C O N T R A M Ã O


MUDANÇA

Ilustração de Pietro Dall'Agnol (Sergio Bonelli Editore).
 
O Contramão mudou de endereço, de nome e de alma...


Escrito por Mayrant Gallo às 17:56
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O FIM E A VOLTA

CICLO

O tempo nos mata,
Tal faca que nos corta.
Já nem tenho nome,
Já nem tenho alma...
 
E não posso voltar atrás,
Não posso tornar a nada:
Mais cedo serei pó,
Mais tarde, água.
 
MAYRANT GALLO. De Recordações de andar exausto (Salvador: Aboio Livre, 2005).
 
Foto: As cinzas de André Café, depositadas por sua irmã nas águas da praia do Solar do Unhão, por Mônica Menezes.


Escrito por Mayrant Gallo às 11:21
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O ADEUS

O último adeus, filme de Fred Schepisi. 
 
CONVITE: Missa em memória de André Café
LOCAL: Igreja de São Pedro, Piedade, Salvador, BA
DATA: 25/10/2008
HORÁRIO: 8 horas, manhã
DEPOIS: Cerimônia de entrega das cinzas do mesmo ao mar, na praia do Solar do Unhão, na mesma cidade, para que ele volte ao elemento de todas as coisas... 

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida
 
Um no entanto se descobriu num gesto largo
                                                                [e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz
                                                          [e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
 
MANUEL BANDEIRA (1886-1968), poeta maior, nos 40 anos de sua morte e neste cotidiano de tantas mortes, próximas e distantes...


Escrito por Mayrant Gallo às 10:38
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IN MEMORIAM

 

O EIXO E O SILÊNCIO

 

Hoje é o dia seguinte à verdade.

E a verdade é a morte.

 

O sol está lá fora

As nuvens prosseguem

Pessoas prosseguem

Passarinhos voam dos fios para os ninhos

E destes para o espaço infinito.

 

Nada de novo ou ímpio.

Momentos apenas, sorrisos, fotos, milagres,

O homem do jornal, o garoto que guarda os carros,

Outro que vende água mineral numa caixa de isopor.

Um cão que late num ponto incógnito da tarde.  

 

Sonhos que passam.

Mitos que morrem. Como tudo.

 

O planeta agora, se saísse do eixo...

Não. Esqueçam.

Uma morte apenas é o suficiente.

É mesmo demais.

 

Desfrutemos o silêncio que ela deixa

E apenas pensemos em quem se foi.

 

MAYRANT GALLO. In memoriam do músico André Café, falecido ontem.



Escrito por Mayrant Gallo às 10:57
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POEMA DE DOMINGO

Wolf creek, de Greg McLean.

O MUNDO CORRE
 
O mundo corre e eu corro.
Não sei o que é o mundo
Nem se estou nele.
Tudo é só um vestígio
A sombra de algo oculto.
Preciso sonhar para me convencer do oposto.
E sonhar é estar sem pernas e sem cabeça.
Ir batendo nas coisas.
Ninguém sonha que se conduz nos sonhos.
Sonhamos que somos esferas, corpos soltos no aço
E é só, ainda que se sofra.
Acordamos para esquecer ou para prolongar o sonho.
Caminho agora na rodovia, e os carros passam.
É como se eu não estivesse ali, mas estou.
Ouço gritos, recebo xingamentos, até uma lata de cerveja quase
                                                                                  [cheia na cabeça.
"Doido!"
Qual a diferença em se caminhar a esmo com os pés
Ou direcionado num carro?
Qual o sentido do sol?
Qual o sentido da terra?
Dos poros cheios de cabelos?
Por que velozes temos mais sentido?
Por que o sentido é ser veloz?
Não, não é.
Estou agora parado e corro do mesmo modo.
Estarei amanhã imóvel e voando de todos os olhos.
 
MAYRANT GALLO. De Os prazeres e os crimes.


