os robniks (São Paulo: Símbolo, 1977). A tradução é de Victor E. Selin.
Escrito por Mayrant Gallo às 17:14
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CIDADES

"Podem publicar estatísticas e contar as populações em centenas de milhares, mas, para cada homem, uma cidade consiste de nada mais que algumas ruas, algumas casas, algumas pessoas. Remova-se isso, e uma cidade já não existe, exceto como uma dolorosa lembrança, como a dor de uma perna amputada que já não está mais lá."
É do escritor inglês GRAHAM GREENE (1904-1991), no romance Nosso homem em Havana, história de um agente secreto que inventa, em termos de ficção e fantasia, suas missões e rede de contatos, que, aos poucos, para o seu assombro, tornam-se realidade.
Foto: a Havana atual, por Nigel Atherton.
Escrito por Mayrant Gallo às 11:48
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AGENTES LITERÁRIOS
Cena de Agentes secretos, de Frédéric Schoendoerffer.
Você é escritor profissional e procura uma editora ou um agente literário? Veja o que os agentes literários costumam responder a uma consulta de um autor. Tire suas próprias conclusões e diga se Kafka não está certo: "Há muita esperança, só não para nós". Sem falar que os agentes literários, de tão escusos, mais parecem agentes secretos. Os mandamentos deles:
1) Escritor brasileiro não vende...
2) Ninguém mais lê romance... Os editores não querem romances.
3) Poesia e conto, nem pensar!
4) Já agencio escritores demais!
5) Quando fechamos contrato com uma editora para publicar autor brasileiro, não tem nenhum adiantamento... Sendo assim...
6) Não, literatura não!
7) Mande seu livro. Cobro 400 reais para ler, mas não garanto nada...
8) Quem determina a qualidade do seu livro é o mercado...
9) Você tem algum livro infantil ou infanto-juvenil? E auto-ajuda, não tem nada aí, não? Se tiver, podemos conversar.
10) Os editores preferem traduções.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:13
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PREGO

Pixotes (Kids), HQ do francês Arno.
Era um rapaz infeliz. Antes fora uma criança inquieta e um garoto astuto. Agora só possuía uma diversão...
"Ma-teus!!"
Ele corre, chega diante da mesa do chefe, pára e espera. O velho, de costas, mexe no cofre. Virando-se, diz: "Desça ao Comércio e deposite estes cheques. Mas vá correndo, faltam só quinze minutos para o banco fechar!"
Ele corre, na rua agora. Deixa o Santo Antônio, passa pelo Carmo, desce o Taboão, uma ladeira suja e que mais parece um cotovelo, quando corta para o Comércio. É inevitável que pense em Quincas Berro d’Água, que ficou ali num daqueles casarões, morto, a receber visitas. Um dos poucos romances que leu, ainda na escola. Mas leu e releu, e até comprou um exemplar, que volta e meia empresta a alguém, a um amigo ou uma namorada, com entusiasmo, prestando-se a fazer elogios, atitude incomum à sua personalidade. Certa vez, um amigo demorou a lhe devolver o livro, e Mateus, cansado de esperar, foi à casa do sujeito buscá-lo. Duas vezes, ambas em vão, pois o outro dizia que não o conseguia achar. Na terceira, invadiu a casa e pegou o sujeito pela gola. O livro logo apareceu, nas mãos de uma garota, que viera do quarto gritando que não fizesse nada com o seu namorado. Mateus arrebatou o livro de suas mãos e se foi. Nunca mais quis rever o sujeito. Se o avistava na rua, mudava de calçada. E por um tempo até pensou em lhe dar uma coça. Chamar dois ou três colegas e, em troca de uma tarde de sábado regada a cerveja, deixar o patife em pedaços. Mas afinal esqueceu, como se esquecem vozes, fisionomias, fatos.
O banco está cheio, e só às 16:30 Mateus é atendido. À saída do banco, resolve perambular um pouco, em troca do esforço, da corrida. O chefe que se dane! Pela ninharia que lhe paga, faz até demais.
Toma sorvete olhando a vitrine de uma papelaria. Não entende aquele seu fascínio por canetas, lápis, cadernos, blocos de anotações, resmas de papel, réguas, fitas adesivas, agendas, grampeadores, catálogos. Quando uma das vendedoras sai da loja e se aproxima, ele vai embora, em direção ao Plano Inclinado. A moça o observa, intrigada.