Escrito por Mayrant Gallo às 09:05
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O HOMEM

"O que aqui se passou, ou que se vai passar, pouco importa saber em que lugar se passou. Pode ter sido em qualquer lugar, desde que nele viva o homem (e seu semelhante). Na medida em que todos os homens são o mesmo homem, todos os lugares são o mesmo lugar. E afinal o homem está em todos os lugares."

HERBERTO SALES. Romancista, contista e memorialista brasileiro, nascido em Andaraí, BA, em 1917. O trecho acima é o parágrafo de abertura de sua novela Na relva da tua lembrança (Rocco, 1988). Suas principais obras: Cascalho, Além dos marimbus e Dados biográficos do finado Marcelino, que estão entre os melhores romances brasileiros do século XX, apesar da restrita projeção do autor.



Escrito por Mayrant Gallo às 08:18
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RESPOSTA POÉTICA

Foto: Sol negro, de A. Café-Gallo.
 
SE EMILY DICKINSON VIVESSE AQUI
 
Sou sem talento sim.
Mas vivo
E deixo viver
Cães e gatos.
 
Compro eu mesmo
Meus sapatos
E aos livros que leio
Nem guardo.
 
Diferente de você,
Que os lê
Para se exibir.
Não. Para coibir.
 
MAYRANT GALLO. Do inédito Os prazeres e os crimes.


Escrito por Mayrant Gallo às 10:19
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ASCENSÃO E QUEDA

A ascensão.

A queda.

Movimentos naturais do Universo em todas as coisas:

OUTONO
 
As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, nos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.
 
E a Terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
 
Caímos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.
 
E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
 
RAINER MARIA RILKE (1875-1926).
Poeta tcheco de expressão alemã. Poema extraído de Alguns poemas e Cartas a um jovem poeta (Rio de Janeiro: Ediouro, 1997), em tradução de Geir Campos.

Mais Rilke aqui em: 06/03/2006, 08/02/2006 e 07/10/2007.



Escrito por Mayrant Gallo às 12:01
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VAIDADE

Rua Rockfeller, Barris, Salvador, BA, hoje, por volta das 10 horas, depois que levaram a árvore embora...

Atrás desta barraca aí no centro da foto, perto dos orelhões azuis, havia uma árvore, que um tirano de minha rua, o senhor Luís Antunes Nery, mandou cortar, alegando que estava podre, o que a Prefeitura de Salvador fez hoje de manhã, sem que nenhum morador pudesse protestar... Nada de surpreendente, porém, afinal o Homem é a única espécie que mata as outras espécies, e a sua própria, por vaidade. 



Escrito por Mayrant Gallo às 11:42
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DAS DERROTAS

O problema é que o Brasil é o melhor num esporte em que não há melhores. Apenas vencedores circunstanciais.

Foto (Globo.com): Cristiane, depois de EUA 1 X 0 Brasil. Medalha de prata com travo de ferro.



Escrito por Mayrant Gallo às 14:38
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SOLARIANOS FALAM

Guerra dos mundos, de S. Spielberg, a segunda versão para o cinema do romance de H. G. Wells.

"Não há diferença entre realidade, imaginação e sonho. Para o cérebro humano é tudo a mesma coisa. Por isso, não separo minha literatura em rótulos. O que realmente importa é buscar a perfeição, seja na FC, na literatura fantástica, ou na literatura a-vida-como-ela-é. Vivemos um momento especial da literatura nacional, mas instável. Muita publicação, pouca leitura. Muita festa, pouca reflexão. Chega de bossa-nova, a literatura quer delírio! No livro O lobo da estepe', do escritor Hermann Hesse, há um letreiro que chama a atenção do protagonista: SÓ PARA OS RAROS; como também o subtítulo do folheto O tratado do Lobo da Estepe: SÓ PARA LOUCOS. Portal Solaris é isso, uma revista só para os raros... só para loucos. Homero Gomes

"Acho que o melhor da ficção científica – por exemplo, Bradbury, Huxley, Orwell, Dick – vai muito além dos clichês e atinge o patamar da alta literatura. Do mesmo modo, Márcia Denser e Henry Miller fazem muito mais do que literatura erótica, Rubem Fonseca não faz apenas romance policial, nem Edgar Allan Poe escreve terror para assustar criancinhas." Ivan Hegenberg

"Entrei neste mundo viajando pelo espaço sideral, já que, como muitos garotos de minha geração, crescendo nos anos 60 e 70, era de foguetes e espaçonaves que era feita minha imaginação. Com os pés no chão literário, porém, descobri outras possibilidades. Estudei "creative writing", fiz workshop na terra dos romances feitos com receita, escrevi dois deles em inglês, cansei. Hoje a originalidade do meu texto vem desta influência toda, sem dúvida alienígena." Ataíde Tartari

"Na minha opinião, salvo raríssimas exceções a linha principal da nossa literatura não conseguiu apresentar nada de novo, nada de vivo, nos últimos dez anos. Livro após livro as mesmas formas e os mesmos conteúdos têm sido revisitados monotonamente por centenas, milhares de estreantes e veteranos. Acredito que a mistura de gêneros e linguagens é a melhor maneira de melhorar essa situação. A ficção científica, gênero riquíssimo em novos assuntos e instigantes desafios da linguagem, precisa ser descoberta pela linha principal da literatura brasileira. E vice-versa. Penso que o Projeto Portal tem tudo pra ser um passo seguro nessa direção." Luiz Bras

"Muito me encanta aquela literatura inventiva, criativa, poética, que transcende a mera descrição, narração ou exacerbação realista. No entanto, em pauta hoje, no Brasil, estão uma literatura ultra-estilista ou ultra-realista, que se volta ora para si mesma ora para a realidade sobretudo urbana, em sua pretensão ingênua de descrevê-la, entendê-la ou explicá-la. Sendo assim, Portal Solaris, uma vez que se propõe a ser uma revista de Literatura Fantástica e Ficção Científica, é de suma importância para conhecer o que vem sendo feito de diferente e criativo na literatura brasileira contemporânea." Rogers Silva

Vampiros de almas, de Don Siegel, baseado no alegórico The invasion of the body snatches, romance de Jack Finney. Paranóia em plena Guerra Fria.

"O que me parece que vai resultar de mais fundamental nesse ajuntamento de autores de uma mesma tendência estético-literária  num projeto editorial comum é a criação de um novo continente literário no Brasil, Afinal, por não se demonstrar unificado, esse continente ainda não "existia", não ressoava seus contornos, conteúdos abissais, não se auto-gerara, permanecia fragmentado, composto de ilhas loucas sem pontes ou navegações entre elas. Desconectados, seus habitantes, individualizados demais, vivíamos nas ilhas escrevendo sozinhos como náufragos e nem tínhamos garrafas estelares como este Portal Solaris para enviar mensagens pelo mar. Agora, com essa iniciativa do Nelson de Oliveira, podemos até pensar em um manifesto, em uma carta de princípios, alguma coisa que desse fundamento, colagem semântica a esse, de fato, notável acontecimento literário. Acho que, sem querer, pela força demasiada da inércia em  que vivíamos, o pêndulo agora oscilou no sentido do movimento, da ação. Nós, os patinhos feios da literatura brasileira, escritores criadores de todo esse lado da fantasia, do numinoso, da ficção de antevisão, das novas visões e dimensões, dos temas quase impossíveis, da ficção do imagináriio, da ficção científica e também da ficção estética (uma variante da ficção científica que penso ter inventado em 1988), somos uma alternativa ilimitada ao neo-naturalismo limitado que se apoderou da realidade, que grasna e prolifera totalitário-midiático." Carlos Emílio C. Lima

Sinais, roteiro e direção de M. Night Shyamalan. Fé, Deus e ETs.