De volta ao Santo Antônio, entrega os comprovantes bancários ao chefe e desaba numa das cadeiras do saguão. Forja um cansaço que não sente. Nem mesmo está suado. Ainda assim se abana com um classificador, apanhado de sobre a mesa da secretária, e suspira, suspira, com afetação. Mal pode esperar o fim do expediente, quer ir embora antes e, para obter tal regalia junto ao chefe, alega que tem prova aquela noite e que precisa chegar cedo à faculdade, para estudar um pouco, não se debruçar sobre as questões no zero.
A mãe o estranha cedo em casa, numa sexta-feira... Dia em que ele quase sempre chega em casa por volta de duas da manhã... E não raro acompanhado de alguma garota, que antes das seis já partiu, sem dar chance à sua mãe de conhecê-la. Ele não responde à ironia materna e, no quarto que divide com o irmão, desaba sobre a cama e logo adormece, profundamente. Acorda à hora em que a mãe, depois de tomar seus remédios, faz suas orações e se recolhe, apaga-se para o mundo. Charles não está, só chegará no domingo pela manhã, depois de mais uma jornada de três dias seguidos de suor nas furnas, que é como Mateus chama o trabalho do irmão, em Camaçari.
Esta noite vai ter a sua diversão, a única... Toma banho, se veste, se perfuma, separa algum dinheiro, pois quer passar antes no shopping, que fica aberto até as 23 horas, e comer qualquer coisa. A mãe ainda está acordada ou então adormeceu com o abajur aceso. Parado à porta do quarto, ele apenas a contempla por um instante e sai. Com a mão no bolso, acaricia o prego, sua única diversão... Segue pensando em Alila. Que nome! Judeu? Ela dizia que sim, e que o pai o roubara de um filme. Ela lhe deu o fora. Matou com ele, como se diz hoje em dia, em gíria mais ousada e impiedosa. Se não fosse isso, estaria com ela. Claro que estaria. Como sempre quis, com qualquer uma, a pior garota. Sente-se bem com elas. Mas elas não se sentem bem com ele. Duro.
Na rua, pesca do bolso uma caderneta e consulta as páginas. Examina seus locais de ação anteriores, os dois últimos principalmente, e escolhe um bem longe, fora de um possível arco da polícia. Mal contém o êxtase. Tem que se controlar para não correr, sair como um louco, a desviar dos vultos naquela noite escura. Dias atrás, na Contorno, havia lua, e seu ato ganhara um brilho quase divino, uma aura de coisa magnânima, irreal.
Como da última vez agiu nos arredores da Fonte Nova, quando de um jogo da série B do campeonato nacional, segue para o Garcia. No TCA estão levando uma peça de Nelson Rodrigues, em nova montagem depravada que ele não aprova. Mas, assim, o público é melhor, maciço, de elevado nível. Mulheres com seus longos inúteis, homens com suas gravatas pomposas. Talvez o governador com a primeira dama. Meia dúzia de artistas do meio, azedos de inveja.
Quando passa em frente ao teatro, a multidão ainda não entrou de todo. Muitos regateiam, às claras, com os cambistas. Outros apenas tagarelam, em grupos, à espera do derradeiro toque da campainha. Sem pressa, Mateus atravessa a rua e pára diante da banca de revistas. Lê as manchetes dos jornais: as mesmas de ontem e de amanhã... Folheia uma revista de esportes e acaba comprando um livro de bolso, cujo título é Sexta-feira negra, só por causa da coincidência...
Entra na Leovegildo Filgueiras decidido a se exceder. Passa o ponto de ônibus e o portão lateral do teatro, a mão direita roçando o prego. Mais adiante, cruza com dois guardadores de carros, que, sócios e rivais, discutem quem guardou mais veículos... As árvores não tardam, e é naquele ponto, mais escuro e frio, que Mateus vai agir...
Enfim, o primeiro tronco, a mão a deixar o bolso, pronta... O prego vai arranhando, disfarçadamente, as laterais dos carros, um por um, com um ruído bom, excitante, arrebatador, e que o caos em volta não permite a ninguém ouvir, só ele.
MAYRANT GALLO. Conto publicado originalmente na Verbo 21, infelizmente com erros de diagramação e sem menção ao autor.