"Sou um aficionado do conto fantástico, que já fez parcerias geniais com a ficção científica. É o caso do meu autor preferido no gênero, Ray Bradbury, autor de um livro extraordinário: Os frutos dourados do sol. Bradbury vai muito além de meros recursos imaginativos associados a um conhecimento científico. O fantástico, nele, é potencializado pela linguagem poética, pelo domínio da linguagem expressiva. É, portanto, literatura de alta qualidade. E é justamente isto que sinto falta na maior parte da Science Fiction: textos que nasçam de um impulso profundo, como todas as grandes obras artísticas, e não frutos de uma mera engenhosidade. Daí o entusiasmo com o qual recebi a proposta de Nelson de Oliveira de criação dessa revista que tem como proposta justamente isto: unir os recursos da ficção científica com a alta literatura, buscando uma renovação do gênero entre nós." Carlos Ribeiro

"Mais do que entretenimento, sience fiction é reflexão. Permite que, através de um simples deslocamento, possamos refletir sobre o nosso meio e o nosso tempo, exarcebando idéias, sentimentos, sonhos, utopias, medos. Se uma fatia dos leitores, os falsos-realistas, se incomoda é porque é difícil conviver com a ausência de máscaras. A idéia de fim de mundo (uma fixação da ficção científica), por exemplo, não seria ao mesmo tempo pesadelo e alerta? Logo, a FC tem um duplo alcance: nos permite sonhar e nos faz amargar o que somos, seres irresponsáveis." Mayrant Gallo

Revista PORTAL SOLARIS, lançamento em 23 de agosto próximo, às 10 horas, na LDM, Rua Direita da Piedade, 20, Piedade, Salvador, BA. Só 20 exemplares! (71) 2101-8000 (reserva de exemplar).

Cartaz da primeira versão para o cinema de Solaris, o famoso romance do polonês Stanislaw Lem, sob a batuta do russo Andrei Tarkóvski, em 1972.



Escrito por Mayrant Gallo às 18:44
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COMUNISMO

O que os chineses fizeram com a vara de Fabiana Murer? Ora, cortaram em roletinhos e dividiram entre eles. Tudo pelo coletivo. Bem ao gosto do Comunismo.

 

Foto: Globo.com.



Escrito por Mayrant Gallo às 21:21
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PORTAL SOLARIS

L A N Ç A M E N T O

23 DE AGOSTO DE 2008

SÁBADO, 10 HORAS

PORTAL SOLARIS

Revista de ficção científica organizada por Nelson de Oliveira.

Reúne 10 contistas brasileiros cultores do gênero, entre os quais Carlos Ribeiro e Mayrant Gallo, que autografarão os únicos 20 exemplares disponíveis e falarão sobre a science fiction e suas experiências pessoais como leitores e escritores.

LDM, LIVRARIA MULTICAMPI

Rua Direita da Piedade, 20, Piedade, Salvador, BA

(71) 2101-8000 (reserva de exemplar)



Escrito por Mayrant Gallo às 18:52
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LIVRA-NOS DOS LOBOS

Pixotes, de Arno.
 
CANTO DOS PASTORES
 
Pai nosso que estás nos céus,
guarda o teu rebanho para que permaneça inteiro e teu.
Seja salva a tua propriedade
como no céu e assim na terra.
Dá-nos hoje os pastos de amanhã,
traz de volta a extraviada e a ti a ofereceremos
e não permitas as emboscadas
mas livra-nos dos lobos, amém.
 
ERRI DE LUCA (1950). Escritor italiano. Foi caminhoneiro e mora em Roma, embora tenha nascido em Nápoles. No Brasil, foram publicados apenas dois livros seus: Em nome da mãe (Cia. das Letras, 2007), do qual extraímos o poema acima, e Três cavalos (Berlendis & Vertechia, 2006). A tradução é de Rosa Freire d'Aguiar.


Escrito por Mayrant Gallo às 08:38
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3 POEMAS DE STEFAN GEORGE

Appuntamento a Bahia, HQ de Hugo Pratt.  
 
Sou o Único e sou Dual
Sou o ventre e sou a semente
Sou bainha e sou punhal
Sou a dor e sou o doente
Sou o horizonte e sou o olhar
Sou lança e sou o lançador
Sou o fiel e sou o altar
Sou o fogo e sou o calor
Sou miserável e abastado
Sou o símbolo e sou o indício
Sou sombra e sou iluminado
Sou um fim e sou um início.
 
 
A PALAVRA
 
Maravilha remota ou sonho
Para minha terra disponho
 
E aguardo até que a velha norna
Leia o nome na fonte morna –
 
Posso em mãos reter com firmeza
Esta flor de rara beleza...
 
Guardada com muito cuidado
Como tesouro delicado
 
Solene é o seu veredito:
›Nada dormita no infinito‹
 
Escapando de minha mão
E deixando meu pátrio chão...
 
Assim triste concebo a lavra:
Nada existe sem a palavra.
 
 
PRAIAS DO SUL: ENSEADAS
 
Há muito percorro estas mesmas costas "
De lindas cidades como um colar "
Aqui e ali mesas nupciais postas...
Sou estranho a perambular.
 
Detenho-me sempre nas mesmas pontes "
Sem sabedoria – só amargura "
Seduzido pelas antigas fontes
Portais circulo na loucura.
 
Enquanto nos salões dançam casais
Cobertos de ricas jóias e flores:
Sigo a gente mais humilde no cais ..
Tais são na solidão as dores.
 
STEFAN GEORGE (1868-1933). Poeta simbolista alemão. Alia a um bucolismo ingênito, com referências a cores e formas geográficas, experimentações sintáticas e de pontuação, como as que percebemos nos poemas acima, extraídos de Crepúsculo (São Paulo: Iluminuras, 2000), com tradução de Eduardo de Campos Valadares.


Escrito por Mayrant Gallo às 09:58
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QUASE UM POEMA

A atriz Jean Seberg, fim pelo suicídio. 
 
     Haec est corpus. Este é o corpo.
     Jennifer, sua altura era um metro e setenta e cinco, seu peso sessenta e cinco quilos.
     Seu estômago continha uma refeição plenamente digerida de ovos mexidos, salmão e pão, e outra refeição parcialmente digerida, de lasanha.
     A palidez só estava onde deveria ter estado. Ninguém moveu seu corpo, ninguém a arrumou.
     Contragolpe. Em sua mão e braço direitos foram encontradas partículas microscópicas de sangue e tecido. Chamamos isso de contragolpe.
     Além disso, sua mão tinha sofrido espasmo cadavérico. Ou rigor mortis espontâneo e temporário. A curva do gatilho e o desenho da coronha ficaram impressos em sua carne. Foi de tanto que você apertou.
     Jennifer, você se matou.
     Acabou.
 
Trecho do romance Trem noturno (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), do britânico MARTIN AMIS, nascido em 1949. De estilo límpido, preciso e poético, é um herdeiro à altura de nomes como George Orwell, Graham Greene, Muriel Spark, Elizabeth Taylor e Barbara Pym.


Escrito por Mayrant Gallo às 08:33
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MINICONTO DE PHILIP K. DICK

Blade runner, de Ridley Scott.

A HISTÓRIA QUE ACABA COM TODAS AS HISTÓRIAS, PARA A ANTOLOGIA DANGEROUS VISIONS, DE HARLAN ELLISON

Num mundo destruído por uma guerra nuclear, uma jovem casadoura visita um zoológico futurista e faz amor nas jaulas com várias formas de vida deformadas e não-humanas. Nesta história particular, uma mulher que foi remendada com os corpos defeituosos de várias mulheres tem relações sexuais numa jaula com uma alienígena. Mais tarde, a mulher, com recursos da ciência do futuro, concebe um filho. A criança nasce, e a fêmea da jaula luta pela criança, para decidir quem fica com ela. A jovem humana vence e, imediatamente, devora a criança, cabelos, dentes, dedos dos pés, e tudo mais. Pouco depois de terminar o horrendo banquete, descobre que o filho é Deus.

PHILIP K. DICK (1928-1982) é um dos pilares da science fiction moderna, por sua capacidade de criar a um só tempo mundos estranhos e completamente verossímeis. Sua obra mais difundida é O caçador de andróides, cujo título em inglês é Do androids dream of electric sheep? (Andróides sonham com ovelhas elétricas?) e que inspirou em 1982 o filme Blade runner, de Ridley Scott, hoje um clássico do gênero. Miniconto extraído do volume de contos Monority report, a nova lei (Rio de Janeiro: Record, 2002).