Escrito por Mayrant Gallo às 18:55
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UM SÓ LEITOR

A bela e gelada Islândia de Halldor Laxness.
"Mais de um autor vivendo em país pequeno se lamenta de não ter à sua disposição uma das grandes línguas do mundo a fim de escrever para todas as nações. Mas isto é uma ilusão. Digo, no que me concerne, que escrevo para o povo menos numeroso do mundo e que estou satisfeito de escrever para um pequeno grupo, porque conheço este povo e me gabo de compreendê-lo até um certo ponto, e o amo. O grupo a que destinamos os nossos livros ou as nossas pinturas pode ser pequeno quanto se queira, não precisa contar mais de uma pessoa fora de ti, porque se tu te interessas por essa única pessoa, se a conheces, se julgas compreendê-la e se a amas, terás com isso dito sim à vida, queres que o mundo continue, e desse amor por uma só pessoa resulta que é um artista que pertence ao mundo inteiro, e então já não há que perguntar se trataste o teu assunto com imagens idealistas ou realistas; pelo simples fato de conheceres, de compreenderes e de amares aqueles a quem a obra é consagrada, terás atingido a artéria mesmo do tempo, onde pulsa a vida, que só insuflará alma à obra de arte."
Sábias palavras de HALLDOR LAXNESS (1902-1998), escritor islandês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1955 e autor do quase onírico A estação atômica (Rio de Janeiro: Opera Mundi, 1970), romance que ironiza com a intenção dos políticos da Islândia de, no pós-segunda-guerra-mundial, "vender" o país aos norte-americanos... A tradução é de Maria Jacinta.
Foto: Anroir.
Escrito por Mayrant Gallo às 15:51
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CONVERSAÇÃO

Cena de Hiroxima, mon amour, de Alain Resnais.
"Hoje, quando se fala com alguém, é difícil se fazer ouvir. Os olhos da pessoa que está em nossa frente parecem, muitas vezes, um buraco negro. Até um cretino entenderia que o cérebro, nos fundos da loja, está trabalhando por conta própria. A maior parte dos neurônios pensa em algo brilhante que o proprietário gostaria de dizer, outros pensam nas coisas que devem fazer, comprar, viver. São conversas no espelho. Mudas como as da locanda de Calvino, sem nem sequer os tarôs. E, nesses desesperados monólogos, cada um termina falando de si. O outro não escuta e, então, definitivamente, fala de si sozinho. Bilhões de eus-bonsai vagam sem meta, cães perdidos sem coleira."
É do italiano WALTER VELTRONI, em Descoberta ao amanhecer (São Paulo: Escrituras, 2007).
Escrito por Mayrant Gallo às 18:15
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SUICÍDIO

Cena de Valentin, filme de Alejandro Agresti.
"Acho que eu morreria mais prontamente por algo em que não acredito do que por aquilo que tenho por verdadeiro... Às vezes acho que a vida artística é um longo e belo suicídio, e não lamento que seja assim."
É de OSCAR WILDE. Mais um autor que vê na vocação de escritor apenas uma condenação.
Escrito por Mayrant Gallo às 12:10
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O ÚTIL E O INÚTIL

Foto de autoria de Nathy Silva.
"(...) o cérebro do homem é originalmente como um pequeno sótão vazio, que temos de abastecer com a mobília que escolhemos. Um tolo pega todo e qualquer traste velho que encontra pelo caminho, de modo que o conhecimento que poderia lhe ser útil fica de fora por falta de espaço ou, na melhor das hipóteses, acaba misturado com uma porção de outras coisas, o que dificulta o seu possível emprego. Mas o trabalhador de talento é muito cuidadoso a respeito do que coloca no seu sótão-cérebro. Só acolhe as ferramentas que podem ajudá-lo a realizar o seu trabalho, mas dessas ferramentas ele tem uma enorme coleção, e tudo disposto na mais perfeita ordem. É um erro pensar que o pequeno quarto tem paredes elásticas e pode se distender em qualquer dimensão. Acredite, chega uma época em que para cada novo conhecimento é preciso esquecer alguma coisa que se conhecia antes. É da maior importância, portanto, não ter fatos inúteis empurrando para fora os úteis."
É de SIR ARTHUR CONAN DOYLE, criador do célebre Sherlock Holmes, em Um estudo em vermelho.
Exemplo de fato inútil: um livro de Paulo Coelho. Ou um leitor de Paulo Coelho...
Fato útil: as cigarras do Corredor da Vitória, Salvador, Bahia, a cantar nas árvores às cinco horas da tarde... e que me permitiram escrever este haicai:
ci ci ci cigarras
mas há quem prefira
cigarros
Ressalva: o fato é útil ou inútil conforme o sujeito, sua maneira de ver o mundo e filtrá-lo.
Escrito por Mayrant Gallo às 09:40
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NORMAL E CULT

Cenas de O exorcista, de William Friedkin.
Um tal Alex, leitor de blogues certamente – e talvez não exista nada pior do que ser um leitor de blogues –, fez o seguinte comentário no texto anterior, aqui no Contramão: "Que chatice esse blog. É só cult". Ora, quem pediu que ele comentasse? Ora, quem pediu que ele lesse? Quem pediu que ele julgasse? Quando não gosto do que leio, fico em silêncio e toco a vida. Por educação ao outro e respeito a mim mesmo.
E vejam o que se tornou cult, para o tal Alex: poemas, crônicas, contos, breves comentários críticos sobre livros e filmes, fotografias artísticas e quadros de grandes pintores... Quando afirmo que hoje a literatura não passa de uma arte exótica, meus amigos escritores acham que estou exagerando. Não, não estou mesmo. Exagerado é o mundo.
Vejamos agora o que não é cult, ou seja, o que é regra, natural, normal, o esperado: exibir-se na internet, arrotar no BBB que se é gay, tramar pela internet o assassinato de um colega de escola, comercializar drogas em sites de relacionamentos, vender pessoas (mulheres e crianças em especial) e também órgãos humanos, e bombas, armas, quadros roubados, fotografias de crianças despidas; suscitar calúnias e boatos maldosos, espezinhar desconhecidos, fazer sofrer psicologicamente pessoas boas e honestas, promover e disseminar princípios racistas, fazer confissões sexuais as mais escabrosas e estúpidas.
Tudo isso é normal e muito "culto", talvez. Menos um poema, uma crônica, um conto, o comentário a um romance, o elogio a um filme... Este é o nosso mundo, amigos! De Alexes e Joões, de Fabianas e Marias, de Marcelos e Giseles. Felizmente já tenho 45 anos!
"Oh, meu Deus... Estou com quarenta e sete anos; se, digamos, chegar até os sessenta, ainda me restam treze. É muito!" (fala do personagem Voinitskii, em Tio Vânia, de Anton Tchekov)
Escrito por Mayrant Gallo às 20:35
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A VIDA NÃO É FILME OU DE COMO ME TORNEI AGNÓSTICO

Quando completei onze anos, minha família – católica menos por convicção que por temor – decidiu que chegara a hora de eu fazer primeira comunhão. Sobretudo minha mãe. Sua insistência no assunto, nos momentos de evidente paroxismo, beirava o desvario. Não era para menos, pois minha avó e minha tia viviam lhe cobrando, por carta, de maneira insistente e alucinada, o dia em que eu provaria o corpo de Cristo... Já meu pai, não. Naturalmente avesso às convenções sociais e religiosas, ele só não me defendeu para evitar conflitos. Naquela época, já não gozava de boa reputação junto à família de minha mãe, que o julgava demasiadamente mundano. A verdade é que ele via na primeira comunhão nada mais nada menos que uma solenidade de velas e velharias... De fato, não passava disso. Percebi-o tão logo me vi diante da professora de catecismo, a madre Angélica.
Ela era de apavorar a mais tranqüila das crianças. Chegara aos 60 anos, tinha pele morena, mas num tom turvo-amarelado, de quem não toma sol nunca, cabelos pretos, escorridos e encharcados de espesso óleo, olhos negros que, vidrados no além, intimidariam o próprio demônio, um incipiente bigode e, arrematando, caricaturalmente, no queixo pontudo, uma peluda verruga. Como se já não bastasse, andava rápido, com as pernas abertas, numa ondulação quase idêntica à de Carlitos. Para imitá-lo faltava pouco: o hábito em farrapos, o chapéu e a bengala. A madre Angélica era, em suma, o completo oposto das freiras do cinema. Cada uma mais bonita, sensível e alegre que a outra. Das que me lembro, as hollywoodianas Julie Andrews, Sally Fields e Meg Tilly, e esta incerta Carol Baker, que, se não existe de fato, tem lugar cativo em minha imaginação – o que não deixa de ser uma forma de existência. Madre Angélica contrariava a todas essas deliciosas freirinhas. E não apenas na aparência, deplorável sem dúvida, mas também nos hábitos, igualmente asquerosos. Sim, pois o pior dos defeitos de madre Angélica só descobri à medida que as aulas avançaram...