Escrito por Mayrant Gallo às 09:42
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MAIO DE MAIGRET

"Era um glorioso mês de maio, desses que a gente vê apenas duas ou três vezes na vida e que tem o esplendor, o sabor e o perfume de lembranças da infância. Maigret chamou-lhe um maio "coral". Lembrava-lhe, ao mesmo tempo, sua primeira comunhão e sua primeira primavera em Paris, quando tudo parecia novo e maravilhoso.

Na rua, no ônibus, no escritório, acontecia-lhe parar de repente, tocado por um som distante, um sopro de ar tépido, a cor viva de uma blusa de mulher que o levavam de volta à magia perdida de vinte ou trinta anos atrás.

Ainda na véspera, ao saírem para jantar com os Pardon, a sra. Maigret lhe perguntara, enrubescendo confusa:

– Não fico ridícula na minha idade com um vestido assim, estampado de flores?"

Os primeiros parágrafos de Morte na alta sociedade (L&PM-Nova Fronteira, 2004), de GEORGES SIMENON (1903-1989). Relato policial? Sim, mas com estilo, com arte. Não é à toa que Simenon era cultuado por tantos escritores, como Clarice Lispector, François Mauriac, André Gide, Henry Miller e Dashiel Hammett. Sobre ele disse Otto Maria Carpeaux: "Simenon nunca se repete. A força de sua imaginação é prodigiosa. Constrói os romances com segurança magistral". A tradução é de Raul de Sá Barbosa.

Foto: Natalie Portman, em My blueberry nights, de Wong Kar Wai.



Escrito por Mayrant Gallo às 18:51
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O DILEMA

Cena de 2046, de Wong Kar Wai.

"Quando ele era moço, pensara que o amor tinha algo a ver com compreensão, mas com a idade veio a saber que nenhum ser humano pode compreender o outro. O amor era a vontade de compreender, e, dentro em pouco, graças ao constante malogro, o desejo morria e o amor morria também talvez, ou se transformava nesse afeto penoso, em lealdade, em piedade..."

É de GRAHAM GREENE, em O coração da matéria (Rio de Janeiro: Record, 1966), também traduzido por O cerne da questão. Na trama, Scobie, que ama duas mulheres, vai optar por não trair a nenhuma das duas... A tradução é de Oscar Mendes.



Escrito por Mayrant Gallo às 22:25
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4 POEMAS DE ROBERVAL PEREYR

Os pássaros, de Alfred Hitchcock.
 
QUARTO APRENDIZADO
 
Para nada vivo.
Sou apenas mais um, e se não fosse
nenhum seria
o prejuízo.
Nasci por mero acaso
e não me explico. E
por mero acaso
aceito satisfeito a tudo isso.
 
 
AO AEDO SEM LIRA
 
Descemos – fatais – a grande rampa,
há sinais de borrasca
nos pés
e o sol afunda num terno de chumbo.
 
Enquanto isso Deus desfaz o mundo
no fundo dos olhos da moça morta.
 
 
SONDAGEM
 
As soluções? Não há.
Mas a vida prossegue, eterna.
Por isso há plantas e bichos
e o homem no mundo. E a terra.
 
Ou então não é nada disso
e não faz sentido algum
esta dor de dente. E essa festa.
 
 
SOB AS MONTANHAS
 
As memórias – ei-las: é o que somos.
Pois o que buscamos é a perfeita forma
de um passado torto:
 
porque, ontem, fomos tristemente
outros – rudes
aprendizes do que nunca fomos.
 
ROBERVAL PEREYR (1953). Poeta brasileiro, dos mais importantes da atualidade, por sua poesia de forma apurada, modernidade evidente e assunto de natureza psicológica e metafísica. Toda a sua produção lírica até 2004 foi reunida no volume Amálgama (Salvador: SCT/Funceb, 2004). "A poesia de Roberval Pereyr é densa e delicada, com seu pathos musical inconfundível", sentenciou Marco Lucchesi.


Escrito por Mayrant Gallo às 11:41
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