Como a decisão de minha mãe só aconteceu no meio do ano, não pude integrar nenhuma das duas turmas de catecismo regulares promovidas anualmente, naquele tempo, pela paróquia de Nossa Senhora Santana, em Itacuruçá, litoral do Rio de Janeiro. A solução encontrada por minha mãe e pelo padre não poderia ser mais desoladora: madre Angélica se encarregaria de ministrar a mim, em sua própria residência – nas proximidades da igreja –, aulas particulares e intensivas. Ocorre que eu estudava pela manhã, e, à tarde, a madre tinha lá seus inadiáveis afazeres, seus compromissos com Deus e com quem mais que fosse... Só nos restava, portanto, o horário do almoço. Mas minha primeira comunhão era urgente – assim pensava minha família –, não podia passar daquele ano, sob pena de que eu me perdesse ou perdesse a fé, e então o acordo foi feito. Durante mais de seis meses, três vezes por semana, eu saía correndo da escola, ia para casa, almoçava às pressas, cegamente, e, de bicicleta, disparava até a casa da madre.
Lá, nos primeiros dias, instalada à varanda, ela me esperava com o livro de preceitos à mão e um ar rabugento. As aulas constituíam uma enfadonha e mal-humorada repetição do que era permitido e proibido a um autêntico católico apostólico romano. Além de algumas grosseiras informações de cunho histórico e filosófico, do tipo: em que cidade Cristo nasceu? como se chamavam os três reis magos? qual a composição da santíssima trindade? o que José era de Maria?
– Amante? – quase balbuciei, certa vez, o que me teria legado um providencial puxão de orelha.
Decorar, decorar. Era o que bastava, e era o que ela esperava de mim, nada mais. E o que eu esperava dela era que se enfastiasse e me mandasse para casa, em definitivo. Só isso. E de preferência acompanhado de um lacônico bilhete, pregado ao colarinho, com essa contundente e derradeira informação: menino sem fé, um agnóstico. Meu pai adoraria, mas minha mãe por certo pensaria em suicídio. Igualmente minha tia e minha avó.
Com o passar do tempo, madre Angélica começou a relaxar. Creio, inclusive, que contribuí e muito para isso, com minhas respostas na ponta da língua e de uma precisão quase matemática, que de início a inquietaram, mas que, logo, a deixaram feliz, orgulhosa, como se aquele resultado proviesse de sua competência e não de minha dedicação, meu esforço em me livrar dela. A certa altura, ela apenas me recebia à varanda, para em seguida me abandonar. Voltava três ou quatro vezes, para tomar-me as lições, ao mesmo tempo que almoçava. Não raro, devorava seu repasto diante de mim, com o prato no colo, salpicando-me, a cada pergunta, com fragmentos de carne, arroz, feijão, peixe, verduras... Cheguei a pensar, um dia, em ir à aula envolto numa capa de chuva... Teria, com isso, evitado muita bronca de minha mãe, que invariavelmente me dizia, esfregando-me na cara a camisa:
– Você tem que aprender a ter modos! Suas camisas vivem cheias de restos de comida! Até seu caderno de catecismo anda emporcalhado. Veja! – e me mostrava o caderno, indignada, volvendo com violência as folhas. Encerrava a repreensão com seu preferido arcaísmo de sujo: – Bodoso!
Eternamente grata à madre Angélica pelo esforço despendido em me catequizar, sempre que alguém a referia, minha mãe exclamava, empregando um adjetivo bem simples, limpo e elogioso:
– Mulher bondosa!
MAYRANT GALLO. Crônica originalmente publicada no Correio da Bahia, em 01/09/2002. Foto: Élodie Bouchez é a jovem freira Sarah, no filme Pacto de silêncio, de Graham Guit.
Escrito por Mayrant Gallo às 20:45
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